Someone, Somewhere in Summertime
3 3. The Boys Of Summer
Notas iniciais
Kenma estava deitado em cima dos papeis. Tecnicamente, Takeda sabia que a culpa era sua por ter a ousadia de os pousar em cima da cama enquanto que arrumava a secretária.
"Eu precisava disso…"
O gato, sentado como um pão de forma, apenas abanou levemente a cauda e continuou a fingir que não o ouviu.
Takeda suspirou e esfregou levemente o rosto. Estava cansado e ainda nem eram 9 da manhã. O nervosismo não o tinha deixado dormir bem e ele gostaria de poder culpar outras coisas, mas não dava. O pequeno anexo convertido a casa de visitas que Ukai lhe tinha reservado era impecável. Tinha apenas três divisões: a sala e a kitchenette juntas, o quarto e a casa de banho. Apesar de pequeno, era acolhedor e tinha uma vista bonita para o jardim. Àquela hora da manhã o sol batia diretamente na cama e o gato já tinha decidido que iria aproveitar aquele luxo.
Não que Takeda também não preferisse ficar a dormir ao sol, mas precisava mesmo de começar a adiantar os relatórios para enviar para o ministério e para isso precisava dos papeis.
"Kenma."
O gato malhado tricolor apenas abriu um olho lentamente, não fosse haver comida a ser oferecida, mas ao ver que o humano tinha os braços cruzados, voltou a fechar e a fingir que dormia.
"Keeeenma!", Takeda choramingou e ousou puxar os papeis por baixo dele, sendo que o felino lhe mordiscou a mão em resposta.
"Está mais calor lá fora, devias ir para a terra. Ou para as árvores… ou sei lá, ver os pássaros? Ouviste as corujas durante a noite?"
O gato não respondeu, surpeendentemente, mas a ideia dos pássaros agradava-lhe. Levantou-se e num arco espreguiçou-se, esticando a pata esquerda para trás num arabesco.
"Lindo menino!", Takeda sorriu e coçoulhe atrás das orelhas por uns segundos antes de Kenma saltar para o parapeito da janela. Uma das portadas estava aberta e a outra fechada e Kenma sentou-se atrás da fechada, começando a lamber a sua pata. Talvez em breve fosse hora do terceiro pequeno-almoço.
Takeda pegou nas folhas e sentou-se na secretária, abrindo o portátil para começar a escrever. Precisava de começar a descrever as condições do Palacete, mas ainda só tinha visto a parte principal do edifício e não tinha nada a apontar. Certo que havia tinta a descascar na parede, cadeiras na mesa de jantar que não casavam e o cobertores da sala estava desbotados, mas havia também livros espalhados por toda a casa, pinturas feitas pelos miúdos, post-its com bonequinhos no frigorífico.
O assistente social optou por começar o texto na mesma, sendo honesto na sua narrativa: o edifício precisava de melhorias, mas não era grave nem comprometia a segurança das crianças. Deixou um espaço em branco para terminar depois de visitar a totalidade das instalações.
Precisava de mais tempo para analisar a alimentação disponível (outro espaço em branco), precisava de mais tempo para perceber como estava o percurso académico dos míudos (outro espaço em branco), precisava de mais tempo para conhecer cada um além do que vinha descrito no relatório (outro espaço em branco). Será que deveria mencionar Sugawara como uma presença externa não registada? Outro espaço em branco.
Pousou a cabeça nas mãos e deu um suspiro nervoso, sentindo o peso da responsabilidade a apertar o peito naquele desconforto já tão frequente e crónico na sua vida. O documento no ecrã continuava a parecer praticamente uma folha em branco.
Havia ali uma dissonância desconfortável que o Takeda não conseguia ignorar. Os relatórios que tinha lido no Ministério pintavam aquele orfanato como um local problemático, quase sob suspeita. Mas a realidade daquele primeiro dia parecia mais... humana. Demasiado humana para os padrões rígidos dos seus superiores. Estariam a tentar encontrar falhas onde elas não existiam? A ideia de que o Ministério pudesse estar a implicar com o Ukai e com aquelas crianças sem uma razão válida fez o seu estômago dar um nó.
Ele era apenas o mensageiro, mas a perspetiva de vir a ser a causa da discórdia partia-lhe o coração.
O peito apertava de tal forma que mais parecia que o impedia de respirar profundamente e ia começar a respirar fundo, contando até quatro até soltar o ar quando um barulho atrás de si lhe fez o coração quase sair do peito com o susto.
Rodou a cadeira para se voltar e no parapeito da janela, Kenma tinha-se levantado, as suas costas arqueadas, o pêlo todo no ar até a sua cauda parecer um espanador. Logo de seguida, o gato tão normalmente silencioso começou a rosnar e a silvar.
"Kenma! O que-"
Não terminou a pergunta porque logo de seguida o som de algo pesado a embater contra o vidro da portada fechada fez Takeda dar um salto na cadeira.
Do outro lado do vidro, colado à janela de uma forma ridícula, estava um gato preto que parecia confuso com o desfecho. Não era um gato elegante: o seu pêlo preto farfalhudo estava todo despenteado e parecia desafiar a gravidade numa crista natural acima da orelha direita, que tinha em falta um pedacinho de cartilagem. O gato tinha as quatro patas abertas contra o vidro, como se tivesse calculado mal o salto da árvore mais próxima e agora tentava fingir que aquela paragem abrupta tinha sido planeada, como só um gato sabe fazer.
Kenma soltou um sopro audível, recuando um passo no parapeito, mas o gato preto limitou-se a piscar os olhos amarelos calmamente. Com a bochecha ainda ligeiramente esborrachada contra o vidro, soltou um "miau" mudo que pareceu uma provocação direta.
"Mas o que...", Takeda levantou-se rapidamente, a ansiedade do relatório esquecida por um momento e o gato preto, parecendo notar finalmente a presença do humano, escorregou suavemente do vidro para o rebordo exterior da janela. Sacudiu uma das patas dianteiras com desdém, olhou de soslaio para Kenma que continuava a rosnar baixinho, e sentou-se, começando a lamber o peito como se não tivesse acabado de fazer figura de idiota.
Takeda piscou os olhos, alternando o olhar entre o Kenma em pose de combate e o visitante clandestino. Definitivamente, pensou com um meio sorriso nervoso, aquele orfanato ia testar toda a sua capacidade de manter a compostura.
Outro silvado de Kenma fez com que o gato preto se levantasse e com toda a calma do mundo contornasse a janela até à portada aberta. Esfregou-se na esquina e entrou, sentando-se em forma de "coxinha" em frente a um muito desagradado Kenma.
O gato malhado tentou acertar-lhe com a pata e o gato preto continuou sem se mexer e Kenma irritado saltou para cima da cama, fugindo depois para debaixo dela.
Takeda aproximou-se da janela e o gato preto encarou-o, soltando um "miau" rouco.
"Deves ser o famoso Kuroo." , disse e tentou coçar-lhe as orelhas, sorrindo ao ouvir o gato ronronar e permitir o carinho, "O Kenma não está habituado a lidar com outros gatos, peço-te que não o importunes."
Outro miau de resposta e então o ronronado parou e o gato levantou as orelhas. Takeda percebeu logo de seguida a razão: Hinata berrava da porta do palacete que estava na hora do pequeno-almoço.
O gato praticamente voou pela janela de novo e correu, indo a miar pelo caminho até à janela da cozinha e Takeda ouviu a sua barriga a fazer barulho.
É, precisava de comer.
Olhou para o computador e rolou os olhos, fechando a tampa depois de vestir o seu cardigan favorito e sair porta fora.
Quando finalmente conseguiu atravessar o jardim ainda húmido pelo orvalho e entrar na cozinha do edifício principal pela porta lateral, a atmosfera que encontrou surpreendeu-o pela calmaria.
A mesa comprida de madeira, que claramente já vira melhores dias e exibia marcas de copos e pequenos riscos que contavam histórias de anos de uso, estava posta de forma simples. Havia taças de cerâmica de cores desencontradas, pacotes de cereais, pão fresco e um bule de chá fumegante no centro.
"Bom dia, Takeda-san,"
Hinata estava encostado à bancada, a terminar de cortar algumas fatias de fruta. Daichi deu um grunhido que talvez fosse de "bom dia" e estava sentado de olhos semicerrados agarrado a uma caneca de café.
"Bom dia," respondeu Takeda, ajeitando os óculos no nariz enquanto procurava um lugar para se sentar que não parecesse intrusivo. "Espero não estar a incomodar."
"Claro que não," disse Ukai, surgindo da despensa com um frasco de compota na mão. O diretor do orfanato usava a típica fita no cabelo para os afastar rosto e trazia os olhos com olheiras fundas de quem não dormia as horas necessárias, mas havia uma energia prática nele de quem já funciona só pela rotina."Senta-te. Coma alguma coisa antes que o furacão comece. Tem café fresco no bule preto."
Takeda sentou-se timidamente, aceitando a sugestão e anotando a forma de tratamento informal. Nos minutos seguintes, as crianças foram aparecendo uma a uma, ainda a arrastar os pés e envoltas em sono.
Yachi sentou-se perto de Daichi, bocejando baixinho enquanto agarrava uma torrada. Hinata e Kageyama sentaram-se lado a lado, partilhando um silêncio pacífico, embora Takeda notasse que Kageyama organizava meticulosamente os seus talheres em linhas perfeitamente paralelas à borda da mesa, sem desviar os olhos do que estava a fazer. Noya e Tanaka tentavam manter os olhos abertos enquanto disputavam pela última gota de leite porque nenhum se queria levantar para ir buscar mais, e Tsukishima entrou na sala com o seu habitual ar de enfado, seguido de perto por Yamaguchi, que lhe sussurrava algo sobre os trabalhos de casa de biologia.
Durante cerca de vinte minutos, a cozinha foi um santuário. Apenas se ouviam sussurros preguiçosos e o som reconfortante do café a ser vertido. Takeda começou a relaxar, pensando que, afinal, os relatórios do Ministério sobre a "disrupção e falta de estrutura do local" eram um exagero. Talvez ao jantar o caos só se tenha instalado por eles estarem nervosos por estarem a ser auditado.
Então, o grande relógio de parede bateu as oito badaladas.
Foi como se um interruptor invisível tivesse sido pressionado e toda a eletricidade do universo fosse canalizada para aquela divisão. A calmaria matinal evaporou-se instantaneamente, dando lugar à loucura de uma verdadeira maratona.
"Oito horas! Toda a gente a mexer!" gritou Ukai, a sua voz de trovão ecoando pelas paredes de pedra da cozinha, com a urgência de quem já conhecia o processo.
"Os meus sapatos! Quem é que tirou os meus sapatos do armário?!" a voz de Hinata subiu três oitavas. O rapaz ruivo saltou da cadeira, deixando a sua taça a abanar perigosamente na mesa (Ukai foi a tempo de impedir que vertesse), e começou a correr pela cozinha a tentar enfiar uma sapatilha preta enquanto saltava num pé só, parecendo um elástico prestes a rebentar.
"Estão no corredor, idiota," rosnou Kageyama. Ao contrário do amigo, Kageyama não corria. Ele levantou-se num movimento quase mecânico. Recolheu a sua mochila do chão junto à entrada e, sem que ninguém lhe pedisse, agarrou também na mochila de Hinata. Caminhava num passo firme, focado, de olhos fixos no chão, avançando em linha reta como se estivesse a seguir um trilho invisível. Ele não desviava a rota por nada; Tanaka teve de se desviar no último segundo para não ser atropelado pelo mais novo.
"O último a chegar à carrinha vai limpar o jardim no fim de semana!" gritou Noya, que já corria pelo corredor fora, com a mochila, cheia de desenhos a marcador, presa apenas por uma alça.
"Hey, isso é batota! Tu começaste a correr antes!" protestou Tanaka, largando a sua caneca na banca com demasiada força e disparando atrás dele. O som dos seus passos pesados ao entrarem no chão de madeira do corredor parece que faziam a casa abanar.
Takeda assistia a tudo de olhos muito abertos, a caneca de café presa a meio caminho da boca, temendo genuinamente pela integridade física dos rapazes. Ao seu lado, Tsukishima passou a caminhar com um revirar de olhos tão profundo que Takeda se perguntou se não lhe doeria a cabeça. O rapaz loiro ajeitou os óculos com o dedo médio (um gesto que parecia carregar um insulto silencioso para o mundo em geral) e estendeu o braço esquerdo de forma protetora, travando a corrida de Tanaka para impedir que Yamaguchi, que vinha logo atrás a tentar fechar o casaco, fosse projetado contra a parede.
"Obrigado, Tsukki," murmurou Yamaguchi, apressando o passo.
"Andem lá, não tenho o dia todo para vos ver a serem idiotas," respondeu Tsukishima, embora não acelerasse o passo, mantendo a sua dignidade orgulhosa enquanto se dirigia para a saída.
"Esperem por mim!" choramingou Yachi. A mais pequenina estava com as bochechas coradas de pura preocupação. Ela tentava equilibrar uma pasta de cartão onde guardava os seus desenhos, enquanto verificava (de novo) se não tinha deixado nenhum lápis na mesa da cozinha. "Ukai-san, viste o meu caderno azul? Eu tenho a certeza que o pus aqui..."
"Está na tua mala, Yachi-chan, eu ajudei-te a guardá-lo ontem à noite," garantiu Ukai calmamente e deu-lheuma palmadinha gentil nas costas, empurrando-a suavemente na direção da porta. "Vai lá, senão o Daichi arranca sem ti."
No meio daquela tempestade caótica, a figura de Daichi funcionava como o verdadeiro olho do furacão. Ele já estava de pé junto à porta das traseiras, com um casaco escuro vestido e as chaves da carrinha a rodar nos dedos. O seu rosto exibia uma expressão de severidade calma, a máscara de responsabilidade que claramente usava para manter o grupo na linha. Ele contava as cabeças à medida que os rapazes passavam por ele e por fim, Yachi.
"Cintos de segurança, Noya, Tanaka! Se vos apanho a saltar no banco de trás outra vez, vão a pé," avisou Daichi, a sua voz firme. "Hinata, aperta o raio do sapato antes que caias pelas escadas abaixo. Kageyama, não empurres. Vamos, mexam-se."
Com uma eficiência que Takeda só vira em treinos militares, Daichi conseguiu canalizar todo aquele caos para fora de casa. Do lado de fora, no pátio de terra batida, o motor da carrinha velha que pertencera ao avô de Ukai fez um ronco pesado e soltou uma lufada de fumo cinzento e ruidoso, protestando contra o frio da manhã, e pouco depois ouviu-se o som dos pneus a mastigar o cascalho à medida que a viatura arrancava em direção à estrada principal que levava à vila. O rasto de poeira assentou lentamente no jardim, deixando atrás de si um silêncio repentino, profundo e quase ensurdecedor.
A cozinha, que vinte minutos antes estava imaculada, parecia agora o cenário pós-furação de uma batalha campal. Havia migalhas espalhadas pelo chão, duas cadeiras fora do sítio, canecas vazias com restos de leite com chocolate e uma colher caída perto do fogão.
No canto da divisão, Kuroo, que tinha conseguido passar toda a confusão encolhido em cima de uma das cadeiras altas, saltou para o chão com um miado de desdém, caminhando elegantemente em direção à sala de estar, como se os humanos fossem criaturas demasiadocomplicadas paras si.
Ficaram apenas Takeda e Ukai.
O diretor do orfanato levantou-se, recolhendo três canecas de uma só vez com a destreza de um empregado de balcão. Soltou um suspiro pesado, daqueles que vinham do fundo do peito (ou da alma). No entanto, quando olhou na direção da porta por onde os miúdos tinham saído, os seus olhos tinham um brilho quente, uma suavidade que ele tentava esconder sob a sua postura rude de ex-delinquente da província.
"Eu posso ajudar-"
Ukai abanou com a cabeça e caminhou até ao fogão, pegou no bule preto e serviu mais duas canecas de café fumegante. Voltou para a mesa, estendeu uma a Takeda e sentou-se na cabeceira, relaxando os ombros e deixando-se afundar na cadeira pela primeira vez naquele dia.
"Peço desculpa pela algazarra, Takeda," disse Ukai, usando o primeiro nome do assistente social com uma familiaridade que apanhou o outro de surpresa. "Todos os dias, às oito em ponto, parece que estamos a enviar um exército para a guerra. É sempre isto. Uma correria para encontrar meias, mochilas trocadas e discussões sobre quem se senta à janela. Mas garanto-te que há um método nesta loucura."
Takeda aceitou a caneca, sentindo o calor agradável a aquecer as suas mãos. Bebeu um gole, deixando que o sabor forte do café lhe acalmasse o sistema nervoso e sorriu levemente, "Não precisas de pedir desculpa, Ukai-san. Na verdade... fiquei bastante impressionado com a organização. O Daichi parece ser um jovem extraordinariamente responsável. Fiquei surpreendido por vê-lo a assumir o controlo daquela maneira."
"E é," concordou Ukai, com um orgulho que não conseguiu disfarçar. "O Daichi fez dezoito anos recentemente e tirou a carta de condução à primeira tentativa. Agora é ele que leva os mais novos para a escola na vila, naquela carrinha velha que herdei do meu avô. A mim poupa-me um tempo precioso, e para ele... bem, dá-lhe um sentido de propósito. O Daichi decidiu ficar a estudar em casa este ano. Ele quer repetir os exames para entrar na academia de polícia porque no ano passado as notas não foram suficientes devido ao stress aqui de casa. Ele é o verdadeiro pilar dos miudos, Takeda. Às vezes até demais. Tenho de o arrastar para fora dos livros para garantir que ele se lembra que ainda é apenas uma criança... De 18 anos, mas uma criança."
Ukai fez uma pausa, os olhos fixos na superfície escura do seu café, parecendo avaliar o quanto deveria revelar ao assistente social. Mas ao olhar para o rosto expressivo de Takeda, que não escondia uma empatia genuína e nenhuma daquela condescendência fria dos inspetores anteriores, decidiu continuar.
"A integração deles na escola pública da vila é... complexa, para ser honesto com todo o respeito pelos professores de lá," continuou Ukai, apoiando os cotovelos na mesa. "Tem o Hinata e o Kageyama, por exemplo. São como o dia e a noite, mas não conseguem viver um sem o outro e eu acho que honestamente partilham o neurónio. O Hinata é um foguete sem travões, com ma energia inesgotável que luta para manter o foco numa página de caderno por mais de cinco minutos. Ele precisa de se mexer, de falar, de externalizar tudo. Já o Kageyama é o oposto absoluto. O seu mundo é feito de linhas retas e regras muito próprias."
Takeda assentiu com a cabeça, lembrando-se da forma como o rapaz tinha alinhado os talheres. "Ele parece ser muito focado na rotina."
"Exatamente," disse Ukai. "Ele tem uma enorme dificuldade em decifrar as subtilezas sociais. Não entende piadas fáceis, quando ficou aqui connosco não entendia sequer sarcasmo e tem muita dificuldade em fazer amigos fora do nosso círculo. Ele prefere o conforto das rotinas previsíveis e o silêncio ao ruído do recreio. Os professores na vila demoraram a perceber que ele não estava a ser arrogante ou mal-educado, é apenas a forma como ele é. E o Hinata, por muito barulhento que seja, é o único que consegue puxar pelo Kageyama sem o deixar desconfortável."
Ukai bebeu mais um gole de café, soltando um curto riso, "Depois temos o Noya e o Tanaka. Esses dois são a verdadeira dor de cabeça de todos os professores. Estão na mesma turma e funcionam como uma dupla de comédia pura. Se um pensa numa asneira, o outro executa-a antes que o primeiro termine a frase. Os cartões de castigo por mau comportamento e palhaçadas excessivas já fazem parte da decoração oficial do nosso frigorífico. Mas são bons rapazes. Têm um coração que não lhes cabe no peito e não há uma única funcionária que não goste deles.."
"E os outros?" perguntou Takeda com a voz suave, retirando um pequeno bloco de notas do bolso do casaco, não para fazer uma inspeção oficial, mas porque sentia que aquelas histórias precisavam de ser preservadas exatamente como Ukai as contava. "O rapaz mais alto, o Tsukishima..."
"Ah, o Tsukishima e o Yamaguchi," Ukai suspirou, mas havia carinho no tom. "Andam na mesma turma e são excelentes alunos, os melhores da casa no que toca a notas. O Yamaguchi é mais reservado, um miúdo doce que às vezes duvida demasiado de si próprio, mas que se esforça mais do que qualquer outro. O Tsukishima... bem, ele é a nossa linha de defesa. A Yachi é a mais pequenina, ainda está na escola primária. Ela tem um talento extraordinário para as artes. Se fores à sala, vai ver que as paredes ganham vida graças aos desenhos que ela pinta com o Suga. Mas ela tem imensos problemas com as palavras. Troca as letras e fica frustrada e a chorar em cima dos cadernos, embora esteja a progredir muito graças ao apoio que tem aqui."
Ukai hesitou por um segundo. O seu maxilar cerrou-se ligeiramente e a postura descontraída deu lugar a uma tensão defensiva. Takeda percebeu imediatamente o que se passava, era a postura de um guardião prestes a proteger a sua matilha.
"Eles lidam bem com a situação de estarem no orfanato?"
"Varia," disse Ukai, antecipando a pergunta burocrática que sabia que constava nos critérios de avaliação do Ministério sobre a 'integração social dos menores'. "Mentia-te se te dissesse que a relação deles com os outros miúdos da vila é perfeita. Não é. Há sempre idiotas em todo o lado, e o estigma de serem 'os miúdos do orfanato'.Há algum bullying, sim. Há sussurros nos corredores da escola e piadas de mau gosto."
Takeda sentiu uma pontada de aperto no peito. "Lamento ouvir isso."
E era uma lamentação genuína, também ele naquela idade tinha passado por comentários maldosos e situações desagradáveis que ainda na vida adulta surtiam efeito.
"Não lamentes," respondeu Ukai, sorrindo de lado, "Eles aprenderam a proteger-se uns aos outros. E, honestamente? A maioria dos miúdos na vila pensa duas vezes antes de se meter com eles hoje em dia. Sabes o Tsukishima? Ele pode parecer calmo e desinteressado, mas tem uma língua tão afiada e venenosa que consegue reduzir um miúdo com o dobro do tamanho dele a lágrimas só com três palavras bem direcionadas e um olhar de desprezo. Ele funciona como um escudo para o Yamaguchi e para os mais novos. Criaram uma reputação de que é melhor deixá-los em paz. Ninguém toca na nossa família sem levar uma resposta à altura."
Takeda assentiu, terminando de anotar algumas coisas no caderno. Ukai tinha olhado na direção do bloco, mas não o tinha empedido de tirar apontamentos. Quando Takeda voltou a encara-lo, o diretor apontou então para as próprias mãos calejadas, mudando o tom de voz para algo mais leve e quotidiano, numa tentativa de aliviar o ambiente.
"Daqui a pouco, quando terminar este café e arrumar esta mesa, vou dar uma mão ao meu avô no campo," explicou Ukai. "O velho Ukai é uma figura conhecida na vila. Tem um terreno vasto um pouco mais acima na colina e vende frutas e vegetais no mercado local. É por isso que nunca nos falta comida fresca na despensa do orfanato. Cozinhamos tudo o que a terra dá. E sabes o que é mais curioos? Ao fim de semana, ou quando os dias correm mal na escola, algumas das crianças pedem para ir comigo para o campo. Há qualquer coisa terapêutica em meter as mãos na terra. O Hinata e o Yamaguchi, especialmente, adoram ajudar na colheita. Acho que os ajuda a descarregar a cabeça. O Hinata gasta a energia a cavar e o Yamaguchi encontra paz no silêncio do campo."
Takeda assentiu lentamente, fascinado com a forma como aquela estrutura, que o Ministério considerava precária e pouco convencional, era na verdade uma teia perfeitamente desenhada para amparar as falhas e as arestas de cada uma daquelas crianças. Não era uma instituição; era uma comunidade viva.
"E como fazem no final do dia?" perguntou Takeda, ajustando os óculos. "Se o Ukai está no campo e o Daichi precisa de estudar para os exames... como é que as crianças voltam?"
"Ah, aí entra a nossa salvadora," Ukai sorriu abertamente, encostando-se para trás. "Ao fim da tarde quem traz os miúdos da vila é a Shimizu. A Kiyoko. Ela foi colega de turma do Daichi e do Suga da escola secundária, e entrou agora na faculdade para seguir a carreira de professora. Ela é uma miúda fantástica."
"Ela dá-lhes explicações?"
"Exatamente," confirmou Ukai. "Ela aproveita para praticar connosco. Traz os miúdos da vila ao fim da tarde, garante que nenhum se perde pelo caminho, ajuda-os com os trabalhos de casa e dá explicações individuais na nossa sala de estudo. A Kiyoko tem uma paciência de santa que nem eu nem o Suga temos. Ela consegue sentar o Noya e o Tanaka a estudar equações de matemática durante uma hora seguida sem que eles percebam que estão a trabalhar! Os rapazes respeitam-na tanto que nem se atrevem a respirar alto perto dela."
Ukai terminou o seu café e levantou-se, pegando na caneca vazia e caminhando até à banca. Olhou de soslaio para Takeda. "É esta a nossa vida, Takeda. É caótica, é barulhenta e aposto que nos vossos papéis do Ministério há cinquenta alíneas que dizem que eu devia estar a fazer isto de outra maneira. Mas funciona. Eles estão seguros, estão alimentados e, acima de tudo, sabem que pertencem a algum lado."
Takeda olhou para o seu próprio bloco de notas, onde as palavras do Ukai estavam registadas numa caligrafia apressada e torta. Pensou no ecrã do seu portátil no anexo, com os seus espaços em branco e a frieza burocrática das perguntas do governo. Como é que ele ia traduzir aquela verdade para a linguagem cinzenta do Ministério? Como explicar que o que os seus superiores viam como "falta de controlo institucional" era, na verdade, o bater de coração de uma família real?
"Obrigado por partilhares isto comigo, Ukai," disse Takeda, levantando-se também e ajudando a recolher o resto das coisas da mesa, ignorando o protesto do loiro. "Acho que... acho que vou precisar de repensar a forma como vou escrever este relatório."
Ukai olhou para ele por um momento, avaliando a sinceridade nas palavras do assistente social. A tensão nos ombros do diretor pareceu ceder um bocadinho mais. "Só peço que seja um relatório justo, Takeda. Só isso."
Quando Takeda regressou ao anexo, minutos mais tarde, o sol já estava alto e iluminava completamente a secretária. Kenma tinha regressado ao seu posto em cima do parapeito da janela, lambendo preguiçosamente uma pata enquanto ignorava o mundo. Takeda sentou-se diante do portátil. Apagou o primeiro parágrafo formal que tinha começado a escrever e, com um novo fôlego recomeçou com as novas informações.
O sinal para o intervalo grande tinha acabado de ecoar pelos corredores da escola da vila, e o pátio rapidamente encheu-se com o ruído de centenas de estudantes. Num dos cantos mais afastados, perto da rede do campo de desporto, Hinata e Kageyama partilhavam um banco de cimento. Kageyama comia o seu lanche silenciosamente, enquanto Hinata balançava as pernas, incapaz de ficar totalmente quieto.
"Ei, Kageyama," começou Hinata, a voz subindo acima do barulho do recreio. "O que é que achaste do Takeda-san esta manhã? Ele parecia estar a gostar do pequeno-almoço, mas estava tão calado."
Kageyama mastigou o resto do seu pão de leite antes de responder, mantendo os olhos fixos no horizonte. "Ele é... silencioso. E usa óculos. Mas passou-me a geleia quando eu pedi, por isso acho que estava atento."
"Sim! Eu acho-o super simpático, ele tem sempre uma energia boa," Hinata riu-se de repente, quase engasgando-se com o seu sumo. "E ele é muito engraçado! Quase destruiu a cidade de legos que a Yachi estava a construir no tapete da sala! Ele ia a andar, a olhar para as estruturas e, do nada, BAM o pé dele deslizou em cima de uma peça solta e PUM. Ele deu um gritinho de surpresa tipo AHHHH e começou a abanar os braços no ar, a tentar equilibrar-se! Eu, o Tanaka e o Noya quase morremos a rir. O Takeda-san ficou todo vermelho a ajeitar os óculos, super envergonhado, a perguntar com uma voz mesmo preocupada se tinha estragado o projeto dela."
Kageyama ficou a brincar com a tira do seu hoodie,"Ele devia olhar por onde anda. A Yachi demorou muito tempo a planear aquela cidade."
"Mas ele não estragou nada! A Yachi verificou a torre e estava tudo bem," continuou Hinata, gesticulando entusiasticamente com as mãos. "Mas sabes o que é que me está mesmo a dar cabo da cabeça? Ontem ao fim da tarde convidei-o para jogar voleibol connosco no jardim e ele disse que não sabia jogar! Que seca! Eu achei que era uma desculpa, sabes? Ele parecia mesmo que queria jogar. Por isso é que tive uma ideia!"
"Oh não-"
"Temos de fazer um plano infalível para o ensinar a jogar voleibol! Se criarmos um treino especial para ele, um passo a passo bem simples onde ele não precise de se preocupar com mais nada, ele não vai conseguir dizer que não da próxima vez."
Kageyama franziu o cenho, encarando o outro com ceticismo. "Tu não sabes ser simples, Hinata. Vais querer que ele faça uma manchete e depois ficas a insistir pelos lançamentos."
"Não vou nada! Nós dividimos as tarefas: tu ensinas a teoria, porque és todo certinho com as regras, e eu trato da motivação! Se ele entrar no nosso ritmo e vir como o voleibol é incrível, vai esquecer os relatórios por uns minutos e sentir-se oficialmente parte da casa. Ele só precisa de um empurrãozinho."
Kageyama pensou por uns segundos na forma como Takeda, mesmo depois de quase cair e passar aquela vergonha com os legos, tinha tido o cuidado de dar passos bem lentos para trás para não pisar mais nenhuma peça da Yachi.
"Se ele aprender a fazer uma manchete em condições," resmungou Kageyama, embora a sua voz estivesse menos defensiva, "pode ser que o Ukai-san também jogue connosco no fim de semana."
"Vês? Tu também queres o plano!" Hinata sorriu de orelha a orelha, vitorioso, mesmo quando Kageyama desviou o olhar com um estalido de língua audível.
"E além disso~", Hinata saltou para o chão pousou as mãos na cintura, "Se ele gostar de jogar connosco, talvez não feche o orfanato!"
O moreno parou de beber o seu batido e encarou-o aflito, "Ele vai fechar o orfanato?!"
Hinata deu um suspiro, "Não sabemos ainda, mas o Tsukishima disse que era para isso que ele vinha. Mas-! Se gostar de nós, talvez não feche?"
Kageyama apertou o pacote do batido na mão com tanta força que o cartão estalou e o seu corpo ficou rígido, os olhos fixos em Hinata sem pestanejar. O pânico de perder o único lugar onde alguma vez se sentiu em casa deixou-o sem saber como reagir.
"O Tsukishima está a mentir," disse Kageyama, com a voz um bocado trémula, "Ele diz sempre coisas parvas para nos assustar."
"Eu sei! O Tanaka-senpai também disse para não ligarmos," Hinata apressou-se a dizer, agitando as mãos pelo ar para tentar acalmar o outro ao ver a sua reação. "Mas tu sabes como os adultos são... Às vezes vêm e olham para tudo com cara séria e mudam as coisas. Até o Suga-san estava mais calado ontem... Mas o voleibol resolve tudo! Se o Takeda-san jogar connosco, ele vai ver que a nossa casa é a melhor do mundo!"
Kageyama desviou o olhar para as próprias sapatilhas para acalmar o coração que batia depressa demais.
"O voleibol não serve para salvar casas, Hinata," murmurou, com os dentes cerrados.
"Serve sim!" insistiu o ruivinho, sentando-se outra vez ao lado dele e puxando-lhe a manga do hoodie. "O voleibol junta as pessoas. Se ele aprender a jogar e se divertir, vai dizer a quem manda que nós somos uma equipa!"
Kageyama ficou em silêncio por um longo minuto, a processar a lógica simples de Hinata. Lentamente, a rigidez dos seus ombros atenuou um pouco. Voltou a olhar para o seu melhor amigo, com a determinação habitual a regressar ao seu olhar.
"Temos de começar a desenhar o plano de treino hoje," exigiu Kageyama, limpando a boca à manga da camisola. "Se ele vai jogar, tem de aprender a receber a bola em condições. Não quero passes tortos no meu campo."
"Sim!" Hinata sorriu de orelha a orelha, aliviado por ver o companheiro de volta ao normal. "Vamos precisar da ajuda do Tanaka e do Noya!"
"Falamos com eles no regresso a casa."
Hinata assentiu e Kageyama achou que ele conseguiu sorrir ainda mais.
O som constante das teclas do portátil já começava a misturar-se com o zumbido das cigarras lá fora. Isso não era dizer pouco, uma vez que os bichos pareciam estar a cantar opera.
Takeda esfregou os olhos cansados por detrás dos óculos e releu pela quarta vez o mesmo parágrafo do relatório sem absorver absolutamente nada.
"As condições emocionais do ambiente demonstram..."
Demonstram o quê, exatamente? Que aquelas crianças se organizavam de uma forma funcional sem que fosse preciso disciplina excessiva? Que Ukai olhava para aquelas crianças como se cada uma delas fosse a coisa mais importante do mundo?
Soltou um suspiro e levou a caneca de chá já frio aos lábios.
Atrás dele, Kenma dormia esticado na diagonal em cima da cama, completamente derretido pelo calor do final da tarde. Vida dura de gato era complicada.
Takeda voltou a olhar para o ecrã e tentou escrever mais uma frase.
Apagou-a imediatamente.
Foi então que ouviu um toc toc toc muito insistente no vidro da janela e sobressaltou-se tanto que quase deixou cair a caneca antes de rodar a cadeiar.
Hinata estava colado ao lado de fora da janela com as mãos espalmadas contra o vidro e um sorriso enorme. Ao lado, Kageyama segurava uma bola de voleibol debaixo do braço com a sua expressão séria de sempre.
Takeda abriu ligeiramente a janela.
"Olá…?"
"Takeda-san!" Hinata praticamente berrou e ficou a saltitar. "O que estás a fazer?"
"...Relatórios."
Hinata fez imediatamente uma expressão horrorizada.
"Kageyama, ele está a fazer relatórios."
"Eu ouvi."
"Coitado."
Takeda soltou uma pequena gargalhada cansada. "Obrigado pela solidariedade."
Foi então que Hinata reparou em Kenma.
Os olhos dele brilharam instantaneamente, "Gatinho!"
O gato abriu um olho preguiçoso perante o grito.
Hinata aproximou-se ainda mais do vidro, completamente fascinado.
"Um dia eu vou conseguir fazer-lhe festinhas! Aposto que ele ia gostar que eu lhe coçasse as orelhas!"
Kenma encarou-o durante dois segundos inteiros antes de virar lentamente a cabeça na direção oposta em absoluto julgamento felino.
Kageyama deu imediatamente uma cotovelada em Hinata.
"Ai! O que foi?!"
"Concentra-te no plano!"
Hinata arregalou os olhos.
"Ah! Certo!"
Takeda franziu ligeiramente o sobrolho. "O plano?"
Hinata endireitou-se imediatamente e apoiou as mãos no parapeito da janela.
"Takeda-san," começou ele, num tom mais solene e dramaticamente exagerado, "Nós viemos numa missão muito importante."
Kageyama assentiu ao lado dele.
"Tu precisas de aprender voleibol."
Takeda piscou os olhos.
"...Desculpem?"
"Pensámos muito nisto," continuou Hinata rapidamente. "E decidimos que se aprenderes a jogar connosco vais divertir-te mais!"
"E melhorar a coordenação motora," acrescentou Kageyama.
"E fazer exercício!"
"E ganhar reflexos."
"E ser oficialmente parte da nossa equipa!"
Kageyama olhou para ele. " Isso não fazia parte do discurso."
"Mas faz sentido!"
Takeda sentiu o peito apertar ligeiramente ao ouvir aquilo.
Parte da equipa, quando ele era o adversário.
"Eu acho que vocês estão a sobrestimar muito as minhas capacidades físicas."
"Não estamos!" Hinata abanou vigorosamente a cabeça. "Nós ensinamos!"
Kageyama cruzou os braços.
"Já preparámos exercícios básicos."
"Exercícios básicos?" repetiu Takeda, incrédulo.
"Sim!"
"Ele desenhou diagramas," acrescentou Hinata com orgulho.
Takeda olhou imediatamente para Kageyama.
O rapaz desviou o olhar, ligeiramente corado.
"Organização é importante."
Aquilo era tão absurdamente querido que Takeda teve de esconder metade do sorriso atrás da mão.
"Eu realmente devia acabar estes relatórios primeiro..."
Hinata murchou instantaneamente e Foi tão rápido e genuíno que Takeda sentiu culpa imediata. O ruivinho aproximou-se mais da janela e juntou as mãos num pedido dramático.
"Por favorzinho?"
Takeda tentou manter-se firme.
"Hinata..."
"Por favorzinho mesmo mesmo muito pequeno?"
Kageyama suspirou pesadamente ao lado dele.
"Ele não vai parar enquanto não disseres sim."
"Traidor!"
"É verdade."
Hinata voltou-se imediatamente para Takeda com os olhos enormes e brilhantes.
"Prometo que vai ser divertido! E nós treinamos devagar! E eu não te deixo desistir! E o Kageyama sabe muito sobre voleibol! E nós até fizemos um plano de treino especial!"
Takeda olhou para os dois miúdos do lado de fora da janela, Hinata praticamente saltava no lugar de tanta energia acumulada e Kageyama fingia calma, mas apertava a bola contra o peito com expectativa evidente.
Esperavam genuinamente que ele fosse.
Queriam genuinamente passar tempo com ele.
Aquela realização atingiu Takeda de forma tão suave quanto devastadora.
Os relatórios continuariam lá depois…Certo?
Takeda suspirou profundamente e fechou o portátil.
Os olhos de Hinata iluminaram-se como fogo de artifício.
"ELE FECHOU O COMPUTADOR!"
Kageyama deu um pequeno passo para a frente sem sequer perceber que o tinha feito e Takeda levantou um dedo.
"Mas eu não prometi que vou ser bom."
"Não interessa!" Hinata praticamente berrou.
"Os fundamentos aprendem-se," declarou Kageyama com firmeza.
Takeda abanou a cabeça, incapaz de parar de sorrir, "Deem-me cinco minutos para trocar de roupa."
Hinata soltou um grito tão feliz que Kenma achatou imediatamente as orelhas em protesto.
"VITÓRIA! O plano funcionou!"
"Claro que funcionou."
Os dois desapareceram a correr pelo jardim antes sequer de Takeda conseguir responder e ficou sozinho outra vez no quarto silencioso. Abriu a gaveta da cómoda e tirou uma t-shirt velha cinzenta e uns calções simples que normalmente usava apenas para dormir.
Enquanto trocava de roupa, ouviu ao longe a voz excitada de Hinata:
"KAGEYAMA ELE DISSE MESMO SIM!"
"E agora temos de começar pelo básico ou ele morre."
"TU NÃO PODES DIZER ISSO SOBRE O NOSSO ALUNO!"
Takeda riu-se sozinho pela segunda vez naquele dia.
Quando saiu finalmente do anexo, de sapatilhas calçadas, os dois rapazes já o esperavam no jardim perto da rede improvisada.
Hinata acenou imediatamente com os dois braços no ar.
"TAKEDA-SAN!"
Kageyama segurou a bola contra a anca e assentiu com uma seriedade quase profissional.
"Bem-vindo ao treino."
Os primeiros cinco minutos do treino convenceram Takeda de uma coisa muito importante:
Hinata e Kageyama tinham mentido descaradamente quando disseram que iam começar devagar.
"Joelhos dobrados!" ordenou Kageyama pela terceira vez em menos de um minuto.
"Estou a tentar!" protestou Takeda, demasiado ocupado a evitar levar com outra bola na cara para manter qualquer dignidade.
Era curioso que o sempre tão estoico rapaz só a jogar ganhava um tom de voz mais assertivo.
Hinata surgiu imediatamente ao lado dele como um treinador hiperativo.
"Mais baixo! Tens de baixar o centro de gravidade!"
"O meu centro de gravidade já está a pedir ajuda."
"Outra vez!" disse Kageyama.
A bola veio na sua direção.
Takeda tentou fazer a manchete exatamente como lhe tinham explicado.
1) Juntar as mãos.
2) Esticar os braços.
3) Usar as pernas.
O resultado?
A bola bateu-lhe nos antebraços e voou diretamente por cima da rede, completamente fora de controlo, acabando perdida nos arbustos do jardim.
Houve um silêncio e Hinata arregalou os olhos.
Kageyama ficou a olhar para a trajetória da bola com expressão vazia.
"...Tecnicamente passou a rede," murmurou Takeda.
Hinata explodiu imediatamente numa gargalhada alta e sentou-se no chão,"TAKEDA-SAN TU MANDASTE A BOLA PARA MARTE!"
Kageyama apertou a ponte do nariz, "Isso nem sequer era fisicamente necessário."
Takeda levou as mãos à cintura, ofegante. Já não tinha idade. Já tinha passado dos 30.
"Eu gostava de salientar que vocês escolheram um homem cujo exercício físico habitual consiste em carregar dossiers."
"Isso explica muita coisa," comentou Kageyama.
Hinata ainda ria enquanto corria para ir buscar a bola aos arbustos.
Os minutos seguintes foram um desastre absoluto: Takeda tropeçou nos próprios pés duas vezes, falhou completamente três serviços lentíssimos de Hinata e acertou acidentalmente na rede.
E, num momento particularmente humilhante, assustou-se tanto com uma bola rápida de Kageyama que se baixou por puro instinto enquanto gritava "desculpa!" para ninguém em específico.
Mas pior do que tudo era acompanhar a energia daqueles dois.
Hinata parecia funcionar a combustível infinito. Saltava, corria, gritava incentivo e explicava movimentos tudo ao mesmo tempo sem perder o fôlego.
Kageyama era mais silencioso, mas igualmente intenso. Corrigia cada detalhe com uma concentração assustadora e demonstrava técnicas com uma precisão quase agressiva.
"Eles são malucos," murmurou Takeda para si mesmo depois de mais uma tentativa falhada.
"Ouvi isso!" gritou Hinata.
"Bom," respondeu Takeda, já a rir sem forças.
Meia hora depois, Takeda estava sentado na relva completamente derrotado. A t-shirt cinzenta colava-se-lhe às costas por causa do suor e os cabelos estavam despenteados de uma forma pouco habitual nele. Respirava como se tivesse acabado de subir uma montanha e sentia-se como um idoso com problemas respiratórios. Os óculos escorregavam com o suor do rosto, o seu cabelo estava todo no ar e agora tinha ervas também.
À frente dele, Hinata e Kageyama discutiam seriamente sobre qual dos dois tinha sido o pior professor.
"Tu lanças demasiado rápido!"
"Tu explicas tudo ao mesmo tempo!"
"Porque ele precisa de entusiasmo!"
"Ele precisa de bases!"
Takeda deixou cair a cabeça para trás e ficou a olhar para o céu dourado do final da tarde enquanto tentava recuperar o fôlego. Não se lembrava da última vez que tinha corrido tanto.
Ou rido tanto.
Foi então que uma voz indignada ecoou pelo jardim.
"Mas vocês perderam completamente a cabeça?!"
Takeda ergueu ligeiramente a cabeça e apoiou-se nos cotovelos.
Ukai vinha a atravessar o jardim em passos largos, claramente alarmado. Trazia terra nas botas e as mangas arregaçadas até aos cotovelos, provavelmente acabado de regressar do campo. O olhar dele alternou imediatamente entre Takeda (vermelho, despenteado e quase morto na relva) e os dois adolescentes ainda cheios de energia.
"Hinata. Kageyama." A voz dele tinha aquele tom perigosamente calmo de adulto prestes a dar sermão, "Vocês arrastaram o homem para um treino de voleibol durante quase uma hora?!"
"Trinta e quatro minutos," corrigiu Kageyama automaticamente.
"ISSO NÃO AJUDA!"
Hinata apontou imediatamente para Takeda.
"Mas ele aceitou!"
"Vocês insistiram até ele aceitar!"
"Isso também é verdade," admitiu Takeda entre respirações cansadas.
Ukai aproximou-se rapidamente dele, agora genuinamente preocupado.
"Takeda, estás bem? Eles não te forçaram demasiado? Eu juro que estes dois quando começam com voleibol perdem completamente o bom senso-"
Takeda tentou responder imediatamente, mas o problema era que ainda estava sem ar.
Acabou apenas por rir. Uma gargalhada cansada e surpreendentemente genuína escapou-lhe enquanto limpava suor da testa com o braço.
Ukai ficou em silêncio.
Hinata e Kageyama também.
Porque aquela expressão em Takeda era nova.
O assistente social parecia... leve.
As bochechas estavam coradas do exercício, os óculos ligeiramente tortos e havia relva colada às pernas dos calções, mas ele sorria com uma suavidade tão aberta que quase parecia outra pessoa.
"Está tudo bem," conseguiu finalmente dizer entre pequenas risadas ofegantes. "Eu estou só muito fora de forma."
Hinata iluminou imediatamente.
"Eu disse que ele se estava a divertir!"
"Tu disseste isso nos primeiros cinco minutos," resmungou Kageyama.
Takeda abanou a cabeça ainda a rir baixinho.
"Não me lembro da última vez que fiz alguma coisa tão... caótica."
Ukai observou-o por um momento mais longo do que o normal. Depois olhou para os miúdos e enquanto Hinata vibrava de felicidade, Kageyama tentava esconder o orgulho atrás da expressão séria habitual.
E Takeda... Takeda parecia mais vivo do que em qualquer momento desde que chegara ao orfanato.
A expressão preocupada de Ukai suavizou-se inevitavelmente.
"Vocês são impossíveis," murmurou ele.
"Mas o Takeda-san já consegue fazer uma manchete!" protestou Hinata.
"Uma em cada dez tentativas," corrigiu Kageyama.
"Isso chama-se progresso!" respondeu Takeda, ofendido.
Os dois rapazes olharam imediatamente para ele em choque.
"...Tu fizeste uma piada?" perguntou Hinata.
Takeda ficou vermelho instantaneamente.
Ukai riu alto e abanou com a cabeça, antes de limpar a mão suja de terra nas calças e a estender para Takeda para o ajudar a levantar.
O moreno sorriu-lhe e segurou na sua mão, deixando que Ukai o puxasse com toda a força que tinha.
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