Someone, Somewhere in Summertime

1 1. Someone, Somewhere in Summertime


Notas iniciais
Disclaimers: -Esta fic é inspirada 200% no livro "House in the Cerulean Sea", no entanto, eu não aprofundei tanto certas coisas como no livro. Nomeadamente, as crianças aqui não são criaturas mágicas. Acho que dá para ler sem conhecer o livro, mas está tudo muito simplificado da minha parte porque sou impaciente. Penso que narrativa está apressada por causa disso. -Por falar em impaciente, pouco ou nada entendo sobre serviço social e o real funcionamento de um orfanato, considerem isto como uma visão muito simplista, ingénua e facilitada para ajudar o plot. Não levem isto como um drama muito sério, eu sou mais apreciadora de comédia. -Era demasiado ambicioso para mim usar todos os personagens que eu queria, então tive de fazer alguns cortes e focar-me em parte da Karasuno apenas. Aproveitei os outros personagens para pequenas referências e piadas idiotas. Uma vez que são crianças, evitei os meus ships "tradicionais" e doeu-me na alma. Tive também de alterar idades para encaixar melhor no plot. -O Lucy do livro original gosta de "música de morto" e eu (in)felizmente também até um certo ponto. Como a música que eu ouço é quase toda dos 80's (ou começo dos 90's), vou usar algumas referências durante a história, nas notas finais vou deixando a lista. Simple Minds - Someone Somewhere (In Summertime) - 1982

Takeda deu o milésimo suspiro e num gesto de puro nervosismo tentou ajeitar a sua gravata pela décima vez após pousar a mala e a gaiola no chão.

Tinha sido uma péssima ideia subir a colina a pé, considerando que a sua pequena mala era mais pesada do que parecia e que Kenma estava cada vez mais gordo. Para acrescentar a tudo isso, levava o seu casaco pelo ombro, sentindo-se desconfortável pelo calor da camisa já que mesmo de mangas arregaçadas não aliviava de forma nenhuma.

"Péssima ideia, velho rapaz." , murmurou baixo para si mesmo enquanto suspirava pela milésima primeira vez e procurava no bolso por uma carta dobrada de forma meticulosa. Já lhe tinham dito que era um péssimo e estranho hábito seu esse de falar sozinho.

Takeda ficava sempre atrapalhado e tentava disfarçar. Afinal, como poderia explicar a alguém que, quando a solidão batia, o silêncio ao seu redor parecia ganhar peso, como se ocupasse espaço demais dentro de si? Que, às vezes, a própria voz era a única coisa que lhe fazia companhia, ainda que imperfeita, ainda que insuficiente?

Não era algo de que se orgulhasse. Havia momentos em que se interrompia a meio de uma frase, como se tivesse sido apanhado em flagrante por alguém que não estava lá, endireitando a postura e limpando a garganta numa tentativa inútil de se recompor. Mas o hábito persistia, nas manhãs demasiado quietas, nas noites em que o relógio parecia avançar devagar demais, e até agora, ali, com aquela carta amarrotada entre os dedos.

Usou a mão livre para ajeitar os óculos na ponta do nariz e depois desdobrou o papel com cuidado, alisando-o mais do que o necessário, como se prolongar aquele gesto pudesse adiar o momento seguinte.

Confirmou a morada (mais uma vez) e olhou para a casa que estava na sua frente. Por cima da porta de entrada estava um número 3 já desbotado.

"É aqui." , disse, mais para se reafirmar a si mesmo e Kenma deu um miado em resposta que vez com que Takeda desse um salto assustado. Olhou ofendido para o gato malhado na sua gaiola e este teve a audácia de virar ao contrário e lhe mostrar a cauda.

Dobrou o papel, meteu-o no bolso, suspirou pela milesima segunda fez, ajeitou de novo a gravata e os óculos na ponta do nariz e endireitou-se.

"Vamos, tu és capaz."

Pegou na mala com a mão direita, a esquerda segurou a gaiola de Kenma e deu os últimos passos até à campainha, quase em piloto automático.

Em teoria, ele podia entrar pelo orfanato dentro sem aviso. Na verdade, devia. O mestre do orfanato deveria ter recebido uma notificação de que alguém lá iria aparecer para inspecionar, sem data marcada.

Pegou na mala com a mão direita, a esquerda segurou a gaiola de Kenma e deu os últimos passos até à campainha lembrando-se que, em teoria, ele podia entrar pelo orfanato dentro sem aviso.

Era, afinal, um trabalhador do Governo, enviado com autoridade suficiente para abrir portas sem pedir licença, para observar sem ser visto, para registar falhas antes mesmo que alguém tivesse tempo de as esconder. A sua função era simples no papel: analisar, avaliar, auditar. Confirmar que tudo estava conforme as regras, que cada detalhe cumpria aquilo que fora estipulado por pessoas que raramente punham os pés em lugares como aquele.

Mas Takeda hesitou.

O dedo pairou sobre a campainha por um instante a mais do que o necessário. Não lhe parecia justo ou educado entrar assim, como uma presença imposta. Havia algo intrusivo nessa ideia de atravessar aquele espaço sem aviso, como se as pessoas lá dentro fossem apenas linhas num relatório.

E, embora soubesse que ninguém o impediria, que ninguém sequer poderia questioná-lo, Takeda não conseguia ignorar o leve desconforto que lhe apertava o peito.

As pessoas lá dentro não eram linhas num relatório. Eram crianças.

Por isso, ignorou a sua autoridade e pressionou finalmente a campainha.

O plano de ataque tinha começado no momento em que Ukai abriu a carta do governo com o aviso de uma inspeção "aleatória".

O seu desconforto foi imeditato, como se tivesse recebido um soco no estomâgo.

Ficou alguns segundos a olhar para o papel, sem realmente ler o resto. As palavras estavam lá, alinhadas e formais, cheias de jargão jurídico, mas tudo o que lhe ficava era aquela sensação incómoda a crescer, a instalar-se devagar demais para ser ignorada e a deixar o loiro a sentir-se sufocado.

Inspeção. Aleatória… "Aleatória".

Ukai soltou um suspiro, dobrando a carta sem grande cuidado. Não era a primeira vez que alguém do governo aparecia. Mas também nunca era… só mais uma visita. Nunca era simples.

Olhou em volta do seu gabinete, quase por reflexo. A casa estava viva, havia sempre qualquer coisa fora do sítio, qualquer coisa a acontecer ao mesmo tempo, alguém a rir, alguém a falar alto. Um casaco largado numa cadeira, passos apressados (e descalços!) no andar de baixo. Nada fora do normal. Tudo perfeitamente funcional.

E, ainda assim, não era o tipo de ordem que cabia num relatório.

Passou a mão pelo cabelo, já a pensar à frente. Não podia esconder coisas, não havia nada para esconder, mas como poderia explicar? Como traduzir aquele lugar, aquelas rotinas, aquelas crianças.

Mas Ukai não era um homem de ficar parado no seu próprio desespero. E começou a formar um plano.

Não era um plano elaborado, nem particularmente organizado. Ukai não era tão organizado assim assim. Era mais uma sucessão de decisões rápidas, práticas que pudessem ajudar: arrumar o que desse para arrumar, mandar toda a gente colaborar (até mesmo Tsukishima), evitar confusões desnecessárias e, acima de tudo, garantir que ninguém se sentia observado como um problema à espera de ser corrigido.

Porque era isso que mais o incomodava.

Ukai não ligava à formalidade da inspeção em si, muito menos o que poderiam escrever sobre ele. Mas a ideia de alguém estranho entrar ali e olhar para aquelas crianças como se fossem apenas algo a avaliar, a medir, a julgar à distância era o suficiente para o deixar irritado.

Ukai apertou a carta entre os dedos por um instante, antes de a pousar em cima da mesa com mais força do que o necessário.

“Vai correr bem,” murmurou, mais para si do que para qualquer outra pessoa e saiu porta fora para chamar os míudos e explicar a situação.

Em defesa dos pirralhos, pensou Ukai, só tinham tido duas semanas de preparação. Duas longas semanas cheias de ansiedade para o mestre do orfanato.

Quando a campaínha tocou, as crianças apareceram de todos os lados e tal como ensaiado (no sentido mais literal possível), sairam todos lá para fora e organizaram-se por alturas.

("Como "A Música no Coração"?" , questionara Nishinoya ao ouvir a ideia).

Takeda estava ainda parado junto da campaínha quando a porta se abriu e um furacão saiu porta fora para o alpendre. As crianças sussurravam alto entre si e discutiam enquanto se tentavam colocar em fila.

O moreno ficou muito quieto e parado durante a confusão que se seguiu.

Primeiro saiu aos saltos um rapazinho de cabelo laranja que levava à sua frente uma menina loira assustada. De seguida, um rapaz alto de óculos com uma expressão emburrada que tinha atrás de si um rapaz moreno a segurar na beira da sua t-shirt um tanto encolhido. Atrás deles, dois rapazes vinham a sussurrar entre si e aos risinhos, claramente tentando ver quem ria primeiro, um deles tinha cabelo rapado como um rebelde e o outro o cabelo espetado por todos os lados com uma mecha loira na franja. Estes dois amuaram quando o rapaz alto e sério, claramente o mais velho, que estava atrás deles lhes deu uma palmada leve no cachaço e depois olhou pelo ombro e fez sinal para o último adolescente, também um rapaz com uma expressão séria, cabelos negros e olhos azuis.

Enquanto quase todos falavam entre si em sussurros que achavam discretos, o rapaz mais velho pigarreou como sinal para que fizessem silêncio e só então Takeda associou o rapaz ao que tinha nos seus relatório. Sawamura Daichi.

Takeda franziu levemente o sobrolho em contemplação. Pelos seus dados, Daichi já tinha feito 18 anos, não devia estar ali.

Os seus pensamentos não devanearam mais porque por fim saiu o mestre do orfanato. Keishin Ukai.

Takeda reconheceu-o antes mesmo de ter tempo para o observar verdadeiramente. Não pela presença , que era menos imponente do que esperara, mas pela estranha familiaridade. Era como se já o tivesse visto muitas vezes. E verdade seja dita, meio que já o tinha feito: Fotografias anexadas a relatórios, imagens desfocadas, captadas sem intenção de retratar uma pessoa, apenas de documentar um caso.

Todavia, naquele momento, Ukai não era um registo.

O homem veio até à porta com passos firmes, limpando as mãos a um pano que trazia ao ombro, porque claramente tinha sido interrompido a meio de alguma tarefa. O cabelo estava um pouco desalinhado, preso por um arco e a postura descontraída. Absolutamente nada nele correspondia à rigidez implícita nos documentos que Takeda lera vezes suficientes para quase os saber de cor. Se alguma coisa, ele parecia um tanto condescendente e bastante desfortável. Ele vinha a ajeitar as golas da camisa como se lhe estivessem a sufocar.

Ainda assim, a informação desses mesmos documentos instalou-se entre eles no instante em que os seus olhares se cruzaram.

Takeda endireitou-se ligeiramente, ajustando a gaiola, num gesto inconsciente. Já sabia quem Ukai era. Sabia o que constava no seu histórico, o incidente, as observações, as dúvidas deixadas em aberto. Sabia o suficiente para já ter uma opinião.

E, no entanto, ali, à sua frente, essa opinião parecia… incompleta.

Ukai parou atrás do rapaz de cabelo rapado e pousou as mãos nos seus ombros enquanto avaliava Takeda comum olhar direto, sem pressa, sem cerimónia. Não havia surpresa, apenas um reconhecimento imediato do que Takeda representava. Estava à espera dele.

“Do Governo?”, questionou apenas e a voz era mais rouca do que Takeda esperava. Mais simples também.

Takeda assentiu, quase impercetivelmente, antes de responder, mantendo o tom calmo e formal que lhe era natural. Ainda assim, houve um segundo em que hesitou, não por falta de palavras, mas pela estranha sensação de que estava a falar com alguém que já o tinha antecipado.

“O meu nome é Ittetsu Takeda. Fui enviado pela Segurança Social como assistente social para auditar o orfanato durante o próximo mês. O senhor deve ter recebido uma notificação?”

Ukai assentiu, simples, como se aquilo não fosse novidade nenhuma mas, antes que pudesse responder, o silêncio que se seguiu foi imediatamente quebrado.

A menina loira deu um pequeno guincho aflito e agarrou-se ao braço do rapaz moreno ao seu lado, escondendo-se parcialmente atrás do outro loiro mais alto.

“Nós vamos ficar sem casa?!”

Daichi reagiu de imediato, pousando a mão com cuidado sobre a cabeça dela.

“Não, Yachi. Calma—”

“Ele não pode tirar a nossa casa porque ele é só assistente,” interrompeu o rapaz da mecha amarela, com uma confiança inabalável.

“Mas, Noya, ele disse que vinha fazer uma audição! E nós não temos um espetáculo preparado!” acrescentou o rapaz de cabelo cor de laranja, já visivelmente em pânico.

“Cabeça de tangerina, ele disse que vinha auditar,” corrigiu o loiro, sem dar ao trabalho de ocultar o seu desdém.

O mais baixo virou-se imediatamente para ele, indignado.

“Foi o que eu disse, Tsukishima!”

“Não foi—”

“Foi sim!”

“Não discutam,” murmurou o rapaz sardento atrás de Tsukishima, espreitando com um nervosismo evidente.

“Não estou a discutir, Yamaguchi. Para discutir era preciso que o Hinata tivesse mais que meio neurónio.”

“Eu tenho mais que meio neurónio! Tenho até um terço!”

“Um terço não é menos que meio?” perguntou o rapaz de cabelo rapado, genuinamente confuso.

“Até o Tanaka sabe mais matemática básica que tu,” comentou Tsukishima entre dentes.

Hinata já tinha levantado o punho.

Daichi pigarreou.

“Rapazes.”

O efeito foi imediato. Como se alguém tivesse puxado um fio invisível, todos voltaram aos seus lugares, braços cruzados e expressões fechadas, ainda que contrariados.

Apesar da expressão calma, Ukai sentia o início de um calor incómodo a subir-lhe pela nuca. Primeiras impressões eram importantes e aquilo não podia rapidamente a sair do controlo.

“Por favor, tenham bons modos e não interrompam o Sr.Takeda.”

“Desculpe, Takeda-san,” disseram em uníssono, num tom angélico e inocente.

Takeda piscou os olhos, surpreendido com a súbita mudança, e esboçou um sorriso ligeiramente tenso. Pousou a mala no chão e fez um pequeno gesto com a mão, quase automático.

“Está tudo bem… Como eu estava a dizer—”

“Eu não tenho nenhum talento.”

A voz, mais baixa e controlada, cortou o momento de forma inesperada.

Todos olharam para a fonte.

Até Ukai.

“Huh… o que queres dizer com isso, Kageyama?”

Takeda reconheceu-o imediatamente. A última criança a entrar no orfanato. Os relatórios ainda estavam frescos na sua memória.

Kageyama manteve o olhar firme, embora houvesse algo de hesitante na forma como segurava os ombros.

“Como posso fazer uma audição se não tenho nenhum talento?”

“Não, seu idiota. O Sr. Takeda é que vai fazer a audição!” corrigiu Hinata, com toda a convicção.

“Não pode,” disse Tanaka, franzindo o sobrolho. “Se ele vem fazer a audição, então somos nós os jurados?”

Yachi, já um pouco mais calma, soltou o braço de Yamaguchi e deu um pequeno passo em frente, sorrindo com curiosidade renovada.

“O Sr. Takeda vem fazer teatro para nós?!”

Takeda mordeu levemente o lábio inferior. A menina era adorável e tinha um "chafariz" no cabelo preso com uma borracha decorada com uma pequena flor.

"Lamento imenso, pequena senhora. Mas receio que não."

Ela corou levemente e fez um biquinho, "Oh…"

Takeda mordeu levemente o lábio inferior. A menina era adorável e tinha um pequeno “chafariz” de cabelo preso com uma borracha decorada com uma flor.

"Lamento imenso, pequena senhora. Mas receio que não."

Ela corou, fazendo um pequeno beicinho, "Oh…"

O momento de leve desilusão foi rapidamente interrompido por um pigarrear baixo.

Ukai.

"Vamos focar-nos no que é necessário."

A sua voz não foi alta, mas foi suficiente. As crianças endireitaram-se quase por instinto, ainda que algumas trocassem olhares cúmplices. Ukai desviou finalmente a atenção para Takeda, avaliando-o por um segundo mais demorado: a mala, a gaiola, a postura rígida, o ar claramente cansado e os óculos tortos.

"O Sr.Takeda veio a pé?"

Takeda hesitou, como se a pergunta o tivesse apanhado desprevenido , "Sim… achei que-"

"Má ideia."

A resposta do diretor do orfanato veio direta, quase automática. Atrás dele, ouviu-se um riso mal disfarçado.

"Disse-te!" murmurou Tanaka para Noya.

"Nem toda a gente tem a nossa resistência para fazer o caminho sem suar," respondeu o outro, orgulhoso e deram um highfive.

Takeda ajeitou os óculos, ligeiramente embaraçado, "Sim… já percebi que não foi boa ideia."

Kenma soltou um miado baixo dentro da gaiola, como se concordasse.

Foi o suficiente.

Hinata saltou do alpendre e apareceu quase instantaneamente ao lado de Takeda, inclinando-se para a gaiola com os olhos a brilhar.

"UM GATO?!"

Takeda deu um pequeno salto, surpreendido pela proximidade repentina.

"Ah…Sim. Eu não tinha quem cuidasse-"

"Posso ver?!" Hinata já estava praticamente colado à gaiola, agachando-se sem pedir permissão. "Ela é muito fofa! Como é que se chama?!"

"Ele chama-se Kenma," respondeu Takeda, ainda a recuperar do furacão energético e já habituado a que achassem que o seu gato malhado fosse uma femêa por causa das suas manchas laranja, pretas e brancas.

"Kenma!" repetiu Hinata, encantado. "Ele parece um rei! Olha só para ele!"

Kenma, em resposta, virou lentamente a cara e ignorou-o por completo.

"Ele não gosta de mim," murmurou Hinata, ofendido por meio segundo com um biquinho amuado antes de recuperar. "Não faz mal! Ele vai gostar do Kuroo!"

Takeda piscou os olhos.

"Do… Kuroo?"

"Sim!" Hinata levantou-se num salto e ficou a balançar entre a ponta dos pés e os calcanhares, "É um gato vadio que anda por aqui! Ele aparece às vezes, é meio assustador no início, mas depois é simpático! Aposto que eles iam ser amigos!"

"Ou iam tentar matar-se," comentou Tsukishima, seco.

"Não iam nada!"

"Iam sim."

"Iam não!"

Hinata virou-se de novo para Takeda, ignorando completamente a discussão.

"Posso levá-lo a conhecer o Kuroo depois?!"

Takeda abriu a boca, claramente sem saber como responder à avalanche de entusiasmo.

"Eu… suponho que-"

"Depois." , a voz de Ukai cortou o momento, firme.

Hinata parou a meio do movimento, "Mas-"

"Primeiro vamos deixar o Sr.Takeda conhecer o alojamento dele, vamos apresentar o orfanato e jantar." , Ukai cruzou os braços, olhando diretamente para Hinata , "Depois se der tempo vemos os gatos."

Hinata fez um beicinho, mas assentiu.

"Está bem…"

Takeda notou que a energia não desapareceu, apenas ficou em pausa.

Ukai voltou-se para Takeda novamente, "Vai ficar no anexo."

Takeda piscou os olhos, "Peço desculpa?"

"Vai ficar cá um mês, certo?"

Takeda endireitou-se imediatamente, "Trinta dias. É o período estipulado para a avaliação.Vinha na notificação-"

"Então é a melhor opção. É confortável, tem privacidade e o gato pode andar solto."

Direto. Prático.

Ukai olhou por cima do ombro.

"Tanaka. Nishinoya."

Os dois reagiram quase em simultâneo e fizeram uma saudação de soldado irónica, "Sim, chefe?"

Ukai rolou os olhos,"Levem o Sr.Takeda até ao anexo. Mostrem a casa. No final, tragam o Sr.Takeda para o orfanato."

Takeda assentiu e segurou na gaiola de Kenma, deixando que Tanaka carregasse a sua mala.

As crianças estavam a voltar a entrar e Tanaka lançou um último olhar ao grupo. Hinata ainda espreitava Kenma com evidente fascínio, como se estivesse a conter-se para não o seguir.

"Depois quero ver melhor!" sussurrou, como se fosse um segredo importantíssimo.

Takeda esboçou um pequeno sorriso, quase sem dar por isso e alguém chamou o ruivo para voltar. Hinata sorriu abertamente a Takeda e foi a correr de volta.

"Por aqui, professor!" chamou Tanaka, já a afastar-se.

"Não o assustes logo no primeiro dia," acrescentou Nishinoya.

"Não estou a assustar ninguém!"

Takeda apressou-se a segui-los.

"Professor…?"

"Tem cara disso," respondeu Tanaka por cima do ombro.

"Talvez noutra vida."

Noya aproximou-se, andando ao lado dele.

"Então vais mesmo ficar cá um mês?", disse já sem o tratamento formal que só a audácia da juventude permite. Honestamente? Takeda não ligava. Tinha 35 anos, ainda não era assim velho para ser tratado por "você"… pois não?

"Sim."

"Hm."

Atravessaram o jardim e por baixo das árvores o ar mais fresco trouxe algum alívio imediato.

"É ali," disse Tanaka, apontando para o pequeno anexo de madeira que ficava junto da velha estufa.

"Prometo que não deve estar assombrado, mas não prometo que não nos tenha escapado uma teia de aranha quando tivemos a limpar." acrescentou Noya, lutando com as chaves para abrir a casa.

Takeda parou por um instante, observando o espaço.

O anexo era uma pequena casa de madeira, afastada o suficiente do edifício principal para oferecer silêncio, mas ainda claramente parte do orfanato. As tábuas, gastas pelo tempo, davam-lhe um ar rústico e acolhedor, com um ligeiro cheiro a madeira aquecida pelo sol. Tinha janelas baixas que deixavam entrar a luz suave do fim de tarde e um pequeno alpendre que rangia sob os pés, denunciando cada passo. Ao lado, algumas plantas cresciam de forma meio descuidada, como se alguém tivesse começado a cuidar delas e depois se tivesse esquecido. Não era grande nem particularmente moderno, mas havia ali uma tranquilidade simples que o tornava imediatamente habitável. Era bem melhor que o apartamento studio que Takeda tinha no centro da cidade, cuja única janela dava diretamente para outro prédio.

Um mês, era só isso.

"Obrigado por me trazerem.", disse honestamente e pousou a gaiola de Kenma em cima da mesa.

"De nada!"

Nishinoya pousou as mãos na cintura, "Vamos dar um tempinho para se acomodar e já chamamos para jantar!"

Eles começaram a afastar-se, mas Tanaka ainda se virou.

"Um mês passa rápido!"

Takeda ficou a observá-los por um segundo, depois voltou-se para a porta.

Um mês.

Repetiu para si mesmo.

Mas, pela primeira vez, não tinha a certeza de que fosse assim tão simples.

Como se fosse possível, a casa principal, o orfanato por assim dizer, parecia ainda mais barulhenta por dentro.

Ao contrário do que o assistente esperava depois de ler os relatórios, não era um barulho desagradável, Takeda percebeu rapidamente. Não era desordem pura. Era… vida. Vozes sobrepostas, passos descalços apressados, uma porta a bater ao longe, alguém a rir alto demais e alguém diferente a mandar calar. Tudo acontecia ao mesmo tempo, num equilíbrio estranho que, de alguma forma, parecia funcionar.

Ele mal teve tempo de se orientar.

“Sr. Takeda!”

Hinata apareceu outra vez, como se tivesse sido lançado de algum canto da casa diretamente para a sua frente mal o assistente entrou no corredor, “Nós vamos mostrar tudo!”

“Tudo?” repetiu Takeda, ligeiramente apreensivo. Onde estava Ukai?

“Tudo!” confirmou Nishinoya, surgindo ao lado dele com um entusiasmo igual ou pior, “Versão oficial e a versão secreta!”

“Não há versão secreta,” murmurou Tsukishima, encostado a uma parede com os braços cruzados.

“Há sim,” respondeu Tanaka. “Tu é que és chato.”

A este ponto, pareciam já todos atulhados no meio do corredor.

“Se for uma versão secreta, então não deviam estar a anunciá-la,” acrescentou Yamaguchi, num tom tímido mas lógico.

“Não compliques,” disse Tanaka, dando-lhe uma palmada leve nas costas.

Takeda abriu a boca para dizer alguma coisa, provavelmente algo como “talvez devêssemos manter-nos na versão oficial apenas", mas já estava a ser puxado corredor fora por um Hinata muito entusiasmado. Tsukishima e Yamaguchi casualmente foram para o lado oposto e evitaram a situação.

"Boa sorte." , ouviu o loiro murmurar num tom um tanto condescendente, mas não teve tempo de processar direito porque o ruivinho já empurrava delicadamente na direção da primeira porta.

"Vamos começar pela melhor parte, a sala!", Tanaka avisou.

Takeda deu um pequeno passo para dentro atrás do rapaz, quase com cuidado. Atrás de si, Hinata e Noya, que o seguiam como dois patinhos no corredor estreito.

A sala não era grande, nem particularmente arrumada à primeira vista, mas era vivida. Um sofá avermelhado gasto ocupava um dos lads junto à lareira, coberto por algumas mantas mal dobradas e penduradas nas suas costas. Havia uma mesa baixa de madeira no centro, apinhada de folhas e marcada por riscos leves. Alguns livros empilhavam-se em pequenos montes que mias pareciam Jenga e uma televisão antiga, das volumosas, estava num móvel no canto.

Nada disso parecia surpreender Takeda. Ele era um homem da cidade, vivia num mundo moderno, mas tinha crescido numa pequena terra junto das montanhas e o rústico do lugar trazia-lhe alguma nostalgia de uma infancia que há muito ficara para trás.

O que realmente o surpreendeu foi o que estava no chão.

Espalhados por uma área considerável no tapete estavam blocos de Legos coloridos aparentemente organizados em várias construções e no meio disso tudo, sentada com as pernas cruzadas e uma concentração inabalável, estava Yachi.

A menina tinha a língua ligeiramente de fora, num gesto focadol, enquanto tentava encaixar duas peças que claramente não qeram feitas para encaixar. O mundo à sua volta parecia não existir por um momento.

Até existir.

Ela levantou o olhar ao se sentir observada e parou, como um animal assustado no meio de uma estrada.

Cruzou o olhar com o de Takeda e o mais velho também parou.

Havia algo na forma cautelosa como a menina o encarava depois do susto, que o fez ajustar ligeiramente a postura, como se qualquer movimento brusco a fosse assustar de novo.

Yachi pestanejou e depois, devagar, levantou a mão e acenou timidamente, sem dizer nada.

Takeda hesitou apenas um instante antes de responder ao gesto, levantando também a mão num aceno contido, quase solene demais para a situação. Mentalmente ouvia os comentários do passado a relembra-lo como ele era desajeitado.

“Boa tarde,” disse, suavemente.

Yachi não respondeu, mas sorriu de leve antes de voltar a olhar para os Legos, retomando a sua construção como se nada tivesse acontecido.

“Ela está a fazer uma cidade,” explicou Hinata num sussurro que saiu no volume normal da sua vez, "Ela nunca visitou uma e é o sonho dela! Mas esta cidade ainda não tem nome.”

“Vai ter,” acrescentou Tanaka. “Ela dá nome a tudo.”

“Até às coisas que não precisam,” disse Nishinoya.

“Tudo precisa de nome,” argumentou Hinata, com toda a convicção.

Takeda olhou novamente para o chão para as pequenas estruturas espalhadas e pensou no relatório dela. Uma menina que muito jovem fora deixada no sistema e que habitava naquele orfanato, que ficava numa zona distante de uma ilha cuja maior localidade era a vila junto do porto, desde sempre.

Uma criança que imaginava cidades que nunca tinha conhecido e que as representava com peças de Legos, num projeto que só terminaria quando achasse que estava perfeito.

“…É um projeto ambicioso,” comentou, "As cidades são coisas grandes."

Yachi, sem levantar o olhar, assentiu com a cabeça e Hinata sorriu, "Mas ela vai conseguir!"

E a loirinha corou levemente quando ouviu a resposta honesta de Takeda, "Também acredito que sim."

Manteve o olhar na “cidade” por mais um instante, seguindo com atenção o alinhamento das peças até perceber que uma das "torres" estava a inclinar. Instintivamente deu um passo em frente para ir segurar, o seu coração incapaz de deixar que algo tão simples fosse arruinar o projeto da menina.

Algures na sua mente, a voz do seu chefe relembrava que ele não se podia apegar às crianças e tinha de ser neutro na sua avaliação. E algures outra voz, que soava igual à sua, argumentava de volta que era só uma criança.

Deu um passo em frente e arrependeu-se no segundo seguinte. O som seco de plástico contra sapato não foi o suficiente para lhe dar tempo de reação e o com o segundo passo já não havia nada a fazer.

O pé deslizou ligeiramente sobre um lego e, por um instante que pareceu alongar-se em camera lenta, Takeda escorregou e equilíbrio.

Ainda deu um gritinho de surpresa (másculo) e depois seguiu-se um movimento desajeitado: um braço no ar, o outro a tentar encontrar apoio no nada e patinou no "nada" até que conseguiu recuperar por pouco, endireitando-se com uma dignidade… questionável. O seu coração tinha dado um pulo com o susto, a adernalina disparou e ele pousou a mão no seu coração.

Tinha 35 anos, não tinha nem capacidade motora nem capacidade emocional para lidar com emoções fortes.

Seguiu-se um silêncio…Um silêncio muito curto, mas suficiente.

Yachi só ficou a encara-lo aflita, Nishinoya levou a mão à boca a tentar conter-se, mas Tanaka não teve essa força.

“Pfffff”

Tentou fingir que estava a tossir, mas não resultou. Hinata começou a fazer o mesmo.

Takeda ficou muito quieto por um segundo também, ajustando os óculos na ponta do nariz no seu jeito nervoso, como se isso pudesse restaurar a compostura perdida. Sentia as bochechas a queimar pela vergonha.

Estava tudo bem. Ele estava bem.

Atrás de si, os três rapazes pareciam três hienas a rir como idiotas.

“…Peço desculpa,” disse, olhando para o chão com genuína preocupação. “Não estraguei nada, pois não?”

Yachi já estava de joelhos a segurar a torre mais próxima do assistente. Ela verificou rapidamente a construção que Takeda tinha visto antes e abanou com a cabeça. Não. Estava tudo bem.

Takeda soltou um pequeno suspiro de alívio.

“Há sempre legos no chão,” disse Tanaka, ainda a limpar os olhos de tanto rir. “É tipo um campo minado.”

“Só que mais perigoso,” acrescentou Nishinoya.

“Já devias estar habituado,” disse Hinata. “O Ukai passa a vida a reclamar quando anda descalço e os pisa."

“Isso não é um bom exemplo,” murmurou Takeda.

Houve uma pausa breve e o assistente questionou-se novamente onde estava o adulto responsável por aquelas crianças.

“…Suponho que,” começou, num tom pensativo, “É preciso aprender a andar com cuidado.”

“Ou decorar onde Yachi está,” respondeu Nishinoya.

“Ou simplesmente aceitar o risco,” acrescentou Tanaka.

Hinata assentiu com toda a seriedade, "Ou não andar descalço."

Yachi continuava em silêncio, ainda concentrada, empurrou mais uma peça para o lugar e terminou mais uma casa.

A cidade mantinha-se de pé e sobrevivia.

Takeda observou por mais um instante antes de dar um passo para trás, desta vez, sem incidentes. Hinata sorriu-lhe, "Vamos agora para o outro melhor lugar do mundo!"

"Não era este?"

"Também é este.", o rapazinho disse e agarrou no pulso de Takeda com a familiaridade e a inocência que só uma criança tinha.

Ok, não tanto criança assim. Takeda sabia que ele tinha 13 anos… só era muito pequeno.

Foi arrastado até à ponta do corredor que não tinha porta, apenas um arco que dava para a cozinha e para a sala de jantar.

O ambiente ali era diferente.

Não silencioso, mas mais organizado. O cheiro a comida quente, as preparações para o jantar, Takeda assumia, preenchia o espaço onde só estavam dois rapazes.

Reconheceu-o primeiro.

Sawamura Daichi estava junto ao fogão, postura firme, mãos ocupadas, mas o olhar ergueu-se assim que deram entrada. Não houve surpresa, penas uma atenção imediata que fez o seu sorriso cair e a sua expressão endureceu ligeiramente ao encontrar Takeda. Não foi um gesto brusco, mas foi óbvio.

E depois havia o outro rapaz.

Takeda franziu subtilmente o sobrolho. Não o reconheceu de nenhum relatório. Ele tinha os cabelos de um cinza claro e rstava encostado ao balcão, a cortar pão com a calma de quem não se deixa abalar. Quando reparou na presença de Takeda, também não se sobressaltou, limitou-se a erguer o olhar e a sorrir, um sorriso fácil, aberto… talvez demasiado fácil.

Algo não encaixava.

Mesmo com os cabelos cinza, o rapaz era jovem e Takeda assimiu que a idade devia estar perto da de Daichi, mas a postura… não. Havia uma consciência diferente, uma leitura do espaço que não era típica para alguém tão jovem. E, sobretudo, havia o detalhe mais importante: Não estava registado.

O pensamento surgiu com a clareza automática de quem está habituado a procurar falhas.

Isto não está documentado. Ilegal.

“Daichi,” começou Takeda, num tom educado mas já mais firme, dando um passo. “Não creio ter sido informado sobre-"

Daichi moveu-se também. Quase impercetivelmente, mas o suficiente para se colocar como barreira entre o assiste e o outro rapaz num gesto instintivo e protetor. O grisalho encarou Daichi por um breve segundo como se o julgasse sem palavras e Daichi ao sentir o seu olhar, encarou-o de volta, levantando o queixo em desagio. O outro rolou os olhos e tornou a encarar Takeda.

Antes que Takeda pudesse insistir, o momento quebrou-se por completo.

“Suuuuuga~! Pão com manteiga!”

Hinata atravessou a divisão aos saltos e em meio segundo já estava encostado ao balcão.

“Para mim também!” juntou-se Nishinoya sem qualquer cerimónia.

“E para mim!” acrescentou Tanaka, já a espreitar por cima do ombro dos baixinhos.

O rapaz grisalho, Suga?, riu-se baixo, desviando o olhar de Takeda com uma naturalidade quase calculada.

“Vocês têm um timing impressionante,” comentou, virando-se novamente para o balcão. A faca voltou a mover-se para espalhar manteiga em quantidades que fariam o colestrol explodir, “É sempre assim o vosso faro?”

“É talento,” disse Tanaka.

“É fome,” corrigiu Nishinoya.

Hinata assentiu com toda a seriedade, “Muita fome.”

Suga abanou a cabeça, ainda a sorrir, terminando de barrar manteiga nas fatias de pão.

Takeda não disse nada de imediato e esperou. Pensou na forma como ele não respondeu. Como desviou a conversa sem parecer evitá-la.

Interessante.

Mas Takeda, um homem conhecido pela sua paciência, também era conhecido pela sua teimosia, “Peço desculpa,” retomou desta vez dirigindo-se diretamente ao grisalho. “Mas não te tenho identificado em nenhum dos registos do orfanato. Vai contra as regras básicas de funcionamento e pode precisar de ser reportado.”

Não houve tensão visível. Suga limitou-se a terminar a última fatia antes de responder. “Isso é porque não vai encontrar,” disse por fim,levantando o olhar apenas o suficiente. “É que eu não moro aqui.”

A resposta foi simples. Demasiado simples.

Takeda manteve-se em silêncio, esperando desenvolvimento.

Suga sustentou o olhar por um segundo… dois… e então, como se decidisse que já tinha deixado espaço suficiente para a dúvida crescer, continuou:

“O meu nome é Sugawara Kochi."

O apelido era familiar para Takeda e ele semicerrou levemente os olhos enquanto se tentava lembrar de onde. Sugawara voltou a sorrir, reconhecendo o esforço mental dele, "Sou sobrinho do Sugawara Kyoushi, o atual presidente da junta da aldeia.” , fez uma breve pausa, “Venho cá ao Karasuno algumas vezes.”

Deixou a informação assentar. Não explicou de imediato. Não justificou. Não pediu validação.

Takeda reconheceu o nome e associou ao presidente e registou cada detalhe. A escolha das palavras, a ausência de excesso e a forma como a explicação vinha em partes, controlada, como se estivesse a medir exatamente quanto revelar e quando revelava uma sabedoria maior para alguém tão jovem. Isso era… bom.

“…Entendo,” disse por fim, embora não estivesse totalmente convencido de que entendia tudo.

Suga pareceu então ter pena do assistente e acrescentou, “Frequentamos a mesma turma, na escola. Eu, ele-" , deu um soco no braço de Daichi que por meio segundo perdeu a postura séria para sibilar de dor, "E o Asahi."

Outro nome que Takeda reconheceu: Azumane Asahi. Um ex-residente do orfanato.

A ligação era plausível e Takeda assentiu de novo. Se era só um amigo, podia estar a visitar. Meio que era contra as regras, mas Takeda também não achava que precisassem de ser tão rigidas.

E ainda assim…

Takeda não conseguiu evitar reparar que, enquanto Suga falava com uma facilidade desarmante, Daichi permanecia em silêncio absoluto. Não corrigia, não acrescentava, não confirmava. Apenas observava, atento, tenso de uma forma contida, como alguém que não gostava da direção daquela interação, mas que também não a queria interromper.

Desconfiado.

E não sem motivo.

Outro silêncio (afinal, os rapazes mais jovens pareciam preocupados com aquela conversa entre os "adultos") até Suga o quebrar, “Pronto!”

A palavra veio como um ponto final e três fatias de pão apareceram quase de imediato nas mãos dos mais novos, como se aquilo fosse, afinal, a verdadeira razão de estarem ali.

“Sabia que podia contar contigo,” disse Tanaka, já a dar a primeira dentada.

“Serviço impecável,” acrescentou Nishinoya e Hinata não disse nada, já todo besuntado de manteiga e ocupado a comer de boca cheia.

Suga apoiou-se novamente no balcão, observando-os com um ar divertido, como se aquela rotina lhe fosse familiar ao ponto de não precisar de pensar nela.

Takeda ficou parado no mesmo lugar a observar a facilidade com que aquele rapaz se movia naquele espaço e para a forma como os outros o procuravam sem hesitação. E, por mais que tentasse encaixar tudo dentro de categorias claras e organizadas…havia ali algo que escapava.

Algo que não estava escrito em lado nenhum.

E, talvez por isso mesmo, lhe prendia ainda mais a atenção.

Takeda permaneceu na cozinha um instante além do necessário. A informalidade do espaço contrastava demasiado com a forma como a situação se tinha desenrolado, e isso não lhe passara despercebido. Daichi não desviava o olhar. Takeda diria que não havia agressividade aberta na sua expressão, mas também não havia qualquer tentativa de disfarçar a reserva. Quando falou, fê-lo com uma cortesia impecável, mas fria o suficiente para estabelecer uma distância clara.

“Se houver mais alguma questão, pode colocá-la diretamente ao diretor Ukai.”

A comentário era simples, mas funcionava como um limite. Takeda endireitou ligeiramente a postura ao ouvi-la, reconhecendo a intenção por trás daquela formalidade. Era, tecnicamente, uma resposta correta e, no entanto, deixava implícito que aquele não era o lugar para esse tipo de perguntas. Por um breve momento, Takeda deu por si a considerar exatamente isso. Onde estava Ukai? Sendo o responsável pelo orfanato, faria mais sentido que fosse ele a conduzir a visita, a esclarecer dúvidas, a evitar precisamente este tipo de mal-entendidos. A ausência começava a parecer-lhe… inconveniente. Ou deliberada.

“Naturalmente,” respondeu, mantendo o tom neutro, embora o pensamento não tivesse desaparecido por completo.

O silêncio que se seguiu não foi longo, mas foi suficiente para pesar. Takeda dava crédito ao rapaz, Daichi não recuou, não acrescentou nada, limitando-se a manter aquela presença firme, quase protetora. Antes que a situação pudesse endurecer mais, Suga moveu-se, de forma cuidadosamente medida. Pousou o pano no balcão e inclinou-se ligeiramente na direção de Daichi, o suficiente para entrar no seu campo de visão sem tornar o gesto evidente.

“Daichi,” disse levemente, “O diretor Ukai pediu ajuda com a mesa, lembras-te?”

Houve uma pausa curta- Daichi desviou finalmente o olhar de Takeda, fixando-o em Suga por um instante em que algo passou entre os dois, uma espécie de conversa mental silenciosa. A tensão não desapareceu totalmente, mas Daichi relaxou um pouco os ombros.

“Sim,”

Suga sorriu abertamente como se Daichi tivesse acertado na única coisa correta a responder e bateu levemente as mãos uma na outra.

“Então vamos fingir que somos pessoas organizadas durante cinco minutos,” comentou, voltando ao seu tom habitual.

“Cinco?” repetiu Tanaka. “Isso é pedir muito.”

“Eu acredito em vocês,” respondeu Suga, com uma expressão tão serena que era difícil perceber até que ponto estava a brincar. Hinata já se aproximava outra vez do balcão, claramente mais interessado em comida.

“Eu ajudo a transportar as coisas!”

“E partir um prato de novo?,” Nishinoya implicou.

“Isso foi só uma vez e eu sei fazer transporte bem.”

“Principalmente comida para a boca,” acrescentou Tanaka.

O pequeno protesto que se seguiu foi ignorado com facilidade. Suga deixou escapar uma risada baixa antes de voltar a olhar para Takeda, desta vez com uma expressão mais aberta, quase acolhedora, como se a tensão anterior nunca tivesse existido.

“Antes disso… eles ainda não lhe mostraram a sala de estudo, pois não?”

Takeda piscou os olhos, apanhado de surpresa pela mudança de direção, mas respondeu com honestidade.

“Ainda não.”

“Então deviam,” continuou Suga, com a mesma leveza, embora houvesse uma intenção clara por trás da sugestão. “É provavelmente o sítio mais tranquilo da casa.”

Hinata reagiu de imediato, e bateu com a palma da mão na testa num baque forte.

“Ah! A sala de estudo!”

“É onde fingimos que estudamos,” acrescentou Tanaka.

“Fala por ti,” disse Nishinoya.

“Estou a falar por todos nós.”

Suga arqueou ligeiramente a sobrancelha, divertido, antes de fazer um pequeno gesto com a mão.

“Levem o Takeda-san. Nós tratamos do resto por aqui.”

Não soou como uma ordem, mas foi obedecida como uma.

“Sim, senhor!” respondeu Tanaka, num tom exagerado.

Hinata já estava outra vez ao lado de Takeda, pronto para o puxar, enquanto Nishinoya ocupava o outro lado. Takeda hesitou apenas um segundo antes de se deixar levar pelos pequenos energéticos, mas não sem antes lançar um último olhar para Daichi. Este já não o observava diretamente, mas a rigidez na sua postura permanecia firme.

Takeda fez um pequeno aceno, mais por hábito nervoso do que por necessidade, e deixou-se levar para fora da cozinha. À medida que atravessava novamente o arco, o som do resto da casa voltou a envolvê-lo, mas o peso daquele breve confronto ficou discreto no fundo da sua mente. Hinata desculpou-se que precisava de ir fazer outra coisa e saiu pela porta lateral, mas Takeda mal prestou atenção, pensando antes que teria de falar com Ukai sobre o problema de pessoas não registada nos serviços do orfanato.

Na cozinha, o silêncio regressou apenas por um instante depois de eles saírem. Suga soltou um suspiro leve e cansado, enquanto voltava ao balcão.

“Foste um bocadinho intenso,” resmungou, pegando novamente na faca como se nada tivesse acontecido.

Daichi rolou os olhos e cruzou outra vez os braços na defensiva, “Ele não está aqui para nos ajudar,” disse por fim.

Suga não contrariou. Limitou-se a inclinar ligeiramente a cabeça, um sorriso pequeno a formar-se, mais pensativo do que divertido.

“Eu sei,” respondeu. Fez uma pausa curta antes de acrescentar, ainda no mesmo tom calmo: “Mas isso não significa que tenhamos de lhe dar razões para desconfiar mais do que já dá.”

Daichi franziu ligeiramente o sobrolho, mas não insistiu.

Suga voltou então ao seu registo mais leve para fechar o assunto.

“Agora anda,” disse, com um pequeno gesto de cabeça na direção da mesa. “Antes que o jantar acabe por ser só pão com manteiga.”

E, com isso, a cozinha retomou o seu ritmo como se aquela tensão nunca tivesse existido, mesmo que ainda estivesse lá, por baixo da superfície, a moer Daichi com ansiedade.

Takeda sorriu mal entrou na sala de estudo. Tinha um ar acolhedor, embora ligeiramente desarrumado com os vestígios do uso diário. A luz do fim de tarde entrava pelas janelas, iluminando o pó suspenso no ar e refletindo nas folhas espalhadas sobre as mesas. Takeda absorveu cada detalhe. As estantes abarrotadas com livros, alguns já amarelos, os lápis em copos, pequenas anotações e desenhos nas paredes, esculturas de plasticina (algumas pareciam prédios suspeitos).

Era estranhamente familiar, rementendo-o à sua própria infância.

Yamaguchi estava sentado numa mesa junto à janela, concentrado num caderno, os dedos firmes segurando a caneta. Tsukishima permanecia encostado à parede, braços cruzados, observando Takeda com o habitual ar de ceticismo, avaliando cada movimento do visitante. A sua expressão de desdém denunciava a sua opinião sobre a auditoria

“Então… é aqui que estudam?” perguntou Takeda calmamente.

Foi Yamaguchi quem ergueu os olhos, hesitando um pouco antes de responder. “Não exactamente… Vamos à escola no centro da vila, mas a Kyoko-san vem cá ajudar-nos com os trabalhos de casa. Explica-nos o que não percebemos e torna tudo mais fácil de compreender.”

Tanaka e Noya trocaram olhares e suspiraram como donzelas condenadas. Noya inclinou-se para o lado de Tanaka, fingindo que ia desmaiar para cima dele, “A nossa raínha! Ela é tão simpática… e bonita!” Tanaka riu baixinho, concordando com entusiasmo, "Mais que rainha, imperadora! Luz do nosso dia-"

"Imperatriz." , Tsukishima corrigiu entredentes, mas foi ignorado.

Yamaguchi sorriu, um pouco envergonhado, mas de acordo. “Sim… ela tem ajudado imenso. Facilita que consigamos perceber a matéria e não fiquemos só a decorar. Temos tirado melhores notas-”

Tsukishima, cruzando os braços com mais firmeza, olhou Takeda de cima a baixo com aquele olhar frio e ácido, “Hm. Parece que vocês estão a tentar vender a imagem do orfanato, convencer o assistente do governo de que tudo aqui é otimo. Admirável o esforço de marketing infantil.”

Takeda ergueu ligeiramente o queixo, mantendo a postura firme, sem se deixar intimidar pelo sarcasmo do adolescente mal humorado, “Nem eu, nem o Governo subestimamos a apresentação cuidadosa de uma instituição. Esforço e disciplina, quando combinados com cuidado trazem bons resultados a longo prazo. Para alcançar algo verdadeiramente grandioso, é preciso fazê-lo passo a passo, do início ao fim. Isso incluí a reputação da Karasuno.”

Tsukishima arqueou uma sobrancelha, o canto da boca curvado em desagrado. Abriu a boca para responder, já preparado para discutir com aquele adulto que achava que podia chegar ali e alterar a rotina deles para encaixar na bosta de um relatório.

Yamaguchi pressentiu e interrompeu-o, mesmo antes de falar, mudando de assunto completamente, “Está quase na hora do jantar. Não é melhor mostrarem ao Takeda-san o jardim antes do por-do-sol?”

Noya e Tanaka, entusiasmados, acenaram imediatamente, prontos para conduzir Takeda até ao jardim. O mais velho respirou fundo, sentia-se exausto de andar de um lado para o outro. Só queria voltar para o seu alojamento, deitar na cama e fazer cafuné em Kenma, que certamente já tinha encontrado um canto para dormir ao sol.

Os rapazes levaram-no para o próximo espaço, onde flores e árvores criavam um pequeno refúgio verde.

Quando chegaram ao jardim, Takeda abrandou o passo quase sem dar por isso, deixando que o olhar se adaptasse ao espaço aberto e à luz dourada do fim de tarde que se filtrava por entre as árvores. Ele vivia numa cidade onde o céu parecia passar mais tempo coberto do que limpo, onde os dias se confundiam entre o cinzento dos prédios e o reflexo molhado das ruas. Havia um ritmo constante e sufocante na sua rotina, desde os relatórios aos transportes cheios, o silêncio do seu pequeno apartamento ao final do dia. Ali, naquele jardim onde ainda conseguia ouvir o barulho do mar ao longe, o ar parecia diferente.

Suspirou profundamente, querendo aproveitar aquele ar puro. Mas a cena no jardim ttinha uma calma enganadora, quebrada apenas pelo som familiar de vozes elevadas e resmungos.

Foi então que reparou na rede de voleibol esticada entre dois postes de madeira já gastos, com a relva à volta marcada pelo uso frequente. Não teve muito tempo para refletir sobre isso, porque a cena à sua frente rapidamente captou toda a sua atenção.

Hinata e Kageyama estavam praticamente colados em Ukai.

Então era ali que estava o diretor.

O ruivo saltitava de um lado para o outro à sua volta, mãos juntas num gesto suplicante enquanto pedia "porfavorporfavorporfavor!", que queriam “só mais um” lançamento. Kageyama, calado, tinha uma expressão ansiosa, mas entusiasmada e assentia com a cabeça a concordar com Hinata. Ukai, por outro lado, já não tinha nem energia e paciência também estar já no seu limite. Passava a mão pelo rosto, suspirava, resmungava qualquer coisa entre dentes, mas mantinha-se ali, incapaz de lhes dizer que não.

"Ok. Só mais-" , não acabou a frase e Hinata saltou para o abraçar. Kageyama levantou-lhe um polegar.

Ukai deu uma palmadinha carinhosa nos cabelos ruivos e quando se afastou foi para o outro lado da rede, preparando-se para fazer um serviço.

Foi nesse momento que Takeda se apercebeu de outro detalhe. Ukai já não vestia a roupa de antes. A formalidade descuidada que trouxera consigo à porta tinha desaparecido, substituída por algo mais leve, mais prático como uma simples roupa de verão: uma camisola de mangas cavadas que deixava os braços expostos e calções confortáveis que deixavam evidentes as marcas de relva nos seus joelhos.

Takeda estava habituado a lidar com pessoas engravatadas, sobretudo nestes cargos importantes de CEO, COO, Diretores, e tudo mais. Um diretor sujo de relva era novidade. Todavia o seu olhar demorou-se mais do que devia noutra observação muito pertinente. Ukai estava a brincar com a bola para preparar o serviço e Takeda, que afinal era só um homem como todos os comuns mortais, focou-se nos braços do diretor, claramente bem definidos, na pele morena marcada pelo sol. Ukai parecia cansado, sim, mas também sólido, presente de uma forma que Takeda não conseguia reconhecer naquilo que tinha lido sobre aquele homem e o passado dele nos relatórios. E, por um breve momento, deu por si a observar sem o filtro profissional, como se estivesse apenas… a ver.

O assistente só voltou ao planeta Terra quando quando Nishinoya disparou ao seu lado, passando por ele como um foguete.

“Eu também jogo!” anunciou, já a correr em direção à rede.

“Eu primeiro!” acrescentou Tanaka, logo atrás, empurrando-o ligeiramente no processo.

A mudança foi tão abrupta que Takeda se sentiu a corar. Piscou os olhos, ajustou os óculos quase por reflexo e endireitou-se, como se pudesse recuperar compostura apenas com isso. À sua frente, o cenário transformava-se rapidamente: Hinata celebrava a adesão dos outros como se fosse uma vitória pessoal, Kageyama já se posicionava com uma seriedade absoluta, e Ukai… Ukai parecia reconsiderar todas as decisões da sua vida que o tinham levado àquele momento.

Resmungou qualquer coisa que se perdeu no meio ca confusão, claramente a tentar impor algum tipo de limite, mas a energia dos quatro rapazes tornava isso quase impossível. Ainda assim, não se afastou. Ficou ali, bola na mão, enquanto os adolescentes discutiam entre si quem era de que equipa, já que uma tinha uma pessoa a mais.

Foi só então que reparou em Takeda.

O olhar encontrou-o sem preparação, e houve um instante breve de pânico e reconhecimento como se só naquele momento se lembrasse que havia uma auditoria no seu orfanato durante um mês. A expressão mudou ligeiramente, não para surpresa, mas para algo mais prático, mais imediato. Os olhos desviaram-se para o céu, depois na direção da casa, como se estivesse a calcular mentalmente.

Takeda sabia que não era bem vindo, logicamente. Mas irritou-se um pouco pelo descaso que o diretor estava a levar a situação. Nem sequer se tinha dado ao trabalho de lhe mostrar as instalações, tinha deixado isso para as crianças. E isso, Takeda teria de mencionar no relatório.

“…Que horas são?” Ukai questionou de uma forma que para Takeda parecia bruta.

“Quase jantar!” respondeu Hinata, sem sequer hesitar.

Ukai passou a mão pelo cabelo, e deixou escapar um suspiro mais pesado.

“Perfeito,” disse, seco, embora sem verdadeira irritação. Depois apontou a bola na direção deles, rendido: “Uma jogada. Só uma. E acabou mesmo.”

Os protestos transformaram-se imediatamente em entusiasmo renovado.

Takeda permaneceu onde estava, ligeiramente afastado, observando a cena com mais atenção. Quando começou a achar que eles já se tinham esquecido que ele estava ali e ia alertar para a situação, Hinata correu novamente na sua direção, "Takeda-san!"

O moreno endireitou-se instintivamente quando o pequeno lhe "berrou", "Sim?"

"O Ukai-san e o Bakayama são setters, podemos ter duas equipas. Mas estamos 3-2! Não quer jogar connosco?"

Takeda pestanejou, não era bem a pergunta que esperava.

"Oh, eu…" , ajeitou os óculos, "Eu não trouxe roupas-"

"Eu empresto as minhas!"

(Lá ao fundo, Ukai berrou um "HINATA!" que deveria ser ameaçador, mas que o adolescente ignorou)

"Eu não acho que me sirvam." , o assistente não evitou um sorriso, "Além do mais, não sei jogar."

Hinata pestanejou também, a sua expressão por um breve momento antes de se abrir num enorme sorriso. Olhou pelo ombro e então veio a pergunta, berrada com entusiasmo:

"Hey! Dá tempo de ensinar o Takeda-san a jogar volley antes do jantar?!"