Tito acordou deitado na grama com Claus ao seu lado, seu frio emanava ao redor de seu corpo adormecido e arrepiava um pouco da existência do humano que ali se levantava e via Éden sob a luz do amanhecer. Notara agora que sempre que acordava sua cabeça pesava de ideias e preocupações que não lhe cabiam quando estava acordado. Tito precisava entender mais de si mesmo, para antes começar a entender sobre o mundo onde agora habitava. De pé ao lado de Claus observou ao seu redor e não conseguiu enxergar ninguém, nem dentro da casa, nem na clareira que formava o pátio da mesma.

Observou Claus por uns instantes, retribuindo o favor de não a acordar e depois de dirigiu a orla da floresta, onde tinha a esperança de encontrar alguém, ou alguma coisa. No entanto antes de alcançar a metade do caminho viu Mantra saltando das árvores com Momento montado em suas costas voando como relâmpagos.

— Acorde Claus, nós precisamos partir!!! AGORA! – A voz de momento era grossa de mais para o seu tamanho e de uma urgência que acordou Claus no segundo em que o Ente e o gato aterrissaram no solo sem vida deixado pelos Espectros. – Quione está aqui!

Claus saltou de seu sono profundo pronta para lutar, o chão ao seu redor começava a congelar quando, mas quando ouviu o nome Quione sua posição de luta cedeu e deu lugar a uma posição defensiva. Seus olhos esbugalharam e suas mão envolveram seu corpo num ato desesperado por proteção. Ela podia lutar contra Espectro, mas jamais contra Quione, A Mãe do Inverno.

— O que Quione está fazendo aqui? O inverno ainda é prematuro, ela não deveria chegar antes de no mínimo mais um ciclo lunar. – A voz de Claus era fina e sua aura parecia aumentar a cada segundo, o frio ficando cada vez mais intenso. – Ela está próxima. – E Tito notou que o frio não vinha mais de Claus, mas de todos os lados, arrebatando a floresta, a clareira e até os seus ossos.

— Temos que te tirar daqui o quanto antes. – Disse Mantra, sabendo que a chegada de Quione era iminente, propôs: — Momento, leve Claus e Tito para o mais dentro da floresta que conseguir, você a conhece melhor do que qualquer outro. E não faça essa cara para mim – acrescentou ao notar a feição de desaprovação quando mencionara levar Tito junto – A essência de humano dele pode disfarçar a presença de Claus, vamos, logo!

Então momento pulou das costas de Mantra e no momento em que pousou no chão já tinha o tamanho de Tito que só teve tempo para olhar nos olhos do Ente e acenar com a cabeça concordando com o plano. Claus estava ao lado deles também, os três tensos e a postos se voltaram para a floresta e começaram a correr. Momento parecia se mover por dentro da terra ao invés de dar passos, era como se deslizasse pelo solo enquanto Claus corria com passos suaves, quase como leves pulos, como se deslizasse pelo ar, ambos inaudíveis em sua fuga inesperada. Atrás deles seguia um humano perdido e confuso sobre a situação, fazendo o máximo de barulho que conseguisse fazer, com seus pés desajeitados e a superfície da floresta propícia para seus pés fazerem a sinfonia mais audível e atrapalhada que conseguisse fazer. Momento e Claus tomavam cada vez mais distância, e por mais que se esforçasse ele não conseguia acompanhar a fuga daquelas duas criaturas magnificas.

Pôde ver que a cada vez que Claus olhava para trás para se certificar de que Tito ainda estava com eles ele encontrava seu olhar cada vez mais longe e sentia cada vez mais frio, o que tornava a corrida ainda mais exaustiva. Momento quebrou a rota em um instante através de um sabugueiro gigantesco, e quando Tito repetiu o movimento para desesperadamente continuar sua rota em direção a salvação não viu mais nada além das árvores, e nenhuma delas parecia se Momento, pois estavam todas estagnadas. Decidiu continuar correndo com a esperança de que fosse encontra-los mais à frente e que pudesse despistar o frio iminente, infelizmente nenhuma das duas coisas aconteceu.

Mais à frente a única coisa que pôde ver foram três cavalos brancos providos de um chifre solitário que nascia de suas testas e brilhava junto com suas crinas. Eles não carregavam selas ou qualquer outro item, apenas seu pelo branco reluzia contra as figuras que montavam avidamente em cima deles. Dois deles tinham a pele igual a de Claus, de um azul gélido, mas não usavam trapos como ela. As duas figuras que vinha mais atrás vestiam armaduras pesadas de um negro opaco e lanças douradas e suas tranças loiras desciam pelos seus capacetes até as costas dos unicórnios. A figura que vinha mais à frente era diferente, no entanto, assim como Claus no dia em que a conhecera, tinha o porte de uma criança, mas Tito sabia que aquilo poderia mudar a qualquer instante. Sua pele não era azul, mas branca, seus olhos eram vermelhos e sua armadura era mais leve, no entanto tão impressionante quanto a de seus guardas. Dourada assim como seus cabelos e espadas que pendiam ao lado do seu corpo. Quione era uma figura esplendorosamente mortal, e agora estava parada em frente aquele pequeno humano.

— Alto lá, humano! – Disse um dos guardas assim que avistou Tito tentando se esconder por entre as árvores. – Saia e diga o seu nome e o que estais a fazer nessa floresta cujo sua entrada não é bem-vinda!

— Meu nome é Tito – Falou saindo de trás de um arbusto – e bem, eu estou meio que perdido, para falar bem a verdade, não sei o que estois a fazer aqui, sequer que não era bem-vindo. Peço perdão. – E tentou imitar um tipo de reverencia para Quione.

— Não seja estúpido, pequenino, tais formalidades só são aceitas nas cortes dos humanos. – Disse Quione se aproximando de Tito e ao reparar que seus guardas a seguiam fez um sinal com a mão para que permanecessem onde estavam. – Eu sou Quione, A Mãe do Inverno. E esses são meus filhos, Auros e Borus. – Os guardas bateram suas lanças no chão ao ouvir seus nomes, mas permaneceram parados.

“Posso sentir em seu coração que você diz a verdade, a tempos que não encontro uma alma tão perdida quanto a sua, humano Tito. Mas infelizmente estamos em uma busca no momento, você por acaso não teria visto uma das minhas fadas por aí? Estamos caçando uma desertora. ”

— Sinto muito, mas eu não tenho conhecimento de nenhuma desertora. — Tito não sabia se se impressionava mais com a gentileza fria de Quione ou com o fato de Claus ser uma desertora. Manteve suas afirmações vagas, no entanto, perante ao poder da criatura de talvez poder ler o coração das pessoas. Estivera morrendo de frio, porém, e inusitadamente a cada passo que Quione vinha para perto dele ele se sentia mais aquecido, compelido a chegar cada vez mais e mais perto. Quando estava a centímetros da montaria de Quione percebeu que o calor não vinha dela, mas do unicórnio. Que agora voltava sua cabeça para Tito e a abaixava fazendo parecer uma reverencia digna, diferente da sua.

— Impressionante. – Afirmou Quione espantada enquanto seus filhos trocaram olhares incrédulos mais atrás. – Ele está dizendo que você pode tocá-lo, vamos lá, faça um carinho. – E então Tito tocou a cabeça do unicórnio e seus dedos formigaram ao entrar em contato com o pelo e o calor que vinham daquele ser. — Os unicórnios são criaturas mágicas que emanam calor a partir do seu laço com outras criaturas, é a única maneira que eu e meus filhos podemos viajar sem queimar tudo ao nosso redor. Eles são nosso ponto de equilíbrio. – Dito isso Quione acariciou o pescoço da sua montaria e deu-lhe uns tapinhas. – Mercy parece ter gostado de você.

— Pode dizer para ela que eu também gostei dela. – Disse Tito que por um momento havia esquecido a gravidade da situação e se maravilhava com a pacificidade de Mercy e seu relinchar de aprovação.

— Eu vejo seu coração confuso e Mercy o vê como digno. É uma discrepância bem grande, como se você vivesse em dois mundos. Eu sinto que você ainda vai viver muitas histórias, humano Tito, mas meus filhos e eu devemos continuar na nossa busca. Reze aos seus deuses que nós encontremos essa desertora antes que ela encontre você, nunca se sabe o que uma fada pode fazer a um humano. Boa sorte. – E com um sorriso malicioso Quione, Auros e Borus seguiram por meio da floresta em sua caçada.

O calor dissipava do seu corpo a cada passo que os unicórnios davam para longe de Tito e o frio tomava suas entranhas e sua mente segundos antes dele notar que estava sozinho e de que em segundos não poderia notar mais nada.