Sonâmbulo

1 Capítulo 1 - Aquele


Notas iniciais
eu falo com borboletas,choro com plantas e durmo no chão.

Desenhou na poeira do chão de madeira uma borboleta,arrastou seus olhos das paredes até o teto onde girava de forma morasa um ventilador que devia ser o pertence mais moderno de toda a casa.O silencio sempre o obrigava a cantarolar, o som que saia de si era tão rouco que não se sabia se podia ser bonito.
Não queria dormir,todavia era tudo que necessitava.Fazia dias que não dormia,tantos dias que não havia memoria o suficiente para relembra-los.
Queria estar cansado e exausto,mas não tinha tempo para ficar apático.
Tinha que levantar-se e fazer algo,algo que ainda era indefinido,mas preferiu deixar que as pálpebras pesadas se fechassem até que tudo naquela casa vazia não existisse mais,nem os moveis feios e nem os miados do seu gato Tom.

O relógio girou 4 vezes até que o corpo entorpecido fosse tirado do chão da sala,Italo queria poder abrir os olhos e ver quem quer que fosse que o tirará do único lugar que conseguirá dormir em dias,mas em algum lugar de seu entendimento ele só queria se deixar levar.
Podia ouvir o vozear, podia sentir o cheiro de mofo do seu sofá,queria continuar com os olhos fechados e ouvir aquela voz que soava amena como se fosse uma esfera girando em uma superfície plana e sem atrito tão lisa que tudo que a pequena orbe deveria fazer era escorregar dando voltas durante todo o evo.
Italo queria ser uma pelota.
– posso até tentar acreditar que estavas dormindo,só por ser alguma coisa que eu nunca tenha visto

Dionísio podia soar como uma superfície plana,porém nada com ele podia ser fácil.Aquele ser que até a sombra causava arrepios à Italo não tinha nada afável, o que não o tornava menos magnético.Magnetismo era a palavra que se encaixava em Dionísio, eram até sinônimos no vocabulário de Italo.Ela não o confortava, não falava frases motivadoras, para si já era demais até tentar entender, mas para Italo aquilo era como se ele o entendesse apenas não tentando o entender de forma alguma.

Ele ali parado na sala cravava seus olhos nas costas de Italo que permanecia de olhos fechados tentando não abri-los.Porque quando os abre para Dionísio, sua boca automaticamente diz o que não precisa dizer.

– Nunca disse que estava dormindo

– Não seria nada bom se tivesse dito

Italo estava naquela casa há dois dias, suas coisas ainda estavam entulhadas em caixas, mas de alguma forma ele preferia assim.Ele queria negar que tinha lembranças de uma juventude nada agradável, queria bater a cabeça na parede até reiniciar sua vida.Mas a contínua presença de Dionísio o lembrava disso.

Não havia nada de errado nele, ele era pulcro e realmente abastado.Isso parecia tão errado, enquanto outros tentavam ser razoavelmente felizes Dionísio tinha tudo."Tudo",de uma família rica ele nunca precisou lavar um prato, mas mesmo assim não se nega a fazer isso.Bonito o suficiente para fazer que estranhos o olhem até que sua silhueta suma no fim da rua, mas mesmo assim nunca se achou diferente de ninguém.

Apesar disso, Italo o achava extremamente egoísta. Por que ele deveria ser assim se ele não se importava? Enquanto Italo acordava todos os dias para se permitir ver no espelho um rosto que não o agradava nada e um cabelo que um dia fora azul, mas decaia em tons esverdeados como a casca de uma melancia.Queria poder trocar uma semana de sua vida com uma semana da vida de Dionísio,queria poder esfregar no rosto dele de como existir era horrível, mas não queria que ele o entendesse.

– Quer café?

– Eu não tomo café! — Italo gritou e riu, pelo jeito Dionísio nunca ia se lembrar de nada sobre si.

Da soleira da porta da cozinha Dionísio apareceu com um xícara esfumaçante. Italo sentou-se, queria poder falar " o que quer?Só pegue isso e saia",mas não queria (conseguia) então suspirou.

– O que foi?

– Estava só pensando, quer viver aqui?

Notas finais
quero flores
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.