Assustado com a mão que sacudia o seu ombro Thiago acordou no quarto do hospital com o final da tarde batendo em sua janela, tinha perdido todos os seus compromissos do dia, sentiu uma agonia dentro de si mesmo sentindo um princípio de culpa por se deixar ser levado pelas emoções assim e cagar para o que estivesse acontecendo ao seu redor. Mas havia aprendido também a aceitar que se ele negasse esses extintos estaria negando uma grande parte de si mesmo, então aqui estava ele. Com um segurança do hospital parado em sua frente pedindo que se retirasse pois haveria um paciente novo ocupando aquele leito logo.

Sobre seu colo repousava um bilhete de Sofia. Com sua grafia curvilínea e pesada agradeceu a preocupação e a velocidade em que Thiago fora ao seu encontro e que havia sido liberada após os exames, mas não quisera acordá-lo porque ele parecia estar sonhando mundos novos e ela precisava ir urgentemente a um dentista. Então deixou o bilhete, um beijo e partiu.

Enquanto caminhava para a saída do hospital Thiago tinha a sensação de estar sendo olhado pelas pessoas como se ir para um hospital para tirar uma soneca fosse algum novo tipo de crime social. Na porta do hospital ele decidira voltar para casa e pensar de uma maneira de cumprir os seus deveres mentais que deveria ter cumprido hoje. A rota não era das mais agradáveis, mas ainda era final de tarde quando saiu e conseguiu ver o pôr do sol da janela de um ônibus em direção ao seu bairro e ao seu esconderijo de tijolos.

Chegando em frente ao seu edifício pôde ver o café ligando a iluminação noturna e se preparando para receber as pessoas que saiam cansadas de seus empregos no final das suas rotinas para outras pessoas. Ascender a iluminação noturna era a última tarefa de Júlia no café antes de ser liberada. Então no instante em que Thiago atingiu as escadas a sua amiga já esperava por ele com dois copos de café e rosquinhas.

— Estava esperando fazer uma surpresa para você, mas eu que fiquei surpresa ao te ver vindo do meio da noite com esse beijo verde na testa. O que aconteceu? – Júlia riu e alcançou o suporte dos copos para Thiago pegar um.

— Beijo quê? – Thiago passou a parte de trás do seu pulso na testa e nele ficou um borrão verde. – Sofia... – Foi só o que disse de uma maneira misteriosa e devolveu o sorriso para Julia pegando um café.

— Quer me contar sobre isso lá em cima?

— Com todo prazer.

Então subiram os dois pelas escadas apertadas do prédio enquanto Thiago contava sobre o seu primeiro encontro do dia e Julia fazia comentários interessantes sobre os tópicos em que ela achava interessante. Chegaram em casa em torno do momento em que Thiago sentara a frente da mulher em sua história narrativa. As chaves penderam na porta e giraram na direção da organizacional bagunça particular que era o viver de Thiago. O cheiro úmido da terra de suas plantas dominava o ar quando as janelas permaneciam fechadas, haviam caixas de papelão espalhadas pelos mais diversos espaços do apartamento, e em qualquer uma delas poderia estar Anúbis, seu gato branco.

Haviam pratos e roupas espalhadas e um ronronar suave da visão que a porta lhes permitia. A luz foi acessa e as janelas abertas para poder se ver o cômodo inteiro e para a tristeza de Anúbis que acordou com a luminosidade nova pronto para miar aos quatro ventos que gostaria de receber mais um pouco da sua ração imediatamente. O jantar foi servido para Anúbis enquanto Thiago terminava de contar sobre sua vendedora/salvadora e não se surpreendeu quando no final Júlia tomou completamente o lado da senhora e disse que faria o mesmo no seu lugar.

Antes de contar sobre Sofia Thiago quis saber do dia de Julia também e ela lhe contara a história de uma mulher que conhecera no café e que estava grávida de seu terceiro filho mesmo estando passando por dificuldades financeiras, no final Júlia acabara por dar alguns conselhos para mulher em troca de alguns conselhos para ela, fizera uma nova amiga, dissera a Thiago. Júlia tinha o dom de tocar as pessoas, de se conectar com elas de uma maneira que Thiago nunca tinha visto antes e achava difícil que veria novamente.

Após terem esclarecido também a história de Sofia e o Beijo Verde decidiram estudar um pouco. Thiago ensinou a Júlia sobre física e Júlia ensinou Thiago sobre biologia. Thiago contou piadas e Júlia fez um lanche na cozinha pequena e apertada do apartamento, que era igual a sua, então não foi tão complicado. Juntos ouviram música e fumaram lembraram do passado tenebroso com uma promessa de um amanhã mais claro. Lavaram a louça que tinha na pia então e foram terminar de estudar no quarto, onde um mundo novo de coisas exatamente onde deveriam estar fora do lugar os esperava. Viram então literatura e poesia e depois debateram sociologia e filosofia. Enquanto a fumaça do pensamento de dissipava os efeitos do dia acumulavam. Anúbis entrou pela porta e se acomodou aos pés da cama onde estavam agora deitados de frente um para o outro, além dos pensamentos lógicos. A madrugada batia na porta, mas não precisava de permissão para entrar. Agora no quarto os três adormeciam aos poucos e ao seu redor o chão era minado de embalagens e coisas barulhentas. Dois dos soldados naquele campo haviam sido abatidos pelo sono, o terceiro agora lutava contra seus efeitos e planejava sua estratégia de saída.

— Boa noite, Anúbis. – Sussurrou Julia passando pelo felino no meio da sua trajetória até a salvação do silêncio. Chegou na porta de sem ter feito o menor ruído, satisfeita consigo mesma e com suas habilidades olhou para dentro, através do escuro e do seu sono, e viu o melhor soldado de si mesmo que ela já conhecera. Thiago e ela já haviam passado por tanta coisa juntos, e ela esperava que ainda passassem por muitas mais. Não havia ninguém melhor no mundo que o seu melhor amigo, nesse mundo, ou em qualquer mundo. – Boa noite, Tito.