Something In The Way

4 Capítulo 04 - Estaca Zero


Estou em um corredor de hotel vazio. Não sei para onde vou, mas parece que estou fora mim, um mero observador do meu próprio corpo. Entro no quarto e as luzes estão apagadas. A iluminação fica por conta das velas espalhadas pelo local.

Há um homem sentado na cama, descamisado.

– Até que enfim você chegou – Diz ele, levantando-se para me abraçar. Em seguida, me beija na boca. Não consigo sentir, é como se estivesse fora de tudo. Não pode ser eu, eu não faria tamanha imundície, seria punido pelas leis de Deus. Não consigo parar, estou preso.

Ele me deita suavemente na cama e começa a desabotoar minha camisa, beijando meu abdômen até chegar à calça.

– Como foi seu dia? – Pergunta, enquanto a desabotoa.

Abruptamente, levanto-me da cama e estou sozinho, em casa. Foi um sonho, um pesadelo. Não consigo entender o porquê de ter sonhado aquilo. Olho o relógio na parede. São sete e meia da manhã. Minha cabeça dói como nunca doeu, aparentemente bebi demais. Não consigo lembrar de muita coisa, mas sei bem o que fiz. Eu prometi a Madison que nunca mais a deixaria me ver bêbado. Ela não está vendo.

Abaixo a cabeça, pensando nas últimas horas. Já faz um dia que ela sumiu e parece que não a vejo há anos. Eu descobri da pior forma como seria minha vida sem as duas pessoas que amo. Não posso ter Carol de volta, mas Madison ainda está viva e esperando que eu vá salvá-la.

Um barulho de vidro quebrando tira minha concentração. Foi na cozinha.

Saio da cama e do quarto, passando pelo corredor. Chego à cozinha andando devagar, com medo de encontrar alguém. Não há ninguém, apenas um gato e um copo quebrado. A janela está aberta, então assusto-o até ele sair. Em seguida a fecho. Não me lembro de ter deixado essa janela aberta, mas também não me surpreenderia que o tivesse feito, estava tão bêbado que poderia apenas cair em algum lugar e dormir até a manhã chegar, como já fiz algumas vezes.

Estou com sede, por isso pego um copo dentro do armário, tiro uma garrafa da geladeira e começo a despejar o líquido cristalino no copo. Eu desejaria que fosse álcool, pois entorpecido é o único jeito que eu esqueço que estou sozinho.

Começo a beber a água gelada, mas me assusto com batidas na porta, deixando cair um pouco dela no chão. Coloco o copo sobre a pia e vou atender. A pessoa parece apressada, pois bate repetidas vezes em intervalos de tempo muito curtos.

Abro a porta lentamente e olho quem é. É aquele homem novamente, o que começa a me deixar perturbado. Estava vestindo o mesmo sobretudo preto de antes.

– Sem querer ser rude, mas o que você quer comigo? – Pergunto eu, sem rodeios.

– Eles estão vindo atrás de você – Responde ele, pegando um cigarro do seu maço em seu bolso – Tem um isqueiro?

– Não.

Ele guarda o cigarro no maço novamente e eu fico confuso por seu aviso.

– Quem está vindo?

– A polícia.

– Eles encontraram minha filha? – Por um momento, uma chama de esperança cresce dentro de mim, mas logo é apagada pela resposta que o homem me dá.

– Não, mas acharam o homem que você assassinou.

Um calafrio percorre minha espinha. Ele sabe.

– Do que você está falando? – Tento fingir que não estou nervoso, mas parece impossível.

– Nós dois sabemos do que eu estou falando, o homem que você assassinou na Rua Steinfield.

– Por favor, entre – Digo, saindo do caminho.

Ele obedece e entra, eu olho para ver se não havia alguém por perto ouvindo a conversa e fico aliviado por perceber que não. Fecho a porta atrás de mim.

– Você me deu a informação errada – Digo.

– Não, você pegou o cara errado, por que o matou, Edward?

– Como você sabe o meu nome?

– Eu tenho informantes.

– Quem é você, afinal, como me achou e por que quer me ajudar?

– Eu sei o que você está passando, também perdi minha filha, isso foi há seis anos, ela desapareceu e nunca mais voltou.

– Eu sinto muito.

– Obrigado.

– Mas isso não responde como você me achou.

– Eu moro a duas residências daqui – Diz ele, sorrindo – Você deveria conhecer seus vizinhos.

– Ah – Fico sem palavras, minha desconfiança diminui um pouco.

– Eu vi seu desespero quando procurou ela, resolvi ajudar porque realmente vi alguém pegando sua filha e não era o cara que você matou.

– Para de dizer isso.

– Não é verdade?

– Não importa, como você sabe que não era ele?

– Eu vi o carro, era outro modelo.

– Eu estou de volta à estaca zero.

– Sem pistas e com um corpo na bagagem.

– Foi um acidente.

– Não importa se foi ou não, o que interessa é que a polícia já sabe que foi você e está vindo para cá, sugiro que saia imediatamente.

– E para onde eu vou?

– Não sei, para um motel, para a casa de algum familiar, só suma por algum tempo.

– Eu preciso achá-la, e é difícil sem a ajuda da polícia.

– Bem, você perdeu a ajuda dela... Eles definitivamente vão continuar a procurar a sua filha, mas também procurarão você.

Não sei o que fazer, estou com medo, muito medo. Me tornei um fugitivo da polícia, quem deveria me ajudar a encontrar Madison. Se aquele homem está falando a verdade, preciso sair agora. Corro para meu quarto e pego um envelope com dinheiro na primeira gaveta do criado-mudo e também minha carteira. Volto para a sala e pego as chaves da casa e do carro.

– Obrigado pela informação, Sr...

– Martin, Larry Martin.

Saio de casa, junto a ele.

– Eu ficarei por perto, se ela voltar – Diz ele – Não se preocupe... E também não vou te denunciar, sei o que está passando.

– Eu não sei como agradecer.

Nós dois saímos da casa e tomamos caminhos diferentes. Ele caminha pela calçada com as mãos no bolso e eu entro em meu carro. Ainda não consigo confiar naquele homem e nem mesmo entendê-lo, mas se for verdade, eu não sei o que pode acontecer.

Dou partida e começo a dirigir, não sei para onde.

***

Em uma lanchonete vazia, sento-me na última mesa. Há uma porção de batatas fritas e um copo de refrigerante na minha frente. Meu maior medo é de ser encontrado pela polícia. Não posso lidar com isso agora, talvez depois que encontrar minha filha. Confrontá-los e pagar pelo que fiz mais parece inevitável.

Achar Madison acaba de ficar mais difícil, e eu não tenho pista a seguir.