Somebody To You
27 O Caso de Erza Scarlet. - Nos acostumando um com o outro.
Notas iniciais

Depois de uma corrida de quase uma hora, eu estava exausta. Desde que eu passara da fase das regionais, ficara mais animada com a competição, e desejava melhorar meu desempenho físico. Por isso, todo dia, no horário em que normalmente retornava do trabalho, eu corria pelas redondezas do bairro em que morava. Trocava de roupa logo antes de sair do prédio da empresa e só voltava para o apartamento às sete da noite.
O período do dia não era dos melhores, mas foi a única parte da minha programação diária que estava disponível. Sobrava pouco tempo para qualquer coisa que não fosse estudos, trabalho e preparação, mas vencer de Mirajane com certeza compensaria.
Nós duas havíamos sido alguns dos destaques na primeira fase, o que, falando realisticamente, não fora grande surpresa. Fora poucas exceções, a maioria dos estudantes da região não era grande coisa no judô. Isso era mais um motivo para a competição entre eu e Mira acirrar: ambas considerávamos o talento uma da outra. Em momentos como aquele, a amizade não era lá muito relembrada.
Quando alcancei a portão do complexo de apartamentos, tirei da minha pequena bolsa um espelho de mão. Soltei os cabelos, limpei o suor. Esperei até o momento em que parara de ofegar. Só aí resolvi que estava tudo bem eu subir as escadas e entrar na minha casa.
Essa era uma das coisas que tinha mudado desde que Jellal fora morar ali: eu não me sentia muito confortável em ficar “feia” ou descabelada na frente dele. Não que ele me criticasse – isso não era nem um pouco do seu feitio e era algo que eu não toleraria −, mas eu meio que... Queria estar bonita. Coisa que eu nunca admitiria para ninguém.
Ao abrir a porta, imediatamente senti o cheiro forte de algum tempero, e não foi difícil deduzir que ele estava cozinhando. Inesperadamente – já que ele provavelmente nunca precisara fazer isto −, ele gostava e era bem melhor que eu na culinária. Conseguia transformar meus restos de refeições em coisas que eu nunca imaginara, e, na maioria das vezes, assumia a posição de quem preparava toda a comida. Segundo ele, depois que a faculdade de arquitetura acabava e ele estudava um pouco, não tinha muito que fazer.
− Boa noite... – eu enfiei a cabeça para dentro da cozinha, o avistando mexendo em algo que parecia um purê e com um pano velho enrolado na cintura.
Eu estava corada só pela situação em que nos encontrávamos: era muito estranho o clima familiar depois de tanto tempo. Principalmente quando era com ele.
− Boa. – ele exibiu o sorriso sofisticado com o qual eu me acostumara. – Eu já deixei o aquecedor de água ligado para você.
− Ah, obrigada.
Eu dei um risinho nervoso e me dirigi ao meu quarto. Na sala, qualquer um poderia notar uma arrumação diferente: havia uma mala aberta em um canto e colchas e travesseiros sobre o sofá. A TV fora trocada de posição, e o ar tinha um odor diferenciado. Masculino. Era ali que ele dormia, e, apesar de que eu soubesse que não era o melhor dos lugares, não havia nenhum quarto além do meu. Ainda assim, ele se mostrava completamente satisfeito.
Separei minhas roupas e me dirigi ao banheiro, que tinha se tornado compartilhado. Enquanto eu não podia deixar de notar a escova de dentes dele ao lado da minha, ou sua loção pós-barba, tentava não pensar em como aquilo nos fazia parecer um par de recém-casados. Se eu me permitisse, iria me perder em ilusões.
− Ainda bem que ele não é do tipo que larga as cuecas por aí. – eu estremeci ao me forçar a dar atenção à outra coisa.
Se bem que, provavelmente, ele só não fazia isso porque eu estava por perto...
Eu tinha que achar outra distração além de refletir sobre assuntos como esse. Eles não eram os mais agradáveis.
Assim que fiquei pronta, passei a ajuda-lo a colocar a mesa. Ambos estávamos em silêncio, que era uma companhia bem frequente quando estávamos a sós.
Nos primeiros dias depois da sua mudança, a situação era meio estranha. Apesar da minha descoberta a respeito do passado, o verdadeiro problema que ele enfrentara, e toda a sensibilidade que demonstramos no nosso reencontro, ainda tínhamos muitos assuntos pendentes. Seria pura falsidade se nos sentássemos perto um do outro e começássemos a conversar sobre o nosso dia, quando o que mais queríamos saber era o que o outro fizera durante os anos anteriores.
Na segunda semana desde que a tensão se instaurara, nenhum de nós tinha mais muita paciência para isso. Então começamos a contar um ao outro a respeito tanto do passado quanto do presente. E eu descobrira coisas como as amizades que ele fizera no exterior, ou que Shou estava estudando para se tornar seu assistente.
“− Ele geralmente programa a minha agenda, e se envolve bastante na organização da empresa. Apesar de ser mais jovem, já está trabalhando.”
Jellal, na verdade, tinha a permissão para assumir a Construtora, mas não queria. Ainda não estava preparado, dizia ele. Não gostava muito da condição em que vivia, mas era melhor do que se render aos pedidos dos grandes afiliados e representantes da multinacional. Então, escolheu não morar na casa que lhe ofereceram ou frequentar a todos os eventos que pediram.
Ele ouvira que eu, na verdade, resolvera me dedicar aos estudos, e era representante do grêmio estudantil. Eu lhe mostrara algumas fotos de Natsu, Gray, Lucy, Mirajane... Todos aqueles que haviam se tornado meus amigos ao longo dos anos.
“− Ah, e essa aqui é Juvia. Ela entrou esse ano. – eu olhava para ele e me perguntava se o assunto era ao menos minimamente interessante.
Jellal demonstrava considerar importante e não fazer pouco de tudo aquilo que eu falava, o que me deixava um pouco constrangida.
−Ela é louca pelo Gray. – eu sorri enquanto lhe mostrava uma fotografia em que ela sorria enquanto observava o garoto.
Ele riu enquanto seu olhar foi atraído para Gray e ele franziu as sobrancelhas.
− O que foi?
− Nada... – ele balançou a cabeça. – Acho. Só tive uma impressão errada.
Eu estranhei a situação, mas deixei para lá.”
Depois que os momentos em que conversávamos se tornaram mais frequentes, o silêncio não era mais tão desconfortável. Não era como se não fosse possível puxar uma conversa, mas sim como se não tivéssemos muito que dizer no momento. Nenhum de nós era do tipo tagarela.
O jantar daquela noite foi suflê de carne com salada e suco. Ainda não estava totalmente acostumada com o jantar a dois, motivo pelo qual ficava tão quieta até que começássemos a comer.
− Eu ainda não entendo como você consegue fazer isso com os pedaços de bife que não comemos ontem.
Eu encarava a comida no meu prato com espanto.
− Eu tive aulas de culinária com uma amiga do complexo. Ela fazia isso o tempo todo, quando não queria ter todo o trabalho de preparar tudo desde o início.
Ele riu novamente, e notei as covinhas que se formaram em suas bochechas. Eu ponderei se deveria ou não perguntar o que me vinha à cabeça, mas já que havíamos “estabelecido” uma regra de indagarmos tudo aquilo que nos interessasse no outro, fui em frente:
− E... Seu sorriso meio que mudou. Eles... Treinaram você ou algo assim? Para parecer mais chique?
Ele riu, largando os talheres e apertando as mãos.
− Eu nem tinha percebido isso. Acho que fiquei assim de tanto sorrir em festas.
Talvez ele não tivesse entendido muito bem a pergunta. Eu não achava o sorriso dele forçado, mas sim... Encantador. Experiente. Provavelmente ele vira e estudara tanta coisa que simplesmente era mais maduro que a maioria das pessoas da sua idade.
− Ah, claro. – eu disfarcei.
E então voltamos a conversar sobre o nosso dia – já tínhamos tirado a maioria das dúvidas a respeito do passado −, para então eu o convidar para jogar algo comigo.
...
− Erza! Erzaaa!
Eu ouvia gritos e batidas na porta enquanto tentava me apressar, colocando a calça à força.
− Já vai, Mirajane!
A garota chegara à frente do meu apartamento alguns minutos antes, enquanto eu ainda estava no banho, e não demonstrava ter muita paciência para esperar eu ficar pronta e abrir a porta − por mais que fosse uma manhã de sábado e não fosse muito normal ela vir sem avisar.
− Tem certeza que você não quer que eu atenda? – Jellal me questionou, sentado no sofá e com as sobrancelhas franzidas.
Eu conseguia o ver pela mínima fresta da porta do banheiro que eu deixara aberta. Eu conseguia enxerga-lo, mas não o contrário.
Dava para perceber que não era só eu que estava incomodada pela gritaria da minha colega. Eu bem sabia que podia ficar bem pior. E não queria dar motivos para que ela surtasse.
− Tenho! Você. – eu apontei para ele, mais uma vez, e então para o meu quarto. – Para dentro.
Eu já estava na sala, e, pela milésima vez, tentava convencê-lo a se esconder. Ele suspirou, sem entender muito bem os meus motivos, e fez como eu pedia.
− Só não entendo como isso vai ajudar.
Assim que ele fechou a porta, ajeitei minhas roupas e me dirigi à porta. Estava girando a chave quando olhei para trás e me dei conta de um detalhe importante: as coisas dele na sala. Quando ela tentou empurrar a porta, a tranquei novamente.
− Espere só mais um pouco!
Eu corri para fechar a mala dele e esconder seu cobertor em um canto.
− Eu vou arrombar! – ela berrou.
Tinha certeza que ela era capaz de fazer tal coisa. Foi por isso que larguei o que estava fazendo e abri a porta com tudo.
Torci internamente para que as coisas mal escondidas não dessem dicas da existência de outro habitante no local. Ainda não sabia o porquê, mas não queria que ela – ou ninguém – descobrisse sobre Jellal.
− Oi! Tudo bem?! – ela sorriu, como se não tivesse dito nenhuma daquelas ameaças, e entrou saltitante.
− Olá...?
Ela largou a bolsa sobre o sofá e se virou para mim.
− Eu quero um amistoso.
− Como?
− Você sabe, antes das estaduais ou regionais. Para você já saber previamente que vai ser derrotada. – ela sorriu provocativamente.
A expressão de Mirajane poderia ser considerada sinistra pela maioria das pessoas, mas eu já me acostumara. Bem, eu era uma das poucas que a via assim com frequência.
− Ah. Sabe Mira, eu acordei meio mal hoje.
Eu me coloquei em uma posição que a empatava de ver a parte da sala que eu não tivera tempo de arrumar.
− Medo? – ela semicerrou os olhos.
Eu não acreditava que ia dizer aquilo:
− Talvez.
A minha mini sentença teve o efeito contrário do que eu imaginava. A garota se aproximou, com uma expressão inquisitiva, e acabou por olhar para trás de mim.
− Porque tem uma mala ali?
Eu saltei, o que apenas a fez olhar para mim com mais suspeita ainda.
− Eu estava limpando minhas malas antigas. Estavam muito empoeiradas.
Ela me encarou por alguns segundos, e então foi até o objeto, o abrindo.
− Com certeza. Blusas da Armani, calças sociais, fragrância masculina... Cuecas! – ela disse com seu tom mais irônico e levantou a peça preta com o controle remoto da TV. – Erza... Quem exatamente você está abrigando e querendo esconder?
Corei imediatamente, e arranquei a mala e a roupa que ela segurava de suas mãos. Para só então ter um surto ao notar no que eu estava tocando.
Mirajane se levantou e começou a vagar pelo apartamento, olhando de canto em canto.
− Desconhecido, onde você está?! – ela cantarolava.
Ia abrindo cada porta que encontrava e gritando “Ahá!” só para encontrar o cômodo vazio. Até que chegou à porta do meu quarto e notou que a mesma estava trancada.
Eu estava suando frio. Não podia fazer nada que a parasse, e começava a ter uma pequena noção do porque que não queria que ele fosse visto: as insinuações e perguntas que os outros fariam. Eu mantinha o desejo de não contar a nossa história para mais ninguém, não queria demonstrar a minha dor. Também sentiria vergonha do que os outros poderiam pensar que éramos. Até por que... Eu tinha a impressão de que queria que ele ficasse ali, escondido, só comigo.
− Mirajane, por favor...
− Eu vou dar três segundos! – ela gritou para a porta. – Um...Dois...
Antes que ela pudesse chegar ao três, Jellal abriu a porta. Ele estava sério, como se irritado por ter sido escondido. Demorou alguns segundos até que Mira expressasse alguma reação.
− Oi! Tudo bem?! – ela repetiu o mesmo que dissera ao me ver.
Ele sorriu e deixou que a garota apertasse sua mão.
− Você deve ser... Colega da Erza?
− Exatamente! E você é...?
Ele hesitou.
− ...Um amigo de infância.
− Ah, claro, um amigo de... Espera. – ela olhou para mim, de olhos arregalados, e sussurrou mais alto que o normal. – Aquele amigo de infância?
Eu não estava acreditando na situação. Depois de dar um tapa na minha própria testa, a puxei até a cozinha.
− Como assim? – eu a perguntei.
− Bem, vários anos atrás, quando lhe perguntamos se você já tinha gostado de algum cara, você corou e disse que... Tinha um tal de amigo de infância. E não quis dar detalhes.
− ...Então...
Eu desviei o olhar, o que foi o suficiente para enchê-la de certeza. A garota saiu de onde estávamos e foi até ele, enlaçando seus braços.
− Prazer, Mirajane. E qual seria o seu nome, querido?
− Jellal. Ah, Erza me contou muito sobre você.
Ela me encarou mais uma vez. Aquele olhar que era de arrepiar.
− É? Jellal, pode ter certeza que eu tenho muitas coisas a dizer a respeito dela também!
...
Eu só consegui expulsar Mirajane depois de três da tarde. Ela fizera questão de contar casos suficientes para me deixar envergonhada por uma vida. Como todas as vezes que ela me vira passar mal, ou como eu já confundira um habitante local com um turista e criara uma situação desconfortável...
Ela terminou sua visita o convidando para as competições.
− Eu posso ir mesmo?
Estávamos lavando juntos a louça do almoço. Jellal ainda estava meio vacilante depois que eu demonstrara que não queria que o vissem.
− É claro que pode. – tentei não expressar o quanto eu queria aquilo. – Mas não vai te atrapalhar?
− É claro que não. – ele sorriu e eu fiz o mesmo. – Mas só posso ir às nacionais. E você... Tem certeza que quer que eu esteja lá? Sabe, vão me ver. – ele fez graça, revirando os olhos.
− Claro que sim! Eu só, como eu posso dizer... Ainda não sabia como te apresentar.
Ele se convenceu então, e disse que eu poderia espera-lo por lá. Foi então que algo importante me veio à cabeça: minhas mais frequentes que nunca conversas com certa pessoa.
− Jellal. – ele notou a urgência no meu tom, e me olhou preocupado. – Mas... Milianna vai estar lá. E ainda não contei sobre você.
Sua postura ficou tensa. Ele me encarou por alguns segundos, passou as mãos pelos cabelos, e então começou a responder:
− Tudo b...
− E a irmã de Simon também. – eu soltei a bomba antes que ele pudesse completar a sentença.
O garoto então notou qual a minha verdadeira preocupação.
− Tudo... Tudo bem. – ele mantinha o cenho franzido. – Vou ter que falar com elas algum dia. E não ia perder suas lutas por nada.
Ele sorriu e foi embora, mas notei que ainda estava um pouco preocupado. E não podia mentir: eu também.
Fale com o autor