Somewhere in the Past - Pernico
2 The Clock
Notas iniciais
Corri. Já estava atrasado para a escola. Provavelmente eu já nem poderia entrar para o primeiro período, de ciências.
Merda! Justo a porra da matéria que eu mais preciso estudar e entender. Estava completamente ferrado.
Quer dizer, perder o ônibus não seria tão ruim se 1) eu tivesse um carro ou 2) eu morasse perto da escola. Mas, claro, nenhum dos dois é o caso.
Quando eu, finalmente, tive um vislumbre de minha escola ao longe, já fiquei um pouco mais aliviado. Peguei a garrafa d’água e tomei um gole, sem parar de correr.
Cheguei, e dei de cara com a diretora.
“Está atrasado para o primeiro período, Jackson” – disse ela.
Queria tanto ter dito Nossa, é sério? Nem percebi., mas me limitei a simplesmente acenar a cabeça e murmurar um “Ãh-hã”.
Sentei-me no banco estofado da secretaria e esperei até que o primeiro período acabasse e eu pudesse entrar na sala de aula.
Chegando à sala de inglês, encontrei exatamente o que esperaria encontrar: o grupinho dos garotos-barra-populares-barra-jogadores-de-futebol e o grupo das garotas que usavam a saia da escola uns três números menores para deixar a bunda à mostra. E pensei exatamente o que sempre penso: isso é ridículo.
Ok. Eu era popular-barra-jogador-de-futebol, mas eu não ficava falando/fazendo tanta merda quanto eles. Não estava nem aí para líderes de torcida ou qualquer merda do gênero. Queria mais é ser um cara normal, que sonha com uma garota dos sonhos e etc. Bom, talvez isso não seja normal para um garoto da minha idade, mas eu adoraria que fosse.
“E aí, Perseu!” – disse o Jason, um dos garotos idiotas do qual falei.
“Oi.”
“Preparado para o grande jogo?”
Não paravam de falar nisso. Óh, o grande jogo. Chegamos às finais do campeonato interescolar, mas para mim era um jogo como qualquer outro.
“Sim” – respondi. Ele sorriu e murmurou um ótimo.
Olhei para as garotas, distraído. Uma delas viu, e logo deu um jeito de ficar de costas, empinar a bunda e dar uma piscadela com seus cílios postiços repletos de rímel. Blargh.
Os garotos rapidamente engataram uma conversa sobre futebol e “esse time é melhor que esse”. Eu concordei e ri nas horas certas, mesmo sem prestar muita atenção. Logo a secretária da escola interrompeu nossa conversa, e nada da professora aparecer na sala.
Sabe, ela é amiga da minha mãe, Sally. E, mesmo em encontros “familiares” ela nunca se atrasa. Comecei a desconfiar de algo.
“Jackson” – disse a secretária, séria. “Poderia me acompanhar?”
Não soava como uma pergunta; soava mais como uma ordem.
Assenti e a segui, até um corredor vazio. Ela segurou minhas mãos, como se eu fosse uma criancinha perdida.
“Eu... não sei como dizer isso. Mas... a sua mãe. Ela desapareceu. A polícia está investigando, e até alguns cartazes foram espalhados” – ela disse. Meu coração falhou.
Ela não tinha voltado para casa esta noite, mas não desconfiei de nada. Que mal poderia fazer? Afinal, achei que estivesse com seu mais novo e ilustre namorado.
Mas eu devia ter percebido. Seu wristphone estava desligado. Não ousei rastrear o aparelho; mas, se ela estava desaparecida... alguém teve essa ideia.
Wristphone é nada mais, nada menos, do que um celular que mais parece um relógio de pulso minúsculo. Ele lança uma projeção para fora da tela, e é por ela que o aparelho é controlado. É como um retroprojetor que não precisa de uma parede.
Fique calmo, Perseu. Calma... tudo vai se resolver. Ela só deve ter ido comprar pão.
Eu tentava desesperadamente me acalmar, mas quando senti as lágrimas quentes escorrendo, enfim, pelo meu rosto, meu grito ecoou pela escola.
Com todos os recursos que tínhamos, era impossível que ela tivesse simplesmente saído e fosse voltar uma hora ou outra.
Depois de me acalmar um pouco, pedi.
“E o... Paul? Ele sabe? Estava com ela?”
Ao que a secretária, assustada, respondeu:
“O namorado dela? Ah. Eles... estavam juntos. Ele disse que o wp dela tocou e ela saiu correndo pois ‘precisava fazer alguma coisa’”.
Então, ela saiu correndo para buscar um copo de água com açúcar para mim.
Afundei meu rosto em minhas mãos, desesperado por parar de chorar. Eu sabia que era ótimo chorar até não restarem mais lágrimas, mas, uma hora ou outra, a dor voltaria. Eu não podia me dar ao luxo de chorar. Não. Não mesmo. Eu precisava pensar.
Onde eles estavam na hora que ela saiu correndo?
Que direção ela tomou?
Aonde o rastreamento do wp indicou que ela estaria?
Por quê ela correu?
“Talvez eu possa ajuda-lo”
Rapidamente ergui a cabeça. E vi um senhor de pé na minha frente. Ele me encarava, sorrindo. Sentou-se ao meu lado, com as mãos no bolso.
“Pude ver seu desespero, meu rapaz” – disse, calmamente. “E resolvi vir ajuda-lo”
Olhei para seu rosto enrugado, ansioso. “Como?!”
Ele apenas sorriu, e tirou as mãos do bolso. Mas, com elas, ele tirou também um objeto estranho. Era feito em metal, e já estava enferrujado. Circular, possuía algo como uma tela feita em vidro. Dentro desta, havia números. E um ponteiro que se movia entre eles, enquanto outros dois permaneciam parados.
“Sabe o que é isso, meu jovem?” – perguntou. Encarei o ponteiro fino e comprido que se movia. “É um relógio. Um relógio de bolso.”
Eu conheço relógios... digitais. Neles aparecem apenas os números, cujos eles mesmos se mudam conforme a hora passa. Nunca havia visto algo com números parados e ponteiros.
“É um objeto antiquado. E, pela sua cara, você nunca havia visto um desses, certo?” Concordei, com um aceno de cabeça. Ele sorriu novamente, mostrando seus dentes amarelados. Depois, estendeu o relógio para mim, segurando-o por uma corrente também enferrujada que ficava pendurada ao relógio. “Tome, agora é seu.”
Olhei para ele. Seus olhos pareciam bondosos, paternos. “Mas como isso pode me ajudar em alguma coisa?” – perguntei, já ficando um pouco nervoso. Relógios antigos não ajudam ninguém.
Ele sorriu, paciente. “Para alterarmos o futuro, precisamos olhar para o passado.”
#
Caminhei de volta para casa, com o maldito relógio em mãos. Posicionei minha mão na porta, para destrancá-la com minhas digitais.
“Hey, mãe! Cheguei” – disse, sem querer. E a dor me invadiu novamente. Não havia mais lágrimas para eu chorar, apenas a dor. Mas, mesmo assim, percorri pela casa, pensando que talvez minha mãe estivesse em algum lugar por ali.
Como pensei, não estava. Olhei mais uma vez para o relógio, e depois o coloquei de volta em meu bolso.
Larguei minha mochila na cama, e decidi sair do apartamento. Eu acabaria enlouquecendo ali.
#
Chegando ao parque, vi que ele estava quase vazio. Duas crianças brincavam no playground, e um casal se beijava enquanto a neve caía, substituindo a areia dourada do chão pelo branco do gelo. Sentei-me no banco onde eu costumava me sentar quando estava triste. E fiquei olhando ao redor. Puxei o relógio do bolso, mais uma vez, e o encarei. De repente, uma luz ofuscante impediu meus olhos de enxergar qualquer coisa ao meu redor.
Fechei meus olhos, desesperado, sem conseguir ver nada.
A luz se esvaiu aos poucos. Acostumando meus olhos à repentina escuridão, os abri lentamente. E o que eu vi foi algo completamente diferente.
O parque estava cheio. Pessoas andando de bicicleta, outras fazendo piquenique e muitas crianças fazendo fila para descer no escorregador. Nada de neve no chão; só areia... e flores. Muitas flores. Além de árvores cheias de frutas.
Senti um imenso calor, e despi-me de meu casaco, minhas luvas, minha touca e mais umas quantas peças de roupas que conservavam meu corpo quente.
Todos ao meu redor estavam de manga curta ou regata e shorts ou bermuda.
Sem entender nada, vasculhei os bolsos do casaco jogado ao meu lado à procura do relógio, e lá estava ele.
Desesperado, fui até um garoto que estava sentado, sozinho, na grama verde recém-aparada. Mostrei o relógio a ele, e notei o quanto suas roupas pareciam antiquadas. Ele lia um... como é o nome? Um livro. Isso, um livro.
“Sabe o que é isso? Quer dizer... um homem muito estranho me entregou esse negócio estranho e...”
Ele me encarou. “Você não sabe o que é um relógio, cara?”
Olhei para seus olhos. Escuros como o céu à noite. Seu cabelo bagunçado e sua camiseta e jeans pretos.
“Qual é o seu nome?” – perguntei, antes de conseguir me conter.
Ele voltou a olhar para as crianças brincando no playground.
“Nico” – disse. “Nico di Angelo”.
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