Something

1 Capítulo 1


Poucos lugares são tão emocionais quanto aeroportos ou rodoviárias. No ir e vir da multidão acontecem as despedidas, os reencontros. A tristeza dos apaixonados que se afastam, a alegria do encontro com familiares, a ansiedade de quem parte para um novo caminho. Tudo se mistura em um mar de rostos. Tanta mistura que tudo se dissolve, e torna-se fácil não perceber nenhuma dessas coisas. E, para a maioria das pessoas, a moça de cabelos escuros na altura dos ombros não chamaria atenção.

Talvez prestassem atenção em suas roupas de marca, em seu bom gosto para a moda, na mala pequena e caríssima. Ou talvez prestassem atenção no carrinho de bebê que ela encarava. Os espectadores mais atentos poderiam observar o menino bochechudo que não havia chegado sequer à seu primeiro ano de vida. O que nem o mais observador poderia notar eram as lágrimas que se formavam nos olhos da moça, por trás dos óculos escuros.

Sophia Loren Alencar Dominguez encarava o pequeno Daniel, adormecido em seu carrinho. A inocência de seu filho era comovente e quase ansiolítica. Daniel dormia como se sua vida não estivesse prestes a mudar. Como se a vida que conheceu em seus primeiros oito meses de vida não fosse ficar para trás. Dormia ignorando o fato de que em poucos minutos veria pela primeira vez seu avô.

Ela suspirou. Não imaginava voltar ao Brasil em tais circunstâncias. Quando, um ano e meio antes embarcou no primeiro avião rumo à Europa, jamais imaginou que regressaria justamente por aquele motivo. Quando embarcou, na realidade, jamais imaginou que voltaria. Mas, do mesmo jeito que deixou sua vida inteira para trás da primeira vez, o fez uma segunda. A diferença, é claro, é que agora não estava mais sozinha. Havia Daniel, e seu filho era a razão de sua vida.

Sophia não sabia se estava preparada. Ao receber, vinte e quatro horas antes, a notícia da morte de sua mãe, Lara Alencar, Sophia perdeu o chão que começava a construir. Sua mãe era jovem, cheia de vida, cheia de farsas e mentiras. Não foi uma surpresa que Lara tenha morrido em uma mesa cirúrgica, em meio a mais um procedimento estético completamente desnecessário. Mas a morte da mãe foi um choque, mesmo que as duas não se falassem desde o dia que Sophia deixou o Brasil.

Ela avistou o chapéu de Carlos antes de vê-lo. E as lágrimas que ameaçavam cair finalmente correram por seu rosto com a visão de seu pai se aproximando. Sophia sentiu a calmaria do sorriso familiar, e quando Carlos passou os braços em volta de seu corpo, foi como se o mundo finalmente desabasse em sua cabeça. O soluço veio tão fácil quanto as lágrimas. Céus, era a primeira vez que abraçava alguém que a amava em todo esse tempo.

— Vai ficar tudo bem agora, Sophia. – a voz de Carlos soou firme. – Você está em casa agora.

Sophia não sabia se o Rio de Janeiro era sua casa. Não sabia se era a casa de seu filho, que na certidão de nascimento era italiano. Mas Carlos tinha razão ao dizer que ela estava em casa. O abraço de seu pai sempre seria um porto seguro, sempre seria parte do seu lar. E foi só ao sentir a acolhida de Carlos que Sophia percebeu o quanto os últimos meses haviam sido duros, pesados, solitários.

O choro de Daniel interrompeu o abraço, chamando a atenção de pai e filha. Viraram o rosto ao mesmo tempo para o carrinho, e Daniel pareceu acalmar-se imediatamente ao ver o rosto da mãe. Outra lágrima caiu de seu rosto ao ver a ironia da situação. Justo ela, com todos os sentimentos bagunçados, tinha o mesmo efeito no filho. Sophia o retirou do carrinho, sentindo os braços do bebê em volta do seu pescoço.

— Dan, esse é seu avô. – Sophia disse, emocionada. – Pai, esse é Dan.

Carlos sorriu, já com uma lágrima correndo por seu rosto. O bebê o encarou com curiosidade por alguns segundos, antes de esconder o rosto no pescoço de Sophia.

— Eu nunca imaginei que a veria com um filho nos braços, Sophia. – Carlos sorriu. – Você está linda, minha filha. E meu neto... eu não tenho palavras.

— Eu preferiria que você conhecesse Dan em outra situação, pai. – Sophia sorriu. – Uma viagem pela Itália, talvez. Não para enterrarmos Lara.

— Eu sei que você está sofrendo, Sophia...

— Eu não estou. – ela o interrompeu. – E isso é o mais triste de tudo. Eu me sinto perplexa, mas não triste.

— E alguém poderia julgar você? Lara não receberia nenhum prêmio de mãe do ano. – Carlos tentou sorrir.

— Muito pelo contrário, inclusive. – Sophia suspirou. – Mesmo seu último ato envolve bagunçar a minha vida.

— O Grupo Alencar é seu por direito, minha filha. – Carlos disse, sério. – Era de seu avô, passou para a sua mãe, e agora é seu.

— Justo agora, pai? Quando eu finalmente comecei de novo, quando deixei pra trás tudo o que me prendia no Brasil?

— São os mistérios da vida, Sophia. – Carlos acariciou os cabelos de Daniel. – Agora vamos, vocês devem estar cansados. Mariinha está nos esperando para o almoço.

— Pai, eu não vou... – Sophia suspirou. – Eu não quero ir para a casa de vocês.

— Você não vai levar meu neto para uma suíte de hotel. – Carlos suspirou. – Lara saiu daquela casa há um ano, Sophia. Não há nada lá que remeta à ela.

— Não é por causa da Lara, pai. – ela involuntariamente apertou o abraço no filho. – Eu não quero...

— Você vai ter que encará-lo cedo ou tarde, Sophia. – ele sorriu. – Eu achei que tudo entre você e Antonio fosse passado.

— É passado. – Sophia suspirou novamente.

Como não seria passado? Ainda recordava-se com clareza das palavras de Antonio. Do olhar de desprezo que lançou a ela ao terminar tudo. Da forma como recusou-se a ouvir qualquer palavra que Sophia pudesse dizer, como se não houvesse no mundo outra explicação. Seus sentimentos foram reduzidos a um mero interesse. Dois dias depois ela desembarcava em Milão, sem nunca mais falar com ele.

Mas Antonio não era apenas seu ex-namorado, o homem com quem Sophia pela primeira vez pensou em se casar, não era apenas seu grande amor. Era também filho mais velho de Mariinha, a agora esposa de seu pai. Na ironia da vida, Sophia acabara apaixonada pelo filho do grande amor de seu pai. E, após sua mudança, Mariinha e Carlos finalmente começaram a viver sua história de amor.

Quando Lara, um ano antes, decidiu deixar sua casa, Mariinha e Carlos fizeram da antiga mansão o seu lar. As circunstâncias eram trágicas, pelo que Sophia sabia. Um incêndio havia destruído o Cantinho da Laje, restaurante dos Ramos, e não havia poupado um único móvel da casa. Mariinha, Antonio e Gabriela viram suas memórias serem destruídas pelas labaredas. Sem alternativa, mesmo a contragosto, os três acabaram por aceitar a mudança.

Ela sabia, ao embarcar em Milão, que encontraria Antonio. Ele morava na mesma casa que seu pai e inevitavelmente seria parte de sua vida. Não sabia, porém, se seria capaz de encará-lo. Daniel remexeu-se em seus braços, trazendo Sophia para a realidade. Carlos a encarava com expectativa.

— Não faz sentido você ficar em um hotel. – ele disse, calmo. – Antonio trabalha fora praticamente o dia inteiro. Lá em casa o Dan terá muito mais conforto. Eu comprei até um berço para ele.

Sophia sorriu involuntariamente. Daniel voltou a encarar Carlos com curiosidade. Seu pai aproximou o rosto e Daniel levou a pequena mão rechonchuda para o cavanhaque do avô. Carlos soltou um gargalhada, fazendo Dan rir também. Sophia suspirou. Dan passou os primeiros oito meses de sua vida tendo apenas a mãe como companhia. Não era justo privá-lo da convivência com o avô.

— Você tem razão. – disse, por fim, sentindo o coração acelerar.

— Então vamos. Quanto tempo faz que você não come feijoada? – Carlos sorriu ainda mais.

— Mais tempo do que parece aceitável. – Sophia sorriu.

Carlos dirigiu com calma pelas ruas do Rio de Janeiro. Daniel dormia profundamente na cadeirinha comprada pelo avô, e Sophia olhava sua cidade natal pela janela. Era impressionante como tudo poderia permanecer igual, quando tudo nela parecia diferente. As praias eram iguais, o Cristo Redentor ainda mantinha seus braços abertos, a Cidade Maravilhosa estava intacta. Até mesmo o Vidigal, visto de longe, parecia o mesmo.

Quando Carlos estacionou o carro em frente ao portão da casa em que cresceu, Sophia sentiu o coração acelerar. Mas, ao pegar o filho nos braços e seguir o pai para o interior, tudo parecia diferente. E ali, finalmente, não parecia que apenas seu interior estava modificado. A casa não parecia em nada com a de Lara. O branco predominante dava lugar à cores, quadros, fotos.

— Que bom que chegaram. – Sophia ouviu a voz de Mariinha. – Então esse é o meu neto? – perguntou, aproximando-se.

Sophia ficou paralisada, mas os olhos vidrados de Mariinha em Daniel não pareceram notar. O menino estava sonolento por ser acordado ao sair da cadeirinha, sua cabeça encostada no ombro de Sophia. Neto de Mariinha? Ele poderia ser. Poderia ser filho de Antonio, se tudo fosse diferente. Se a história deles não tivesse terminado daquela maneira.

— Oi Daniel. Você é muito bonito, sabia? – Mariinha disse para o bebê. – Sophia, que bom ver você. – ela desfez o sorriso. – Eu sinto muito pela morte da Lara.

— É bom ver você também, Mariinha. – Sophia sorriu genuinamente. – Que maravilha o que vocês fizeram com este lugar.

— Vem, entra. – Mariinha também sorriu. – Eu vou te mostrar o seu quarto. O avô babão já preparou tudo.

Carlos aproximou-se da esposa, beijando sua testa. Eles pareciam felizes, em sintonia.

— A senhora também estava babando pela possibilidade de um bebê nessa casa, dona Mariinha. – Sophia ouviu a voz de Gabriela no topo da escada.

Gabriela desceu rapidamente os degraus, aproximando-se de Sophia. Céus, como Sophia gostava daquelas pessoas. E como era difícil olhar para Mariinha e Gabriela como parte de sua família, mas não da forma como imaginou. Mariinha não era sua sogra, Gabriela não era sua cunhada. Ainda assim, Sophia sorriu ao ver a jovem.

— Quem é essa coisa linda? – Gabriela disse, e Daniel ergueu a cabeça. – Você é o bebê mais lindo do mundo, Daniel.

Para a surpresa de Sophia, o bebê gargalhou. Gabriela repetiu a frase, fazendo-o rir novamente. E, como se estivesse familiarizado com aquela casa, Daniel esticou os braços para Gabriela.

— Você já ama sua tia Gabi, né? – Gabriela sorriu, triunfante, puxando Daniel para seus braços. – Eu também já amo você.

Sophia sorriu ao ver a cena. Seu filho merecia uma família. Merecia receber mais do que apenas o seu amor. E se o pai dele havia sumido no mundo, outras pessoas supririam aquela presença. Pela primeira vez Sophia sentiu o alívio tomar conta. Parecia realmente uma decisão acertada retornar, permanecer na casa de seu pai. Gabriela piscou para ela, e continuou a conversar com um sorridente Daniel.

— Vamos? Acho que peguei todo o necessário. – Carlos disse, apontando para as bagagens.

— Eu deixei minha bolsa no carro. – Sophia notou. – Eu vou buscar.

Ela não sentiu nada diferente ao pegar a chave do carro do porta chaves, ou ao abrir a porta. Sentiu a temperatura mais alta com o vento. Mas seu coração disparou com as cores. Com o berrante do amarelo, o letreiro do taxi. E mais ainda ao ver o homem que batia a porta despreocupadamente, até que seus olhos também a vissem. Antonio estava exatamente igual, como se não houvesse passado mais do que vinte e quatro horas desde a última vez.

Ele ainda usava a regata branca com uma camisa por cima. A barba cobria seu rosto da mesma forma. E seu olhar era intenso e paralisante, exatamente como da última vez. Sophia não conseguiu dar mais nenhum passo, e o mesmo pareceu acontecer com ele. Pelo menos por alguns segundos, antes de Antonio mudar suas feições e pisar duro em direção à ela.

— Sophia. – cumprimentou, sem emoção na voz.

— Antonio. – Sophia tentou esconder a sua emoção, mas sua voz falhou.

— Eu sinto muito pela sua mãe. – ele disse, mas tudo em seu rosto dizia que não sentia nada além de desprezo por Lara.

— Obrigada. – Sophia disse a única coisa que parecia aceitável.

— Você decidiu ficar aqui, então? – Antonio limpou as mãos na calça.

— Meu pai não aceitou outra resposta. – Sophia justificou-se, mesmo sem precisar.

— Carlos e minha mãe estavam ansiosos com a ideia de ter uma criança em casa. – Antonio deu de ombros.

Doía a forma como nada daquilo parecia afetá-lo. Como tê-la de volta em sua vida parecia um contratempo corriqueiro. Especialmente quando a mera visão de Antonio parado em sua frente era capaz de fazer suas pernas ficarem bambas. Mas ela seria capa de lidar com a indiferença dele. Não toleraria, porém, que ele agisse assim com seu filho.

— Daniel não tem culpa. – ela disse, de supetão.

— O que? – Antonio a encarou.

— Do que aconteceu entre nós dois. – Sophia explicou. – Meu filho não tem culpa.

Sophia achou ter visto emoções cruzando o rosto de Antonio, mas não levou mais do que alguns segundos para a expressão de indiferença tomar conta novamente.

— Isso ficou no passado, Sophia. – Antonio sorriu de forma forçada. – Sejam bem vindos. A casa é realmente de vocês.

E com essa frase, Antonio passou por ela, entrando na casa. Deixou para trás suas palavras, o perfume familiar e a confusão que causava em Sophia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.