Somewhere Only We Know

5 Aparentemente, monumentos tem história


Notas iniciais
Espero que gostem

— “É um novo dia!” — Esse foi o refrão do meu pai durante os dia que se seguiram a mudança, era tudo uma questão de adaptação, eram as férias de verão e eu estava trancada em casa, infelizmente minha “fuga” como minha mãe gosta de ressaltar, me rendeu uma semana longa e entediante de castigo, qual era o problema? Ela podia descontar pelo castigo emocional que ela me fez passar me levando a “Cidade das luzes” que daquela casa parecia “a cidade da escuridão” — Eu sei, piada ruim.

Não imagine que eu não pensei no garoto da ponte, porque eu pensei, mas não direcionei meus pensamentos diretamente a ele naquela semana, eu não estava atraída por ele, estava cega pelo meu amor incondicional direcionado ao meu ex-namorado que com toda certeza não me queria mais. E essa não era a pior parte, ele havia quase reatado com sua ex, o que em minha opinião foi uma falta de respeito da parte dele, e foi um choque duro para o meu pobre coração de adolescente de dezesseis anos, passei uma semana lendo livros como um fantasma pelos terrenos da casa — eu estava deprimida nesse nível —, que graças tinha um jardim bem grande.

Então quando a torturante semana terminou eu pude sair para mais um passeio com a promessa de que voltaria ás 18 horas e não me afastaria de casa, além de manter meu telefone sempre perto, e responder as mensagens da minha mãe sempre que ela enviasse uma, algo que eu duvido já eu que e meus irmãos demos a ela um iPhone de natal faz alguns anos e fizemos questão de ressaltar que ficaríamos muito desapontados se ela não o usasse, posso dizer a você que esse foi o dinheiro mais bem gasto da vida, minha querida mãe não sabe até hoje como utilizar.

Então saí de casa com meu all star, minha bermuda favorita, e minha camisa com a bandeira dos Estados Unidos, o que me fez rir porque eu era uma brasileira, na França, com a bandeira dos Estados Unidos, parei em uma cafeteria e comprei chocolate quente para mim, embora fizesse calor eu estava com frio, eu pretendia pegar um táxi e visitar o Arco do Triunfo, mas por razões que eu não entendia na época me senti quase que compelida a voltar àquela ponte, eu realmente, realmente não esperava vê-lo lá novamente, então você nunca conhecerá minha surpresa ao vê-lo exatamente no mesmo lugar, olhando exatamente para o mesmo rio. Ele estava de costas pra mim, o que me deu a oportunidade de pensar seu eu iria ou não falar com ele, eu realmente não conhecia aquele cara, mas sua expressão triste naquele dia ainda era fresca em minha mente — Foi mais ou menos nesse momento que eu percebi que era uma coração-mole patética —, por fim decidi que falar um “oi” não me faria mal.

— Ainda pensando em pular? — Eu disse quando me aproximei dele, isso já não era um “oi”, mas me perdoei mentalmente por não ter seguido meu plano original.

— Ainda não tenho certeza, e você? — Ele nem se virou para me olhar, eu acho que fiquei um pouco desapontada com isso — depois pensei maldosamente que ele tinha cara de babão e me senti muito melhor.

— Não mais, — Por alguma razão eu estava ficando nervosa, do tipo olhar pro hão — Agora só quero um pouco de paz.

— Palavras muito fortes para uma garota de quinze anos. — Ele se virou para mim e eu pude ver seu rosto, os olhos estavam fundos no rosto, bolsas de olheiras se estendiam deles, aquele cara não parecia bem, e que sentia que devia ajuda-lo — pra ser sincera eu sentia que deveria correr, só que eu gosto de uma aventura —, mas não fazia a mínima ideia de como.

Virei-me para sair sem dizer nada, ele voltou a olhar para o rio, mordi o lábio tentando pensar, não sabia o que fazer, pensei em convida-lo para caminhar comigo, mas não me parecia uma boa ideia, no entanto parecia, tudo ao mesmo tempo, e eu estava extremamente confusa, por fim meu corpo percebeu que eu precisava de ajuda e em um segundo de indecisão eu me vi virando e gritando para a rua movimentada.

— Ei, você quer vir comigo? — Me arrependi no mesmo segundo que disse isso, ele nem se virou, e eu percebi o quão idiota eu devia parecer.

Virei-me e tentei caminhar o mais rápido possível para longe dali — como quem não quer nada, obviamente —, quando já estava a uma distancia que eu previamente considerei segura, eu desacelerei e percebi que não fazia ideia de onde eu estava e para onde eu estava indo, obviamente eu comecei a entrar em pânico, foi quando eu ouvi.

— Para onde estamos indo? — Era ele, eu reconheceria a voz rouca em qualquer lugar — pausa dramática —, tudo bem, eu admito, era a única voz familiar que eu distinguia naquele lugar além dos meus pais.

— Estava planejando ir ao Arco do Triunfo, mas no momento não faço a menor ideia de onde eu estou. — Eu sei que não é certo falar a alguém que você não conhece que está perdida, mas eu sabia que podia confiar nesse Alex — mentirinha, eu tinha spray de pimenta na bolsa.

— Bem, você é uma péssima turista. — Ele me respondeu com um sorriso.

— Isso é porque não sou uma turista, sou uma residente local. — Tentei parecer o mais digna possível, mas infelizmente ele não acreditou, o que foi uma pena, dei meu sangue, suor e lagrimas nessa encenação.

— Faz quanto tempo? — Ele me perguntou com aquele ar superior.

— Mais ou menos uma semana — Eu disse rindo, e ele me acompanhou, ligeiramente — Agora, você sabe para onde nós estamos indo?

— Ao contrário de você Srta. Natália, eu procuro informações antes de sair de casa em busca de uma aventura. — Eu tive que rir enquanto ele se esforçava para tirar a mochila das costas, ele estava usando uma mochila marrom, ridícula, que atravessava suas costas, um cardigã azul marinho, uma calça jeans, e um daqueles óculos que gritam “Sou nerd!”, vou admitir que acho charmozinho.

— Está com problemas? — Perguntei depois de algum tempo, ele vasculhava a mochila.

— Só um pequeno imprevisto — Ele me respondeu ainda vasculhando a bolsa. Esperei mais algum tempo até que ele desistiu da bolsa me olhou e disse — Más noticias, roubaram meu mapa.

— É claro que roubaram. — Eu disse colocando o sarcasmo na minha voz — Nós podemos pegar um táxi. — Eu ofereci, porque estava ostentando naquele dia — Você fala francês? — Perguntei levantada a sobrancelha.

— Logo se vê que é uma turista desinformada — Ele me respondeu sempre com o ar superior, reviração de olhos.

— Desculpe aí, Ó espertalhão, supremo manjador de todas as artes, qual o seu plano? — ciclo infinito, ele superior, eu sarcástica.

— Vamos de metrô — me respondeu assim, como se fosse a coisa mais obvia do mundo.

— Bim Bim Bim Não — retruquei como se tivesse dez anos — metrôs são uma droga.

— Agora você me ofendeu — ele finge desapontamento — eu nunca levaria uma dama pra um lugar “droga” — ele usou um tom engraçado pra falar droga, eu ri.

— Você é tão esquisito — é assim que se firma uma amizade no séc. XI — Okay, — Respondi seguindo-o porque ele já tinha ido embora — vamos viver uma aventura!

— Você parece bem animada. — comentou enquanto caminhávamos.

— Bem eu estou, — Respondi-lhe — Passar uma semana trancada em casa faz isso com as pessoas.

— Por que você passaria uma semana trancada em casa? — Ele me olhou e sinceramente eu acho que ele deveria parar de fazer isso, me deixava extremamente constrangida.

— Porque eu fiquei de castigo, por conta daquele dia — Respondi dando de ombros.

— Sua mãe deixou você sem sua sobremesa? — Ele perguntou ironicamente.

— Há-há que hilário que você não é. — Dei muita ênfase no não.

Chegamos ao que eu julguei ser uma estação de metrô, eu corri um pouco na frente, porque queria dar uma de sabichona.

— E aí Rei do swag? — ele só ficou na minha frente.

— Eu tenho um smartphone e dólar americano, nós vamos ficar bem — ele me assegurou, todo com cara de tio protetor.

Então eu basicamente fiquei seguindo um estranho que não parava de olhar o celular, tudo bem, nós chegamos ao trem certo, e ele pagou minha passagem e tudo mais, foi tão bom menino que eu até colei um adesivo de estrela dourada na manga do suéter dele, eu adoro adesivos, sempre ando com meus favoritos.

Eu visualizava os cenários que passavam por mim enquanto chegávamos ao nosso destino — e por acaso era tudo sem graça, estávamos debaixo da terra, e terra é igual em qualquer lugar —, todas as vezes que eu olhava para Alex ele estava olhando para fora da janela sem dizer nada, coçava o queixo de uma maneira diferente, como se estivesse pensando em algo doloroso. Eu com certeza não iria perguntar o que estava acontecendo, por isso mantive o silêncio.

A viajem não durou mais que 20min, o Arco do Triunfo já estava lotado quando chegamos lá, e assim que chegamos me deu vontade de voltar. O lugar estava lotado de turistas barulhentos e crianças chorando, e bem... aquilo era só uma pedra na minha visão nada refinada do mundo. Alex não via isso, ele admirava o máximo possível os padrões e as inscrições e murmurava consigo mesmo, eu só olhava pra ele na maior parte do tempo, até ele notar meu olhar — talvez meio retardado —, obviamente eu fiquei constrangida quando ele me encarou.

— O que foi? — me perguntou um pouco surpreso.

— Isso tudo não me parece muito interessante. — lhe respondi sinceramente.

— Você escolheu esse local. — Ele argumentou.

— Eu sei, mas não imaginava que seria só uma pedra gigante. — Eu comentei tentando não parecer uma criancinha que não queria ir à igreja.

— Você não entende o que esse monumento representa? O que ele guarda? Natália, esse é um dos mais belos e mais significativos monumentos da história. — Dei uma risada.

— Então porque você não me explica? — Eu perguntei.

Ele me olhou um pouco surpreso, mas por fim deu de ombros como se não fizesse diferença, mas eu via em seu olhar um brilho diferente que eu não tinha visto no rosto dele.

Ele me falou sobre os trinta medalhões da cornija, me falou sobre os alto-relevos e oque eles representavam, me falou sobre as batalhas, sobre os nomes dos oficiais franceses e por fim sobre o túmulo do soldado desconhecido. Ele falava com uma paixão impressionante sobre esse monumento, e isso era incrível, eu acho que entendi naquele dia a razão pela qual o povo francês se orgulhava tanto daquele lugar, era uma localização histórica que representava uma época, uma conquista, representava vidas humanas perdidas, pais de famílias que não voltavam pra casa, e de repente lá estava eu, falando como ele, sentindo a paixão e a emoção de estar no Arco do Triunfo — socorro! Daqui a pouco vão pensar que eu sou séria, mas foi uma descoberta emocionante, eu admito.

Passado esse momento de emoção, ele me levou para tomar sorvete, e eu não resisto a um bom copo de sorvete, pedi um de chocolate mais incrementado possível, e começamos a andar sem direção pela cidade, mas claro pelos locais mais públicos possíveis, ainda não tinha certeza sobre quem era esse Alex.

— E então? — Eu perguntei após algum tempo de caminhada, ele me olhou com uma expressão de indagação — Nós já tomamos sorvete, já vimos monumentos, agora me conte a sua história.

— Não. — ele me respondeu simplesmente.

— Ok, Senhor misterioso. — Alex deu uma risadinha após ouvir o seu novo apelido.

— Senhor Misterioso é legal. — Ele comentou — E você, não vai me contar a sua?

— Não. — Eu lhe respondi da mesma maneira que ele havia me respondido.

— Então tá, não conte — encerrou.

— Já que você não vai me contar a verdade sobre você, — eu disse depois de um longo silêncio — Eu vou adivinha-la — eu meio que pulei ao dizer isso, mas foi só um pulinho.

Ele deu uma gargalhada me olhou nos olhos e murmurou em tom de brincadeira.

— Tente.

— Eu devo avisar que sou muito boa em adivinhações. — comentei, só pra contar vantagem mesmo.

— Tenho certeza que sim. — ele me respondeu.

— Você é um espião, meu pai trabalha secretamente na C.I.A. e está portando um pendriver que contém um segredo do seu país, e você quer me sequestrar pra pedir resgate ao meu pai. — Essa foi minha primeira suposição, e claro, estava errada.

— Não, mas gostei dessa, acho que você poderia fazer um livro com isso. — Ele tentou fazer uma pose séria, mas não funcionou.

— Que bom que eu lhe divirto Sr. Alex, agora vamos para a próxima. — Fingi pensar um tempo antes de falar — Você é um cantor extremamente famoso que esta tentando fugir da mídia se escondendo na cidade das luzes, o que não faz sentido. E meu pai é um agente do governo que tem permissão legal de portar uma arma.

— Primeiramente, é a cidade do amor. — ele disse com muita seriedade.

— Decidi que vou ignorar você toda vez que vier com esse papo de “Cidade do amor”. — Respondi de imediato.

— Que seja, vou ignorar que você esteja me ignorando, — Que legal, ele é um piadista — Continuando, essa foi uma péssima suposição, não canto nem no chuveiro.

— Todo mundo canta no chuveiro, — Eu retruquei — se alguém falar que não canta eu automaticamente considero mentira.

— Ok — ele disse levantando as mãos em sinal de rendição — talvez eu cante de vez em quando.

— Uau, consegui arrancar algo de você. — Eu disse me congratulando.

— Não fique tão animada, — Alex advertiu — Não vai tirar mais nada de mim.

— Isso é o que você diz — Eu retruquei.

— Bem já falamos muito de mim. — Ele se endireitou — Vamos falar de você.

— Pode perguntar, eu sou um livro aberto. — Olhei para ele levantando a cabeça em forma de superioridade.

— Tudo bem, a cada pergunta supérflua que você responder eu respondo uma também.

— Fechado — apertamos as mãos.

— Você tem irmãos? — Ele disparou.

— Um na faculdade — Respondi de imediato — E você?

— Uma irmã mais nova — Ele respondeu após pensar um pouco se iria me responder — Sua sobremesa favorita.

— Sorvete de maçã, qual sua banda favorita?

— Florence and the Machine, e — ele fez uma careta — sorvete de maçã?

— Sim, sorvete de maçã, não é tão incomum.

— É claro que é. — teimoso.

— É claro que não é! — Retruquei dando muita ênfase ao “não”.

— Não vou discutir sobre isso. — Ele se virou pra mim com aquela expressão superior.

— É claro, porque não há discussão. — Olhei duramente para frente e cruzei os braços.

— Tudo bem, aceito que sorvete de maçã é sua sobremesa favorita. — Ele comentou se rendendo.

— Que bom, porque eu não pedi sua aprovação. — Eu tentei parecer ríspida ao dizer isso, para que ele se sentisse intimidado, mas obviamente isso não funcionou, já que ele começou a rir da minha tentativa frustrada de parecer uma badgirl — Por que você esta rindo?

— Por nada, — Ele disse sem parar de rir — eu só estou pensando em coisas engraçadas.

— E essas coisas engraçadas me incluem? — Eu novamente tentei parecer séria, obviamente foi outra tentativa frustrada da minha vida de frustrações.

— Talvez.

— Há-há — disse ironicamente — E o que vamos fazer agora?

— Quanto tempo você ainda pode ficar fora de casa? — Alex me perguntou como uma babá cuidando do seu bebê.

— Mais umas três horas — Respondi após olhar o relógio. Decidi que iria ignorar quando ele me tratasse como criança.

— O que acha de nós irmos almoçar? — tínhamos acabado de comer, mas eu não tinha nada pra fazer então...

— Okay — Respondi — Vamos comer, novamente.

— Senti um pouco de sarcasmo nessa sua frase. — Ele disse ao se levantar.

— Porque será? — Eu perguntei ironicamente.

— Você é muito jovem para ser tão amarga com a vida. — Ele comentou como se estivesse exasperado.

— Não sou amarga com a vida, — Eu estava na defensiva — sinto por ter lhe passado essa impressão.

— Você às vezes é séria, e a maior parte do tempo é divertida, — Ele comentou me examinando o que obviamente me deixou constrangida, mas obviamente ele nem ao menos ligava — Vai me contar o seu segredo?

— Não é nem um pouco especial, — Eu respondi — Pode ter certeza, sua vida é mais interessante que a minha.

— Eu acho que não. — Uma sombra escura atravessou sua expressão, e eu pude sentir que havia algo grande que ele estava escondendo.

— Que seja, — Eu disse tentando mudar de assunto — vamos comer comida francesa.

— Se a Srta. Acompanhar-me. — Ele fez uma mesura exagerada.

— Eu ficaria honrada — Retribui me curvando como uma dama da antiga alta sociedade.

Notas finais
Comentem se quiserem :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.