Sombras e Seus Humanos
7 Capítulo 7
Notas iniciais
No dia seguinte, Ciel acordou em sua cama, ainda abraçado com Yuki. Levantando, notou que Miku os havia carregado para a cama, e já estava fazendo o café da manhã. A felicidade era tanta que o garoto até chegou ao lado dela e beijou sua face.
-Obrigado por tudo. Sem você, não saberia o que fazer.
-Não me agradeça, você sabe que a felicidade de Lady Yuki é a minha. E como ela só é feliz ao seu lado, não posso deixar que vocês não fiquem juntos.
-Ciel... – Yuki levantara, e procurava por seu humano esfregando os olhos, ainda sonolenta.
-Estou aqui, meu bem. – Ciel abraçou sua Sombra, que ficou vermelha e sorriu.
-Fiz alguma coisa idiota? – Perguntou o garoto, sem entender porquê o sorriso e o rubor do rosto de Yuki.
-É a primeira vez que Ciel me chama de “meu bem”...
Ciel sorriu também, pegou Lady Yuki no colo e a levou novamente para a cama.
Era incrível como a Sombra era tão leve, e mesmo assim, conseguia levar ele mesmo no colo.
-Como consegue ser tão leve, e mesmo assim me pegar no colo? – Perguntou Ciel, deitando ao seu lado na cama de casal.
-Sou uma Sombra, o que você acha? – Riu Lady Yuki.
Seguindo para a escola, a Sombra quis ir como uma garota normal, disse a todos que perguntavam que estava namorando Ciel e que ela e sua prima eram de outro colégio. Todos os garotos olhavam com inveja para Ciel, e sorriam para Miku, que fora obrigada a ir junto com uma roupa normal. Lady Yuki usava um conjunto de saia rosa xadrez, uma blusa de botão branca com as mangas curtas e com as bordas iguais a saia, meias rosas e um sapato estilo “sapatinho de boneca”. Miku usava um vestido branco com a gola lilás, um tamanco e uma flor como presilha segurando parte de seu cabelo. As duas continuavam lindas usando roupas de humanos.
-Onde conseguiram roupas humanas? – Perguntou Ciel, curioso.
-Pegamos de bonecas de umas lojas por aí. – respondeu Yuki sorrindo.
-E alguém viu? – Se apavorou Ciel.
-Não, porquê? – Lady Yuki não entendera o espanto do garoto.
-Bem, pelo menos não tiraram as roupas de nenhuma pessoa aí na rua. – suspirou aliviado Ciel.
-Ei, Ciel! – Ichirou estava no portão do colégio.
-Oi Ichirou.
-Oi Ichirou! – Gritou com emoção Lady Yuki
-E aí, Lady Yuki!
-Oi, Ichirou. – Falou Miku, com sua voz séria e baixa de sempre.
-Miku...
-Ela está linda, não está? – Lady Yuki disse orgulhosa.
-Você também está linda! Na verdade, vocês são lindas! – Sorriu Ichirou.
-Brigada! – Lady Yuki abraçou forte Ichirou, feliz.
-Ei, só eu você pode abraçar! – Brincou Ciel.
-Está bem – Lady Yuki pulou aos braços de Ciel.
-Tinha que ver o caminho para cá. Sempre tinha um garotinho de queixo caído olhando para as duas.
-Sério? E algum deles fez alguma coisa? – Ichirou falou com raiva na voz.
-Só pediram o telefone de Miku, já que Yuki fez questão de dizer que era minha namorada.
-E o que você disse?
-Eu disse que ela morava com agente – Lady Yuki disse com seu orgulho, ainda abraçada em Ciel.
-E eles? – Ichirou estava curioso demais na opinião de Ciel.
-Me chamaram de sortudo, e disseram que queriam manter contato comigo, sempre que passasse por ali.
-Que otários.
-Me diga, e Makino, onde está?
-Não veio hoje. Acho que vai demorar para ela aparecer.
Ciel notou que Lady Yuki ia fazer algum comentário, mas parou antes mesmo de pronunciar uma palavra.
Em aula, as duas sombras se transformaram em porquinhos da índia, Lady Yuki rosa, e Miku lilás. Ficaram no bolso da mochila de Ciel, que deixara o zíper com dois dedos de abertura para as duas respirarem. Ao final, os quatro foram para o apartamento, Miku fazer o almoço, Lady Yuki arrumar a casa, Ichirou e Ciel estudaram.
-Não, não, vocês perderam muita aula desde aquele dia. Ciel, você não prestou a mínima atenção na aula, e Ichirou, você muito menos. Vão estudar! – Miku não pedira, ordenara.
-Mas nós nunca estudamos na vida! Porque começar agora? – Ciel perguntou se sentindo injustiçado.
-Vamos, cara. – Pediu baixinho Ichirou.
-Está bem, está bem. – Ciel achava muito estranho o comportamento de Ichirou, mas não quis questionar.
A semana continuou assim, Ciel e Ichirou retomando o que perderam em aula, Miku e Yuki cuidando da casa, acompanhando-os até a escola, e Makino sumida.
No meio da aula, Ichirou tocara um bilhete para Ciel escondido da professora:
“Ei, Ciel, vamos ver Makino hoje de tarde? Estou começando a ficar preocupado com ela”
“Eu sei, cara, mas não acho que seja uma boa idéia. Yuki vai ficar arrasada.”
“Ela sabe que você não ama Makino mais que ama ela, e outra, Makino está sofrendo mais do que você. Não sei como seria se...” – O resto da frase estava riscada, continuado somente com um “vamos, cara!” Ao final no papel.
Ciel concordou, sem se incomodar com o que estava riscado. Já estava tão acostumado com os rabiscos de Ichirou que perdera toda a curiosidade de saber o que estava escrito.
Quando a aula acabou, Ciel disse para Miku o que queria fazer, enquanto Ichirou puxava Lady Yuki para brincar no playground da escola para as crianças.
-Ichirou e eu queremos ir até a casa de Makino, para ver como ela está. Será que você poderia chamar um pouco da atenção de Yuki, para ela não notar e não ficar chateada comigo?
-Tudo bem, só não vejo como posso fazê-la esquecer de você por um minuto.
-Tome – Ciel colocou algumas notas nas mãos de Miku – Aqui tem mais que o suficiente para entretê-la nas lojas da cidade. Escute bem, cada coisa que você quiser ter, terá que comprar. – Ciel explicou direitinho como valia cada papel daqueles, e, quando soube que Miku entendera, continuou – Diga a Yuki que é para fazer uma surpresa para mim. Compre roupas, sapatos, tudo que servir nela e ela gostar. Se quiser alguma coisa, fique a vontade.
Ciel agradecia a mesada que seus pais insistiam em dar todo o mês, dizendo que era somente para suas refeições. Se eles pensavam que ele era tão obeso para gastar tudo somente com comida, estavam bem enganados.
-Está bem, farei isso. Mas não demorem. Não duvido que ela acabe descobrindo.
-Não vamos demorar, prometo. Chegaremos antes de anoitecer.
Ichirou e Ciel seguiram então para a casa de Makino. A garota vivia praticamente sozinha, já que os pais viviam viajando em questão de seus trabalhos.
Apertaram a campainha, mas não receberam resposta. Após Ichirou gastar o botão, a voz de Makino saiu do interfone.
-O quê vocês querem? – Quem não soubesse que estava chorando, diria que o resfriado fora forte.
-Como adivinhou que era nóis? – Ichirou fez questão de soltar um “nós” exagerado.
-Quem mais tocaria a campainha feito um maluco como você, Ichirou? – Ciel respondeu.
-Vão embora. – A voz de Makino era estranha sem o rosto dela.
-Não até vermos você. – Ichirou desta vez falara sériamente.
-Então ficarão aí até o anoitecer.
-Ao anoitecer você sairá?
-Não.
-Então ficaremos aqui até você sair, ou nos deixar entrar. – Ichirou se sentou no chão. Ciel, sem saber o que fazer, sentou com ele.
Dado meia hora, o interfone soou novamente:
-Vocês ainda estão aí?
-Sim – Respondeu Ichirou pacientemente.
-Não vão sair?
-Só se você nos mostrar as caras. – Ichirou olhou para o interfone, como se este se transformasse em Makino.
-Estou indo aí – A garota respondeu somente depois de algum tempo.
Makino estava diferente. Sua aparência não estava tão ruim quanto a de Lady Yuki quando voltou, mas como a humana não tinha aquela beleza fora do padrão, sua face estava bem pior.
-Makino... – Ciel disse, sentindo culpa no coração.
-Não se sinta culpado. Afinal, a culpada aqui sou eu.
-Você não é culpada. Afinal, Usagui é um idiota, e todos sabemos disso. – Ichirou o chingou.
-Por favor, não o chame assim.
-Olhe o que ele fez com você! Como não o chamá-lo de idiota?
-Ichirou, se continuar a falar disso, não verá meu rosto nunca mais!
-Ichirou, deu. – Ciel pediu ao amigo que parasse com calma.
-Está bem...
-Makino, como está se sentindo? – Perguntou Ciel preocupado.
-Estou bem.
-Então porquê não foi mais na aula?
-É que... como posso te dizer? Eu estou bem, mas a dor no meu coração é tanta, que meu corpo não responde como fazia antes. Eu sinto como se tivessem me enrolado como uma múmia, e não conseguira me mexer por milênios. E, agora que estou livre, meus músculos estão tão fracos que é praticamente impossível que eu tenha força para levantar um copo. Não consigo fazer nada, além de ficar deitada e sentir a hora passar, sem querer realmente saber que horas são. Só como se tenho fome, e muitas vezes deixo de comer somente para não precisar me mover, e quando chega a noite, a fome é tanta que sinto dores no estômago e no resto do corpo, sendo obrigada a comer algo. E assim, não sei se passaram semanas ou só alguns dias, tudo parecendo durar tudo um único e longo dia.
Ciel e Ichirou se olharam, sem realmente saber o quê fazer. Nenhum deles sabia lidar com sentimentos, ainda mais de garotas.
-Ora, não se preocupe. Tratei uns amigos só pra você se divertir e esquecer deste idiota – piscou Ichirou, sem realmente saber se esta era a coisa certa a se dizer.
-Não dê bola para Ichirou, ele não sabe o que fazer com sentimentos de vocês. Acho que o melhor a se fazer é esquecê-lo um pouco e prestar atenção em outra coisa, para se distrair. Acho que é o melhor a se fazer.
Makino pareceu querer dizer alguma coisa, mas ao invés de falar, apenas acenou com a cabeça.
Foram todos para casa de Ciel, que os convidou para um filme. Estava nervoso com a reação de Lady Yuki com Makino em casa, mas não ia ser por isso que deixaria a amiga triste como estava.
Ichirou fez questão de botar o medo de Ciel para fora no caminho para sua casa:
-Qual será a reação de Lady Yuki ao ver Makino?
-Devo pedir desculpas a ela, por cobiçar o futuro marido dela.
-Hehe, é mais fácil ela beijar teus pés por isso.
-Então, porque ela me mataria?
-Ué, não sabe?
-Não... – Makino virou o rosto para Ciel, sem entender.
Ichirou então percebeu a besteira de contar para Makino das coisas, e ficou quieto.
-Porque Lady Yuki quer me matar?
Ciel então confessou:
-Sempre achei que gostava de você mais do que uma amiga, por você ser a garota mais próxima de mim. Lady Yuki descobriu isso antes de poder julgá-la suficientemente. Mas dizem que só notamos o verdadeiro valor das coisas ao perdê-las.
Makino ficou com ar de pensativa. Passou o resto do caminho com a cabeça baixa, sem dizer quase nada.
Neste dia, Ciel subestimou Lady Yuki mais do que poderia imaginar.
Yuki abriu a porta antes de o garoto colocar as chaves na fechadura, e já estava o abraçando quando ele notou. Ao ver quem estava atrás do rapaz, Lady Yuki parou para ver que Makino a encarava com um misto de culpa e de vergonha. Ciel até pensou em explicar tudo para Yuki ali mesmo, mas se surpreendeu ao ver que a garota sorriu e abraçou Makino, a deixando entrar. Pulou em Ichirou e fechou a porta atrás de si, perguntando se queriam pipoca, correndo para a cozinha e sendo seguida por Miku, para ter certeza de que Yuki não queimaria nada.
Ao termino do filme, todos conversavam, Lady Yuki quieta, com seus braços em torno do pescoço de Ciel.
-Porque está quieta, Yuki?
-Nada, só escutando – disse ela sorrindo.
Makino levantou e saiu para o quarto de Ciel, e Lady Yuki a seguiu. Ciel até pensou em ver o que a garota faria, mas segurou sua curiosidade para não atrapalhar qualquer conversa que elas poderiam ter.
Enquanto isso, no quarto de Ciel, Makino sentava na cama, seguida por Lady Yuki.
-Sei que Ciel se apaixonou por mim, mas eu não tenho culpa. Nem sabia que isso acontecia. Para mim, o que me importava era Usagui, somente ele. Não tinha idéia do que poderia estar fazendo com os outros.
-Suas palavras me doem, principalmente a parte em que Ciel gostava de você. Não a culpo por nada, apesar de querer muito isso. Ciel não tinha idéia do que estava fazendo comigo, e Usagui não faz idéia do que faz contigo. Posso até não ser sua amiga pelo que você me fez sofrer, mesmo sem querer, mas não posso gostar do fato que Usagui a despreza e te faz mal, não tendo idéia de que está fazendo isso com alguém. Não quero que você se machuque mais do que já está, mas com relação a isso, não poderei fazer nada.
-Não quero nada de você, você não me deve nada. Apenas quero que não fique de mal comigo, e quero ao menos ser perdoada.
-Não precisa ser perdoada, pois não tem culpa de nada. Só peço que não se machuque com Usagui.
-Não vou mais. – Sorriu Makino. Seu sorriso saira meio torto, por fazer dias que não aparecia.
Lady Yuki retribuiu o sorriso, e as duas voltaram para a sala. Não eram amigas, apenas... conhecidas. Não guardavam nenhum rancor, Makino por poder ter tirado Ciel de Lady Yuki, Yuki por poder ter Usagui quando Makino não podia.
Mais tarde, quando Ichirou e Makino já tinham ido embora, Ciel, ainda curioso, fora perguntar o que Lady Yuki conversara com sua amiga, Ao ver que a garota dormia no sofá, agarrada em uma almofada.
O garoto carregou sua Sombra para a cama, e, não querendo acordá-la, deixou sua pergunta para o dia seguinte.
Fale com o autor