Somewhere I Belong
2 Tell Me A Tale About Magic
Notas iniciais

São cinco horas da manhã e eu estou sentado na cama. Não consegui dormir muito, embora eu tenha desligado meu PC e desabilitado o wifi do celular lá pelas duas. Eu me levanto e me visto, ponho meu computador pra ligar e habilito o wifi, e enquanto isso demora, arrumo meus cabelos e me olho no espelho.
O que eu vejo? Bom, eu vejo um garoto com olheiras, com a pele pálida e algumas sardas. Poucas espinhas, olhos castanho mel, cabelos castanho-escuro, quase pretos. Alto pra cacete, nem gordo, nem magro. Gosto do que vejo no espelho – eu me pegaria, por exemplo. Paro de narcisismo e olho pro celular, vendo cinco mensagens no WhatsApp:
[03h28 19/05/2015] Pê ♥: Sweetie, cê já dormiu?
[03h28 19/05/2015] Pê ♥: Tem uma aranha no meu quarto. Ela tá me encarando.
[03h33 19/05/2015] Pê ♥: Joguei um chinelo na aranha.
[03h37 19/05/2015] Pê ♥: PUTA MERDA ELA TÁ VIVA AINDA
[03h50 19/05/2015] Pê ♥: Ok, agora eu matei ela. Boa noite, mor.
Solto uma gargalhada com essas mensagens, aí lembro que minha mãe não acordou ainda e fico quieto. Arrumo minha cama, uso meu PC até que dê seis da matina, e aí vou pra cozinha fazer um café.
Minha mãe acorda e segue o cheiro de café. Infelizmente pra ela, ela não conseguiu se aposentar por invalidez, então trabalha todo dia. Ela é professora de filosofia em uma escola municipal, o que me deixa muito mais aliviado que se ela tivesse outro emprego. Ao menos esse ela gosta.
Porém ela trabalha nas segundas e eu não posso cuidar dela, e isso me deixa mal. Mas ao menos posso fazer o café dela, elogiar ela, sorrir e conversar de manhã.
Mas hoje é diferente, e eu nem sei o que pensar. Minha mãe me olha pra mim, pega um copo de café e faz um carinho no meu cabelo. Senta-se à mesa e me pede para contar uma história com magia.
Eu sorrio, porque isso me é simples, mas mesmo assim vou até o meu quarto e pego Contos de Beedle, O Bardo.
– Três irmãos vagavam à meia-noite, quando encontraram um rio caudaloso, impossível de passar. Porém, como eram versados em magia, usaram suas varinhas para fazer surgir uma ponte e assim atravessaram o rio.
“E então a Morte lhes apareceu. Acostumada a levar aqueles que ousavam atravessar seu rio, ela estava furiosa por perder três almas. Porém a Morte era astuta. Fingiu congratular os irmãos pela magia e ofereceu a cada irmão um presente.
“O mais velho era um homem combativo, e pediu a mais poderosa de todas as varinhas. A Morte pegou um galho de salgueiro e dele fez a Varinha das Varinhas.
“O segundo irmão era mais orgulhoso e quis humilhar a Morte. Pediu algum artefato para trazer os mortos de volta à vida. Então a Morte pegou uma pedra do rio, e a fez a Pedra da Ressurreição.
“O terceiro irmão era humilde e temeroso, então pediu algo para escapar com segurança da Morte, que, a contragosto, deu-lhe um pedaço da sua própria capa da invisibilidade, que usava para se aproximar sorrateiramente das vítimas. E assim os três irmãos seguiram caminho pelo mundo, se separando.
“O irmão mais velho foi a uma vila e encontrou um bruxo com o qual tinha uma desavença antiga. Duelou com ele e venceu, graças à nova varinha. Foi a uma taberna e se vangloriou de ser invencível com sua Varinha da Morte, porém quando dormiu um bruxo roubou-lhe, e, para garantir que não havia problemas, cortou-lhe a garganta. E assim a Morte levou o primeiro irmão.
“O do meio voltou para a vila que nasceram, e foi para casa. Girou a Pedra três vezes, e para sua felicidade, a moça que desejava despojar, porém que morrera cedo apareceu para ele. Porém ela estava distante e triste, pois o mundo dos vivos já não era mais seu lugar. O segundo irmão, para ficar eternamente com a amada, resolveu se suicidar. E assim a Morte levou o segundo irmão.
“A Morte procurou por anos o terceiro irmão, mas só o encontrou quando este tirou sua Capa de Invisibilidade para dar para o filho, já velho, aceitando assim a Morte como uma velha amiga.”
Minha mãe me olha, fascinada com a história. Sinto uma pontada de orgulho e agradeço mentalmente J. K. Rowling pela história dos irmãos Peverell.
– Então é por isso que você usa esse colar? – ela se referiu a meu colar de Harry Potter, que eu usava como símbolo de amizade com Pê, mas assenti do mesmo modo. – Pois é óbvio que essa história é de Harry Potter. Uma varinha, uma pedra e algo que presumo que seja a capa.
Dou uma risada e beijo a testa dela, mas ela me olha séria.
– É uma pergunta válida, senhor Natanael Ribeiro Feudhaus.
Faço uma careta ao ouvir meu nome completo. Odeio meu sobrenome de alemão batata, sério.
– É a capa de invisibilidade sim. E mãe, cê sabe que não curto meu sobrenome. É muito... Medieval.
Ela dá um pequeno sorriso, mas isso já me faz ficar feliz. É o primeiro sorriso sincero que ela dá nos últimos cinco meses.
– Enfim, vou trabalhar. Até a noite. – ela me dá um beijo na bochecha.
– Tenha um bom dia, mãe! – eu desejo, embora eu já saiba o que ela vai responder, e isso me deixe mal.
– Eu duvido, mas obrigada mesmo assim. – e ela sai.
Limpo a cozinha e, sozinho em casa, fico pensando no que tenho para fazer hoje. E volto pro meu quarto, quando vejo várias chamadas perdidas no Skype.
Ih, parece que vou levar uma bronca mais tarde.
~x~
Mal chego à escola e sinto alguém pular nas minhas costas, e um grito logo do lado do meu ouvido.
– Naeeeeeeeeeel – uma voz doce e fina, extremamente aguda, atinge meus tímpanos.
Porra, Pê.
– Menina, quer foder com minhas costas? Sai daí. – ela ri, mas desce e me abraça. Ah, esse cheiro de cerejas que acaba comigo.
– Menino Nael, como foi sua manhã? Devia estar interessante pra você perder as dancinhas matinais da tia Pê. – ela me olhou, fingindo estar brava.
Jegus, ela é muito fofa.
– Minha mãe estava um pouco feliz. Eu não podia perder isso, né? – eu ri.
Ela corou imediatamente.
– Me desculpa, eu não sabia, se soubesse eu nem tinha te feito nenhuma chamada. – e começou a passar a mão esquerda no braço direito.
Ela tá flertando comigo ou é impressão minha?
É claro que é impressão, pois logo passa do nosso lado o garoto da engenharia, Giulio. Eu sou muito otário, credo.
– Eu perdi alguma coisa, ou você disse “eu te amo” ontem pra mim e hoje tá flertando com o cabeludinho do violão? – eu resmungo, o que a faz ficar nervosa.
– Eu te amo sim, como – pausa – amigo. E você gosta do Jeferson, né? – ela cora, porém antes que eu responda, surge alguém que me irrita.
Ele é pouco menor que eu, mas consegue me bater em questão de beleza. Ele tem a pele bronzeada, cabelo cacheado loiro e olhos claros. Tem músculos de academia. É todo bem vestido.
Odeio-o com todas minhas forças.
– Gata, pensou bem no que conversei contigo? – pois é, ele é o ex de Pê. Um deles. Odeio Guilherme, o odeio pra cacete.
– Sou lésbica, desculpa. – ela dá de ombros.
– Você é bi. – ele rola os olhos. – Deixa de cu doce, porra.
Ela engole seco e morde o próprio lábio.
– Eu to afim de outro. E é recíproco.
Guilherme a olha surpreso.
– Quem é?
E então, eu, o otário que sou, puxo ela e beijo-a.
– Eu. Eu sou o cara.
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