Son of Rage
2 Haze Ragnarok: A Noite dos Gatunos
Notas iniciais
"Sonhos são como lembranças pra mim"
Acordo, olhando para o teto. Não lembro do que sonhei. Não lembro do que tinha que fazer hoje. Não lembro do que eu queria fazer hoje. Não lembro que dia é hoje.
Giro o corpo e coloco meus pés no chão frio. Troco de roupa e me preparo para encontrar meus pais no café da manhã. Nunca me dei bem com eles. Ambos queriam que eu fosse muito mais do que eu posso ou quero ser. Eu não tinha vontade própria. Tudo era controlado por outra pessoa. Chego pesarosamente até o lugar onde eles estão. Olho para meu pai, e depois para minha mãe. —Bom dia, senhor. Bom dia, senhora. —Pare de me olhar dessa forma ridícula, garoto — grunhiu meu pai. — Já está pronto para sair? —Não, senhor — respondi, não sem um tom inevitável de irritação em minha voz. — Como pode ver, acabei de acordar. —Muito engraçado. Vista-se e coma, não temos o dia inteiro. Vamos viajar até a casa do seu primo para que você possa começar a treinar com o equipamento de lá. E então finalmente vou poder parar de ter você aqui me atrapalhando por um bom tempo. —Ele está certo quanto à questão do equipamento, filho — disse minha mãe, com aquele sotaque ridículo que “caracteriza” nossa família e com seu ar estúpido de superioridade. — A acessibilidade a esse tipo de coisa é bem maior lá do que neste fim de mundo onde nós vivemos. —E talvez nosso pequeno “herdeiro” aprenda a lutar como homem. — zombou meu pai. Como sempre, aquela conversa já estava começando a me irritar de verdade. Sentei-me à mesa e comi. Quando terminei, fiz um pequeno gesto respeitoso na direção de cada um, peguei minhas adagas e fui ao campo treinar sozinho enquanto ainda podia. Adagas... não é o tipo de arma que uma família de guerreiros importante como a minha usaria. Mas também é o único tipo de arma que realmente parece perfeito para meu estilo de luta. Não interferem na minha movimentação e são muito perigosas se manuseadas corretamente. Provavelmente nada disso importaria para meus pais. Quando me aproximo do campo de treinamento, ouço vozes e passos. Vários passos. Como uma tropa inteira. Olho em volta e percebo uma multidão, e alguns segundos depois, realizo que estou olhando para um exército. Penso em correr para casa e avisar toda a vila sobre o ocorrido, quando algo me paralisa. Percebo o símbolo vermelho na cota dos cavaleiros na linha de frente. Templários. Dou um passo para trás, tremendo de medo. Não conseguia me mexer, me esconder. Estava simplesmente ali parado no meio do campo, paralisado de medo. Correr não adiantaria. Se esconder também não. Eles estavam indo em direção a nossa vila. Esse pensamento me faz arrumar forças pra correr até minha casa e avisar todos. A aproximadamente um quilômetro, quase chegando na vila, a visão que tenho me congela. Eles já haviam chegado. Já haviam destruído tudo em nome de um deus cuja vontade eles acreditavam ser punir todos os hereges, como eles nos chamavam. Desesperado, corro como nunca corri antes, com um sentimento de desespero enorme crescendo em meu peito. Suspiro em alívio ao ver que minha casa está intacta, mas ao entrar na residência, o cheiro extremamente forte de sangue faz minhas pernas fraquejarem. Olho para o chão. Sangue. Olho para as paredes. Sangue. Olho para qualquer lugar, e há sangue. Mesmo sem forças, me levanto e começo a procurar por meus pais, apenas tentando verificar o óbvio. Lá estavam ambos, caídos no chão. Dilacerados. Destruídos. Degolados. Por mais que eu odiasse ambos, isso era demais. Eu não desejaria algo assim para ninguém. E então eu corro. Corro para qualquer lugar. Corro para qualquer refúgio. Qualquer coisa que diminua a dor que estou sentindo agora. Estou ciente da horda se aproximando, mas não me importo. Empunho minhas adagas e luto. Não temo perder. Não temo me machucar. Não temo a morte. Não teria nada a perder, de qualquer forma. Luto como nunca lutei antes, descarregando minha raiva e meus ressentimentos. Cada golpe que recebia parecia me dar mais força para continuar lutando. Antes que eu percebesse, havia começado a chorar. No meio do campo de batalha. Não me importo com o cheiro de sangue, com meus ferimentos graves, com o número incontável de soldados me atacando, nem com a enorme desvantagem numérica e em relação a equipamentos. Os desgraçados haviam arruinado minha vida. Agora eu arruinaria a deles. Uma por uma. Destroçava a linha de frente, despejando minha fúria sobre cada homem que empunhava sua arma diante de mim, incapacitando-os e destruindo tudo o que via pela frente. Meu corpo começava a fraquejar, e mesmo nesse estado de fúria, era obviamente impossível que um garoto como eu, que sempre treinou sozinho, empunhasse duas adagas e vencesse um exército. O cansaço começa a atingir meu corpo. Subitamente desesperado, percebo que, apesar de tudo, quero sobreviver. E mais uma vez, corro. Não sei até onde minhas pernas me levaram, mas desabo no lugar mais próximo e que parece mais seguro. Não me dou ao luxo de desmaiar, pois meus ferimentos são realmente mortais, e não chegaria a acordar. Caminho pesarosamente até algumas ervas que podia reconhecer e as depositei nos ferimentos, amarrando-as com cipós. Depois de estancar e limpar todos os ferimentos mais graves, desmaio, não aguentando tamanho cansaço.
. . . Acordo com o corpo inteiro doendo. Arrumando forças, levanto-me, saio para coletar alguns suprimentos, organizo todos e coloco em minha bolsa de couro. Olho para a colina, na direção da casa de meu primo. Decido que realmente quero treinar lá, me tornar mais forte, digno de respeito. Além de ser a única coisa que me resta, assim eu poderia acabar com a ameaça templária. A brisa bate em meu rosto e, pela primeira vez em todo esse tempo, sinto-me realmente livre.
Notas finais
Espero que gostem do capítulo de hoje.
Escrito por Led.
Próximo Capítulo: Emily Flewirt: Floresta dos Pesadelos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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