Something Wrong - Pernico
13 Capítulo 12
Notas iniciais
POV PERCY
Eu não fazia ideia do tempo que passamos caminhando. Talvez o tempo nas profundezas do Tártaro não passasse como na superfície... talvez eu já estivesse velho àquelas horas, caso estivesse na crosta terrestre.
Eu precisava de água, comida. Qualquer coisa. Minhas pernas estavam bambas, e eu mal conseguia sustentar-me de pé sem ficar trêmulo.
Olhando para meus companheiros, percebi que eu não era o único: Rachel continuava com uma espécie de névoa verde ao seu redor. Talvez isso conferisse um pouco de força para ela, mas naquele momento não era isso que estava acontecendo; Annabeth estava com olheiras profundas, como se parecesse ter ficado sem dormir por uns dois dias diretos; Jason e Piper estavam apoiando-se um no outro, procurando no companheiro as forças que não tinham – mas nenhum dos dois tinha real força. Parecíamos zumbis, e eu acho que poderíamos facilmente nos passar por monstros, caso quiséssemos enganar algum deus idiota.
Além dos campistas, Sr. D, Quíron e os Pôneis de Festa nos acompanhavam. Alguns sátiros também estavam ali... mas eu não havia visto Grover em lugar algum.
O meu único pensamento era encontrar Nico e sair dali o mais cedo que conseguisse. Eu não precisava ser um Oráculo como a Rachel para prever que muitas pessoas do nosso grupo jamais voltariam para o Acampamento.
Eu estava prestes a desmaiar, quando ouvimos um grito e nos obrigamos a parar por um instante. Todos nos viramos na direção do som, mas não vimos quem gritou, até que uma filha de Afrodite correu até mim, desesperada.
– Era a Jenny! Meus deuses, alguma coisa levou ela! – ela começou a chorar. – A gente precisa ajudar ela! ELA NÃO PODE MORRER!
Nesse momento, a garota loira estava ajoelhada no chão. Lentamente, ela levantou seu rosto e olhou para mim, com suas bochechas molhadas pelas lágrimas. E gritou, quase tanto quanto sua amiga.
Olhei para trás, assustado, e vi uma mulher. O tipo de garota que você vê quando assiste filmes de terror-colegial: bonita, alta, com roupa de líder de torcida. O problema era a roupa manchada de sangue e a adaga que seus dedos giravam.
– Olá, gostosão – disse ela, com um sorriso malicioso, e passou a língua por seus lábios sujos de sangue. – O que faz por aqui? É um lugar perigoso – sussurrou como se temesse que alguém a ouvisse. Então riu. Quando se aproximou de mim, puxei Contracorrente do bolso. Ela franziu a testa e fez beicinho, como se fingisse estar com medo. – Quer me matar? Pois tente!
Ela deu o sorriso mais irônico possível, e mostrou suas presas. Seus caninos eram anormalmente pontiagudos.
– Bem-vindos ao Tártaro! – ela gritou. – Onde seus deuses não podem lhes ajudar.
Como ouvindo a um chamado, mais líderes de torcida macabras apareceram pra festa.
– A não ser que um deles esteja no próprio Tártaro, certo? – alguém falou às minhas costas. Então, Sr. D apareceu à dianteira do grupo. – Acho melhor calar a boca, mocinha.
A líder do grupo dos monstros (que eu passei a chamar de Dentinho) riu.
– É essa a arma secreta de vocês? Um velho barrigudo que, óh, faz crescer videiras? Estou com medo! Me ajudem, por favor!
Todas as garotas riram.
– Não te ensinaram a ter respeito com os mais velhos? – subitamente, videiras começaram a crescer do solo ressecado do Tártaro e prender as líderes de torcida. – Não que eu seja velho, claro. Estou na flor da idade... só estava fazendo uma espécie de, hã, suposição. Acho que é essa a palavra. – ele bocejou. – Peter Johnson, dê cabo nelas. Ande logo, isso está me dando sono.
– Percy Jackson – resmunguei. Então, tirei a tampa de minha caneta que rapidamente se transformou em espada, e fui ao encontro das garotas que tentavam morder as videiras a fim de se soltarem. Cortei a cabeça de cada uma, e Icor dourado, o sangue dos deuses e monstros, jorrou do pescoço delas. Rapidamente, elas se transformaram em pó, e as plantas também.
Isso está fácil demais, pensei.
Olhei para Sr. D, a fim de agradecer. Ele segurava a própria barriga com as duas mãos, e notei que um líquido dourado escorria por seus dedos.
– Senhor... D? – chamei.
Ele ergueu a cabeça e olhou para mim, revirando os olhos.
– Vampiras... sempre tão inconvenientes. O que está olhando, garoto?
– Você... está ferido.
– Elas morderam as videiras – disse Annabeth, pensativa. – E o senhor foi afetado. – concluiu. – O Tártaro joga nossos próprios poderes contra nós mesmos.
Jake, um filho de Apolo, correu para socorrer o deus do vinho. Estendeu suas mãos na direção do machucado, e o Icor parou de escorrer. Dioniso havia sido curado. Mas o garoto gemeu de dor, e olhou para suas próprias mãos. Annabeth foi ao encontro dele.
– Queimadas! – ela disse, horrorizada. – Nossos poderes... só pioram as coisas. Por favor, alguém tem alguma coisa que sirva para enfaixar as mãos dele? Por favor!
O garoto continuava gemendo, e algumas lágrimas escapavam de seus olhos. Algo me dizia que aquela não era uma queimadura convencional.
Quando ninguém se manifestou, tirei minha própria blusa e a rasguei, fazendo tiras de pano e as estendendo a Annabeth, que sorriu. Logo Jake estava com as mãos enfaixadas, enquanto as garotas olhavam para mim – principalmente Annabeth.
– Não acredito! – disse Dioniso, claramente irritado. – Temos uma campista que desapareceu bem na nossa frente e que provavelmente está morta – nesse instante, a amiga da tal Jenny começou a chorar –, três deuses em perigo e mais dois campistas que provavelmente também serão mortos. E vocês ficam olhando pra porra do abdômen dele?! E vocês – apontou para alguns casaizinhos que estavam abraçados –, que ficam abraçadinhos e sussurrando no ouvido um do outro que ai, eu te amo, como se isso fosse um filme de romance! Pelo amor de todos os deuses, o Caos está se instalando no mundo e vocês ficam de frescura?! Quer saber, estou cansado.
Então, depois de seu monólogo, ele surpreendentemente tirou a própria camisa. Todos ficaram olhando, assustados, enquanto as filhas de Afrodite cochichavam Mas que horror!.
– O que foi? Eu não vou fazer strip-tease! Calem a boca, suas frescas. – e estendeu a camisa para mim. – Vista isso, Peter. Ou vou te tacar no primeiro penhasco que aparecer nessa droga de lugar, por ter que ficar olhando para você assim, seminu.
Vesti a camisa rapidamente, e começamos a andar, agora com Sr. D na dianteira. Por algum motivo, ele parecia conhecer o caminho.
Depois do que pareceram éons, ele parou de supetão. Virou-se para nós e colocou o indicador em seus lábios, indicando silêncio.
– É aqui – sussurrou, e voltou seu olhar para além de onde podíamos ver. – Eles estão aqui. Nicolas, Perséfone e Deméter e... não pode ser.
De repente, ele correu para trás de uma grande parede rochosa, que ia quase até o teto da caverna onde nos encontrávamos. Todos o seguimos. Olhou além da enorme pedra, e logo voltou seu olhar preocupado para nós.
– É o seguinte – ele disse. – A gente chega e pá neles.
Todos franziram a testa.
– Ahn... se me permite dizer – pediu Annabeth –, precisamos de uma estratégia. Seja lá o que esteja em nossa frente nesse exato momento, não deve ser fácil de vencer. Certo?
– Aliás... que tipo de ser está ali? – sussurrei.
Dioniso olhou para mim, sério.
– O tipo de ser que me deu essa cicatriz. – e virou as costas, mostrando uma cicatriz que vinha desde os ombros e desaparecia por dentro da calça.
– Deuses têm cicatrizes?
Annabeth revirou os olhos.
– Só... cale a boca, Perseus. Estou pensando. – disse ela.
Fui até Dioniso, desesperado.
– Nico está ali? E Leo? – pedi.
Ele suspirou.
– Nico... sim, está. Mas daqui a pouco não estará mais se essa maldita filha de Atena não me deixar simplesmente libertar Hades.
– Hades? – minha boca se abriu um pouco. Libertar Hades? – Ele...
Fui interrompido por um grito agonizante. Meu coração acelerou.
Nico.
Saí correndo, sem sequer pensar em qualquer consequência.
– NICO! – gritei, ao vê-lo aos pés de... Leo?
– Ora, ora! Veja quem chegou para a festa. – Leo sorriu. – Perseus! Bem-vindo.
Seus olhos estavam vermelhos, e tremulavam como o fogo. A visão era aterrorizante. Aquele não era o Leo que eu conhecia... não podia ser.
Ele segurava uma espada negra e a apontava para Nico. Mais alguns centímetros ou até mesmo milímetros, a ponta da arma estaria perfurando o pescoço de di Angelo.
– Valdez... larga essa espada. Não faça isso, por favor. Não... não queremos ser seus inimigos.
Ele riu.
– Queremos? Você e mais quem?
– Nós – gritou Annabeth, finalmente revelando-se. Atrás dela, todos os campistas, centauros e seres que estavam conosco apareceram em minha visão.
Pela primeira vez, Leo mostrou-se preocupado.
– Vocês não podem nos deter. – disse ele, trêmulo. – Por mais que eu não goste de admitir, há algo maior que eu por trás disso tudo... vocês perderão. A Escuridão tomará conta de tudo.
– Será que ninguém lhe ensinou, Valdez – disse Annabeth, firme – que as Trevas são apenas a ausência da Luz? Enquanto a Luz existir, as Trevas jamais vencerão!
– Está enganada! – gritou ele, em resposta. – Ataquem-nos!
Rapidamente, seres de todas as formas e tamanhos surgiram das trevas, e partiram para cima de nós.
Saquei Contracorrente, e tentei matar alguns seres alados. Mas, quanto mais atingidos eles eram, parecia que mais fortes ficavam.
– Não está adiantando! – alguém gritou o óbvio.
– Eu sei, porra! – respondi. – Annabeth, essa é uma ótima hora para alguma ideia brilhante!
– Não tenho nenhuma – ela quase sussurrou. – Nós vamos morrer.
Então, começou a rezar baixinho aos deuses, enquanto matava, com sua adaga, seres que seriam duendes se não fossem tão demoníacos.
Mantinha meus olhos em Nico, até então. Leo ainda segurava a espada em frente ao pescoço de di Angelo. Então, em um momento de desespero, sua imagem se perdeu na multidão.
– NICO!
Corri até ele, não ligando para os monstros. Mas, quando cheguei ao local onde ele estava anteriormente, não o encontrei. Havia apenas a escuridão.
Olhei para o nosso campo de batalha, e rapidamente vi Leo. Sangue escorria por seus cabelos encaracolados.
Ele estava atrás de Annabeth, agora com as mãos firmes em uma adaga. Ninguém notou sua presença, a não ser eu.
Ele, então, olhou para mim e sorriu maliciosamente.
E fincou a adaga nas costas de Annabeth.
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