Somebody That I Used To Know
2 "Você que faz versos"
Notas iniciais
Quase que como um raio invisível, algo atingiu a cabeça. E o sono que não sentiu a noite toda resolveu dar o ar de sua graça. “A vida sempre muito justa com tudo e todos”. Passou as mãos nos olhos, a fim de tentar mantê-los abertos, podia jurar que os olhos dele tinham ficado mais fundo de verdade.
Crente com todas as suas forças de que a professora se sentaria na cadeira e começaria a se deliciar com um bom livro, Henry puxou seu livro mais pra perto, cruzou seus braços e se debruçou sobre eles, fechou os olhos, deliciando-se internamente por finalmente poder (e conseguir) tirar um cochilo.
Seus olhos fecharam e em menos de cinco segundos imagens aleatórias já passavam em sua mente, em forma de sonho. Começou com ele andando numa rua deserta, de repente ele estava dentro de um avião, prestes a pular de paraquedas, quando pulou, foi sugado pelo vento para o lado e, ao parar, viu que já estava no chão, sem roupas, prédios de tamanhos enormes em sua volta que nem permitiam ver o céu, uma voz distante partia de algum lugar entre as construções, era uma voz conhecida por ele.
A voz era de sua professora.
Henry foi obrigado a acordar.
— Bom – agora podia ouvir com clareza o que ela falava, mesmo que não estivesse compreendendo tudo – agora que já estão todos em seus devidos lugares, vamos começar a aula! – terminou alegre.
Henry adorava literatura, gramática e produção de textos. Sempre foram matérias que, como química, tinha facilidade. Gostava de ler, o que ajudava. Com seus quinze anos, Henry já tinha lido a maioria dos clássicos da literatura de seu país, além de alguns outros vindos de fora. Estava sempre lendo alguma novidade relativa a livros ou autores, como próximos lançamentos de séries famosas, vencedores do Nobel de literatura, best-sellers do New York Times e novas ideias que poderiam ser marcantes na história.
Mas não podia negar que não estava com a menor vontade de ter aula logo no primeiro dia de aula. Afinal, um professor que não quer ser odiado o resto do ano deve, pelo menos, fazer nada de muito pesado no primeiro dia e isso incluía deixá-lo dormir.
Além de estar com muito sono e ser muito arriscado ele passar um dia inteiro com pessoas que ele não conhece precisando dormir. Ele poderia falar e fazer coisas cujas quais não poderia responder depois.
— Mas não será uma aula normal – disse a professora, indo para trás da mesa. Reanimando todos os ânimos dos presentes na sala, menos o de Henry. – Quero que vocês se juntem em grupos de seis aleatoriamente, vamos fazer algumas brincadeiras. – cochichos tomaram conta da sala e Henry sentiu a maior vontade de sua vida de cair no sono.
“Nossa professora” pensou Henry, “você é muito gentil me obrigando a confraternizar com pessoas novas logo no primeiro dia de aula, quando meus olhos estão fundos, minha cabeça não pensa e o sono começa a tomar conta de mim”.
Claramente demonstrando desanimação, o garoto olhou em sua volta e viu pessoas que achavam que se combinavam já estava formando grupos. Umas meninas que sentavam na frente logo se uniram, deviam pensar que eram todas “nerds”; uns meninos do fundo que tinham como característica comum usar boné; um grupo de quatro meninas e dois meninos que olharam uns para os outros e viram que ou era aquilo ou poderia ser algo pior; cinco meninas (dentre essas Billie) e um único menino que notaram que em volta deles todos já tinham ido para um grupo e só restaram eles por ali; e um último grupo, formado por Henry, mais dois meninos e três meninas.
“Eles vão me encarar, cara. Que dó.”
Uniram as carteiras e olharam uns para os outros, perdidos.
— Então – um menino mais magro que Henry começou a falar, tinha cabelo e olhos pretos, vestia jeans, um tênis qualquer e uma camiseta branca lisa. Henry não tinha a menor ideia de qual poderia ser o nome dele. – Sou Bruno, para caso algum de vocês não se lembre – “ele lê pensamentos ou...” – e eu gosto de rock.
— Sou Mary-Ann, – começou a menina sentada logo ao lado de Henry, cabelos ruivos naturais, algumas sardas na bochecha e olhos castanhos penetrantes – Vim de Londres para cá quando tinha dois anos, porque minha mãe é daqui, mas meu pai quis me colocar um nome de lá, só para relembrar os tempos antigos, eu queria ter a sorte de ter o sotaque deles...
— Murilo, – falou o menino ao lado de Bruno, postura meio descontraída, voz animada, olhos mais claros que castanhos, mas não totalmente verdes. – Prazer.
— Lucia. – Falou a menina sentada no outro lado de Henry e parou ali, tímida, provavelmente.
— Larissa, – disse a menina de longos cabelos encaracolados e loiros, que usava lápis e delineador nos olhos, seus cílios naturalmente grandes. – Sou daqui mesmo, nasci e cresci aqui. Sempre quis estudar nessa escola, meu irmão estudou aqui então meio que cresci querendo vir para cá. Gosto bastante de fazer novas amizades, sair e ver filmes. – “Vamos ser mais clichês em personalidades, galera.”
O silêncio no grupo reinou. Todos os olhos passaram a encarar Henry, que não tinha falado uma só palavra desde que o grupo tinha se juntado. Só ele é que sabia o quanto o sono estava tomando conta dele. Mas de baixo de tantos olhares, resolveu arriscar algumas palavras.
— Sou Henry, eu gosto de ler, ver filmes e escrever. – parou ali porque falar exigiria mais energia do que suas células poderiam produzir.
— Queridos, queridos – a voz da professora voltou a tomar conta da sala, depois de ver que todos os grupos estavam formados e devidamente apresentados – teremos três fases e uma quarta caso haja empate entre dois ou mais grupos.
“O grupo vencedor terá um prêmio secreto. Nas três rodadas, cada acerto valerá um ponto; caso haja a quarta fase, quem decidirá os vencedores serei eu, fiquem tranquilos com o fator tempo, as duas primeiras aulas de hoje são minhas. Cada grupo será representado com um número, partindo do um da direita para esquerda – isso tornava o grupo de Henry o quinto e o de Billie o terceiro. – A primeira “prova” será forca, mas não a forca como vocês conhecem.”
Henry fazia tudo que podia para manter sua cabeça para cima e ouvir todas as regras da nova forca que ele e seu grupo iriam participar. Não que estivesse muito importado com o prêmio ou com se aparecer para a sala, mas também não queria que seu primeiro contato com pessoas da sala nova fosse um grande desastre. “Oh, Hipnos, está me testando, é? Resolveu dar as mãos para seu filinho e me fazer sentir isso?”
— ... Então vocês só terão que ir chutando de vez em vez. – terminou a professora.
Henry ficou em choque, mas a sensação de sono era tanta que o choque nem ficou muito evidente. Afinal, o que a professora tinha falado? Algo sobre eles não terem que dizer letras, apenas olhar a lousa... “Mas que raios de forca poser é essa que você não tem que arriscar letras?” o cérebro sonolento e relutante de Henry começava a dar sinais de vida. Num último suspiro de desespero, Henry olhou para a lousa. Viu que a professora havia feito riscos e que marcava letras neles. Contou oito letras, a última era O e a terceira A. [_ O _ _ _ _ _ U _ _ _]
— Machado de Assis – disse a professora, simplesmente.
O primeiro grupo era o das meninas que se juntaram logo de cara. O palpite dele foi certeiro, Henry sabia a resposta assim que a professora falou o nome do autor, podia estar com sono, mas aquele personagem todos tinham que conhecer.
— Dom Casmurro – falou uma das meninas, que tinha cabelos pretos e usava maquiagem em excesso. A professora sorriu e marcou um ponto no grupo um, e, antes de escrever a próxima forca, perguntou quem mais saberia responder aquilo, todos levantaram a mão.
A próxima lousa foi: _ _ _ _ E _ _
— Shakespeare. – Falou a professora.
— Julieta – disse uma das outras menina da mesa do grupo um, essa usava camiseta branca, jeans e tinha cabelo com luzes que estavam se extinguindo. Ela parecia triunfante. Henry achou que tinha perdido mais uma vez a chance de fazer ponto, ele precisava começar a falar logo, ou o sono o impediria de continuar a ficar acordado.
— Acho que dessa vez não.
— Mas cabe! – protestou a mesma garota – Impossível estar errado.
— Não é só Julieta que cabe aí!
Todos os grupos pareceram chocados. Os grupos dois, três e quatro não tinham nem em qual personagem ou obra podiam arriscar. Chegou a vez do grupo de Henry. Lucia, apesar de quieta, parecia eufórica com a chance de seu grupo marcar um ponto, a perna dela não parava de mexer a mesa dela e as duas vizinhas.
— Vocês sabem? – perguntou Larissa, logo depois que a professora apontou o giz para eles, indicando que podiam falar. Todos fizeram que não com a cabeça.
— Macbeth – respondeu Henry, apoiando sua cabeça na mão esquerda e jogando todo o peso para ela, de repente seu pescoço perdeu toda a força que já teve.
— Tem certeza? – perguntou Bruno, incapaz de crer que Henry poderia ter discernimento sobre qualquer coisa com aquela expressão facial nele. Sem vontade de abrir a boca, Henry balançou a cabeça no que todos entenderam como sim.
— Macbeth – falou Mary-Ann, vendo que ninguém tinha tomado iniciativa de abrir a boca. O sorriso da professora confirmou a resposta e todos do grupo seis ficaram espantados.
— Eu gosto de Shakespeare. – Informou Henry, vencendo o sono mais uma vez, ao ver todos os rostos de surpresa olhando para ele.
O _ _ _ _ _ _ _ _ _ A foi a terceira lousa.
— Miau. – disse a professora.
A cara que o grupo um fez foi cômica, elas pareciam completamente chocadas com o que acabaram de ouvir, será que a professora estava falando sério? O grupo dois ficou em silêncio.
— Onomatopeia – quem respondeu foi Billie.
A professora marcou um ponto para o grupo três; e assim o jogo continuou. Quando chegou por volta da rodada dez, toda a sala já estava eufórica; os grupos torcendo entre si para eles errarem e os outros poderem acertar, foram vinte rodadas no total. O placar ficou: seis pontos para o grupo um; dois para o grupo dois; cinco para o grupo três; dois para o grupo quatro; cinco para o grupo cinco.
— É, a disputa até que está acirrada, será que alguém consegue passar essas meninas? – elas sorriram de forma sínica. Henry se irritou com elas por causa disso.
— Ok, – disse Mary-Ann – fui só eu não que gostou daquele grupo ou...? – todos ficaram em silêncio.
— Não, Mary, posso te chamar de Mary? – ela fez que sim com a cabeça – vamos ter que passar delas para elas pararem de se achar. Além do que, aquela loirinha ali nem pensou em Macbeth, ela não merece qualquer que seja o prêmio. – quando terminou de falar, Henry se espantou consigo por ter tirado tanta energia e força de vontade para poder falar tudo aquilo que, de alguma forma, deu uma injeção de ânimo em todos os outros. Até a pequena e tímida Lucia sorriu e se acomodou melhor na carteira.
— Essa é a parte que eu queria chegar logo – falou a professora, transbordando entusiasmo enquanto pegava uma sacola em sua bolsa e distribuía sinetas para os grupos, um para cada. – Eu vou ler um verso ou fala marcantes de um poema ou livro que foram importantes para a história e vocês têm que acertar o nome do poema e o autor. – resmungos tomaram conta da sala. – Ora, não reclamem, vai ser mais fácil do que parece, peguei frases e versos bem conhecidos por qualquer um com o mínimo de conhecimento literário. E o mais legal, é que não precisa esperar sua vez chegar, assim que eu terminar de ler o trecho, eu vou dar um tempo e falar “já” aí quem bater primeiro numa dessas sinetas pode falar.
Mais uma injeção de ânimo tomou conta da sala. Era engraçado ver coisas desse tipo, ver como os seres humanos gostam de competir uns com os outros.
A sineta do grupo dele tinha ficado com Mary-Ann, porque ela era a que tinha mais voz ativa entre eles e era a mais simpática. A professora parecia ter gostado dela.
— “Ser ou não ser, eis a questão.” – uma leve pausa de três segundos. – Já!
Incrivelmente ou não, ninguém bateu a sineta. Henry olhou confuso para Mary-Ann, como quem dissesse, por que você não bateu ainda?
— Você sabe? – ela cochichou. Arregalando os olhos e fazendo que sim com a cabeça, fez com que ela batesse a sineta. A sala inteira olhou para eles.
— Shakespeare – respondeu Henry — em Hamlet.
Grupo 5 – 6 pontos.
— “A festa acabou; a luz acabou” – a mesma pausa – Já!
— Carlos Drummond de Andrade – respondeu rapidamente uma das meninas do primeiro grupo, logo após de ter batido a sineta de forma desesperada. – José.
Grupo 1 – 7 pontos.
— “É ferida que dói e não se sente” ... Já.
— Camões, Soneto. – disse um dos meninos de boné.
Grupo 4 – 2 pontos.
— “E, naquele momento, eu juro, eu estava infinito.” – Henry ficou em choque – Já!
Nem deu tempo de Henry pedir para Marry bater na sineta, que o barulho já tinha vindo do grupo três, quem falou foi Billie.
— As vantagens de ser invisível – respondeu triunfante – Stephen Chbosky.
— Professora – protestou uma das garotas do grupo um – ninguém conhece esse livro, aposto. A senhora disse que era fácil.
— Eu conheço – manifestou-se Henry, sem nem parar para pensar. – É um ótimo livro, você deveria ler. E teve um filme também... – Aquilo pareceu atingir a tal menina em cheio, ela fechou a cara e olhou feio para Henry. O garoto encarou a professora, ela parecia muito surpresa.
Grupo 3 – 6 pontos.
— “Você conhece meus métodos, Watson” – Já!.
— Arthur Conan Doyle – falou a menina que tinha protestado momentos antes – As memórias de Sherlock Holmes.
Grupo 1 – 8 pontos.
— “Olhos de ressaca” ~~ já!
— Dom Casmurro – gritou a pequena Lucia, após ver que Mary tinha batido a sineta – Machado de Assis.
Grupo 5 – 7 pontos.
— “A loucura é uma ilha perdida no oceano da razão” – Agora!
— O alienista – gritou, realmente gritou, um dos meninos de boné – Machado de Assis.
Grupo 4 – 3 pontos.
— “No meio do caminho tinha uma pedra” ~~ já!
— No meio do caminho! – Soltou Bruno, logo depois de roubar a sineta da mesa de Mary e colocar em sua própria – Carlos Drummond de Andrade.
Grupo 5 – 8 pontos.
— “Eu possa me dizer do amor (que tive)/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure” – Já!
— Vinicius de Morais – falou o único menino do grupo de Billie – Soneto de Fidelidade.
Grupo 3 – 7 pontos.
— “Quero antes o lirismo dos loucos” – Já!
— Poética, Manuel Bandeira. – falou Billie calmamente, assim que tocou a sineta.
Grupo 3 – 8 pontos.
— Nossa – falou a professora, olhando para a lousa impressionada com os resultados obtidos – parece que temos ótimos conhecedores de poemas nessa sala. Dois grupos conseguiram empatar com o grupo um, vai ser acirrada essa disputa. Gostei de ver, hein.
Os grupos empatados se encararam. Todos os olhares pareciam mostrar fúria, como quando havia uma única presa para três leões, todos queriam pegá-la, mas apenas um conseguiria.
A cabeça de Henry começou a trabalhar rapidamente, enviando energias tiradas sabe-se lá de onde para o resto do corpo, deixando-o mais animado do que estava às quatro da manhã, enquanto fazia sua comida.
Só depois dessa explosão de adrenalina que a ficha pareceu atingir aquela quase cabeça oca. Billie tinha lido “As vantagens de ser invisível”, o mesmo livro que ele estava lendo, porém a versão em português. O garoto não acreditava. Simplesmente não conseguia acreditar.
— Bom, – recomeçou a professora, pegando seu celular na bolsa. – Esta rodada talvez fará com que os grupos que estão atrás consigam ganhar pontos, se forem rápidos o bastante.
“Esta etapa é bem simples, vejam. Eu vou tocar uma música, com maior probabilidade de ela ser estrangeira, e vocês só tem que me dizer o nome da música no momento que eu apertar pause. Sem sinetas e sem “já” apenas gritem o nome. O que eu ouvir primeiro será marcado com o ponto. E eu não vou aceitar reclamações.”
Terminou de falar olhando severamente para o grupo um. Todos os outros tentaram conter risadas.
Esta última prova seria uma das mais difíceis para Henry, uma vez que seu gosto musical seja tão aleatório e estranho que ele duvidava que sua professora fosse utilizar uma música que ele soubesse o nome. E de fato estava certo. Pelo menos as dez primeiras músicas tocadas ele só tinha ouvido alguns versos, mas nem sonhava em saber o nome. Sorte que o grupo dele era poderoso. Bruno e Murilo tiravam de letra a maioria das músicas que eram rock, Mary-Ann tomava conta dos internacionais pop (Henry reconhecia alguns, mas raramente conseguia passar na frente dela), Lucia acertou pelo menos três músicas eruditas com tanta velocidade que o grupo um sempre ficara chocado, Larissa ficou com a parte das músicas nacionais.
Os outros grupos eram bons. Henry ficou chocado com a quantidade de pontos que os garotos de boné estavam fazendo. Eles acertavam de tudo, podiam ganhar todos os pontos se os outros grupos não fossem mais rápidos. O grupo um acertava principalmente quando quem tocava era a Lady Gaga ou quando a música em pauta era erudita. O grupo que tinha quatro meninas e dois meninos era engraçado de se ver, parecia que sempre sabiam as respostas, mas nunca conseguiam falar antes que algum outro grupo gritasse mais alto.
O grupo de Billie era poderoso, depois de umas dezenove rodadas o grupo dela e o de Henry estavam disputando a liderança. Todas as garotas do grupo pareciam dominar todos os estilos de música possível, a professora tocou umas duas ou três músicas que ninguém da sala já tinha ouvido e sempre a mesma menina acertava. Até a própria professora parecia chocada.
Para todos os efeitos, Henry não foi tão inútil quanto achou que iria. Conseguiu fazer pelo menos cinco pontos em meio a um emaranhado de gritarias e zona generalizada. Foi pouco, mas pelo menos foi alguma coisa.
Henry já tinha contado trinta músicas diferentes, mas havia chances de ser mais. Quando olhou para lousa, seus olhos foram incapazes de se manterem no tamanho normal. Henry e seu grupo estavam um ponto atrás do grupo de Billie e ambos estavam com uma ótima vantagem em cima do grupo dos meninos de boné, que era o que estava mais perto de chegar neles.
— Bom, chegamos a nossa última música. – Anunciou a professora, toda contende por seu jogo ter dado certo.
Ninguém precisou falar nada para o pessoal do grupo cinco, todos já sabiam o que tinham que fazer, empatar com o grupo para ter certeza de que teriam chance de ganhar em qualquer que seja a quarta rodada.
Um momento de tensão baixou sobre a sala.
A professora passava o dedo pela tela de seu celular, procurando a melhor música para aquele momento, e todos da sala olhavam para os dois grupos enquanto esses dois grupos olhavam tensos uns para os outros e pendiam seu olhar entre si e a professora. O coração de Henry acelerou, o que era muito engraçado, porque sentir esse tipo de coisa por uma competição em classe não é exatamente o que o Henry tem em mente sobre “momentos de acelerar o coração”.
Sem que os alunos soubessem, a professora apertou play.
O som estava baixo, mas naturalmente foi crescendo, até que prendeu a atenção de todos. Descrever o que estava tocando era algo complicado, o tipo de coisa que ele mesmo nem começaria a tentar por não querer falhar ferozmente. O começo era algo meio espacial, algo como um ruído que algumas naves fazem em filmes de ficção científica, depois começou o barulho de percussão, que seguia a mesma batida sempre. “Essa música... Será?”. Ninguém ainda parecia saber qual música era, todos estavam talvez meio chocados, porque a letra não começava. Ele encarou a professora, descrente. Ela olhava fixamente para a tela do celular, reprimindo o riso. Ela só precisava apertar o pause, Henry sabia a resposta e ela só precisava apertar o pause.
Talvez por causa da excitação psicológica ou talvez porque estava acontecendo mesmo, a professora já tinha deixado pelo menos metade da música tocar, normalmente ele parava depois dos primeiros versos, “talvez essa não tenha versos”, pensou Henry, alimentando suas próprias esperanças.
Então a música parou.
Henry se viu levantando sem realmente ordenar por isso, apontou o dedo para professora sem ter a intenção e anunciou o nome da música desesperado.
— Doctor Who Theme! – E sorriu olhando para a professora. Foi então que percebeu que ele não fora o único a responder, olhou para o lado e viu a menina de cabelo azul o encarando, incrédula.
O resto da sala estava estático. Seus olhos iam e voltavam de Henry para Billie. Billie. Henry não tinha certeza se tinha ouvido certo, porque as duas vozes estavam tão perfeitamente sincronizadas e no mesmo tom que qualquer um deles poderia confundir.
Billie não conseguiu conter um sorriso, Henry jurou que estava sentindo vergonha. Ambos olharam para a professora.
— Uau. – Ela começou – eu achei que ninguém iria conseguir responder e acabei tendo duas respostas. Que foram ditas ao mesmo tempo exatamente. Estou chocada. – Ela encarou os dois vitoriosos. – Acho que sei exatamente como decidir para quem vai esse ponto.
“Qual o nome do ator que faz o primeiro Doctor?”
— Christopher Eccleston. – Respondeu Billie rápida e triunfantemente.
— William – respondeu Henry, estático com a resposta de Billie. – Hartnell.
— É – respondeu a professora, meio triste meio feliz, olhando para Billie. – Parece que teremos a quarta temporada.
Henry sentou-se sorrindo e olhou para Billie, a garota parecia ter cochichado um “meu deus, como sou idiota” para seus companheiros no grupo, que estavam consolando-a dizendo que ainda tinham chances de sair ganhando.
— Muito bem, muito bem. Para quarta rodada, quero que cada grupo com a mesma quantidade de pontos escreva um poema. Sobre qualquer coisa. E, já que este ano fui presenteada com dois grandes fãs de Doctor Who, quero que eles escrevam.
Mary, Bruno, Murilo, Lucia e Larissa encararam Henry. Boquiabertos e paralisados.
— O que foi aquilo? – perguntou Bruno.
Henry encarou cada um do seu grupo antes de se sentar. Depois de fazê-lo sua mente começou a trabalhar loucamente. Ele teria que escrever um poema. UM POEMA. Para a professora de português. Tal professora que era fã de Doctor Who. “Não, pera” tentou colocar seus pensamentos em ordem, “Zeus, você está brincando comigo ou algo parecido, porque não to vendo graça nenhuma nisso tudo”. Olhou para sua mão e seu anel não estava lá, ele tinha esquecido este fato, “Lord, why?”.
Um lápis apareceu em sua mesa, depois uma folha branca, olhou para Mary e para Bruno, os donos dos materiais. Meio que tremendo, Henry pegou o lápis de seu mais novo colega e encarou a folha branca. Se conseguisse pelo menos se lembrar do começo do poema que tinha escrito mais cedo, teria uma base e poderia continuar dali.
Desesperado, olhou para o grupo de Billie, todos olhando para ela, enquanto ela escrevia freneticamente e às vezes apagava, “ela deve escrever bem. Ela tem cara de quem escreve bem”.
Olhou para as pessoas do seu grupo, todos o observando de um jeito ou de outro, uns tentavam disfarçar, outros olhando diretamente para o papel em branco. Apelou para a professora. A cara dela definia o ponto de interrogação no final de qualquer pergunta. O garoto começou a se desesperar de verdade. Tinha que escrever algo, nem que fosse o pior poema da vida dele, nem que fossem apenas alguns versos, mas em branco não poderia entregar.
“Calíope, vamos lá”.
Como tiros, as ideias chegaram.
Ele escrevia os versos, os relia e apagava, o fez repetidamente, lá pela terceira ou quarta tentativa conseguiu arranhar três estrofes. Faltava o título. Releu o poema escrito quatro vezes e decidiu pelo melhor que veio à sua cabeça.
— Vamos lá, então, crianças? – Disse a professora, dando sinal de vida depois de pelo menos quinze minutos de espera. – Quem quer ler primeiro?
Então eles teriam que ler para a classe toda?
Billie se ofereceu para ir primeiro. Saiu de seu lugar e foi à frente da turma, ao lado da professora. Antes de começar a ler, observou todos os pares de olhos que a analisavam atentamente, que tentavam entender aquela expressão meio de pavor e meio de confiança. Respirou fundo e anunciou o título do poema. “No ônibus da vida”. Logo depois, leu o seguinte poema:
Corremos como loucos para entrar no terminal.
Demoramos nove meses para pegá-lo.
E quando entramos,
sabe-se lá quanto tempo vamos demorar a sair.
Conhecemos pessoas dentro dele,
nos apaixonamos dentro dele,
nos decepcionamos, choramos, rimos dentro dele,
Conhecemos pessoas que queremos viver para sempre dentro dele.
Nos casamos,
temos filhos,
netos,
talvez até bisnetos dentro dele.
Vamos andando dentro dele por toda a estrada.
Até que paramos,
descemos
e sentamos para pegar o próximo ônibus.
“Que poema foi esse?”, ele estava perplexo, “eu não consigo nem pensar como algum mortal pode escrever algo tão puro e com essa mensagem...”. Antes de sair de sua mesa para ir encontrar seu lugar ao lado da professora, Henry olhou para as pessoas do seu grupo, um olhar triste dominou aquele par de olhos azuis claros, não conseguia transparecer confiança, não depois de ter ouvido aquele poema.
Limpou a garganta e disse o nome do poema: “Trigais com corvos”, era um poema bem sentimental, uma síntese de uma vida, Henry dera o máximo de si, esperava que a professora entendesse tudo que ele quisera transmitir.
Vivi momentos de
inspiração, mas
nunca tive um amigo
comigo. Éramos
eu e meu irmão,
nasceu abençoado, meu querido
Théo, que cuidou de mim, de longe.
Vivi do jeito que
achava certo, fiz o que pude.
Ninguém concordava, ninguém ajudava.
Gargalhei risadas mortas,
ouvi críticas como se fosse um surdo,
ganhei xingamentos de natal, mas
hoje dou adeus, há corvos voando sobre mim.
Ao terminar de ler, Henry olhou para o resto da turma. Algumas caras meio perdidas, umas com olhos arregalados, outras boquiabertas, algumas ainda chocadas. Correu seu olhar para seu grupo, para ver se teria algum apoio. Acabou por se espantar. Viu que Mary-Ann estava com os olhos cheios de lágrimas, Lucia estava fazendo a maior força para não chorar, Bruno estava estático, de olhos arregalados e a surpresa em seu rosto. Larissa e Murilo, que já tinham olhado para os outros membros do grupo, estavam chocados, pareciam não entender o motivo de os outros estarem chorando ou estarem muito perto disso.
Henry arriscou, ainda, olhar para Billie. Os olhos por trás dos óculos preto, cujos quais Henry não tinha ainda tido o prazer de ver, eram castanhos escuros. Ambos aparentavam surpresa e ainda uma lágrima corria timidamente pelo lado direito do rosto. Billie a limpou rapidamente, depois que percebeu que o garoto a encarava.
— Eu... – começou a professora, meio bagunçada emocionalmente e com a voz embriagada em lágrimas – acho que faz algum tempo que não tenho vontade de chorar por causa de um poema. O grupo cinco é o vencedor.
Henry esboçou um sorriso triste e sentou-se a mesa.
— Bom, – disse a professora, depois de pedir para que Billie retornasse ao seu lugar – para aqueles que não entenderam exatamente o motivo de lágrimas ou de olhares triste, tenho a explicação. Van Gogh, artista pós-impressionista, cometeu suicídio depois de pintar a obra Trigais com Corvos, que era o título do poema, e depois de escrever uma carta para seu irmão, Théo, que enviava dinheiro para o irmão.
Todos os alunos voltaram suas carteiras para os lugares originais e se mantiveram em silêncio, como se estivessem fazendo uma espécie de memória ao falecido pintor.
Henry não sabia onde enfiar a cara. Estava feliz por ter conseguido fazer com que seu grupo ganhasse o prêmio, mas não queria fazer com que algumas pessoas da sala chorassem por causa dele.
A professora retirou de sua bolsa cinco saquinhos cheios de doces e entregou cada um deles para os membros do grupo de Henry, deixando o autor do poema por último.
— Aquele foi um grande poema. – Disse, após entregar o saquinho e passar a mão em seus ombros.
Henry olhou para os seus companheiros de grupo e viu que Mary-Ann e Bruno já tinham recobrado pelo estado de espírito. A única que ainda parecia meio perdida em pensamentos era Lucia.
— Aquele poema foi simplesmente lindo. – Falou a garota ruiva olhando para Henry. – Fico feliz em saber que alguém da minha sala também gosta de História da Arte.
— Cara, – dessa vez era Bruno, que estava sentado atrás de Henry – foi muito bom, sério. Também sou muito fã de História da Arte – e sorriu, Henry retribuiu o sorriso do melhor jeito que podia, mas estava sem graça. Não gostava que as pessoas lessem o que ele tinha escrito, sempre tentava mantê-las só pra si.
Lucia estava cabisbaixa, ainda. Um sentimento de culpa começou a tomar conta do garoto. A menina sentava em sua frente. Tomando coragem e caçando o que falar, Henry se inclinou para frente e cutucou o ombro da garota. Tímida e lentamente ela virou seu rosto para trás, os olhos vermelhos e a mão tremendo levemente.
— Hm... Você está bem?
— Sim... Estou sim – respondeu a menina, com a voz fraca – não se preocupe, já, já passa. É que eu me emociono fácil com as coisas...
Para falar a verdade, aquilo não ajudou Henry o tanto que deveria. Correu sua mão para o bolso, puxou seu celular e seu fone, precisava de refúgio. Ligou o player no aleatório e retomou a leitura de seu livro. Não tinha ideia da quantidade de tempo que restava para o final da aula, mas sabia que ia ficar lendo até que ouvisse o sinal ou notasse a mudança de professor.
Provavelmente uns dez se passaram e Clara se levantou para sair, acenando ao passar pela porta. Em seu lugar entrou uma professora baixinha, gordinha, com óculos imensos e cabelo grisalho, carregava uma maletinha preta na mão esquerda e na direita seu apagador com a caixa de giz. Por educação, Henry parou de ouvir música e fechou seu livro, olhou atentamente para a professora e forçou seu sono, que resolvera voltar mais forte, depois da longa injeção de ânimo, a manter distância dele.
— Olá – disse a baixinha, com voz fina e incrivelmente irritante – sou Maria Eugênia, professora de física de vocês – nesse momento Henry queria ter deixado sua música ligada. Quase que como um feitiço, a cabeça de Henry pendeu naturalmente para o lado e suas pálpebras começaram a querer se encontrar. “Esse, meu caro eu”, pensou Henry quase desistindo de lutar contra aquela força maligna “é o poder que a física tem sobre nós”.
Se a professora fizesse o que todos os professores fazem e olhassem para a nova classe dando aquele olhar de “então são vocês que eu vou ter que aguentar esse ano”, ela veria a cena de Henry apoiada em sua mão direita, sua cabeça pendendo naturalmente para frente e baba involuntária querendo cair de sua boca. Se ela não risse disso, ou ela era sem senso de humor ou ficaria muito irritada com ele.
Antes do que Henry esperava, a sala inteira já estava falando seus nomes. Henry estava apenas se segurando para não dormir até sua vez chegar para poder responder e depois dormir como se a vida dependesse disso (o que, no caso, dependia).
Assim que toda a sala foi chamada, Henry sentiu que tinha ganhado na loteria acumulada e agora poderia viajar pelo resto da vida fazendo nada. Poderia deitar e dormir até provavelmente a hora do intervalo que deveria ser logo após a terceira aula.
— Eu quero que vocês peguem uma folha em branco. – E esse foi o jeito que o garoto perdeu todo o dinheiro na loteria – e escrevam nele tudo de física que vocês lembram de ter aprendido e me depois me entreguem.
“Oh, really?”.
Henry olhou para a janela... Aberta, sem grades, ao seu lado... talvez não fosse tão doloroso... “E eu não me lembro de coisa alguma em física mesmo...”
Mas, no fim, pegou a folha. Escreveu exatos sete itens que lembrava de ter estudado uma vez, para uma prova há dois anos, e viu aquilo como uma lista nada menos que longa. Colocou seu nome e a série.
Ordenou para seu cérebro para se levantar, mas aparentemente ele estava rebelde. Suas pernas e seu pé estavam sem força alguma, Henry até pensou que poderia ter acontecido algo com sua perna, mas era apenas cansaço. “Apenas”.
Com a preguiça querendo arrombar a porta, Henry cutucou Lucia e perguntou se ela podia levar a folha dele quando ela fosse levar a dela, ela fez que sim com a cabeça e virou, num vislumbre rápido Henry percebeu que a folha da menina já tinha sido preenchida até a última linha.
Henry pôde finalmente se debruçar sobre seus braços e dormir. Quase que como um feitiço, assim que encostou sua cabeça no braço, já estava em outra dimensão. Inúmeras imagens começaram a passar pela cabeça de Henry, tão rápidas que ele não conseguia entender nenhuma delas. Variavam de imagens dele numa rua, da mãe dele, do irmão, do falecido pai, de piscinas, de um céu azul claro que foi escurecendo, do caderno onde ele escreve coisas, de casas aleatórias, de prédios e mais prédios, uma confusão só.
Atormentado com tudo isso, Henry acabou resolvendo abrir os olhos.
E o sinal já estava batendo.
Desesperado, olhou para a lousa para ver se tinha perdido alguma coisa, por sorte, não tinha. Olhou em volta e viu a sala inteira já estava se levantando. Não queria nem pensar em como estava sua cara e realmente estava com dó das pessoas que tinham que encará-lo logo após acordar.
— Preciso de café – falou para si mesmo. – Urgente.
Saiu quase que correndo da sala, aproveitando a louca onde de adrenalina vinda e correu para a cantina. Henry jurou que ouviu Bruno chamar pelo seu nome, mas não fez questão de virar porque o poder repentino era necessário naquele momento.
Encontrar a cantina não foi difícil, visto que nela havia uma grande concentração de seres humanos. Correndo até lá, entrou na fila e em menos de dez minutos foi atendido. Pediu por uma xícara de café sem açúcar e um pão de queijo. Seu pedido chegou exatos três minutos depois. A primeira coisa que fez foi pegar a xícara de café e tomá-la inteira em um único gole. Sentiu todo aquele líquido passar por sua língua e seu corpo inteiro arrepiar, seu cérebro quase que instantaneamente começou a trabalhar mais e mais rápido, seu coração aumentou a frequência cardíaca de tal maneira que ele achou fosse morrer por infarto. Mas pelo menos estava acordado.
Depois de mandar o sono para o fundo de sua consciência e deixá-lo para mais tarde, Henry voltou sua atenção para o pão de queijo. Começou a comê-lo e, só então, resolveu olhar em sua volta.
Notou o quão cheio aquele lugar estava. Podia jurar para si mesmo que provavelmente nunca tinha visto um lugar com tanta gente quanto ali. E era gente de todo tipo: alto, baixa, magra, punks, roqueiros, populares, gays, lésbicas, casais se amando, casais sendo felizes, amigos conversando, pessoas andando de um lado ao outro, pessoas correndo, pessoas saindo da escola.
“Meu Rá.”
Após acabar seu pão de queijo, Henry não tinha planejado nada, será que poderia voltar para sala? Bom, pelo menos, agora que estava mais acordado, conseguiria conversar com todos em um nível não tão baixo de burrice mental, o que talvez fosse a melhor coisa a se fazer.
Passou rapidamente seus olhos pelo pátio, dando mais ênfase em seu próprio prédio, e encontrou Bruno sozinho e encostado na parede. “Well, pelo menos é melhor que nada”, talvez fosse fácil conversar com ele, ele parecia um cara legal.
Foi ao tomar a iniciativa de sair de seu lugar e ir em direção ao garoto que Henry viu uma cabeça azul se destacando das outras, foi então que viu que ela vinha em sua direção e que ela não tinha o olhar perdido.
Foi só então que percebeu que seu coração tinha disparado.
“Afrodite, o que você está fazendo comigo?”.
Notas finais
"Filinho" de Hipnos - referência a Morfeu - deus dos sonhos (mitologia grega)
Calíope - primeira das nove musas; Musa da poesia épica (mitologia grega)
Afrodite - deusa do amor (mitologia grega)
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