Sonâmbulos
10 Ana
Thiago acordou com o baque da porta quando Júlia retornou do Café. Seu sorriso ainda era quente e sua surpresa pequena. Júlia sabia que Thiago tinha o superpoder de adormecer em quaisquer circunstâncias.
— Eu não estava dormindo! – Se defendeu ele antes que ela sequer ter dito algo.
— Eu sei que não estava. – Disse Júlia antes de se voltar para a cozinha com uma risada engatilhada.
Os dois amigos começaram a comer e conversaram um pouco mais sobre as coisas que tinham vivido, e as coisas que ainda queriam viver. Mas o tempo não os enganou por muito tempo. E os telefonemas foram trazidos em tópico logo após uma história repetida de um acampamento destruído por uma tempestade de mau humor do ex-colega-de-quarto-sobre-o-qual-não-se-fala. Julia discou então para o primeiro número com o mesmo plano que haviam usado pela internet. O homem que atendeu foi rápido ao se certificar de que era ele mesmo o ganhador da promoção e de que até o final do dia estaria retirando seu prêmio. O segundo número infelizmente não era tão crente no poder da sorte e desligou o telefone assim que ouvira a palavra “promoção”.
— Três de quatro, é um bom número. – Disse Julia animada. Aquela experiência era o mais próximo de emoção que ela vivia em algum tempo. Só ia da escola para o trabalho, para casa, isso e do namoro recentemente rompido lhe roubavam todo seu tempo. Queria se envolver na vida emocionante daquele garoto cheio de emoções.
— Se não for nenhum deles camos ter que pensar em novas táticas. – Thiago agora mais perto das verdades começava a questionar o valor das incertezas.
— Vamos nos concentrar no que temos agora, e não no que poderemos ou não ter amanhã. – Julia sabia como acalmar corações. E os próximos minutos de conversa foram planos de uma abordagem aos possíveis pais presentes.
No café, cerca de duas horas depois, lá estavam eles: Julia atrás do caixa com duas cestas recheadas de doces e cafeína para os ganhadores de uma rifa, dissera ela para seu pai, e Thiago sentado em um banco próximo ao balcão, com sua xícara vazia e limpa.
O café fecharia em algumas horas, e cada minuto que passava Thiago desacreditava ainda mais que alguém fosse aparecer. As mensagens no facebook foram ambas visualizadas e nenhuma respondida. Julia estivera trabalhando em seu dia de folga e até agora não ouvira nada além do sino da porta que anunciava a entrada de mais um cliente. Que tocava novamente.
Um cliente incrivelmente contente que cruzou a distância da porta até o balcão em alguns passos e anunciou o seu nome em alto e bom som para reclamar o seu prêmio. Julia e Thiago perplexos pela realidade daquela figura não souberam reagir ao homem que foi certeiro em direção a uma das cestas, colocou-a debaixo de um dos braços e se dirigia a saída agradecendo pela elegância do local.
— Espere! – Gritou Júlia sobre as costas do desconhecido.
— Pois não? – O homem se voltou para o balcão novamente e Júlia fuzilou Thiago com os olhos para que ele tomasse alguma atitude.
—Ah.... Meu nome é Thiago, eu tenho vinte anos e cresci em uma família adotiva. Eu coletei informações que me levam a acreditar que o senhor possa ser meu pai. – Disse Thiago conforme haviam ensaiado. No entanto com uma voz mais cortada e seca pelas emoções que ele não soubera captar.
— Isso é algum tipo de golpe?! – Esbravejou o homem. – Ou uma piada de mau gosto?! Eu já encontrei meu filho e ele está morto! – A última palavra saiu de um som morto e incerto recheado de dor de dentro do homem que ali estava parado em frente aos dois.
— Me desculpe, senhor, eu sei que outras crianças foram deixadas na mesma situação que o meu amigo, — Interviu Júlia – em momento algum quisemos desrespeitas a imagem do seu filho.
— Eu sinto muito também. – Pontuou Thiago após Júlia ter acalmado o homem.
— Não mais do que eu sinto. – Uma quarta voz anunciava seu arrependimento de porta do Café. Seus cabelos eram castanhos e ondulados, um toque de neve cobria sua cabeça que vivera alguns anos além da primavera da idade. Usava óculos caídos no nariz e tinha os olhos de todos voltados para si. – Oi Thiago, meu nome é Ana, parece que você finalmente me achou.
Julia escoltou o homem para fora do Café enquanto Thiago e Ana se sentavam em uma das mesas para conversar.
— Você é minha mãe? – Thiago não sabia o que mais dizer além disso diante de toda aquela situação. Por sorte o pai de Júlia não estava no Café quando todo aquele escândalo aconteceu.
— Felizmente não, meu pequeno. – Ana pôde ver o brilho se apagando dos olhos do garoto com a sua negativa. – Mas eu estive com você desde que você nasceu. Pode-se dizer que eu fui sua baba. Fui eu que te levei para a enfermeira para que ela te levasse para um lugar mais seguro.
— Então você sabe quem são os meus pais? E o que você quis dizer com mais seguro?
— Os seus pais são duas figuras excêntricas e magnificas que eu conheci vinte anos atrás. Eles faziam parte de um grupo chamado Sonâmbulos, hackers ativistas que combatiam o sistema da melhor maneira que eles podiam. Nós íamos fazer um trabalho juntos quando sua mãe apareceu grávida e foi proibida que participar da missão. Eu fui resignada para fazer companhia para ela. Foi nesse dia que você nasceu. O trabalho de parto aconteceu no meu apartamento na época, eu quase vomito toda vez que lembro. Mas você nasceu lá, e seu primeiro choro veio junto com uma chamada dizendo que a missão tinha sido comprometida. O protocolo era nos dividirmos, todos os membros do grupo. Então sua mãe correu para um lado, eu para o outro, e você para cá, até agora.
— Isso quer dizer que....
— Exatamente, eu não sei onde eles estão agora, muito menos os nomes deles. Mas eu mantive contato com a enfermeira para que ela mantivesse a possibilidade de você me encontrar aberta. Eu tinha esperanças que um filho daqueles dois poderia vir a calhar. Sei que sua busca parecia concluída, mas ela acaba de começar.
Caia a noite quando Julia e Thiago fecharam o Café. Haviam conversado mais alguns minutos sobre como poderiam obter informações dos pais de Thiago. Aquele era um universo novo e ele estava maravilhado com os seus pais serem parte importante de um grupo que luta pelas pessoas. Ana mostrou-lhes diversas formas de pesquisas diferentes e também ficou de ajuda-los em seu tempo vago com qualquer tipo de informação que pudesse garimpar. Ana deixou seu contato e um desejo de boa sorte para o menino que viu nascer, e agora pretendia ver crescer.
Em um instante a emoção deu lugar a um sentimento diferente. A dor e o desamparo daquele homem que conhecera hoje carregava eram tamanhas a ponto de extinguir com qualquer fagulha de felicidade em questão de instantes. Seu filho havia partido, e ele não sabia queria aquele tipo de dor dentro dele caso algo pudesse ter acontecido com seus pais. O orgulho pela imagem se misturava com o medo da perda e seu coração se tornava dúvida novamente.
A noite caiu mais uma vez e Julia insistira em seu ritual de estudo noturno. Thiago precisava pensar em coisas mais fáceis de resolver no momento, afirmara ela, e assim foram noite a dentro. Thiago as vezes não tinha certeza de porquê estudava tanto, porque estudava coisas que não lhe atraiam ao invés de desvendar suas próprias dúvidas. Cabeças que tem que pensar, para outras cabeças. Julia fazia com que Thiago permanecesse acordado até o final de pelo menos aquele capitulo. Assim decidiu que talvez aqueles números não fossem mesmo importantes, mas enquanto eles lhe garantissem tempo perto daquele ser irritante, ele os contaria até o final. Nessa noite dormiram ambos em uma cama sob um ventilador velho e o olhar de Anúbis.
Fale com o autor