Something In The Way
7 Capítulo 07 - Marionete
O relógio marca três e quinze da tarde, eu estou dirigindo em direção ao motel. No banco do passageiro, ao meu lado, está o arquivo do dono do carro. John Steel é o nome do dono do carro. Há uma alta probabilidade de o carro ser roubado, mas, ainda assim, é preciso tentar.
Quando paro o carro no estacionamento do motel, pego os papeis e saio. Entro no estabelecimento e passo pela recepção em silêncio. Subo as escadas sem encontrar ninguém e caminho pelo corredor, encontrando apenas uma mulher e seu filho pequeno, que me ignoram.
Entro no quarto e tranco a porta. Tiro o casaco e jogo sobre a cama. Deixei o aquecedor ligado, o inverno está vindo e o clima frio que permeia Chicago anuncia a sua chegada.
Sento sobre a cama e pego os papeis. Começo a ler, analisando os dados do provável sequestrador de Madison. No arquivo tem informações úteis, celular, nome completo, foto e o mais importante, endereço. Pela primeira vez me sinto confiante, mais esperto que ele. Tenho algo que ele não imagina, posso surpreendê-lo. Quando a noite cair, começarei a minha caça.
***
Eu gosto quando a noite cai, quando fica escuro, é quando posso andar sem ser visto, me esconder das pessoas. Ninguém me nota.
Estou dirigindo meu carro em direção à casa de John Steel, não fica muito longe. Minha pistola descansa sobre o banco ao lado do meu, e os papeis estão embaixo. Estou preparado para agir, pegá-lo de surpreso. Estou quase sorrindo, pela primeira vez estou um passo à frente dele.
Estou perto, vejo a placa que indica que estou na rua certa. Estaciono meu carro perto da esquina e pego a arma, colocando-a dentro da calça. Saio do carro e fecho a porta. Cruzo os braços por causa do frio e começo a caminhar pela calçada. Presto atenção em todas as casas, olhando os números. A casa de Steel é a de número 1205.
Quando vejo a residência, com um carro parado em frente, uma caminhonete preta, atravesso a rua e me escondo atrás do carro. Respiro fundo e olho para os lados, a rua está vazia.
Caminho pela lateral da casa, embaixo de algumas árvores. Estou no escuro, quase invisível para quem está dentro da casa.
Olho pela janela, ele está na sala, pelo menos acredito que seja ele. Neste momento uma raiva incontrolável me sobe à cabeça. Estou olhando para o sequestrador da minha filha. Ele aparenta estar entre os 30 e 40 anos e está acima do peso. Não é careca, mas os cabelos na parte de cima da cabeça já se foram. Lá está ele, sentado, assistindo TV.
Eu poderia pegar minha arma e atirar daqui, bem no meio da testa dele.
Uma mulher chega com um balde de pipocas na mão e se senta ao lado dele. Os dois parecem felizes. Mal sabe ela que seu marido é um sequestrador de crianças. Talvez não seja ele.
Eu não me importo em ser visto, preciso bater na porta e ver a reação dele ao me ver. Preciso ter certeza de que é ele.
Saio da escuridão e caminho até a porta da frente. Bato três vezes. A mulher me atende. Daqui posso vê-lo. Ele se vira para me ver.
– Em que posso ajudá-lo? – Pergunta ela.
Olho diretamente para ele, com fúria no olhar. Ele acha estranho.
Percebo um ponto vermelho em sua testa, um tipo de laser. Uma mira. Ele está na mira de alguém.
Minha expressão de raiva se torna medo. Não sei o que fazer. Antes que pudesse fazer algo, ouvi o disparo. A cabeça do homem foi lançada violentamente para trás. O sangue voou para todos os lados. A mulher demora um pouco para entender, mas logo corre para o marido aos berros.
Corro para a lateral da casa e vejo o atirador, como um ninja nas sombras, correndo. Corro atrás dele, rapidamente, pela lateral da casa. Ele pula o pequeno muro e logo em seguida, eu também. Ele parece tomar vantagem, eu não corro muito bem.
Estou correndo pelo beco entre duas outras casas. Ele está no final. Meu celular começa a vibrar e tocar alto. Eu não vejo um cano no chão e tropeço, caindo violentamente no chão de cimento. Sinto meus joelhos e mãos arranharem. Observo um assassino fugir livremente, sem poder alcançá-lo. Está cada vez mais longe. Me levanto e pego o celular, que ainda toca. Atendo.
– Alô?
– Parece que você recebeu informações erradas.
Ele sabia. Eu pensei que estava um passo à frente, mas ele sempre sabe mais. Ele já sabia.
– A sensação de estar à minha frente foi boa, mas era uma ilusão.
– Seu desgraçado, eu vou te pegar e é melhor você rezar para que isso aconteça! – Começo a gritar histericamente, fazendo um grupo de adolescentes que passava pela calçada se assustar. Ainda estou no beco escuro.
– Edward, poupe seus esforços, eu sou tudo e todos nesta cidade, tenho ouvidos em todos os lugares, pode-se dizer que sou onipresente. Olha só, eu sou Deus – Ele ri, irônico. – E agora você volta para a estaca zero, de onde não vai conseguir sair nunca.
– Quem era esse homem?
– John Steele? Apenas um homem.
– Mas ele tinha o carro que sequestrou minha filha.
– Tinha mesmo?
Fico em silêncio e percebo que eu nunca vi o carro, na verdade.
– Você viu o carro que levou sua filha?
– Eu tenho testemunhas.
– Não, você tem uma testemunha e parece que ela não é lá tão confiável.
Ele sabe sobre Larry. Ele sabe de tudo, como pode?
– Eu atualizaria sua lista de pessoas em quem confia, Edward.
Esta é a última frase que ele diz, pois desliga o celular em seguida e eu fico frustrado novamente. De volta à estaca zero.
Já sei qual será meu próximo destino.
***
Paro o carro rapidamente em frente à casa de Larry. Saio e corro para a porta, não preciso esperar nem 10 segundos depois de bater, ele abre prontamente.
Vou entrando logo, furioso.
– Seu desgraçado! – Digo.
– O que houve?
– John Steel era inocente e eu acho que você sabia!
– Não, eu não sabia, é óbvio que ele poderia não ser o culpado, mas eu não sabia.
– Mas eu vi o carro lá, não foi roubado, era dele, não tinha como não ser ele a pessoa quem veio aqui.
– Então você acha que eu dei a informação errada de propósito?
– Parece a opção mais plausível, não acha?
– Eu não fiz isso!
– Então como você me explica isso? Aliás, como o sequestrador sabia que eu estava indo procurar John Steele?
– Ele sabia?
– Sim, ele ligou para mim, havia um capanga dele lá, sei lá.
– O que houve na casa de Steele?
– Ele foi morto.
– Você o matou?
– Não, é claro que não, foi o capanga! Eu corri atrás dele, mas não consegui alcançá-lo.
– Olha, eu posso te garantir que não fiz isso, não sei como ele pode ter descoberto, mas não fui, eu estou do seu lado, você sabe... Não confia em mim?
Eu suspirei. É claro que confiava.
– Me desculpa.
– Não precisa se desculpar, essa foi uma jogada inteligente, ele é mais poderoso do que pensávamos.
– O que faremos agora?
– Eu não sei.
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