Somos um caso perdido.
2 Eu não conheço aquele homem
Notas iniciais
O dia estava nublado, o céu coberto por nuvens escuras, tudo isso escondia muito bem as olheiras profundas abaixo de meus olhos e a palidez de meu rosto. Eu estava usando meu moletom preto de ''estou depressiva'' e uma calça meio colada da mesma cor. O vento, que parecia levar consigo cacos minúsculos de cristais quebrados , soprava em meu rosto. O capuz estava sobre minha cabeça. Meu cabelo estava oleoso e escorrido. A mensagem nas nuvens estava clara: hoje nada daria certo. O caminho para a escola parecia mais comprido. O dia estava triste e deprimido, estávamos iguais. O vento cortante soprava em meu rosto e arrastava os fios de meu cabelo para o mesmo, mas eu não me incomodei em tira-los. Minha mochila parecia 10 quilos mais pesada, mas isso não me incomodou também.
Cheguei a escola e dei um sínico ‘’bom dia’’ ao porteiro e adentrei ao prédio. Escutei atenta ao barulho feito pelos alunos e andei até minha sala, sentei na cadeira mais afastada, aquele cantinho aonde todos se recusam sentar. Senti o olhar da morena vadia sobre mim e a encarei, lancei-lhe um sorriso cheio de ironia; ela me fuzilou com os olhos.
Logo senti outro olhar sobre mim, procurei o causador daquela sensação estranha e não demorei a encontra-lo. damien estava vindo em minha direção em passos largos, chegou perto de mim em questão de segundos. Senti seu cheiro: chuva e hortelã.
–bom dia – ele disse
–bom dia? – perguntei com ironia – devemos enxergar o mundo de formas muito diferentes.
–disso eu tenho certeza : eu vejo o mundo como quero que ele seja, não como ele quer que eu o veja.
–já eu sou mais sã e o vejo como ele é, não escondo de mim as barbaridades que acontecem mundo afora.
–talvez isso faça de você mais louca.
–talvez me fizesse pensar nisso, se eu já não tivesse certeza da minha insanidade.
–e talvez eu seja sua sanidade – ele aproxima o rosto do meu.
–sai – digo e empurro ele, que cai sobre os calcanhares. – se chegar mais perto vai acabar me beijando. – digo e dou uma gargalhada, que ele acompanha.
Sinto o olhar da morena vadia queimar minhas costas, me viro para confirmar minhas desconfianças.
–ela está olhando – digo a damien.
–ela que se ferre – ele responde.
–e se ela me matar? – digo com ironia. – você se sentiria culpado eternamente, fica seduzindo pobres garotas inocentes pra que suas admiradoras psicopatas as matem. – ele ri.
– vamos irrita-la. – ele diz. – afaste toda essa sua depressão e tente agir carinhosamente. – ele da um sorriso irônico.
–ei, eu posso ser carinhosa... Quando quero. – devolvo o sorriso.
–apenas acompanhe. – dizendo isso ele levou os lábios ao meu ouvido e sussurrou: — seja uma menina carinhosa. Agora dê uma risadinha bem feminina. – ele diz e eu o sinto sorrir. Dou uma risadinha baixa, mas foi alta o suficiente para a morena vadia ouvir.
Ele torna a se ajoelhar ao lado da minha cadeira e sorri para mim.
–viu como é divertido? – ele diz.
–você é ridículo. – dou um tapa na cabeça dele.
Nesse momento uma professora que aparentava beirar os 40, porem muito bonita para sua idade, entra na sala e escreve seu nome no quadro. Srta. Markins. Ela se virou para a turma, nos cumprimentou com um aceno de cabeça, se sentou em sua cadeira e começou a revirar uns papeis.
–volta pra sua cadeira, damien. – eu digo a ele.
–não se incomode, Sr. Caspian. – disse a Srta. Markins sem nem olhar para ele. – apenas puxe uma cadeira, a aula de hoje será em dupla.
–ela é professora de que? – sussurro para damien.
–sociologia e filosofia. – ele pisca pra mim e puxa uma cadeira.
Outras pessoas na sala formaram suas duplas e começaram a conversar baixinho.
–bom, é bom terem escolhido bem seus parceiros de dupla, pois eles serão seus companheiros na minha aula pelo resto do ano. – ela disse. A morena vadia olhou para damien e me fulminou com os olhos. – na aula de hoje iremos falar sobre a importância da honestidade em um relacionamento, seja qual for seu gênero. De pai e filho, de amantes, de amigos... E sobre como as pessoas reagem a esses relacionamentos. É claro que se precisa conhecer o básico do parceiro...
–como o nome...- damien sussurra pra mim.
–sim, o nome, Sr. Caspian. – a Srta. Markins diz. – o nome é o principal, é a primeira coisa que se deve perguntar a uma pessoa. O simples fato de falar ‘’olá, bom dia. Como você se chama?’’ já é um jeito de começar um relacionamento. Precisa-se conhecer o parceiro para reconhecer quando ele está feliz, quando está contente, como ele reage a certas situações e como ele reage quando está mentindo. Mas nós não temos o direito de cobrar honestidade do nosso parceiro se não somos honestos com eles. Se você mente em seu relacionamento, com certeza você não vai poder cobrar a verdade mais à frente. – a morena vadia levanta a mão. – diga. Srta. Yescoviz.
Yescoviz? Esse não é o sobrenome do professor Damon?
–mas e se por acaso for necessário contar uma mentira ou outra em um relacionamento? Tipo, para esconder demônios do passado, ou um segredo que não é exatamente seu? Que possa prejudicar outras pessoas além de você?
–nem mesmo essas, Srta. Yescoviz. Toda mentira esconde segredos, todos tem algo a ocultar. Se não fosse assim, ninguém esconderia suas senhas de redes sociais. – alguns alunos riram com o comentário. Eu levantei a mão. – diga, Srta. Morgans. – merda, me esqueci desse detalhe. Ouço a risada de damien e lhe dou um chute na canela por debaixo da mesa.
–e se por acaso você não confia no seu parceiro? — pergunto
–se você não confia, não tem porque ele ser o seu parceiro.
–e se isso for um relacionamento pai e filha, não tem como mudar de pai.
–os seus pais são as pessoas em quem você mais deve confiar. – ela responde
–mesmo se o seu pai te abandona? – fez-se um longo silencio, a professora juntou as sobrancelhas e disse:
–o seu pai te abandonou, Srta. Morgans?
–não...- disse. A professora suspirou, como se estivesse aliviada. – meu pai não me abandonou Srta. Markins, o Sr. A qual o gene corre nas minhas veias me abandonou. Um pai de verdade, o pai que disse que me amava durante os primeiros 15 anos da minha vida, não abandonaria uma filha. Ele não era mais meu pai quando passou pela porta de casa. – disse melancólica.
–e quem ele era, Srta. Morgans? – ela perguntou intrigada.
–há – disse com ironia. – eu não conheço aquele homem.
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