Somebody To You
43 Extra 5. - Qual a sua tara?
Notas iniciais

“Talvez a gente não devesse ter feito toda essa bagunça...”, foi o que Natsu Dragneel pensou ao acordar em meio a um monte de corpos jovens, quentes, belos e... Completamente inconscientes, usando seu tronco como travesseiro. Ele não se lembrava muito bem do que havia ocorrido na noite anterior, mas sentia que ela havia sido longa. Algumas cenas lhe vinham em flashbacks, mas era tudo bastante confuso – o que era estranho, ele nunca havia tido uma experiência do gênero.
Seus olhos, desacostumados com a claridade, doeram devido à luminosidade repentina que os atingia. Ainda assim, foi graças à iluminação gerada pelos raios de sol, que escapavam por entre as persianas da janela semiaberta, que ele conseguiu enxergar a sala de estar do apartamento de Erza Scarlet, sua colega de classe − sabia onde estava porque fora inevitável visitar sua casa ao menos uma vez ao longo dos anos em que foram amigos. Não tinha a menor ideia do que fazia ali, mas sentiu calafrios apenas ao imaginar a ruiva visualizando as latas de refrigerante espalhadas pelo chão, os pacotes de salgadinhos abertos e a TV ainda ligada, sintonizada em um canal qualquer. O ambiente cheirava a comida artificial, o chão estava coberto de migalhas, havia um jogo de tabuleiro abandonado em um canto e camas limpas e arrumadas, como que esperando por eles. Era quase irônico que os jovens parecessem ter escolhido o chão.
Ao olhar por cima do seu ombro esquerdo, assustou-se ao perceber que a proprietária do local também estava logo ali, dormindo abraçada à Levy McGarden como se a menor se tratasse de um bicho de pelúcia. Gajeel estava próximo, os cabelos entre as mãos de Juvia enquanto essa ressonava tranquilamente. Gray encontrava-se largado ao chão, babando – típico dele, claro −, com a cabeça presa entre os braços do Redfox (quase que recebendo um mata leão). Jellal de algum modo acabara prensado entre Lucy e Juvia, a expressão inocente contradizendo a posição em que se encontrava. Metade do grupo mantinha pelo menos algum membro em cima do rosado, o que fazia com que ele sentisse dores e tivesse o desejo de levantar-se, acordar a todos e ordenar que lhe fizessem uma boa massagem.
Não o fez, no entanto. Se todos despertassem, teriam que arrumar aquela sujeira, ouvir Erza reclamando e sem dúvida ele escutaria sobre alguma coisa ridícula que fizera no dia anterior. Natsu não se importava com o último fator normalmente, até se divertia ao virar motivo de piada, mas a dor de cabeça excruciante o fez mudar de ideia por um momento. Estava extremamente cansado e seu corpo pedia por trégua.
− Ah, quer saber? Que se dane. – ele resmungou, revirando-se para ficar mais confortável, e puxou Lucy até que ela estivesse um pouco mais próxima. A loira nem percebeu, tinha o sono pesado.
Não havia nenhuma garantia de que ele realmente havia sido o primeiro a acordar. Algum dos outros adolescentes poderia ter o feito e voltado a dormir, assim como ele pretendia. Podemos resolver isso mais tarde.
...
− O que eles disseram? – Erza questionou Lucy, que saía da sua cozinha com um smartphone em mãos e os lábios completamente sujos de chocolate.
A loira fez questão de limpá-los antes de responder. Não gostava de parecer desleixada, ainda que estivesse apenas na sala de Erza.
− Resolveram que Jellal vai dormir na sua casa, Levy. – ela ironizou. Tinha adquirido esse costume desde que descobrira a respeito de relação “secreta” entre o roqueiro e a amiga. – Quero dizer, no quarto de Gajeel. Mas isso é meio que a mesma coisa, não?
A baixinha revirou os olhos, ignorando-a. Ela e Juvia Lockser estavam mais do que concentradas em assistir o novo episódio de “Encontros Alienígenas”, uma série de qualidade duvidável do Discovery Channel. De modo algum acreditavam em tudo que era dito pelos pesquisadores, mas era divertido acompanhar e criar suas próprias teorias. Como Erza arrumava as camas e a Heartfilia estivera preparando a comida, não havia do que reclamar.
A ruiva tinha as chamado para passar a noite em seu apartamento, o que era algo incomum. Não que elas não saíssem juntas, porém em geral os garotos sempre estavam presentes, logo a atmosfera de “festa do pijama” não se tornava possível. Aproveitando a oportunidade de finalmente fazer Jellal interagir melhor com seus amigos, ela decidiu que, no meio da semana que ele viera passar em Magnólia, o “colocaria para fora” e aproveitaria para se divertir com as garotas. Até então, tudo estava indo muito bem.
− Querem ajuda com alguma coisa? – Juvia perguntou ao se levantar. Seu senso de obrigação a fizera ficar desconfortável, pois era uma convidada e não estava ajudando em nada.
− Não, não... Só quero que mude de canal. Por favor. – Lucy gemeu, assumindo seu medo. Poderia parecer besteira para as outras, mas ela estremecia ao ouvir as histórias sobre anatomia extraterrestre e o contato que esses seres poderiam já ter tido com humanos.
Foi a vez de Juvia de bufar. Realmente, ela não conseguia compreender o pavor “sem razão” que a líder de torcida sentia, apesar de achar aquilo meio cômico. Procurou por algo divertido na programação noturna, mas tudo o que encontrava eram séries ruins ou muito antigas. Não demorou muito e todas as garotas haviam se sentado ao seu lado no sofá, parecendo esperar por algo. O silêncio se tornara um pouco desconfortável.
O estranhamento se dava provavelmente por causa da falta de costume. Sim, com certeza. Elas já eram tão próximas, não havia razão para tal formalidade... Ou havia? Será que, na verdade, eram os meninos que permitiam que elas agissem como confidentes em grandes grupos, mas que quando sozinhas elas se tornavam distantes? A maioria delas conhecia o sentimento de desapontamento que emergia em decepções do tipo, não desejavam que fosse o caso. Isso acabava por apenas piorar a paranoia que surgia na mente de cada uma.
Levy, especialmente, demonstrava precisar de algum pretexto para puxar o assunto, o mesmo que indesejavelmente se fixara na sua cabeça desde a semana anterior. Se já era tímida para iniciar qualquer tipo de conversa, aquela era pior: era o tipo de coisa que desejava fazer, porém dificilmente conseguiria introduzir o tema sem gaguejar. A mudez das outras a pressionava, e a pequena só conseguia imaginar que, caso tomasse coragem, possivelmente elas rolariam os olhos e debochariam dela.
Verdadeiramente, ela queria papear sobre algo extremamente fútil (sabia disso), mas era uma experiência que observara todos terem, porém nunca conseguira experimentá-la ou se inserir nas discussões. Não havia como falar sobre aquilo com Jet ou Droy, muito menos seus tios, porém pela primeira vez na vida ela tinha uma razão para ser fútil. E às vezes ser fútil era muito bom, não havia nada de errado em querer apenas rir e se sentir mais leve.
Juvia pareceu inconscientemente concordar com isso ao parar por alguns segundos em um canal que exibia algo semelhante a um “America’s Next Top Model” versão masculina. Os modelos eram extremamente belos, e o episódio ainda estava no início. Lucy foi a primeira a se manifestar:
− Pronto! Pode parar nesse. – ela colocou a mão sobre o braço da nadadora, impedindo-a de mudar de canal. Tinha tentado ser sutil, mas não conseguira. Só queria acabar com a tensão logo.
Juvia largou o objeto e se recostou em um dos travesseiros, enquanto Erza franzia as sobrancelhas. A Scarlet não entendia nada sobre aquilo, mas decidiu que deveria tentar experimentar se era isso que as outras queriam. Com certeza nunca assistiriam tal programa se qualquer ser do sexo masculino ali estivesse.
Passaram-se alguns minutos. Entre brigas, desfiles, comentários sobre quais eram os melhores e quais os mais ridículos, a judoca acabou verbalizando o que todas pensavam, mas não tinham coragem de dizer:
− Eles são muito bonitos, mas... Vocês não acham que os garotos são mais? Quero dizer, por que falar deles desse jeito se... Se nossos amigos são tão ou até mais... Ah, vocês entenderam. – ela começou a tomar consciência e se envergonhou do que dizia, o que fez as outras rirem.
Erza, às vezes, era mais sincera do que ela mesma desejava. Sua humilhação, no entanto, acabou sendo algo bom: só aquela fala já serviu para quebrar o gelo, e se tornou claro que “garotos” era um tema de interesse comum. Encararam-se por alguns instantes. Sim, elas eram amigas. Levy comemorou internamente: acharia estranho se fosse a única a notar que os namorados delas chamavam certa atenção por onde passavam. Não em mesma intensidade ou de um público similar, isso variava dependendo de qual deles, mas acabava por ocorrer.
− Eu concordo, mas isso não é porque nossas opiniões são meio... tendenciosas? Assistir é divertido mesmo assim. – respondeu Juvia, a primeira a tomar coragem. Ela não poderia negar o que a mais alta dissera, principalmente considerando como se comportara perto de Gray quando eles se conheceram. – Ah, vocês já perceberam como algumas pessoas ficam encarando?
− Exatamente! – Levy não conseguiu se conter. Finalmente alguém parecia compreendê-la! – Outro dia os vi entrando no “L’heure Du Thé”, a cena me lembrou de algo assim. – ela indicou o desfile transmitido na televisão.
− É meio estranho imaginar que eles são “populares”. – Erza complementou, ainda que o caso de Jellal fosse um pouco mais abrangente e ele fosse levemente (leia-se: extremamente) mais conhecido.
Para elas, acabara se tornando natural a presença de tantos homens atraentes ao seu redor, fossem como amigos ou apenas colegas de sala. Nos outros colégios poderiam até haver garotos mais bonitos ou em maior concentração, mas eles pareciam não as abalar, visto que elas conviviam constantemente com os chamados bishounens.
A “preferência” por um específico, em geral, se manifestava pelo “tipo” da garota. Simplificando, pela personalidade deles. Natsu era bobo, mas fiel; Gray era frio, porém cuidadoso, gostava de manter seus poucos amigos próximos; Gajeel era meio radical demais, mas era carinhoso e protetor: tirando Laxus, esses eram os focos de atenção da turma B. Já Erza, por Jellal ser mais velho, não tinha como perceber/se preocupar com isso, excetuando-se os raros casos em que ele aparecia na TV ou em alguma revista de fofocas.
− Posso... Fazer uma pergunta? – Levy indagou, mantendo a voz em um baixíssimo tom. As três assentiram o mais sérias possível, visto que isso sempre transmitia mais confiança para a McGarden. – O que vocês mais gostam nos garotos? Quero dizer, teve um artigo sobre isso em um site conhecido, e eu nunca tinha conversado sobre esse tópico com ninguém...
− Como assim “o que mais gostamos”? É como quando eles são gentis? – Juvia questionou.
− Não, está mais para a aparência...
− A parte de corpo que mais gostamos? – a Scarlet tentava ser sutil ao buscar sua resposta, não queria que Levy se desesperasse.
A delicadeza parecia ser em vão, no entanto: Levy já suava frio, estava chegando ao seu limite de coragem e vergonha.
− Ela quer saber qual é a tara de vocês, poxa! – Lucy exclamou, revirando os olhos.
− Lucy!
Levy engasgou com a própria saliva, enrubescendo ao perceber que, em outros termos, era exatamente isso que ela desejava saber. “Não acredito que Lu-chan foi tão direta...”. Não imaginava ser a única a pensar nisso, e, apesar de que a pergunta em si parecesse indecente, era uma curiosidade comum: tentou se justificar para si mesma. Nem que fosse idiota, ela queria ter uma experiência semelhante, mesmo que apenas para depois decidir que odiava divagar sobre tal coisa desnecessária.
− Uma parte do corpo então...? Mas tem que ser em geral, não é? Tipo, algo que nos atraia em qualquer que seja o garoto? – Erza perguntou, estava se esforçando.
Lucy havia tomado as rédeas da conversa, não via porque era estranho conversar sobre suas preferências. Ainda que não se sentisse plenamente confortável falando sobre o que lhe era pessoal, aquilo não se encaixava no caso. Como Erza dissera, tratava-se de algo mais genérico. Tentou, assim, explicar melhor para Erza o que era uma “tara”.
– Não sei, acho que nunca pensei nisso. Por que não começa, Levy? – a dona do apartamento indagou.
A pequena se sobressaltou, levantando-se do sofá. Na sua mente, em momento algum ela teria que falar sobre suaspreferências, apenas observaria e comentaria. Começou a sentir receio de que aquilo se tornasse um protótipo de “Verdade e Consequência”.
− E-eu? Também nunca... – ela se preparou para desviar do assunto. Notando os olhos curiosos sobre si, infelizmente tudo o que conseguiu foi prolongar sua reflexão por alguns segundos. – Acho que os braços? G-gosto quando ele me abraça.
Juvia estremeceu. Adorava o Redfox, porém eles tinham algo parecido com um acordo de um não se envolver na vida amorosa do outro e aquilo... Para ela era inimaginável (ou simplesmente estranho de visualizar) que alguém tivesse um olhar tão carinhoso quanto o de Levy ao falar dele. Ao mesmo tempo, ficava feliz por Gajeel, e de certo modo conseguia entendê-la: com a diferença de tamanho entre eles, a McGarden deveria se sentir acolhida entre os braços grossos do seu amigo.
− Eu gosto de rostos, principalmente sorrisos. – a loira soltou. – Tenho a impressão de que se a pessoa tem um sorriso sincero, há mais chances de ser boa, ou algo assim.
− Por que será que você acha isso, hein? – a nadadora ironizou.
Natsu era a pessoa que mais sorria no círculo deles.
− Tem que ser algo físico?
− Acho que sim, Juvia. – Levy respondeu à outra azulada, já se sentindo mais confortável. – Depende, tem que ser algo que todos tenham.
− Então serve. Eu... Acredito que a minha seja por cheiros. – ela sorriu de canto, como se fosse uma piada interna. Não era possível distinguir se essa era pura ou não.
Cheiros? Nossa, aquilo soou pervertido. Lucy gargalhou enquanto Levy tentava não fazer o mesmo. A Scarlet começou a questionar qual seria o cheiro do moreno, e se havia cheiro bom que não fosse simplesmente de perfume. Esqueceu-se por alguns segundos que era a próxima na “fila da humilhação”.
− Acho que isso vale. – Levy meneou com a cabeça, tentando esconder a face avermelhada.
− Qual o problema com a minha?!
− Ora, me responda você. – a Heartfilia interviu. – Quantas blusas de Gray você tem, contando aquelas que recebe e as que possivelmente rouba?
Juvia nem precisou parar para contar, aquela era uma pergunta óbvia: apenas uma. As garotas pareceram decepcionadas pela sua resposta, esperavam que ela fosse um pouco mais obsessiva. Quando lhe questionaram sobre como sua predileção se manifestava, porém, ela não teve coragem de responder. Parecia-lhe muito íntimo relatar como tinha o costume de aspirar perto da nuca de Gray, sua mania de se enrolar em seus cobertores ou qualquer uma das coisas que fazia quando saía do treino apenas para sentir aquele aroma.
Voltando à realidade, desfez-se do sorriso idiota que se formara em sua cara e voltou a observar Erza sendo interrogada. Agradecia ao Além por não ter sido obrigada a inventar uma razão para mudar de assunto.
− E-e-eu? – a última a responder estava extremamente intimidada. Tentou ser o menos sugestiva ao responder o óbvio. – Acho que gosto de garotos com pintinhas...
− Isso não vale, Erza! Vai nos dizer que gosta de marcas no lado direito do rosto, especificamente? – Lucy percebeu como a resposta da ruiva estava sendo injusta quando comparada as delas. − Avermelhadas, mais especificamente?
Juvia riu, acabando por envolver os ombros de Erza em um abraço. Pretendia tentar ajudá-la, mas a lutadora se virou sozinha:
− É porque acho que nunca... Parei para observar alguém que não fosse Jellal.
Era verdade. O romance prematuro que haviam tido, assim como o ressentimento que passara a sentir em relação a ele, haviam impossibilitado que Erza se interessasse por outros, muito menos se envolvesse. Depois que ele voltara isso havia se tornado ainda mais evidente, ela não parecia nem mesmo se importar com outros homens. Era ilógico, a seu ver.
− Ownnn... – as outras fizeram um coro, provocando-a.
− Estamos quase pedindo para que ele volte.
− Não! – Erza impediu Levy, que havia encenado que pegaria o seu celular. Queria que, ao menos naquela noite, o azulado conseguisse fazer algumas amizades, esquecendo-se um pouco do trabalho e estudos. – Eles devem estar bem...Espero.
− Gostaria de saber para onde eles resolveram sair... – Juvia confessou.
E se se meteram em confusão.
Elas não precisaram esperar por uma resposta, no entanto, pois em cerca de segundos o telefone da Heartfilia tocou, com o nome “Gajeel Redfox” piscando na sua tela. Elas encararam o aparelho por alguns segundos, antes que Lucy avançasse em direção ao aparelho e aceitasse a ligação.
− Alô?
Ainda bem que ela havia colocado o celular no modo “viva-voz”, pois não estaria preparada para a voz desesperada que a respondeu:
− Loira, é melhor que você venha cuidar do seu namorado. Eu não aguento mais!
...
A paciência do roqueiro já tinha se esgotado havia horas, mas isso não se mostrava nem um pouco pertinente, já que Natsu continuava a se apoiar nele e em Gray, resmungando, rindo e berrando. Já tinha desistido.
Depois de um pouco de insistência da parte das garotas, Gray, ele, Natsu e Jellal haviam decidido sair juntos. Naturalmente aquilo poderia vir a ocorrer, mas já que elas haviam os excluído da “noite feminina”, acabaram vagando até pararem em uma lanchonete/clube popular entre os jovens de Magnólia. Não por coincidência, Natsu adorava as bebidas doces dali, e usou das suas economias para pedir quase metade das opções de milkshakes. Bem, até aí tudo certo. O problema se estabeleceu quando ele virou o copo do Fernandes, engolindo todo o seu conteúdo de uma só vez, sem ter a mínima noção de que o líquido era alcoólico.
Sendo o único maior de idade no grupo, Jellal tranquilamente poderia beber algo mais “adulto”, e escolhera por fazê-lo. Costumava evitar isso na frente de Erza, mas o leve topor proporcionado por algumas bebidas fortes o ajudava a acalmar seus nervos, relaxar. Não o fazia com grade frequência ou exagerava nas doses, mas era um costume, especialmente quando estava sozinho no exterior.
Natsu, no entanto, era quase um bebê nesse quesito. Gray e Gajeel também, o último em um grau um pouco menor. Não é como se nunca tivessem experimentado nada, mas as regras dos interescolares eram bem claras quanto a qualquer tipo de droga: caso qualquer coisa fosse descoberta, o estudante seria expulso. Além disso, não queriam arriscar uma piora no desempenho. Gray costumava pensar que, para eles, algumas noites de diversão não compensavam o risco de desistir de um sonho – além disso, Ur o mataria se soubesse sobre algo do gênero. Naturalmente, eles eram então nada resistentes a álcool.
− Vocês estão ligando para Lucy? – o rosado mais uma vez se apoiou no nadador, quase berrando em seu ouvido. Aquilo era comum para ele, mas ao ser acrescentada sua falta de equilíbrio e risos histéricos, o Dragneel se tornara insuportável. – Oi, querida!
− O que está acontecendo aí?! Natsu?
− Natsu está bêbad...
− Me passe o telefone aí! – Gray resmungou, tomando o celular do mais alto. – Ele acabou bebendo algo que Jellal tinha pedido, está muito irritante. Dessa vez, ele não vai dormir na minha casa.
O nadador estava cansado das reclamações do Redfox, do melhor amigo idiota e de Jellal, sentado um pouco afastado na mesa que dividiam e em meio a um surto de culpa. Ao longe, poderia parecer que o universitário estava impassível, porém desde que a situação se tornara clara, ele estivera murmurando sobre como aquilo poderia dar muito errado e ele iria parar na cadeia por ter deixado um menor beber... Entre outros escândalos que destruiriam sua promissora carreira profissional.
− O que quer que eu faça, então? Ai, por que ele tem que sempre inventar de fazer essas coisas? Nem na minha casa estou... Já tentaram dar um tapa nele?
− Que horror, Lucy! Como você sugere que eles façam isso comigo? – o rosado choramingou. Achava um absurdo nem a namorada estar o considerando “normal”.
− Já, até cansei de fazer isso. – Gray respondeu. – Não posso levar ele para casa, se Igneel notar algo ele acaba com Natsu e ainda, provavelmente, dá um jeito de isso me afetar também.
− Querem que eu pague para que ele durma em algum hotel? – Jellal propôs, enquanto se martirizava.
− Não vai ser bom se o deixarmos em algum lugar sozinho... Ouviu, Lucy?
− Oi. Entendo... Ah! O que, Juvia?
Gray esperou por alguns segundos enquanto escutava apenas as vozes femininas murmurando coisas, mesmo que não conseguisse distinguir as palavras. Esperava que a Lockser surgisse com uma de suas “ideias geniais” para solucionar tudo.
− Por que vocês não vêm para o apartamento de Erza? – dessa vez fora Levy que tomara a frente. – Não sei se vamos conseguir resolver alguma coisa, mas pelo menos não há nenhum adulto aqui.
O som da música alta no clube impossibilitava que, mesmo no volume máximo, os outros garotos conseguissem entender o que o moreno falava ao telefone, então ele teve que explicar a proposta. Mesmo que não fosse ser lá muito confortável arrastar o jogador de basquete pelas ruas, a resposta foi quase que imediata: sim. Depois de pagarem a conta e de Gajeel avisar às garotas que eles chegariam onde elas estavam em cerca de meia hora, eles tiveram que convencer Natsu a se levantar. Sua locomoção não havia sido afetada – seria até estranho se ele fosse tão fraco com bebidas −, o pior mesmo era o senso de humor distorcido, que o fazia desobedecer pedidos e correr para longe.
Quando saíam pela porta da frente do estabelecimento, cruzaram com algumas garotas da mesma faixa da idade. Estando o clima mais ameno, elas já se sentiam mais confortáveis em usar os tradicionais vestidos mais reveladores, e fizeram questão de (desnecessariamente) sorrir para eles. Aquele era um comportamento que nunca haviam observado nenhuma de suas amigas praticarem, exceto poucas exceções. Gray, delicado, não fez a mínima questão de esconder a careta. Odiava aquele tipo, e observar Jellal cumprimentando-as de volta, sem perceber suas intenções, apenas o irritou mais. Gajeel riu.
− Realmente, acho que Juvia não tem que ficar se preocupando com você, Senhor-sa... Gray. – o metaleiro se corrigiu antes que completasse a oração, rindo.
− Cale a boca, Gajeel. – ele tentou disfarçar o constrangimento.
Insatisfeito por não ter pensado em pegar um táxi, Jellal se concentrava em orientá-los até o endereço correto. Passando a impressão de “homem de negócios”, só depois de algum tempo ele havia começado a realmente interagir com os adolescentes. Acabou por se dar bem com Gajeel em especial, talvez pelo fato dos outros dois parecerem tão confortáveis e entretidos em suas discussões intermináveis que se tornavam um pouco intimidadores para um tímido. Eram divertidos, no entanto, e ele conseguia entender o porquê a Scarlet era amiga deles.
Ele estava até contente por estar voltando para “casa”. Não apenas por conta de Erza, mas porque havia estabelecido certa amizade com Juvia Lockser e Levy McGarden. As duas eram relativamente quietas, mas também firmes, e isso o agradava. Depois de observar essa aproximação, Mirajane os apelidara de “trio azul”, o que rendera muitas provocações.
− Vocês já pararam para pensar que temos namoradas muito bonitas? Elas chamariam atenção se estivessem com a gente hoje. – Natsu indagou, enquanto eles tentavam dar apoio para ele dentro do vagão. A cena era decerto engraçada: o Fernandes à sua frente e os morenos aos lados, todos lhe dando uma falha sustentação. – Respondam!
− Sim, Natsu. Mas porque está tocando nesse assunto? – Gajeel quase grunhia para ele.
− Por nada, acho. Mentira, eu me dei conta disso há pouco, depois que aquelas meninas tentaram comer vocês com os olhos. – ele falou, e foi impressionante que Natsu tivesse a capacidade de perceber tais situações. Nunca tinha demonstrado ter consciência delas. – Elas são mais atraentes do que essas garotas eram. Também existem aquelas vezes em que eu fico encarando o cabelo de Lucy e pensando que ele é tãããão bonito, sabe? Eu não sei o que ela faz para ele ficar assim e... Eu tenho sorte. – ele completou, com um sorriso pateta.
Internamente, eles tiveram que concordar. Nenhuma delas era uma modelo ou algo do gênero – apenas de que a perfeição dos famosos fosse, em geral, apenas pretensa −, mas, cada uma de seu modo, elas eram extremamente graciosas. Na verdade, falar de beleza não teria graça se não se focasse nos detalhes, pensar no óbvio era comum e desprovido de encanto.
O jeito como Levy sempre deixava as mechas da franja se soltarem da passadeira e caírem em seus olhos enquanto lia esperando Gajeel terminar o trabalho. Achava graça nas atitudes “erradas” do roqueiro, mas não admitia, pois tinha medo da reação alheia ao verem que ela não era tão regrada. Seu visual completamente antiquado, ou o modo como, sem declarar, ela gostava de ficar o mais fofa e “boneca” possível. Seu silêncio nas horas certas, o modo como ficava vermelha quando era enfurecida.
Erza parecia ter uma aura de “não se aproxime” ao seu redor, mas isso nunca impedira alguns mais lentos de tentarem. A expressão quase sempre séria, com ela travando os dentes para não se mostrar ansiosa. Os sorrisos que escapavam involuntariamente, quebrando sua imagem, completamente sinceros. Jellal nunca perguntara, mas sabia que quando passavam messes distantes e finalmente conseguiam se falar, após suas ligações ela acabava chorando, mesmo que mentisse dizendo que ele não devia se preocupar.
Juvia tinha receio de deixar todo o seu carinho pelo Fullbuster em evidência, sabia que ele poderia fugir se tivesse noção que ela era ainda mais intensa do que parecia. Bem, ele sabia. Achava engraçado como ela reclamava dele em alguns momentos, mas quando ele tentava atender a algum dos seus pedidos, sendo mais carinhoso, ela se atrapalhava, ficando nervosa. Gostava quando inconscientemente ela usava a terceira pessoa para se referir a si mesma, e sua falta de confiança a tornava extremamente inocente. Sempre que ele a chamava, ela se virava sorrindo.
Lucy... Lucy era extremamente tolerante, mas antes de tudo carinhosa. Nunca reclamava do que lhe era oferecido pelo rosado, mesmo que às vezes fosse óbvio que não havia sido a melhor opção. Valorizava todos os momentos e perdoava facilmente, pois via a bondade em outrem. Ficava tímida toda vez que eles transitavam de “amigos” para “amantes”, principalmente quando Natsu era quem tomava atitude. Parecia ser a única a compreender a linha de pensamento dele, entendendo que “ser o palhaço”− ajudar o grupo mesmo quando fosse se prejudicar −, não era sinônimo de idiotice, mas sim de coragem.
− Verdade, Natsu. – concordaram, sorrindo.
− Ainda bem que elas ficaram em casa. – Gajeel afirmou, após um assobio, ao perceber algo.
Pronto. Com essa declaração, a alegria não durou muito. Esse tipo de recordação não fez nada bem a eles, por um motivo que só mais tarde foram compreender: elas eram tão especiais e “blá, blá, blá”... Começaram a notar que a gentileza de Lucy e a ingenuidade de Juvia poderiam colocá-las em situações complicadas com desconhecidos, que Levy chamaria muita atenção de pervertidos e Erza de homens mais velhos em geral.
Uma sensação estranha de insegurança tomou os garotos, que quase derrubaram o jogador de basquete ao tentarem arrastá-lo o mais rápido possível. Ele estava quase bem, mas as pancadas que levou renderam mais algumas reclamações e escândalos públicos.
Erza, como proprietária do apartamento, foi quem se levantou para destrancar a porta quando ouviram a campainha. Já estavam escutando gritos há algum tempo, e tentavam prender as gargalhadas. Nem precisou usar o olho mágico, afinal Jellal tinha uma cópia da chave e abriu a porta antes que ela pudesse fazê-lo.
− Tome, é seu agora! – Gajeel entrou no apartamento pisando forte e jogou um corpo mole (Natsu) no colo de Lucy. A loira se assustou um pouco, mas ficou aliviada assim que ele se mostrou capaz de se levantar e tentar revidar a violência.
Gajeel já estava distante, no entanto, abraçando uma Levy surpresa e que tentava esconder sua camisola. Gray e Jellal não estavam muito diferentes, o primeiro envolvendo Juvia por trás possessivamente, e o segundo discretamente enroscando seu braço na cintura da ruiva. Por um momento Natsu não compreendeu do que aquilo se tratava, mas então se lembrou da conversa que tiveram. Voltou-se para a namorada, segurando seu rosto entre ambas as mãos e roubando-lhe um beijo estalado. A Heartfilia estava perplexa.
− Vocês estão proibidas de saírem sozinhas. − os garotos declararam em uníssono.
− O que?! – Juvia indagou. Era extremamente fora do normal Gray agir daquele modo sem razão, ela estranhara.
− Nada, Juvia. Só ignora que amanhã eles voltam ao normal. – Levy revirou os olhos enquanto era forçadamente colocada no colo do grandão.
Elas suspiraram: o Dragneel definitivamente não era o único alterado ali. Esperaram alguns minutos até que aquele comportamento estranho cessasse, e a conversa acabou fluindo entre eles. Foi então que todos concordaram que era o melhor momento para resolver o “Problema Natsu”.
A questão é que ele já estava no meio da sala, dormindo no chão.
− Ai, não acredito. – Erza fez um muxoxo enquanto colocava a mão sobre a testa. – Ele vai dormir aqui?
Apesar de estar se divertindo, ela realmente estivera ansiando por passar uma noite com as amigas.
− Deixa de ser chata, Erza. – Gray atreveu-se a dizer, recebendo um olhar ameaçador como resposta. – Ele só apagou.
− Na verdade, mudei de ideia. Natsu eu até aceito, mas não era para vocês já terem ido embora?
− É mais divertido com todo mundo! – Gajeel gritou da cozinha, enquanto assaltava a geladeira e comia quase tudo que ela havia separado para as garotas.
Ao se virar para Jellal, esperando encontrar algum apoio, ela apenas observou um pedido silencioso por aceitação e desistência. Ele sabia muito bem como e quando usar aquele olhar pidão.
Talvez não tivesse sido uma ideia tão boa deixá-lo se enturmar.
− Tudo bem. – ela suspirou enquanto ouvia a comemoração animada. – Só não quero saber de bagunça amanhã.
− Sim, mamãe! – seus colegas de classe responderam em coro.
A judoca até tentou responder, mas não conseguiu ocultar o sorriso de canto que marcava seu rosto. Acabou por rir junto a eles, desistindo, e assim a noite seguiu animada. Juvia introduziu Lucy a Jellal, sendo a líder de torcida a única que não tinha tanto contato com ele – novamente, digo que Lucy adorava novos amigos. Elas se divertiram pressionando-o a dizer certas coisas constrangedoras. Levy, percebendo que Gajeel estava entretido “brincando de bater” em Gray, sentou-se com Erza e prometeu que poderiam fazer outra “noite das garotas” a qualquer momento. Comovida, a ruiva não a largou por horas.
Natsu só veio interagir com o grupo após despertar subitamente, assustando a todos:
− Está quente! – ele berrou ao erguer-se em um salto e se apressar em abrir as janelas, retirando também a camisa.
− ... Claro, o verão...
− Minha estação está chegando. – ele tentou imitar o que seria um olhar sedutor enquanto se voltava lentava lentamente para sua plateia. Recebeu “almofadadas” de todos os lados.
Revoltado, o rosado marchou até seu ponto de descanso, voltando a ficar inconsciente quase que imediatamente. Finalmente estava se sentindo melhor e recebia aquele tipo de tratamento... Um absurdo. Ignorou-os quanto tentaram lhe acordar e só foi se levantar na tarde seguinte.
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