Something Wrong - Pernico
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Minha espada caiu no chão, ao mesmo tempo em que meu pulso começou a doer.
– Regra número um: sempre preste atenção – disse Percy. Ele se apoiava em Contracorrente, usando-a como se fosse uma bengala. Tinha pose de vencedor, e olhava para mim com um sorriso desafiador. Eu não iria desistir tão fácil.
Agachei-me para pegar a espada, jamais desviando o olhar dos olhos verdes de Percy. Empunhei-a, e ele sinalizou com a mão que estava preparado.
Corri até ele, e em pouco tempo ele me desarmou novamente.
– Regra número dois: jamais vá com tanta sede ao pote – e mordeu o lábio inferior, provocante.
Empunhando minha espada de novo, andei lentamente até ele. Ficamos nos encarando por um bom tempo, até que ele decidiu investir.
Pra variar, jogou minha espada longe. Mal percebi quando ele tinha me imobilizado, ficando às minhas costas, passando as mãos por meus ombros e me ameaçando com a espada na parte frontal de meu pescoço.
– Regra número três – sussurrou em meu ouvido. – Nunca fique de costas para o oponente.
Engoli em seco. Já estava ficando cansado daquele treinamento.
Ele me soltou, e pude massagear meus próprios ombros.
– Por que eu tenho que treinar, mesmo? – perguntei.
– Agora você faz parte do Acampamento – respondeu-me. – Deveria se sentir lisonjeado.
– Mas não me sinto. Será que podemos descansar um pouco? Tomar água, sei lá. Estou praticamente morto.
Ele sorriu, sedutor.
– Claro – disse.
E fomos até o banheiro da arena. Lavei o rosto, enquanto observava o meu reflexo no espelho. Há quanto tempo não havia mais encarado meu próprio reflexo?
A verdade é que eu estava terrível. Meus cabelos escuros estavam bagunçados, enormes olheiras circundavam meus olhos, e eu estava mais magro e pálido do que nunca. Minha camiseta preta estava abarrotada, e meu jeans estava todo sujo de lama e todo tipo de coisa que possa sujar uma calça.
Olhando no espelho, vi que o reflexo de Perseus me encarava. Ele estava de braços cruzados, apoiado na porta da cabine sanitária. Sua espada estava no suporte preso na calça. Já ele estava em perfeito estado como nunca. Parecia ter adquirido uns três quilos em puros músculos.
Fechei minhas mãos em concha para tomar um pouco da água da torneira. Logo depois, saímos do banheiro e fomos em direção à arena, novamente.
Empunhei minha espada de bronze celestial pela milésima vez neste mesmo dia, e fui em direção a Perseus, enquanto ele ainda estava distraído.
Apontei a espada na direção de sua cabeça, mas ele se abaixou. Deu uma rasteira e eu caí quase que instantaneamente no chão. Ele ia fincar a espada em meu pescoço, mas acabou fincando-a no chão quando eu rolei para o outro lado. Levantei-me em um salto, vendo minha espada caída ao lado de Perseus. Dei uma cambalhota até ela, e fiz exatamente o que Percy havia feito comigo antes: o desarmei, fui às suas costas e segurei a espada na parte frontal de seu pescoço.
– Regra número quatro – eu sussurrei em seu ouvido, como ele fizera comigo. – Jamais deixe o oponente distrair você.
Ele ergueu as mãos, como sinal de rendição. Depois, sorriu.
– Ou sou um ótimo professor – disse –, ou você é um ótimo aluno.
Tirei a espada de seu pescoço e sorri, mesmo que ele não pudesse ver.
– Acho que a opção correta é a segunda – falei.
Ele estava de costas, mas soube que estava sorrindo novamente.
Virou-se para mim, depois de transformar Contracorrente em caneta e guarda-la no bolso. Estendeu a mão, pedindo para que eu lhe entregasse minha espada para ele a pôr de volta no arsenal.
– Acho que chega de treinamento por hoje – disse.
– Concordo – falei.
Então fomos em direção aos chalés. Mas Percy mudou a direção, de uma hora para outra. Agora estávamos indo para os Campos.
– Preciso te mostrar uma coisa – ele disse, apenas.
Quando chegamos, sentei-me no banco, ligeiramente ao seu lado, enquanto ele tirava algo do bolso. Era um pedaço de papel que estava meio dobrado, meio amassado. Enquanto o desdobrava, disse-me:
– Quero que seja sincero, ok? – olhou para as montanhas ao longe. O rio, a baía, as árvores e os pássaros. Depois, sem olhar para mim, entregou-me o papel, que dobrara novamente. Estava levemente corado, e esperava ansioso minha reação.
Era um desenho. Para ser sincero, o mais bonito que eu já havia visto.
Nele havia o banco em que estávamos sentados e a paisagem à nossa frente. Havia, de costas, um garoto sentado no banco, também.
Era eu.
Olhei para ele, confuso.
– Eu te vi sentado aqui, outro dia – explicou. – Estava vindo para cá para ficar olhando as montanhas, exatamente como você estava fazendo. Decidi não atrapalhar. Só... tentei guardar a cena na minha mente. Cheguei ao chalé e comecei a desenhar.
Olhei dele para o desenho. Do desenho para ele.
– É... incrível – eu disse. E era mesmo. Incrível.
Ele sorriu, um pouco tímido.
– Obrigado.
Depois de uma grande parcela de tempo, ainda estávamos lá, no mesmo lugar. O sol se pôs no horizonte, e nós divagámos em nossos próprios pensamentos, em silêncio.
– Percy... – eu falei. Arregalei os olhos, pois não queria dizer nada, na verdade. Por que eu o havia chamado?
– O que foi? – olhou para mim. A cor verde de seus olhos continuava forte, mesmo com o crepúsculo transformando tudo em preto e branco.
Engoli em seco. Não podia voltar atrás.
– Você... é um grande amigo meu. Sabe coisas que eu nunca tinha contado para ninguém... mas eu não aguento mais.
Ele franziu a testa.
– Como assim? Olha, se não quiser minha companhia...
– Não, não é isso – o interrompi. – É só que... não consigo. O que sinto é mais forte do que aquilo que permito a mim mesmo sentir. Não aguento mais, Perseus. Esconder tudo, viver nas sombras. Fingir ser quem não sou.
Involuntariamente, senti lágrimas salgadas escorrendo por meu rosto. Não fiz menção de secá-las.
Perseus estava aparentemente confuso. Triste por mim também, talvez. Sem saber o que fazer.
– Não... não entendo...
– Acho que não há nada a entender. – virei-me para ele, torcendo mentalmente para que aquela não fosse a pior decisão que eu já tomara em toda minha vida. – Não consigo olhar para você sabendo que você tem Annabeth. Não consigo olhar para você sabendo que você só me vê como amigo. Não consigo olhar para você como amigo. Não consigo olhar para você... –minha voz falhou. – Não consigo... aceitar o fato que eu jamais significarei algo a mais do que quero significar, Percy.
Ele suspirou, em choque. Seu queixo caiu. Ele estava começando a entender.
De repente, eu já não consegui me controlar. Puxei com força a gola de sua camiseta e o beijei. Agora, o sabor da água salgada estava em evidência, não havendo álcool para mascará-lo. Ele não recuou, mas pude perceber que tardou em fechar os olhos, pois estava em choque. Acariciou meus cabelos e passou a mão livre em minhas costas. Aproximou-se ainda mais de mim. Logo passou sua mão por debaixo de minha camiseta, e foi aí que decidi parar. Havia me deixado sem dizer sequer uma única palavra outro dia, por que eu não poderia fazer o mesmo quando o clima já começou a esquentar?
– Desculpe-me – eu disse. Logo depois, levantei-me e fui andando em direção a qualquer lugar, desde que ficasse longe dali. O vento estava uivando, e a temperatura já havia diminuído.
Exatamente como pensei, ele não me seguiu. Sentei-me à sombra das árvores que formavam a floresta do Acampamento, tornando a noite ainda mais escura, ao obstruir a luz da lua. Senti uma força dominando-me. Em um segundo depois, senti como se meu corpo tivesse se transformado em pó. Eu estava flutuando, voando, tal como uma nuvem. Consegui guiar-me pela escuridão, visualizando a imagem do local onde era realizada a Fogueira. Era para lá que eu pretendia ir.
Abrindo os olhos, vi que estava realmente lá. A fogueira estava acesa, e algumas pessoas estavam ao redor dela, comendo marshmallows. Entre elas, havia Quíron, que acabou deixando seu marshmallow cair no fogo. Ao olharem para mim, todos se curvaram. Havia uma estranha luz vermelha pairando pelo local, misturada por outra negra, que juntas mais pareciam trevas engolindo a luz. A fogueira passava da cor roxa para o azul e um vermelho brilhante, cada qual simbolizando o humor das pessoas ao seu redor: medo, admiração, surpresa.
– Saúdam-no – disse Quíron. – Filho de Hades, romano Plutão. Deus das trevas, dos mortos e do mundo inferior. O Elmo das Trevas coroa a cabeça de Nico di Angelo.
Ao longe, vi Perseus, que corria em minha direção. Parou ao ver a luz que havia acima de minha cabeça. Olhando para o alto, notei um elmo de batalha negro, com uma luz vermelha circundando-o. Parecia feito exclusiva e unicamente de luz, magia.
Percy deu um sorrisinho confuso e se curvou também.
A luz desapareceu.
– Seja bem-vindo – continuou Quíron, agora levantando-se. – Nico di Angelo, filho de Hades.
Mas não prestei atenção. Estava observando Perseus, seus olhos verdes e seu sorriso sedutor. Sorri de volta.
– Obrigado – disse, mais para Percy do que para Quíron.
Agradeci por ele não ter simplesmente corrido para longe de mim.
Agradeci por ter ido atrás de mim.
Agradeci por ser a primeira pessoa que me aceitou do jeito que sou.
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