Something Between Us
1 One-shot
Notas iniciais
Aoi havia desabituado com o trabalho exaustivo de um dia de serviço. Pelo período que ficara como “prisioneira” em Orio-ya, a fama de seu restaurante não havia diminuído em nenhum momento. Pelo contrário. Seu humilde estabelecimento acabou por se tornar ainda mais famoso pelo misterioso “fechamento” temporário. Isso resultou em dias extremamente exaustivos de trabalho dobrado e com o prolongamento do expediente. Agora, Tenjin-ya tinha uma nova estrela em seus negócios e ninguém contava com tanta popularidade. Byakuya estava assombrado com a renda que aquele pequeno estabelecimento estava ganhando a cada dia. Desse modo, Aoi teria o dinheiro para até mesmo quitar a dívida que seu avô havia criado, mesmo não sentindo a devida necessidade de quitá-la.
Novamente, Aoi se despedia dos últimos clientes daquela noite. O casal de garças se retirou do recinto com um satisfatório sorriso em seus rostos, demonstrando toda realização sentida desde sua entrada naquele restaurante. Vendo a felicidade daquele casal se distanciando em caminho aos quartos da pousada, Aoi não conseguia esconder sua própria felicidade. Esta acaba por apoiar o corpo cansado contra o batente da porta de madeira, permitindo que seus músculos pudessem aproveitar aquele contato, mesmo que duro, da estrutura. Em seus lábios, o sorriso contornava sua face, deixando que seu rosto ocultasse durante este ato um pouco dos exaustivos dias que sofria. Logo, um longo suspiro abandonou sua boca, ganhando certa sonoridade pela noite silenciosa. O céu mantinha-se limpo, revelando a todos a beleza única e inigualável das estrelas. A lua não se fazia presente naquela noite, deixando assim que apenas os pequenos e cintilantes pontos iluminassem a escuridão. Os olhos lilases aos poucos perdiam seu brilho a medida que o casal se afastava, vislumbrando a luz das estrelas sob o véu noturno.
Não queria admitir, mas estava exausta. Seus músculos tremiam, sentia dores de cabeça, seu corpo suplicava por descanso, porém ela sabia que tinha trabalho a ser feito. Teria que fechar a loja, limpar a louça suja e facilitar o trabalho para seu “eu de amanhã”, mesmo sabendo que os dias corridos continuariam. Involuntariamente, a jovem permitiu que seus olhos se fechassem por alguns instantes, soltando mais uma vez um suspiro um tanto audível. Prestes a voltar a sua rotina e finalizar os preparos para o dia seguinte, seu corpo acabou por ceder, inconscientemente, ao cansaço, pisando em falso ao adentrar no aposento. A jovem assustou-se pelo próprio descuido e desejou profundamente que tivesse descansado mais naquela semana corrida. No entanto, diferente do chão duro que esperava sentir, sentiu o envolver de braços fortes, seguido pelo movimento rápido do tecido azulado do kimono de seu companheiro, que a encarava com preocupação. Era estranho. Mesmo cansada, sabia exatamente de quem era aquele contato. Era reconfortante, o calor daqueles braços que a envolviam com cuidado, como se fosse uma joia rara, sentindo o perfume de lírios.
— Senhorita Aoi, está bem? – era evidente a preocupação na voz do rapaz. Sabia que não devia, mas um pequeno sorriso aliviado brotou no rosto da humana, sentindo-se aliviada pela presença do parceiro. – Não se machucou?
— Não… Está tudo bem, senhor Ginji. – não havia um motivo real para se afastar. A jovem aproveitou o conforto daquele abraço desajeitado, repousando sua cabeça pesada e dolorida sobre o peito do rapaz à sua frente, sentindo sua mente esvaziar ao sentir o calor da kitsune.
Era quente, prezava o tempo que poderia ficar com Ginji ao seu lado, sentir os dedos longos afagarem seus cabelos, enquanto escutava os batimentos em seu peito, estranhamente a acalmando, como se fosse um analgésico. Porém sabia que não poderia ficar assim por muito tempo. Vacilante, Aoi endireitou-se, se afastando dos afagos do rapaz.
— Obrigada por ter me segurado. – sorriu em agradecimento.
— A senhorita anda cada vez mais cansada. – Ginji a fitou com preocupação, como se fosse o único capaz de entender o peso que aquela humana carregava ao administrar os afazeres da Dama da Noite. O azul celeste estava repleto de zelo e Aoi conseguia notar isso perfeitamente. Era extremamente agradável ser alvo de tal olhar. – Vá descansar. Eu me encarregarei de arrumar todo o resto.
Queria respondê-lo, mas sabia que seria inútil contrariá-lo. Com o passar dos meses, desde sua chegada ao Reino Oculto, a humana passou a compreender e conhecer melhor o rapaz. Todas suas falas e atitudes eram voltadas especialmente para seu próprio bem. Sabendo disso, a jovem tinha plena ciência que nada faria ele mudar de ideia ou conduta, mesmo se ela mesma o pedisse de todo coração. E, mesmo que a kitsune lhe ouvisse, ela, pela primeira vez, não tinha a menor intenção de relutar contra aquela proposta tão tentadora. Muitas vezes, perguntava-se se era digna de receber tamanho zelo, pois somente a presença da raposa já a acalmava em diversos níveis, como se fosse realmente o único momento em que ela podia ser ela mesma, voltando a ser a pequena criança de seu passado sombrio.
Calmamente, Aoi assentiu com a cabeça, deixando os afazeres às mãos do companheiro, seguindo em direção ao seu quarto em busca do devido descanso. Ginji a acompanhou com os olhos, certificando-se de que ela não cairia novamente. Felizmente, isso não aconteceu. Ao tempo em que Aoi deslizava a porta de seu recinto, era vez do rapaz soltar um suspiro, direcionando à cozinha em passos cuidadosos para não fazer barulho desnecessário naquele horário. Uma vez sozinho, as expressões de Ginji suavizaram, porém este mantinha um semblante triste, com as orelhas abaixadas em meio dos fios albinos.
Em diversos momentos, ele se sentia encurralado, não sabendo como agir perto da jovem. Desde que voltaram de Orio-ya, a jovem não parou em momento algum para descansar ao se tratar de seu trabalho como cozinheira na Dama da Noite, e era isso que o preocupava. Evitava deixá-la sozinha com youkai suspeitos, fazer todo trabalho sozinha e a repreendia pela sua insistência em querer cumprir todas as tarefas, mesmo que isso custasse seu precioso tempo para dormir. A jovem era gentil demais… Não apenas gentil como atenciosa e, em alguns momentos, esperta o suficiente para conseguir contornar as adversidades daquele mundo. Do mesmo modo como ela fascinava a muitos, ela era a total atração para a mente de Ginji. Contudo, não era apenas atração que o mesmo sentia por Aoi.
Jamais admitiria aquele atrevimento. O absurdo de desejar tomar posse de algo que era de seu mestre. Muito pelo contrário. Desejava a felicidade de ambos, mas principalmente de Aoi, que a cada dia se mostrava cheia de qualidades incontáveis. Tinha consciência de que o Rei Demônio a faria mais feliz do que qualquer outro youkai, inclusive dele próprio, e a daria a vida digna que merecia. Mas não seria por isso que Ginji deixaria de amá-la e admirá-la, mesmo sendo apenas um expectador de todos os seus feitos.
Após lavar pouco da louça que restava, este encarou sua mão, lembrando da sensação do corpo pequeno e delicado de Aoi, ao que acudira minutos antes. Mesmo tão frágil, ela continuava trilhando um caminho tão brilhante que era quase difícil alcançá-la, e isso lhe assustava. Ela estava tão perto, mas tão longe. Será que fazia seu trabalho direito? Era digno de resguardá-la, mesmo tendo dependido tanto de alguém que possui um período tão curto de vida? Em resposta de sua incerteza, o homem rapidamente contraiu os lábios, mordendo, em seguida, o inferior.
Terminado seu trabalho, dirigiu-se lentamente ao aposento da mesma, fitando de relance a pequena brecha do shoji que separava os cômodos, dando-se o luxo de obter a visão de seu rosto adormecido. Seu pequeno guardião adormecia ao lado de seu rosto no travesseiro, de maneira desajeitada, enquanto ela mostrava estar em estado de sono profundo, finalmente tendo o devido descanso que merecia. Engoliu em seco, admirando a fraca luz das estrelas invadirem a janela do cômodo, contrastando a pele albina da jovem e seus cabelos castanhos espalhados pela almofada, realçando os detalhes de seu rosto belo e delicado.
Sim, era errado amá-la. A amava desde os primórdios quando era uma pequena garotinha, necessitada de atenção e cheia de fome. Adorava quando comia a comida que fazia com gosto, quando elogiava a cada gentileza que fazia, a cada sorriso que recebia, a cada gesto que oferecia... Agora, uma das mais belas donzelas que conhecia, apaixonava-se por cada decisão tomada pela mesma. Tudo o que ela fazia era digno de orgulho, pelo bem que sempre defendia, pelas refeições que sempre fazia com carinho, trilhando sempre por um caminho brilhante, fora de alcance às mãos do rapaz.
E Ginji, mais uma vez, sentia-se isolado, um expectador. Nutria por uma atenção e um sentimento que jamais poderia obter. Sabia que o preço por aquilo que queria não existia. Seus sentimentos não eram válidos, não poderia pensar sobre isso. Por isso, iria cumprir os requisitos que seu mestre lhe deu. A protegeria nos momentos que estivesse distante, a apoiaria quando fosse preciso, a reconfortaria se sentisse sozinha. Seria sua mão direita se fosse preciso, até mesmo suas pernas ou escudo. Não precisava de mais nada… Apenas poder estar ao seu lado e trilhar o quanto fosse aquele caminho brilhante. Somente isso bastava, e era isso que pretendia executar… e, principalmente, acreditar.
A chuva caía violentamente sobre o telhado da velha estrutura. O frio se fazia presente de forma indesejada e incômoda, enquanto a jovem caminhava por um dos longos corredores da pousada em direção à Dama da Noite. Sua cabeça remoía em diversos pensamentos, caminhando a passos rápidos enquanto segurava certa quantidade de ervas medicinais contra envenenamento. Devia agradecer mais tarde ao Rei Demônio, por fornecer medicamentos tão difíceis de ser obtido tão rapidamente. O próprio estava preocupado com o Jovem Mestre, mas este mesmo não podia se fazer presente. Estava ocupado demais resolvendo os problemas da pousada e criando laços entre outros líderes fora de seu território.
Aoi não conseguia pensar direito. Estava nervosa, preocupada, com medo… Não sabia dizer qual dessas sensações esta estava sentindo em maior grau enquanto percorria outro longo corredor, mas tinha certeza de que queria ver a raposa o mais rápido possível. Esta fechou os olhos, lembrando dos momentos em que o companheiro demonstrava dor, deitado em seu leito, fingindo estar bem perto da jovem. Sabia que Ginji passava aquele tormento em seu lugar, mesmo ele negando sempre suas inegáveis suspeitas.
Tudo começou no dia anterior onde supostamente haveria uma reunião importante entre diversos líderes dos territórios do Reino Oculto. A celebração ocorreria justamente na pousada de Tenjin-ya, trazendo pressão e ansiedade entre os empregados. Pela grande fama da culinária de Aoi, ela fora encarregada de preparar um cardápio especial para ocasião, sendo convencida, logo após, pelo Rei demônio, de participar da reunião como sua noiva. Sabendo da teimosia de seu “mestre”, a jovem aceitou a proposta, sem imaginar que um futuro desastre aconteceria naquele dia.
Lembrou-se dos momentos em que estava animada com os preparos do cardápio, de como apresentaria e serviria para as entidades governantes, sentindo quase o mesmo nervosismo de quando preparou o banquete para o festival de Orio-ya. Não queria decepcionar seu mestre e nem os empregados da pousada, então se sentia orgulhosa ao ver que todos contavam com sua culinária. E era esperado de que ela não os decepcionaria.
No entanto, imprevistos aconteceram. A recepção dos convidados fora impecável, trazendo elogios e expressões de satisfação no rosto dos visitantes. Assim que os hóspedes foram guiados para o grande salão, as conversas paralelas e a degustação do excelente banquete se iniciou fervorosamente. Infelizmente, não eram todos os youkai que estavam contentes com a presença da jovem humana. Os olhares dos que abominavam os seres humanos eram intensos e incômodos àqueles que percebiam tão atmosfera. Para o senso dessas criaturas, os humanos não passavam de meras escórias que buscam de tudo para tentar sobreviver. Além disso, um ser humano habitar o Reino Oculto era símbolo de desgraça. Então eram muitos aqueles que olhavam a relação do Rei demônio com Aoi de forma negativa e, até mesmo, repulsiva. A comida da jovem poderia ser ótima e inigualável ao que eram habituados a comer diariamente, mas ainda assim Aoi não passava de uma humana. Um ser, na concepção deles, uma ser inferior.
E esse tipo de subestimação junto a crença preconceituosa gerou o acidente inesperado. A tentativa de envenenamento a jovem fora uma atitude muito baixa. Por mais que tenha sido arquitetada por um dos grandes youkai ali convidados. O malfeitor havia agido de forma autêntica, enganando a muitos durante o período do banquete. Não demorou muito para o homem se aproximar de Aoi e iniciar uma conversa agradável e elogiá-la pela excelente refeição que havia preparado para aquela noite. Entre as palavras gentis de ambos os lados, Ginji não pode deixar de manter seu olhar sobre os dois, mesmo que fora de alcance. Ele estava sendo novamente protetor com a jovem. E fora graças a sua distância que, sem que alguém pudesse responder, o youkai havia diluído algo nas bebidas que carregava e que futuramente serviria para a humana. O sorriso maléfico brotando sobre a face distorcida de vitória amargurou completamente tudo o que a raposa havia comido até então e o ódio passava a queimar em seu cerne. Ao que a jovem aceitara de bom grado a bebida fornecida, Ginji rapidamente se pôs perante aos dois, surpreendendo a ambos. E, antes que a jovem pudesse beber a taça oferecida pelo homem que conversava, o Jovem Mestre de Tenjin-ya interveio, trocando as bebidas com a humana sem a concepção do convidado. Aoi não compreendeu o motivo daquela ação ou mesmo da atitude tão firme do rapaz à sua frente, porém não ousou em protestar ao ver a profundidade nos olhos azuis. Eles pareciam implorar por sua colaboração.
Ginji ainda se manteve firme após tomar a bebida adulterada. Manteve-se ao lado de Aoi, impossibilitando quaisquer chances de um novo atentado contra a vida da humana. Aos poucos, os efeitos do veneno se intensificaram com o passar da celebração. Aoi se divertia até notar que seu fiel companheiro não estava nem um pouco bem. Sua feição era de extremo cansaço. Ela até mesmo havia chegado a tocar no assunto, contudo o mesmo se esquivou, tentando não levantar ainda mais suspeitas. Assim que o rapaz se retirou do local educadamente, Aoi pressentiu que deveria segui-lo. Assim que esta foi em sua busca, rapidamente o encontrou desacordado sobre o assoalho do corredor. Suas súplicas ao lado do corpo do rapaz rapidamente foram ouvidas, finalizando a noite de modo trágico.
A jovem, perdida em pensamentos, finalmente terminou seu percurso nos corredores cobertos da pousada, atravessando por meio da chuva intensa em direção ao seu restaurante que, no momento, estava fechado. Não estava preocupada em se molhar enquanto percorria seu caminho, porém esta usava seu próprio corpo para proteger os mantimentos e utensílios que carregava consigo. Ao alcançar o fim de seu destino, a humana rapidamente adentrou à construção, dirigindo-se imediatamente à cozinha, preparando uma bacia com água e um chá feito com aquelas ervas medicinais. Rezava para que seus feitos dessem certos. Também certificou-se de aproveitar do pouco que tinha para preparar um simples aperitivo, caso o rapaz estivesse com fome.
Sem mais delongas, finalmente a jovem dirigiu-se aos aposentos do mais velho, sentindo a ansiedade e preocupação pulsar em suas mãos. Faziam-se exatamente dois dias que Ginji não dava sinais de recuperação desde a visita, e isso era muito preocupante. Remédios humanos não faziam efeitos em youkai e, como única escolha, a jovem dependia daquele medicamento desconhecido comum no Reino Oculto. Se aquilo não desse certo, não saberia mais o que faria, e isso lhe assustava. Dirigir o restaurante sem a companhia de seu parceiro estava longe de seus ideais, e faria de tudo para que o mesmo voltasse a ficar melhor. Hesitante, Aoi abriu a porta do aposento onde o maior repousava, certificando de fechá-la para que nenhum vento incômodo invadisse o recinto. Ali, acamado em seu futon, Ginji exibia a expressão mais angustiada que a jovem imaginou que este poderia expressar. O suor e a cor avermelhada transpareciam em seu rosto, atormentado por seu estado febril que o impedia de ter um devido descanso. Respirava com dificuldade, em busca quase que desesperada por oxigênio.
Doía. Não sabia onde, mas vê-lo naquele estado enfermo doía na jovem, apertando as laterais da bandeja que trazia consigo, numa tentativa de se manter calma. Pressionou seus lábios, se aproximando para perto do albino, deixando a bandeja em uma mesinha ali perto, enquanto organizava atenciosamente o que usava para o tratamento do rapaz. Molhou uma toalha branca na bacia com água gelada, torcendo-a para tirar o excesso e depositar na testa do companheiro.
O contraste de temperatura foi deveras agradável ao Jovem Mestre, que soltou um suspiro aliviado logo após sentir o tecido gelado em sua face. Estava num estado de inconsciência devido a febre, porém sentia os movimentos delicados e atenciosos de Aoi ao seu lado. Abriu lentamente os olhos celestes, encarando o teto do recinto, em seguida à humana ao seu lado. Não via com clareza, confundindo-o se o que via era real ou apenas um sonho. No entanto, conseguia identificar o formato da jovem encolhida ao seu lado. Ela apertava o tecido de seu kimono, enquanto certas gotas escorriam por seu rosto. Por que ela chorava? Sentiu-se tentado a perguntar, porém sua voz não saía.
Desde quando estava naquele estado, incapaz de reagir à pessoa que amava ao seu lado? Tentou se levantar, porém seu corpo pesava mais do que se lembrava, sentindo certas dores quando ousava se movimentar indevidamente. Percebendo que seu corpo não respondia sua vontade, Ginji voltou a suspirar mais uma vez, dessa vez se sentindo exausto ao pequeno esforço que tentara fazer. Notou que mais uma lágrima caiu do rosto da jovem, pousando acima das mãos pequenas que descansavam em seu colo, sem desistir do aperto no tecido da roupa. E isso despertou algo dentro do maior.
Ginji não estava ciente de suas ações, e mesmo que estivesse, ver Aoi chorar ao seu lado o queimava por dentro, sentindo-se muito pior do que as dores no próprio corpo e a febre incessante. Ela o desnorteava, mexia completamente com suas emoções, conduzindo-o a agir no impulso. Realidade ou não, o albino não deixaria que Aoi continuasse a sofrer daquele jeito. Não quando sofria por ele.
Assustada, a jovem abriu os olhos, sentindo um toque quente e reconfortante em suas mãos que acabaram de soltar o tecido do kimono de forma imediata. A grande mão do rapaz segurava fracamente uma de suas mãos, em busca de transmitir tranquilidade e conforto para a companheira, que não parava de se culpar pelo acontecido. As mãos da jovem estavam trêmulas, geladas, cheia de calos. Devia estar trabalhando mais do que devia, talvez por parte ser culpa do mais velho estar envenenado e estar à mercê aos cuidados da humana. Remoeu-se por dentro.
O rapaz entrelaçou seus dedos nos da jovem, sentindo a maciez e delicadeza naquela pequena palma ao qual já o salvou de diversas coisas. Estava cansado de mentir para si mesmo. Quanto mais a jovem demonstrava se importar e auxiliar aos seus cuidados, mas difícil se tornava esconder seus sentimentos. Queria que ela o conhecesse melhor, entendesse o que realmente sentia. E talvez isso o tenha induzido a dizer algo no impulso.
— Eu te amo… – sabia que sua voz realmente não havia reproduzido som algum e muito menos fazia sentido, porém não importava. Sua mente foi dominada ao cansaço, induzindo a fechar os olhos instintivamente, voltando novamente a dormir naquele dia. E enquanto descansava, Aoi foi deixada em pleno estado de surpresa e choque.
Ainda em estado de espanto, a humana tentava compreender, de fato, as palavras proferidas pelo youkai. As simples palavras não eram, de forma alguma, fáceis de se aceitar. Como poderiam? Se a jovem simplesmente aceitasse o fato e os sentimentos do rapaz, o que significaria para ela?
O que Ginji era para si própria?
Em um ato impensável, as irises lilases percorriam sobre o enfermo com outra perspectiva. Aoi analisava o homem ali deitado, decorando cada traço e perfeição daquele belo ser. A humana nunca havia visto, ou melhor, notado o quão Ginji era diferente. De fato, não era apenas a beleza que o rapaz possuía, mas sim todos os pontos que Aoi nunca reparou antes. Desde as mechas do cabelo desalinhados e mal cortados até as singelas cicatrizes em seus dedos. Cicatrizes essas que Aoi também possuía após cozinhar por tantas vezes. A jovem permitiu-se perguntar se aquelas marcas seriam de sua infância. Seria ela a responsável por tais feridas?
Sentiu o calor e a ardência em sua face, conseguindo ouvir suas palpitações e o bater acelerado em seu peito. Pensou brevemente se o rapaz conseguia ouvir a intensidade das batidas incessantes de seu coração, tendo receio de poder acordá-lo por aquela pequena possibilidade. Envergonhada pelo próprio estado, Aoi levantou-se em um só ato, sentindo que suas pernas não poderiam sustentar seu peso por mais tempo. Ao passo que se dirigia à saída, cada toque contra o solo era um choque indesejado e agoniante. Quando se encontrou fora do aposento, deixou que a fraqueza lhe tomasse, despencando sobre o assoalho. Por mais não sendo uma fraqueza física, seu corpo não obedecia a sua vontade. Aoi se viu presa onde estava, acomodada ao chão e sentindo a fina porta de bambu atrás de si. Quando finalmente as palavras de Ginji lhe alcançaram seus ouvidos novamente, a jovem deixou que suas lágrimas mais profundas fossem libertadas de seu confino. Ela sabia que sua própria cabeça lhe pregava peças. Sua própria sanidade naquele momento estava sendo rompida. As palavras doces e cheias de sentimentalismo se repetiam por diversas vezes sem uma mente. A jovem não podia negar. Estava feliz. Feliz como nunca havia estado antes. Porém, ela ainda não tinha certeza de seus próprios sentimentos. Amava a raposa…
Porém, até onde esse sentimento chegava?
Em desespero, Aoi tomou a barra de seu kimono, escondendo seus olhos e rosto contra o tecido. Os fios enxugavam as lágrimas lentamente, contudo, tempo o suficiente para que os pensamentos da humana logo mudassem de foco. Ela não podia simplesmente associar aquelas palavras a si. O que ela havia feito para ganhar tal afeto da raposa? O pensamento mais lógico encontrado fora única e, ao mesmo tempo, devastadora, corroendo mente e alma da jovem.
Simplesmente, ele a havia confundido.
Quando o rapaz sentiu-se apto em manter-se, mesmo que por um curto período de tempo, sentado sobre o futon, este percebeu que estava preparado para recomeçar sua jornada. Os integrantes do estabelecimento vinham aos montes, buscando sempre proporcionar uma fração de suas preocupações e de seus consentimentos. Traziam-lhe os mais diversos tipos de presentes. Desde os mais simples aos mais caros. Tudo em prol a sua saúde. Porém, de todos os que ali o visitavam, a presença de uma única pessoa lhe fazia falta.
Sim, a única pessoa a qual poderia alegrá-lo verdadeiramente.
Os únicos momentos que se encontravam eram os momentos das refeições. Aoi evitava ficar mais do que o necessário no local, sempre fugindo dos olhares intensos da kitsune. Ela apenas lhe servia a comida, esperava pacientemente que este terminasse junto à porta e, por fim, retirava-se silenciosamente. Mesmo conversando da mesma maneira com o rapaz, algo parecia incerto. Seus gestos, seu olhar, suas expressões pareciam diferentes. Pensou em tocar no assunto, perguntar se havia feito algo o que a afligia. No entanto, a jovem sempre se esquivava de suas perguntas mais tolas, saindo de seu recinto o quanto antes. Isso o deixava vulnerável, sentindo-se sufocado por algo que desconhecia. Sentia-se indesejado naquele local. Imaginou se o motivo pelas atitudes da jovem foi por causa de seu egoísmo protetor. Afinal, havia deixado a moça em desespero por suas atitudes. Era uma possibilidade…
Porém se fosse realmente o caso, como poderia se redimir para restabelecer sua relação com a humana?
Sabia que apenas se desculpar por suas ações imprudentes não seriam suficientes para admitir seus erros. Ele precisava demonstrar o quanto havia sido um irresponsável. O quão arrependido estava de suas escolhas, por mais que não fosse a realidade.
O clima frio proveniente da chuva mansa era agradável no aconchego dos pesados cobertores. Ginji escuta os ruídos calado, apreciando o aroma de terra molhada. O cheiro da própria chuva. Seus olhos azulados encaravam a pequena abertura da janela, observando as pequenas partículas de água deslizarem pelo vidro. Em contornos aleatórios, porém belos ao seu modo. Sentiu um grande vazio em seu peito, suspirando pesadamente.
Há quantos dias estava naquele cômodo? Por quanto tempo teria que aguentar ficar sem ver a jovem? O que ela estaria fazendo naquele momento? Antes que pudesse notar, seus pensamentos estavam imersos na imagem da garota e ansiava ver seu sorriso pessoalmente mais uma vez.
Talvez ficar sozinho em seu quarto por tanto tempo havia o enlouquecido. Ou talvez pela jovem estar agindo estranhamente o deixava daquele jeito. Aoi já havia o visitado naquele dia, porém o rapaz queria revê-la. Seu corpo e alma suplicavam por isso. Ansiava assistir a jovem enquanto cozinhava, quando arrumava o restaurante ou quando sorria momentaneamente. Com pouca dificuldade, Ginji levantou-se de seu leito e saiu de suas cobertas, seguindo para fora do cômodo. Não estava totalmente recuperado, porém tinha forças o suficiente para conseguir seguir o caminho ao restaurante.
Seus passos silenciosos atravessavam corredores e portas. Com um pouco de cuidado extra, o rapaz evitava ser visto. Assim que o mesmo alcançou a passagem externa, a brisa úmida e gélida atingia a pouca pele exposta de suas mãos e rosto, o fazendo arrepiar com o choque térmico. O jardim tão bem cuidado atraía sua atenção mais do que o normal com suas cores diversas em um tom pálido devido as gotas finas e constantes. Mais uma vez, a criatura respirou profundamente, deixando que o ar queimasse seus pulmões quentes. Ao longe, o pequeno restaurante pareceu se destacar. Ginji tomou todo o cuidado possível, indo em direção a pequena escada para o acesso aos campos ornamentais e tomou para si um dos diversos guarda-chuvas presentes para os hóspedes. Com isso, ele enfrentou a chuva, trilhando seu próprio caminho até a pequena construção.
Ao abrir a porta, o rapaz surpreendeu-se com a quantidade presente de clientes. Obviamente, não era nada comparado aos dias claros e ensolarados, porém, até que para um dia chuvoso e sendo fim de tarde, o local estava movimentado. Admirando a situação, a criatura não pôde evitar de sorrir pelo sucesso de Aoi.
— Senhor Ginji! O que te traz aqui, ainda que não está completamente recuperado?
A dona do negócio deixou o balcão principal no mesmo instante em que seus olhos reconheceram o recém-chegado. Seus olhos lilases expressavam muito bem seus sentimentos, assim como as feições duras em seu rosto. Ela estava preocupada e, no fundo, irritada. Ginji não fez nada mais do que esperar a aproximação da jovem, dando-lhe um pequeno sorriso sutil. Adorava as reações da jovem quando se demonstrava preocupada consigo.
— Eu estou me sentindo melhor e não esperava a hora de sair daquele quarto.
— Sei como deve ser difícil, mas você não deveria se esforçar. – Aoi contrariou, irritando-se internamente por ver que apenas havia alimentado o bom humor do rapaz e este não havia dado importância para sua advertência.
— Sinto muito e agradeço a preocupação. – a criatura riu de maneira sutil, deixando a jovem moça desconfortável. Ela não queria admitir que estava feliz por ser o motivo daquela delicada expressão de felicidade. – Há algo que eu possa fazer para ajudar?
— Não. Por favor, sente-se, senhor Ginji. – Aoi apresentou a mesa mais próxima disponível e dando seu melhor para manter as aparências, ignorando completamente seus sentimentos e pensamentos. – Gostaria de algo?
— Uma xícara de chá, se não for incômodo.
— … — instintivamente um sorriso sutil brotou nos lábios da jovem, sentindo-se acalentada por ser alvo de palavras doces do rapaz. — Certo.
Ah… Era aquele sorriso que a kitsune ansiava tanto em ver.
Assim que a jovem acompanhou a criatura até o local indicado anteriormente e o acomodou, ela seguiu rumo pelas mesas, recebendo mais pedidos e elogios pelo trabalho bem feito. Ali, sentado como um cliente, a criatura não pôde evitar de acompanhar com olhos gentis e carinhosos cada passo dado pela dona do restaurante. Talvez, devido a influência do clima calmo e relaxante, o rapaz se encontrava ainda mais atraído pela jovem. Ele a admirava ao mesmo tempo que lutava constantemente contra seu próprio egoísmo, reprimindo à vontade de trazê-la contra seu peito e impedir que esta se afastasse. Por vezes, Ginji via-se obrigado a desviar seus olhos para manter sua postura.
As horas passaram num piscar de olhos para a criatura e diante desse tempo gasto analisando a jovem, ele pôde notar algo muito importante… Aoi não parecia bem. Seu rosto estava mais pálido onde até mesmo seus lábios rosados se encontravam mais claros. Ao redor dos belos olhos, o tom negro ganhava algum destaque. Ginji imaginou que estas marcas estavam ainda piores do que ele imaginava, devido a maquiagem executada da melhor forma possível por Aoi.
Era doloroso vê-la naquele estado. Queria dar todo apoio possível à humana, diminuir nem que sequer um pouco de seus problemas e compromissos. Tudo para atender seu descanso… Para poder vê-la sorrir como sempre.
Porém, havia uma barreira invisível entre eles.
Ginji sabia que não era um delírio ou fantasia criada por sua cabeça. Era claro que a jovem o tratava bem, jamais ousou negar-lhe algum pedido e sempre o atendia quando chamada. No entanto, algo parecia diferente. Era como se ela estivesse… Distante.
A kitsune encarou os olhos lilases que pareciam suplicar por descanso, enquanto a jovem conversava brevemente com um dos clientes. Isso fazia o sangue da criatura correr com mais intensidade... de forma estimulante e brutal. Por que ela não conversava mais com ele como antigamente? Por que não contava suas preocupações ou se apoiava no rapaz, quando preciso?
Ao perceber que seus olhos transmitiam seus sentimentos mais do que o necessário, ele focou-se na superfície do chá trago anteriormente por Aoi. A leve fumaça da bebida brincava com seus dedos, aquecendo-os e retirando um pouco da raiva que sentia. E assim ele permaneceu, até que não houvesse mais ninguém no recinto.
Mal havia anoitecido, porém, Aoi sabia que, devido ao tempo, mais ninguém apareceria. A chuva, antes gentil, estava ganhando força, deixando claro que não cessaria tão cedo. O som alto não chegou a lhe incomodar e, antes de virar a placa informativa para mostrar que estava finalizando seus serviços, ela apreciou mais aquele momento de paz. Uma tranquilidade que há algum tempo não sentia devido aos seus pensamentos.
Desde aquele fatídico dia, nem mesmo seus sonhos eram capazes de amenizar a dor e o remorso de seu coração. Claramente, ela estava pensando demais, porém, o que ela poderia fazer quando, enfim, percebeu que Ginji não era apenas um companheiro e seu mais leal amigo? Como ela poderia estar bem com a hipótese da pessoa que ela admitiu amar estar apaixonado por outra criatura? Ela já não dormia, comia ou agia normalmente. Apesar que foram poucos a notar seu estranho comportamento, Aoi não conseguia negar aquele sentimento para si mesma. Por isso, acreditou que talvez a distância entre ela e o rapaz pudesse arrumar a situação.
No entanto, ela não podia estar mais do que enganada. Em suas últimas visitas, ela mal suportou aquela fenda que a própria havia formado entre eles. Era difícil manter as aparências e viver mentiras para seu próprio bem. Sentia medo que aquele sentimento ficasse mais forte se o segurasse por mais tempo.
Por isso, a presença do rapaz ali estava sendo sufocante… E a paz da chuva incessante era tão convidativa. Respirando profundamente, a jovem recuperou parte de suas forças, terminando de trocar o aviso e adentrou, novamente, no restaurante.
Seus olhos retraíram ao ver Ginji terminando de recolher os últimos pratos deixados pelo último cliente. Ele sustentava uma pequena feição de felicidade enquanto caminhava para o balcão e adentrava na área de serviço. Aoi apressou-se ao notar as intenções da criatura e se aproximou rapidamente.
— Por favor, senhor Ginji. Não deveria fazer esses tipos de serviço enquanto ainda não está bem.
— Eu não me importo, senhorita Aoi. – o rapaz aumentou seu sorriso gentil, porém, a jovem retirou as mãos do mesmo de perto da pia.
— Mas eu me importo. Você deveria descansar.
— Não. – a negação da criatura fez com que a jovem se surpreendesse. O rosto do rapaz demonstrava-se sério diante dos comportamentos dela. – Você que deveria descansar.
— Eu estou bem. – Aoi desviou o rosto levemente rubro e recuou um passo.
— Não, não está. – Ginji afirmou novamente, vendo o corpo da humana ficar tenso. – O que houve?
— Não houve nada, senhor Ginji.
— Senhorita Aoi.
Ginji remoeu-se após tantas negações da jovem sobre seu bem-estar. Por que ela não lhe dizia o se passava consigo? Como que ele derrubaria a barreira entre eles? Um sentimento de frustração invadiu seus pensamentos, sentindo-se rejeitado. Inconscientemente, o rapaz se aproximou da humana, prestes a abraçá-la como sempre fazia para confortá-la, porém seus braços foram afastados no mesmo instante assim que Aoi notou a proximidade de sua mão ao seu rosto, chocando sua mão contra a mão gentil que lhe era estendida, assustada.
Ao som da batida na mão de Ginji fora o início do silêncio perturbador entre os dois. Somente o som das gotas de chuva podia ser ouvido se escutado com cuidado, e nenhum dos dois ousou em dizer uma palavra.
Os olhos azuis encaravam a humana, imóveis da mesma forma que seu corpo, como se tivesse congelado no tempo. A boca entreaberta pelo espanto parecia desejar dizer algo que nunca realmente existiu. Igualmente assustada, Aoi encolheu-se, abraçando o próprio corpo e encarando o chão extremamente envergonhada. A mão esquerda amassava a borda de seu kimono, próxima ao peito, na tentativa de amenizar o bater doloroso de seu coração. Aos poucos, lágrimas passaram a surgir, irritando ainda mais os olhos cansados e cheios de medos. O que ela havia feito? Suas mãos tremiam de devido ao choque do que havia feito, se martirizando infinitas vezes e pensando numa forma de redimir sua rudez e insensibilidade. Queria fugir daquele local. Queria que tudo o que aconteceu fosse um pesadelo.
Afinal, como ela agia normalmente com o rapaz? Ginji sempre foi alguém que ela pôde contar em todos os momentos desde sua chegada ao Reino Oculto. Era inadmissível agir daquela forma, sendo que a criatura a socorreu inúmeras vezes. Por mais que estivesse espantada, ela devia se desculpar antes que fosse tarde.
Seus olhos marejados buscaram se encontrar com os olhos azuis celestes de Ginji. E ao levantar o mínimo para tal, mais nenhum pensamento transitava por sua mente, agora vazia pelo espanto.
Aqueles olhos… Aqueles olhos celestes tão belos nunca foram tão imersos em tristeza e desespero. As feições duras tremiam, como se a qualquer momento fossem desabar. A boca, mesmo que imóvel, ondulava. O amável Ginji de sempre, pela primeira vez, mostrava em sua face expressões que a jovem jamais imaginou poder ver no rapaz… Algo ocasionado por suas ações. Aoi não sabia se aqueles lábios pálidos queriam dizer-lhe algo ou apenas lutavam para manter sua dignidade. A jovem estava desamparada. Como ela ousou em machucar Ginji daquela forma?
E perante aqueles olhos tão sofridos e melancólicos, a humana desejou desaparecer.
— Senhor Ginji, eu não…
— Senhorita, por favor, perdoe-me!
Inconscientemente, o rapaz interrompeu a jovem. Seus olhos estáticos haviam se fechado com força, fazendo com que finas lágrimas escorressem pelo canto de seus olhos. A criatura mantinha sua cabeça levemente abaixada e sua voz estava alta devido ao desespero que arrepiava desconfortavelmente seu corpo e deixava seu peito tão pesado que chegava a doer apenas respirar.
— Por favor! Perdoe-me! Nunca foi minha intenção te machucar ou ser um estorvo! Eu peço desculpas por qualquer ato feito ou palavra pronunciada que a deixou nesse estado! Por favor, eu lhe imploro!... Sou eu o culpado, não é? Eu fiz algo que a assustou? Por favor, eu nunca faria mal a senhorita!
Aoi, espantada, encontrou-se encurralada ao ver o rapaz se desculpar continuamente. Inúmeras e inúmeras vezes. Vê-lo agir de forma submissa aumentava seu sentimento de remorso, afinal ele não tinha culpa nenhuma. Durante todo esse tempo, ela era a única que devia se desculpar por tudo que já havia feito.
Tudo por causa de seu medo irracional e seu mero orgulho de manter a relação amigável, evitando ultrapassar limites. Quem diria que suas próprias mentiras trariam tamanha tristeza e agonia, quando, na verdade, queria proteger o rapaz. Ou talvez proteger a si mesma. E antes mesmo que percebesse, a jovem criou barreiras entre ambos. Barreiras que ao seu ponto de vista pareciam ser impossíveis de serem destruídas. Tudo por causa da inveja que sentia pela suposta criatura que Ginji amava.
Lidar com seus sentimentos era mais difícil do que esperava, porém, ver seu verdadeiro amor em dor era mais insuportável do que as mentiras que havia imposto em seu coração.
— Senhorita, eu… — Ginji interrompeu sua fala ao sentir o toque gélido em seu rosto, segurando o ar por breves segundos. Seus olhos estavam fixos no rosto da humana, que sorria em tristeza e alívio.
— Senhor Ginji.
A voz fraca fora o suficiente para deixar o rapaz estagnado, segurando para que mais lágrimas não escorressem de seu rosto novamente. Seu polegar deslizou no canto dos olhos celestes, limpando os rastros de lágrimas do rosto da criatura, enquanto apreciava a beleza do rapaz. Ginji não ousou se aproximar ou reagir às ações da humana, com medo da possibilidade de ser rejeitado novamente, porém não era preciso que ele se manifestasse.
Aoi acariciou o rosto do rapaz por um tempo até que as expressões da kitsune suavizasse, estando à mercê dos toques da jovem. Essa reação deu coragem à jovem em continuar com o que fazia, sentindo seu coração palpitar ainda mais forte. Seus olhos, antes tão cheios de insegurança e tristeza, estavam mansos novamente… Até mesmo amáveis. A chuva já não estava mais tão forte como antes. O som pesado já não era presente e os resquícios ainda ouvidos eram mais baixos do que o bater descompassado de ambos os corações. A humana suspirou pesado antes de continuar o que falaria.
— Durante todo esse tempo… Durante todo esse tempo, não fiz mais nada além de mentir para mim mesma. – Aoi disse, tentando não perder controle de suas emoções e do ritmo zeloso das carícias que fazia no rosto da kitsune. Ginji não ousou desviar seus olhos no rosto da jovem, mas isso não a deixou desconfortada. – Não só pra mim… Também menti pra você, senhor Ginji. Fingindo e tentando acreditar que tudo estava bem… Tentando ignorar os meus próprios sentimentos.
— Seus… Sentimentos?
Ginji repetiu aquilo numa espécie de confirmação do que havia escutado. Aoi assentiu com a cabeça, mostrando uma expressão de desconforto e tristeza ao tocar no assunto. A jovem não queria que o rapaz sofresse com seus atos, e de certa forma estava farta de mentir para si mesma. Inconscientemente, uma lágrima solitária escorreu de seus olhos, porém não seria ela que interromperia o que estava prestes a esclarecer.
— Eu amo você, Senhor Ginji.
A kitsune encarou a jovem, sem ter ideia em como reagir ou responder ao que havia escutado. Uma batida falha ecoou em seu peito, demonstrando sua ansiedade e nervosismo ao ouvir a declaração da jovem. Por vezes imaginou ter entendido errado o que Aoi havia lhe dito, porém o rosto da humana o mantinha preso a realidade... Na realidade à sua frente. A jovem pressionava os lábios, umidificando-os logo em seguida em sinal de nervoso à situação. Os olhos lilases mostravam novamente preenchidos de lágrimas que necessitavam sair do rosto da jovem, e algumas escorriam timidamente pela face desta.
Ah… Era tarde demais.
Aoi sentiu medo. Medo de ter estragado sua amizade, temia pela rejeição da criatura e não poder sentir mais seu calor e o aconchego de seus abraços… De não poder vê-lo novamente. Aos poucos, lágrimas e mais lágrimas escapavam de seus olhos, já não conseguindo segurar aquele turbilhão de emoções ao qual tanto mentia sentir. Inconscientemente, a jovem havia cessado as carícias no rosto do rapaz ousando afastar sua mão dele. No entanto, ela foi impedida ao sentir as mãos grandes do rapaz por cima da sua, segurando-a com carinho e necessidade.
— Eu também, senhorita. Sempre te amei e sempre amarei.
Ao admitir seus sentimentos, Ginji sentiu o peso de seu peito diminuir drasticamente e suas tristezas desaparecerem igualmente. Tímidas lágrimas escorriam em seu rosto. No entanto, não chorava por tristeza e sim por alívio e felicidade. Há quanto tempo esperava por aquele momento? Ouvir que aqueles sentimentos que sentia eram recíprocos era um pensamento que o rapaz jamais cogitou ser verdade. E sentir atração pela humana era um grande erro.
Afinal, Aoi era noiva de seu mestre, ele tinha o papel de cuidá-la e ajudá-la nos diversos momentos em que o oni estaria ausente. Queria ser forte e recusar os sentimentos da humana, pelo bem do casal. Porém vê-la em lágrimas mostrava-se ser sua grande fraqueza, e isso o remoía por dentro. Sabia que admitir seus sentimentos seria visto como traição ao seu mestre e estaria arriscando perder tudo o que já havia conquistado. Era um risco que Ginji estava determinado em arcar, ao aceitar os sentimentos da jovem.
Necessitado pelo toque da mão da humana, acariciou-a por cima de seu rosto em sinal de afeto, apreciando a visão de seu rosto corado. Uma visão tão bela que invejava seu mestre por ter a jovem como sua noiva. A criatura fechou seus olhos por breves instantes, movimentando seu próprio rosto contra aquela mão macia e quente. Era real. Tudo era real. O rapaz ousou aproximar de seu corpo, ignorando seu medo de ter sido rejeitado anteriormente, mais uma vez tentando abraçar a jovem como sempre fazia. No entanto, dessa vez, Aoi não o impediu de continuar o ato.
De fato, após a aproximação dos corpos, aquele abraço era uma espécie de confirmação. Confirmação do quanto necessitavam daquele toque ao perceber o bater acelerado de ambos os corações em sincronia, de quantas mentiras foram ditas para impedir que aquele momento especial fosse concretizado devido ao medo e insegurança. Não importava quantas vezes, Aoi jamais enjoaria do cheiro de lírios que emanava da criatura e de quantas vezes aquele abraço já a havia salvado incontáveis vezes, quando era criança.
Era impossível negar que Ginji era uma presença insubstituível. A kitsune era uma presença determinante para tê-la transformado no que era naquele momento. E imaginar na possibilidade de se separar era um de seus maiores medos. O rapaz pensava da mesma forma.
A criatura aumentou a força de seu abraço, escondendo seu rosto contra a curvatura do pescoço jovem, sentindo o leve aroma que ela exalada.
— Senhorita. Eu estou feliz. Não sei se sou digno de tamanha felicidade, mas obrigado por tudo. – Aoi não podia ver o rosto do rapaz, porém sabia que ele estava sorrindo em uma alegria genuína. Ela riu timidamente, em alívio.
— Eu também.
O contato manteve-se por mais um bom tempo. Nenhum deles tinham pressa de se afastar. Porém, o som de algo sendo arrastado chamou a atenção de ambos, onde apenas afrouxaram o suficiente para que voltassem sua atenção a origem do ruído. Chibi se aproximava com os olhos semicerrados, delatando que havia acabado de acordar. Seus passos pequenos eram dificultados por ele se encontrar agarrado ao cobertor e, vê-lo daquela forma, Aoi o achou ainda mais fofo.
— Senhorita Aoi. Estou com fome.
Tanto Ginji quanto a jovem riram pela afirmação da pequena criatura e se entreolharam o suficiente para que palavras não ditas fossem transmitidas pelo simples olhar. Aoi rapidamente preparou-se para cozinhar novamente, mas desta vez, o amor que colocaria naquela refeição era totalmente maior e especial. Ginji sentou-se ao balcão por ordem da humana, colocando o pequeno kappa ao seu lado. Enquanto aguardava a comida fresca, o rapaz não deixou de manter aquele olhar zeloso para Aoi e, atendendo suas expectativas, por vezes era correspondido com o mesmo olhar.
Talvez aquilo seria a definição de felicidade. Talvez era isso que o rapaz almejava tanto em sua vida… Ser o motivo da felicidade daquela mulher e poder estar ao seu lado. A barreira uma vez levantada entre os dois havia sido destruída e isso seria o marco determinante para um início de um futuro brilhante na relação dos dois.
A felicidade estava mais perto do que ambos imaginavam. E, pela primeira vez, Ginji se sentia completo por dentro.
Fale com o autor