Something Special
16 Capítulo 15
Notas iniciais
– O que aconteceu aqui?Senhora?Nós precisamos saber o que aconteceu aqui.Onde estavam seus filhos na hora do acidente?Senhora?A senhora conseguiu ver quem estava na lancha?Sabe onde estão os outros feridos?Seus filhos estavam na lancha?
Os paramédicos chamavam Regina mas ela não respondia.Continuava parada,o olhar fixo nos escombros do píer.Abraçava o próprio corpo,não se importando em sujá-lo de sangue.Para ser mais específica,ela do alto de sua loucura momentânea,sussurrava coisas como "Você não pode me deixar.Era pra você ser o meu milagre.Você é o meu milagre." mas nunca conseguia completar seus pensamentos,pois sempre que pensava na palavra milagre,todo o acidente passava na sua cabeça,como o filme mais demorado de todos os tempos.E ela chorava mais,não se importando se estava horrível,suja,descabelada ou ficando louca.
Milagre.Milagros.Tudo à volta da morena estava dormente.Não sentia mais seus olhos por conta das lágrimas.Via e não via o movimento a seu redor.Sentia e não sentia dor.Na verdade,já não sabia se ainda sentia alguma coisa."Meu milagre..."."Seu milagre?Seu milagre está morto.Os dois estão.Você não viu o sangue?Ninguém sobrevive àquilo.",uma voz em sua cabeça rebatia.
– Senhora,precisamos saber o que aconteceu.Precisamos que nos acompanhe até o hospital.Senhora...
– UMA EXPLOSÃO NO PÍER,SEU IDIOTA! — Regina explodiu — ACHA QUE ALGUÉM CALCULOU O QUE IA ACONTECER?MEUS FILHOS ESTAVAM LÁ,TODOS VIRAM!EU QUERO POR AS MÃOS NO BABACA QUE FEZ ISSO E VOCÊ AQUI ME PERGUNTANDO O QUE ACONTECEU? — o paramédico tinha um olhar assustado,assim como todos à sua volta — É BEM ÓBVIO NÃO É?OU VOCÊ ACHA QUE ISSO FOI UMA EXPLOSÃO MÁGICA?ALIENS TALVEZ? — ela estava transformada.Quem olhasse de longe,poderia achar que ela iria pular em cima do homem ou de qualquer um que se aproximasse e estrangular até a morte — MINHA FILHA FOI PEGAR A PORRA DE UM BALDE E ACABOU COM A PORRA DE UM METAL NAS COSTAS.MEU FILHO FOI TENTAR SALVÁ-LA E ADIVINHE?EU NÃO SEI SE ELE SE FOI TAMBÉM! — poderia estrangular não,Regina já tinha,sem perceber,uma das mãos em volta do pescoço do paramédico e o empurrava com força em direção à ambulância — SE VOCÊ É IDIOTA AO PONTO DE PRECISAR FAZER PERGUNTAS PARA ALGO TÃO ÓBVIO QUE ESTÁ NA SUA CARA,QUE ESPÉCIE DE PARAMÉDICO É VOCÊ?É BURRO?É MAIS IDIOTA DO QUE AQUELE QUE MATOU OS MEUS FILHOS?!
– Regina,solte-o!Agora! — Robin interveio ao se dar conta do que acontecia — REGINA CALMA,NOSSOS FILHOS VÃO FICAR BEM!
– BEM?VOCÊ É IDIOTA TAMBÉM? — gritou,nunca desviando o olhar do homem que tentava desesperadamente se desvencilhar de sua mão — VOCÊ VIU!SEM UM FIO DE RESPIRAÇÃO,O SANGUE... — ela começou a fraquejar,as lágrimas insistiam em cair e sua voz tremia.Robin nunca a tinha visto assim — A placa...
– Regina,por favor,calma... — o britânico se aproximava devagar,a voz embargada,lágrimas rolando soltas pelo rosto e tentava tirar a mão da ex-mulher do pescoço do paramédico — Vamos para o hospital,eles vão ficar bem...confie em mim...
Regina tremia,parecia alguém no meio de um surto psicótico.Com o olhar fixo em um ponto do areia,ela foi soltando devagar a mão."Não se engane.Se lembra?Estão mortos.",aquela voz insistiu e em um ímpeto pior do que o primeiro,ela berrou e voltou a apertar o paramédico,até que tudo à sua volta se tornou preto e ela não conseguiu distinguir mais nada.
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O cheiro forte de hospital despertou Robin.Ele estava sentado em uma cadeira dura,no que parecia ser uma pequena sala de espera,recostado na parede.Olhou para os lados e viu alguns de seus familiares ali também.Tentou se levantar mas um peso se mexeu em seu ombro,o impedindo de completar a ação.Regina dormia calmamente,tinha a expressão serena,diferente de antes.Sem querer acordá-la,ele se recostou novamente a cabeça na parede e retirou uma mecha de cabelo que caía no rosto da morena,colocando-a atrás da orelha.
A morena balbuciou alguma coisa e ele congelou,achando que tinha a acordado.Ficou um tempo parado observando a ex-mulher e,quando teve certeza de que ela ainda dormia,relaxou e fechou os olhos.Regina acordou segundos depois,respirando pesadamente,como se o ar estivesse sendo sugado de seus pulmões.
– Onde eu estou?Eu... — tentou se levantar mas uma forte dor de cabeça,seguida de tontura a acometeu — Wow,o que aconteceu? — disse,olhando em volta e,quando se deu conta de que estava em um hospital,flashes de horas antes lhe acometeram,fazendo com seu corpo todo se enrijecesse — Meu deus... — ela sussurrou e as lágrimas voltaram a cair,enquanto olhava em volta,apavorada
Emma,que estava sentada não muito longe,viu a cena,cutucou Robin e apontou.
– Ei... — ele disse,chegando pra frente na cadeira e afagando as costas da ex-mulher — Você está bem?
– Robin,o que aconteceu? — ao ver a expessão neutra do ex-marido,Regina levou uma das mãos à boca e fechou os olhos,apertando-os em seguida e deixando as lágrimas escorrerem — Não...
– Ei,ei,ei. — ele a chamou de novo,virou seu rosto para que pudesse enxergá-la melhor e retirou sua mão de cima da boca — Está tudo bem.Você teve um colapso nervoso e os paramédicos tiveram que te sedar na praia.Como você,mesmo estando grogue,continuou sendo cabeça dura,eles não te levaram pra um quarto e te deixaram aqui. — completou,secando as lágrimas da morena com o polegar
– Mas e... — Regina tinha medo de proferir o resto da sentença e perguntar pelos filhos.Não negava que ainda tinha uma ponta de esperança de que os dois estavam bem mas também não estava preparada para tomar um balde de água fria em toda aquela emoção que mantinha sua alma aquecida de algum modo,e ouvir que eles não faziam mais parte daquele mundo — Robin,e... — ela hesitava e ele sabia o que ela queria perguntar,porém não queria apressar nada:a morena iria saber quando quisesse e quando se sentisse firme e segura para tal.Ela então fechou os olhos,apertando-os mais uma vez e respirou fundo — Henry e...Milagros? — finalmente perguntou em uma tacada só.Sua voz se transformara em um fio e seu queixo tremia,indicando que ela choraria mais uma vez — Eles...
Robin não teve tempo de responder pois logo um grupo de enfermeiros passou correndo em direção ao longo corredor branco,desaparecendo no mesmo.Logo depois,um médico alto passou,também na mesma pressa.Ele foi em direção a um pequeno balcão e trocou algumas rápidas palavras com uma enfermeira,que logo lhe deu uma espécie de prancheta,enquanto outra enfermeira lhe ajudava a colocar uma espécie de jaleco por cima daquele que já usava.Esta também trocou algumas palavras com ele e voltou para a correria inicial,na direção do corredor.
– Alguém aqui que seja parente de Henry Daniel e Milagros Valentina? — ele disse rapidamente,correndo os olhos pela sala de espera e voltando os mesmos imediatamente para a prancheta
– Eles são nossos filhos! — Robin levantou,indo em direção ao médico,sendo seguido por Regina — Robin — e estendeu a mão ao médico que a aperto brevemente — E esta é Regina — completou,apresentando a morena
– Bem — ele rabiscou algo na prancheta — Eu sou o Dr. Whale e sou o responsável pelo caso dos dois.Vou explicar tudo rapidamente porque não podemos perder mais tempo. — ele suspirou e encarou Regina,que estava aflitava e esfregava uma mão na outra,por alguns segundos — Henry teve sorte,não houve nada tão grave assim.Apenas algumas escoriações,uma pancada leve na cabeça e um braço quebrado,talvez tenha destendido um músculo da perna também,não sabemos ao certo mas vamos averiguar quando ele acordar do repouso.
Ao ouvir aquilo,Robin soltou um suspiro pesado e abraçou a ex-mulher,que o apertou.Mas logo sentiu o corpo da mesma endurecer e ele sabia do que se tratava.O médico não tinha mencionado Milagros.Os dois se soltaram devagar e voltaram o olhar para Whale.
– E quanto...à minha... filha?... — a morena soltava as palavras devagar.Seu corpo inteiro tremia,sentia as mãos geladas.
– É sobre ela que eu falava quando mencionei que não podíamos perder mais tempo. — ele começou — Diferente de Henry,ela teve uma péssima sorte.Por estar no "centro" da colisão,seu corpo foi atirado longe na hora do acidente,foi um milagre ele não ter se partido ao meio,visto que segundo os paramédicos,algumas pessoas que viram o acidente de longe disseram ter visto a ponta da lancha bem na direção de onde Milagros estava.
– E...? — Úrsula se postou do outro lado da amiga,lhe segurando pelo braço pois sabia que aquilo tudo estava sendo demais
– Veja,ela sofreu múltiplas e severas escoriações.O sangue que saiu da cabeça dela,minutos depois do acidente,foi consequência de uma concussão grave. — ele hesitou continuar quando viu Regina abrir a boca,na expressão mais dolorosa que já tinha visto,e os olhos ficarem vermelhos e quase tampados pelas espessas lágrimas — A "placa" de metal que vocês viram na coluna dela,não é uma placa.É uma barra de ferro,que suspeitamos ser parte das ferragens da lancha,e bem,atravessou a região inferior da coluna dela,entrando pela lombar e parando um pouco acima do lado esquerdo da pélvis.
A respiração de todos na pequena sala parou,por segundos só a batida acelerada dos corações podia ser ouvida.
– Ela perdeu muito sangue e pode acabar desenvolvendo uma infecção aguda e talvez um caso irreversível se não tentarmos consertar isso a tempo. — ele disse alternando o olhar entre Robin e Regina
– E o que isso quer dizer? — Robin,que mais se segurava em Regina do que ela nele,saiu de seu transe e conseguiu perguntar
– Vamos levá-la agora para a sala de cirurgia,tentar estabilizá-la e remover a barra.
– E o que vai acontecer depois? — Úrsula perguntou
– Vejam bem,em casos como estes,se ela sair viva,já é uma vitória.Portanto,foquem no agora,que é o que estamos fazendo.
"Dr. Whale,sala de cirurgia.Dr. Whale,sala de cirurgia".Uma voz anunciou.
– Bem,eu tenho que ir agora. — uma enfermeira apareceu,informando que tudo já estava pronto.Ele foi em direção ao balcão,deixando a prancheta ali em cima.Antes de desaparecer no corredor,ele voltou e tomou as mãos de Regina — Tenha fé. — deu um sorriso fraco,apertando as mãos da morena e saindo às pressas em seguida
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As horas que se seguiram pareciam derreter e se arrastar no tempo,exatamente como em "A Persistência da Memória",de Salvador Dalí.Os únicos presentes na sala de espera naquele momento eram Regina,Robin,Úrsula e Emma;os outros haviam seguido para a casa da morena,a fim de conseguir algumas horas de sonos e para passar as informações aos demais.Eram quase 4:30 da manhã quando Whale surgiu no corredor,visivelmente cansado,tinha os olhos vermelhor e estava com olheiras.Tirou os óculos cirúrgicos e a touca,encarando a todos em seguida.
Quando viu Regina de supetão,primeiro do que todos,seu coração se espremeu no peito.Ele respirou fundo.
– C-como ela está?... — a morena tinha a voz fraca,quase um fio,os cabelos despenteados e o rosto trazia as marcas de lágrimas que havia chorado horas a fio
– Eu sinto muito. — Whale começou e viu Regina desabar em um choro compulsivo.Se não fosse por Robin,ela teria caído no chão — Fizemos o possível mas ela entrou em coma.
O ar da sala pesou com aquela informação,esmagando a todos os presentes.Regina enterrou a cabeça no peito de Robin e este no vão do pescoço da morena e os dois choraram,cada um à sua maneira.Úrsula e Emma se entreolharam e se abraçaram,chorando.
– Seu filho,Henry,já pode ir pra casa,eu já dei a autorização pra ele ser liberado.Como ele não sofreu muitas coisas,o tempo de observação requerido foi menor e não convém que ele fique aqui muito tempo por tão pouco. — Whale completou sua fala com pesar.Em dias como aquele,ele preferia nunca ter escolhido ser médico.O sofrimento das famílias era algo que não podia suportar.Como todos ficaram em silêncio ele continuou — Bem,eu preciso ir agora.Tenho uma cirurgia mais tarde e a noite foi longa.Eu deixei meu telefone na recepção caso haja algum problema com Henry ou alguma outra emergência. — Robin,que agora o encarava abraçado a Regina,assentiu — Se me dão licença...
– Podemos vê-la? — o médico que já estava abrindo a porta da sala foi surpreendido pela voz quase inaudível de Regina
– Ahn... claro,claro.Vou avisar à enfermeira pra vocês entrarem. — ele voltou à recepção,a moça que estava de plantão sorriu,discou um número e logo uma enfermeira apareceu.Whale lhe passou as informações e ela assentiu — Bem,eu preciso ir agora. — sorriu e se retirou
A enfermeira tocou o ombro de Regina que tinha o olhar fixo no chão.
– É por aqui. — apontou em direção à porta que Whale havia saído segundos antes e,quando viu todos vindo juntos,se pronunciou — Só uma pessoa é permitida na ala onde ela está.
– Enfermeira,por favor,não pode deixar que ela entre lá sozinha.Não desse jeito. — Úrsula intercedeu — Deixe que ele vá com ela. — a enfermeira assentiu e os três passaram pela porta
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O cheiro dos corredores parecia consumir a alma de Robin e Regina.Conforme andavam,seus corpos pesavam da forma que o único modo de tornar o momento mais brando,seria deixar que suas almas saíssem dali e voassem para longe.Ele a encarava e sentia vontade de desabar ali mesmo.Nunca a tinha visto assim,a dor era quase paupável e ela parecia menor do que o normal.Uma onde de tristeza o invadiu e ele sentiu vontade de gritar e deixar que as lágrimas caíssem mas sabia que tinha de ficar forte por ela.
– É aqui. — a enfermeira disse parando na frente de uma porta na metade do corredor.Com certeza ela deve ter dito mais coisas,porém nenhum dos dois prestou atenção pois tinham os olhos vidrados na maçaneta da porta. — Vocês tem 10 minutos,é o máximo que posso abrir a exceção. — foi tudo o que ouviram e a enfermeira se retirou
Robin viu Regina tremer.Uma lágrima escorreu por sua bochecha esquerda mas ele logo a limpou e posicionou sua mão na maçaneta.Fechou os olhos,tomando coragem e sentiu uma mão na sua abrindo a porta de supetão e empurrando a mesma rapidamente.Ele abriu os olhos e viu Regina fitando os pés da cama.Ela entrou a passos curtos no quarto e parou na metade do caminho.Ele ficou em alerta e correu ao seu encontro quando viu os joelhos dela fraquejarem ao lado da cama e um grito rouco deixar sua garganta.
Ele a apertou e deixou que ela se debatesse em seus braços,ali no chão do quarto.O choro deixara de ser compulsivo tempos atrás,agora era agonia pura.Regina chorava com o queixo apoiado em seu ombro e ele sabia que cada vez que a intensidade dos soluços aumentava,era porque ela estava olhando para a cama.Robin tinha medo de se virar e ver como a filha estava.Mas sabia que não podia permanecer daquele jeito por mais tempo.Então se virou.
E se arrependeu no momento em que o fez.Seu coração pareceu parar dentro do peito.Milagros estava ligada a vários aparelhos e tinha um tubo em sua boca.Estava branca,toda a cor morena como a da mãe não estava mais lá.Tinha uma grande atadura enrolada na cabeça,fazendo os cabelos negros parecerem um ninho de rato.Estava imóvel.Parecia dormir se não fosse pelo fato de que eles não poderiam acordá-la com brincadeiras e nem a veriam descabelada descendo as escadas,desesperada por estar atrasada,nem apressando Henry para... Henry.
De repente,Robin sentiu como se alguém observasse aquela cena.Ele se virou ,assim como Regina e viram Henry parado na porta.Ele olhava fixo pro leito e lágrimas cobriam seu rosto que tinha alguns curativos.
– Henry...
– Ei,menino,você não pode ficar aí — Robin ouviu um enfermeiro chamar o filho — Menino,está ouvindo? — ele ouviu a voz do rapaz se aproximando — Menino você...
– Não... — foi tudo o que o britânico ouviu Henry proferir,balançando a cabeça negativamente de uma maneira psicótica.As lágrimas encharcando seu rosto.E quando o enfermeiro estava perto,ele o empurrou e disparou correndo,quase arrebentando a porta que dava acesso à ala
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