Sombria
1 Ahmisticis
Notas iniciais
As trombetas tinham soado instantes antes de uma correria amedrontada começar, valentes com vestimentas de couros pintados e filetes do mesmo material adornavam seus punhos e braços, pareciam mais como homens da idade media, rugiam e bradavam sons ilegíveis... Juntaram-se aos pés de uma rochosa muralha onde dois velhos homens pairavam.
— Estamos reunidos aqui para informa-los que aconteceu o que temíamos... — o inteiro dos velhos bradou em um tom de quem diria “Oh! É algo terrível.” Mas ele apenas continuou contendo o drama — O mal está feito. Há uma fenda prestes a romper o véu que nos protege.
Pisquei percebendo que deveria sair do meio da multidão de homens corpulentos e enormes que me rodeavam, não pareciam me ver, pois além de terem pelo menos duas cabeças à cima da minha, em meus 1,66m de altura, eles ainda estavam atentos ao discurso maluco do velho lá no alto da muralha.
— Não podemos cair na desgraça daqueles comuns.
Olhei ao redor não entendendo onde eu estava. Tudo parecia tão primário que eu mal saberia para qual lado deveria ir e voltar para a segurança da minha casa. Não queria que ninguém se desse conta que eu estava infiltrada ali. Mesmo que sem querer.
Eles se agitavam, encorajados. Vaias seguiam o discurso roco e ecoante. Dei alguns passos atrás na esperança que alcançasse a saída sem ser vista, se houvesse uma saída. “Onde estou?” me lamuriei logo que meu caminho já não estava mais ocupado por homens tão mal encarados, um arrepio percorreu minha espinha ao dar conta do perigo que eu corria.
Cadê das mulheres daqui? Com quem posso tirar minhas duvidas...? Comecei a me perguntar suando gelado. Medo. Escondi-me atrás de uns toneis de madeira ou barris, eu não saberia dizer, só queria estar segura. Em minha casa de preferencia.
— Os guardiões devem juntar forças aos guerreiros!
Eles se agitaram batendo em suas armaduras ou escudos. Em forma de comemoração? Sim era comemoração, tipo abutres liberados a ir para a guerra. OMG!!
Eu tinha arregalado os olhos com o susto do forte barulho, aproveitei a distração total deles e comecei a correr para o mais longe dali.
Quatro pernadas depois, senti meu corpo ser impactado fortemente contra o chão. Um gemido de protesto e dor escapou da minha garganta. Pisquei para enxergar através da escuridão.
Sem sucesso algum.
— O que faz em Ahmisticis? Quem é você? — me contorci no chão de terra apenas ouvindo o tom grave e ameaçador daquela voz.
Fui erguida sem esforço algum e empurrada contra uma parede, ainda com dificuldade de me manter em pé e sem respirar direito. Tossi. Pois minhas costas ainda doíam. Coloquei as mãos no joelho puxando o ar novamente, mas fui interrompida com brutalidade novamente.
— Responda ou acabarei com você.
Estava sendo empurrada a um canto onde as tochas não iluminavam mais, o homem que segurava meu braço na altura do cotovelo deixava seu aperto claro que não me deixaria mover qualquer centímetro que fosse.
— Não me machuque! — balbuciei.
A voz tomava forma de espinho prestes a me espetar, mesmo rouca e grave, mesmo em meio à escuridão do vilarejo, ao frio das arvores que ao redor formavam a floresta, eu sabia que o meu fim não poderia ser naquele momento tão confuso, ameaçador e complicado...
— Não faça mais rodeios. Quem te trouxe aqui?
— Não sei como eu cheguei aqui.
Quase não reconheci minha própria voz e um breve silencio fez parte do momento em que reconheci como sendo real. Meu braço ficou livre.
— Então creio que corre perigo estando aqui.
— Quem são vocês e onde estou? — repliquei, mais parecia um cenário de filme medieval com a mistura de selvagens... altos.
Um clarão nem tão vermelho e nem tão violeta, vibrou atrás do homem alto que repentinamente me protegeu em suas costas.
Juro ter o ouvido esbravejar, antes mesmo de poder enxergar a figura que tomou a forma de outra silhueta masculina. Eu iria morrer, já sentia minhas pernas ficarem bambas. Outro facho de luz veio em minha direção me impedindo de enxergar. Que novidade. Fui perdendo os sentidos lentamente, mas não antes de ouvir uma risada tão cínica quanto familiar...
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