Someone Like You
13 Quinta ligação – Elizabeth Stockton
Aquele parecia mais um dia comum como todos os outros, mas naquela manhã, em especial, Elizabeth sentia-se angustiada.
Levantou e foi tomar o seu café da manhã. Depois tentou trabalhar no seu livro, mas não conseguiu escrever nenhuma linha. Elizabeth era professora de inglês, depois que se aposentou decidiu arriscar-se na literatura, não esperava se tornar uma J. K. Rowling, mas ficaria bastante contente se pelo menos os moradores de Brighton apreciassem suas histórias. Também se dedicava a algumas aulas particulares de inglês. Sabia que teria uma manhã difícil porque era dia da aula de Charles McAllister. Charlie era um bom menino, mas Jesus! Como era difícil fazê-lo entender a gramática, em tantos anos de licenciatura ela nunca tinha visto uma pessoa confundir tanto as preposições. Sentia-se como o Professor Henry Hinggins, personagem de My Fair Lady (um dos seus filmes favoritos), tentando ensinar Eliza Doolittle a pronunciar corretamente as palavras.
Depois que Charlie foi embora, ela foi cuidar um pouco do seu jardim. Aquilo era terapêutico, ainda mais depois de uma exaustiva aula com o menino Charlie.
Quando entrou em casa, verificou que havia uma ligação não atendida e um recado em seu celular. Era a Jo. Ouviu o recado e ficou bastante preocupada, sabia que a filha não estava bem. Retornou a ligação, mas Jo não atendia. Deixou um recado:
–Jo, minha menina. Como você está? Eu só queria dizer que também te amo muito. E que pretendo ir a Londres esse final de semana para ficar com você. Por favor, retorne a ligação quando ouvir o recado.
Elizabeth decidiu ir caminhar um pouco para tentar espairecer. Receava que Jo não retornasse a ligação, mas como tinha esperança teve o cuidado de levar o celular consigo.
A ausência de notícias a deixava ainda mais angustiada, então resolveu voltar para casa. Preparou um chá para se acalmar. Seu celular tocou, por um instante pensou que fosse Jo, mas era Paul.
Paul lhe contara tudo o que havia acontecido. Elizabeth ficou arrasada. Lembrou-se do pai de Jo e sentiu-se duplamente fracassada por não conseguir ajudar as pessoas que mais amava. Lembrou-se daqueles dias como se fosse hoje. De como foi assistir o homem que mais amava cada dia mais infeliz, apesar da família linda que haviam construído. Lembrou-se de como foi sofrido para ela também, pois atribuía a si uma culpa que não lhe cabia. Lembrou-se do horror e do choque de encontrar o corpo sem vida do marido e do bilhete na mesa de cabeceira. Lembrou-se de como teve que reunir forças que nem sabia que tinha para continuar por Jo. Sentiu-se tão impotente quanto naquele dia de anos atrás. Tentava entender onde havia falhado com Philip e com Jo, embora na carta ele a tenha isentado de qualquer culpa.
Combinou com Paul para este pegá-la em Salfords para ganharem tempo. Pediu a uma amiga que a levasse até lá porque não tinha condições de dirigir. A amiga ficou com ela até Paul e Amy chegarem.
Elizabeth deu um grande abraço nos dois e entrou no carro. Ninguém disse palavra alguma. Não precisava. Entenderam-se apenas com olhares. O silêncio pesado foi interrompido por uma música:
“'Cause, baby, you're a firework. Come on show 'em what you're worth. Make 'em go, "Ah, ah, ah!". As you shoot across the sky”.
–Ah! É o meu celular – disse Amy envergonhada – É o Robert! Alô, Robert.
–Oi Amy.
–Como ela está?
–Pode ficar tranquila que ela está bem!
–Graças a Deus! Hey Robert a Beth quer falar com você.
–Dr. Shankar, obrigada por cuidar da minha menina.
–Imagina, Sra. Stockton. Agradeça ao meu amigo George. Graças a ele chegamos a tempo. Está tudo bem com a sua filha, pode se acalmar agora. E não precisa me chamar de doutor, pode chamar de Robert.
–Está bem! Muito obrigada! Pode me chamar de Beth também, acho que não precisamos mais dessas formalidades. Ele está aí para que eu possa agradecê-lo?
–Está sim, vou passar o celular para ele.
–George, muito obrigada! Eu não tenho nem palavras para lhe agradecer.
–Não precisa.
–Precisa sim. Gostaria de agradecer aos dois pessoalmente.
–Nós ficaremos aqui até vocês chegarem para ela não ficar sozinha.
–Ótimo! Mais uma vez muito obrigada! Tchau.
–Tchau.
Depois da ligação de Robert todo mundo ganhou alma nova. E até começaram a conversar. De repente o celular de Amy tocou de novo.
–Hey Amy, Firework? É isso mesmo? Você deveria trocar o toque desse celular – brincou Paul.
–Falou o cara que tem a música da piña colada como toque.
–Essa foi golpe baixo – disse Paul rindo.
–Será que é o Robert de novo? – perguntou-se Amy – Não. É o Dick. Alô Dick.
–Oi Amy. Você falou hoje com a Jo? Eu recebi umas ligações dela. Tentei retornar, mas ela não atende. Fiquei preocupado. Você sabe se ela está bem?
–Dick, eu nem sei como lhe dizer isso, mas acho melhor dizer francamente e de modo direto.
–Pode dizer.
–Você não conseguiu falar com ela porque ela tentou suicídio.
Fez um breve silêncio.
–Dick, você está aí?
–Sim. Eu só estou tentando processar isso que você me disse. A culpa foi toda minha. Como ela está? Ela está ... – Dick não conseguiu terminar a frase.
–Não. O médico ligou e disse que ela está bem.
–Graças a Deus! Por favor, me passa o endereço do hospital que ela está que eu vou para lá imediatamente.
Dick anotou o endereço e desligou. Mesmo sabendo que estava tudo bem com a Jo, um milhão de pensamentos e sentimentos invadiram sua mente. E de certa forma sentia culpa e achava que havia contribuído de alguma maneira para que as coisas terminassem assim.
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