Sombras do Passado
2 Capítulo 2 - A Traição
Notas iniciais

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Para Carlota era duplamente impensável a gravidez de Cristina. Ela estava casada há 6 anos nos quais havia feito de tudo para engravidar e não pôde. Com o marido, que lhe fazia todas as vontades, havia procurado toda a sorte de médicos e descoberto que seria muito improvável que ela fosse mãe algum dia. Jamais havia tido coragem de dar essa notícia a Severiano que confiava à ela e a Cristina a responsabilidade de lhe garantir a descendência. Sobretudo esperava um neto homem a quem ele confiaria a administração da fazenda e a sequência dos negócios e agora, Cristina, sua irmã mais nova, estava grávida aos 17 anos.
Carlota sentiu a garganta secar, a amargura e a inveja percorrerem-lhe o corpo e inconscientemente enraizarem-se em sua alma. Como a vida podia ser tão injusta? Como Cristina podia ter conseguido sem nenhum esforço algo que ela havia buscado por tanto tempo. Naquele momento, naquele exato momento nasceu em seu coração uma ponta de ódio por Cristina. Algo que, mesmo que ela nunca revelasse, sempre estaria ali porque não podia admitir que Cristina desse a Severiano um neto, que Cristina fosse mãe e ela não. Cristina caminhou até a penteadeira e sentou-se olhando no espelho. Temia encarar, Carlota, temia sua reação, temia que ela contasse tudo à Severiano, mas, naquele momento não se importava, não se importava mais com nada, queria mesmo que a verdade viesse à tona porque o que ela não podia admitir, não podia aceitar, era casar-se com Federico.
_ Você não vai dizer nada? – indagou Cristina com os olhos úmidos.
Carlota caminhou até a cama onde sentou-se e suspirou.
_ O que eu posso dizer, Cristina? O que você fez com sua vida? Você a desgraçou, a desgraçou! – Sentenciou Carlota ainda sem poder acreditar.
_ Eu não fiz nada demais, Carlota. Só quero ser feliz. Só estou lutando pela minha felicidade.
_ Lutando pela sua felicidade? Você chama se entregar a qualquer um, ficar grávida dele e provocar o maior desgosto na vida de nosso pai de lutar pela felicidade? – Carlota não podia evitar a amargura em suas palavras.
_ Ele não é qualquer um, Carlota. Hernán é o homem que eu amo e eu sei que só com ele poderei ser feliz. Ele está organizando tudo, vamos embora juntos...
_ Por favor, Cristina! Escute as coisas que você está dizendo! Para que nosso pai não saiba e que você esteja fazendo as coisas desse modo, ele só pode ser um morto de fome qualquer. Você vai embora e levar uma vida medíocre com um monte de filhos podendo ter tudo aqui? Você não pode fazer isso com sua vida, você tem 17 anos, não pode tomar esse tipo de decisão.
_ Medíocre, Carlota... Medíocre... Para mim, uma vida medíocre é uma vida como... Uma vida sem amor. – Limitou-se Cristina evitando atacar a vida de Carlota que à ela sempre tinha parecido medíocre. – Qualquer dúvida que eu pudesse ter se essa era a melhor decisão, desapareceu no momento em que eu soube que estava grávida.
_ Esse homem... Esse seu namorado já sabe que você está grávida, Cristina? – Carlota tateou o terreno.
_ Ainda não. Não consegui falar com ele desde que soube, mas antes de saber ele já havia me dito que fôssemos embora porque ele sabe que papai quer que eu me case com Federico. O que você vai fazer? Contar ao nosso pai? – disse Cristina quase desafiadora. Quem a visse não imaginaria que ela estava em um momento tão frágil.
_ Eu não sei o que vou fazer... Você está louca, louca... – Carlota estava desnorteada.
_ Então me ajude, Carlota, me ajude! – Cristina correu e sentou-se no chão segurando as mãos da irmã. – Me ajude a fugir com Hernán, me ajude a evitar essa maldita festa de noivado amanhã, eu preciso de você, Carlota. – disse quase implorando.
_ Eu... Eu vou te ajudar Cristina. A única coisa que você tem que fazer no momento é ficar quieta. Eu vou pensar em algo.
_ Obrigada. Obrigada, Carlota. A minha vida inteira eu vou te agradecer por ter contribuído para minha felicidade. – disse abraçando-a.
_ Isso, pequena... Você vai me agradecer por contribuir para sua felicidade. – disse Carlota acariciando os cabelos de Cristina com um estranho brilho nos olhos.
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Carlota conseguiu convencer Severiano a adiar a festa de noivado de Cristina e Federico. A Cristina ela disse que inventou para o pai que ela estava doente e que era melhor esperar um pouco mais de tempo para fazer uma festa melhor. Cristina confiou na ajuda desinteressada de Carlota e não percebeu que a irmã estava tomada pela inveja. Se ofereceu para levar a Hernán uma carta combinando a data da fuga contando que ela não contasse ao namorado que estava grávida. Cristina confiou. De volta, Carlota trouxe a notícia de que Hernán estava muito angustiado com a falta de notícias dela e que ficou muito feliz ao saber que ela havia se decidido por aceitar ir embora com ele.
Cristina percebeu que havia algo estranho na atitude do pai que mal a olhava e pouco falava com ela. Parecia estar evitando-a. Mas sabia que, pela decisão que havia tomado, teria que encarar perder para sempre o pai, isso não a intimidava. Estava feliz e ansiosa esperando o momento de estar para sempre com Hernán. Como ele se alegraria ao saber da notícia do bebê. Um filho dos dois, um fruto daquele amor. Que sorte havia encontrado em contar com o apoio de Carlota, não havia esperado isso da irmã, mas havia julgado mal.
Nem mesmo as vazias e inoportunas visitas de Federico a incomodavam. Ela o recebia e dissimulava evitando sempre o contato com ele. Estava sempre, cada vez mais claro, que Cristina odiava sua presença, talvez até tivesse outro, mas ele não ia desistir. Carlota sempre o aventava a insistir no compromisso com Cristina, que ela um dia o amaria, para ele não ter dúvidas disso.
_ Você terá sua oportunidade, Federico! Eu te garanto!
Dizia Carlota cada vez que tocavam naquele assunto. Federico confiava, não tinha nada a perder, só a ganhar. Ganharia Cristina, ela valia tudo.
Na véspera da fuga, Carlota a orientou a ficar no quarto e dizer que se sentia mal. Ali ela lhe levaria comida e a ajudaria a sair na madrugada para o encontro com Hernán. Cristina subiu para seu quarto onde ansiosa recebeu a irmã e acertaram os detalhes do dia seguinte. Logo que ela comeu, Carlota saiu do quarto e Cristina realmente começou a se sentir incômoda, enjoada. Recostou-se aflita no travesseiro por se sentir mareada, tonta. Com o tempo aquela sensação foi aumentando até que, sem poder evitar, Cristina adormeceu.
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_ Carlota, que bom te ver aqui. Cristina não chegou, já estava para ir à sua casa, não me aguentava mais de ansiedade. Tanto tempo sem vê-la... – Disse Hernán ao ver Carlota no local do encontro com Cristina.
_ Não, nada disso, Hernán! – Carlota tentou acalmá-lo. – Cristina não vem. Ela está muito doente, há uns dois dias se sentindo muito mal papai a enviou para tratamentos na capital.
Aquela notícia assustou sobremaneira Hernán. Jamais esperava receber aquela informação, não aguentava mais estar separado de Cristina.
_ Onde, Carlota? Onde? – Gritou desesperado. – Se ela está doente eu preciso vê-la, estar com ela!
_ Não, Hernán! Foi ela quem me pediu que eu viesse até aqui. Ela disse que não queria que você a procurasse, que agora a situação está muito complicada, mas ela logo entrará em contato com você. – Carlota mentia sem nenhuma culpa.
_ Claro que não! Eu vou até lá, quero ficar com ela. Em que hotel ela está, em que hospital? – Insistiu o aflito e apaixonado rapaz.
_ Em poucos dias ela estará de volta. E ela vai entrar em contato com você, ela me pediu e eu vou fazer isso, quero muito ajudar vocês dois. Logo vai chegar o momento que vocês estarão para sempre juntos. – fingiu apoio ao amor dos dois.
_ Prometa, Carlota, por favor, prometa! – pediu Hernán.
_ Claro que prometo. – garantiu Carlota.
Hernán queria procurar Cristina, queria ir até ela, mas não podia, não havia alternativa. O único elo que ele tinha com Cristina era Carlota e por mais que as notícias que ela trazia não eram as melhores, eram as únicas que ele podia ter. Não lhe restava mais do que esperar.
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Vagarosamente Cristina abriu os olhos. Na cama à sua frente estava Severiano, sentado, olhando-a. Sentia-se um pouco perdida, não reconheceu a casa, a cabeça dava voltas.
_ O que está acontecendo? Onde eu estou? – ela indagou sem imaginar a resposta que viria.
_ Você não precisa conhecer a localização dessa casa, Cristina, nem nenhum outro detalhe. O que você precisa saber eu vou te dizer nesse momento é que você vai viver nessa casa até que essa criança nasça. Federico e todos na cidade acreditam que você está doente e é nisso que vão acreditar nos meses que restam. Agradeça ao bom coração de sua irmã que eu não matarei ao infeliz que te desflorou.
_ Por favor, papai, Hernán não... – rogou Cristina aos prantos.
_ O nome desse infeliz não me importa, não me importa nada dele e nem vai importar à você. Essa casa é muito bem vigiada, não adianta tentar nada. Guadalupe vai viver aqui com você esses meses e eu sempre vou vir te ver. Quando a criança nascer... Quando essa criança nascer, eu vou decidir seu destino.
_ Você não vai tirar meu filho de mim, não vou permitir isso! – bradou Cristina.
_ Filho? Você nunca teve um filho Cristina. Você está doente, em tratamento na capital e voltará para casa em alguns meses, na data de seu casamento com Federico. Não se preocupe, minha filha. Eu vou cuidar para que você seja feliz. – sentenciou Severiano.
Feliz... Felicidade. Naquele momento essas palavras não existiam para Cristina. À ela só lhe restou a inércia, as lágrimas naquele dia e nos próximos meses. Por mais que ela quisesse e se rebelasse contra seu destino, naquele momento era só uma menina. Um bichinho assustado de quem outras pessoas se haviam apossado de seu destino, de sua vida, de seus sonhos.
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A gestação de Cristina foi tranquila, apesar das circunstâncias. Um pouco mais de sete meses depois, ela deu à luz uma menina em quem ela botou os olhos poucos minutos, a própria Guadalupe fez seu parto. Em seguida, ligou para Severiano como o combinado e ele chegou à casa e, impiedosamente, tirou a criança recém-nascida de uma mãe que se entregou à depressão, foi perdendo as forças e a garra de lutar. Severiano a visitou para avisar que em alguns dias ela se casaria com Federico que ignorava o motivo de tantos meses de ausência de Cristina. Ela foi aceitando com resignação aquele destino, apesar de alimentar uma fagulha de esperança de poder estar com Hernán e que ele a ajudasse a escapar ainda que fosse depois do casamento e, juntos, encontrarem a filha dos dois. Essa esperança foi esmagada por Carlota que a visitou junto com Severiano na ocasião.
_ Eu sinto muito te dar essa notícia, Cristina. Hernán sentiu muito a sua falta, se entregou à bebida. Uma noite, muito bêbado, foi atropelado nas ruas da cidade e... e morreu. Apesar de tudo, eu jamais quis te dar essa notícia, Cristina. Tudo o que eu fiz foi pela sua felicidade, minha irmã.
O cinismo de Carlota atingiu o coração de Cristina. Como ela podia falar daquela maneira e fingir que nada tinha acontecido?
_ Obrigada, Carlota. – respondeu Cristina na mesma moeda. – Jamais vou esquecer tudo o que você fez pela minha felicidade. – encerrou com um sorriso amargo no rosto.
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Poucas pessoas assistiram à cerimônia do casamento de Cristina e Federico. Cristina era um espectro daquela jovem feliz de meses antes, carregava todo o mundo nos olhos. Federico se deu conta e se compadeceu dela ao perceber que, aos 18 anos, sua vida era decidida à sua revelia. Talvez fosse só impressão, talvez fosse pela doença que ela teve. Poucos minutos depois o juiz de paz exclamou a frase que selou o destino daquelas duas vidas:
_ Eu os declaro marido e mulher!
Cristina virou o rosto no momento de receber o beijo de seu marido. Na manhã seguinte Carlota e Luciano partiriam, iam viver no exterior por um longo tempo. Cristina não notou nada estranho porque ela estava muito intrincada em sua própria dor. Jamais seria mulher de Federico, jamais se entregaria à ele, era tudo o que ela pensava naquele momento. Hernán podia estar morto, mas sua lembrança... sua lembrança sempre estaria viva dentro dela e naquela filha... Naquela filha que talvez ela nunca voltasse a ver. Nenhum homem ocuparia o lugar de Hernán em sua vida. Nenhuma criança ocuparia o lugar daquela filha. Ela não construiria outra família porque a família que ela queria, que seria sua felicidade era aquela, aquela que Carlota e seu pai lhe haviam arrebatado.
Cristina entrou no quarto e observou os detalhes da decoração. O quarto havia sido preparado por Carlota, como um último presente antes de sua partida. Pelos empregados ela soube que Carlota e Luciano iam tentar mais um tratamento no exterior para terem filhos, era esse o motivo da viagem. Pensou nisso com desprezo. Parecia-lhe indigno que Carlota fosse atrás da felicidade, de construir uma família depois de ter esmagado a felicidade dela, roubado-lhe sua chance de construir a família de seus sonhos. Mas a vida lhe cobraria, a vida trataria de cobrar à Carlota tudo o que ela lhe havia tirado. Jamais perdoaria a irmã pela traição que ela lhe havia feito, jamais voltaria a ver Carlota com os mesmos olhos inocentes.
Alguns segundos depois entrou Federico, ansioso por aquele momento que há meses sempre anelava: conhecer o amor de Cristina, a única mulher que lhe interessava no mundo e agora era sua, sua esposa, sua Cristina.
_ Cristina... – Disse Federico ansioso – Você não sabe como eu esperei por essa noite.
_ Eu posso imaginar. – Respondeu Cristina com desprezo
_ Essa noite iniciaremos nossa vida, meu amor...
_ Iniciaremos... – concordou Cristina seca – Por isso mesmo, Federico, vamos deixar algumas coisas bem claras.
_ Claro, o que você quiser, será tudo, como você quiser. – Disse Federico apaixonado. – Estou aqui para te ouvir. O que você quer deixar claro?
_ Quero deixar claro que esse casamento jamais vai sair da farsa que você e meu pai combinaram.
_ O quê? Do que você está falando? – surpreendeu-se.
_ Em nenhum momento nem você e nem meu pai me perguntaram minha opinião sobre esse maldito casamento, não é mesmo?
Federico não pôde sair do silêncio. O que ele argumentaria? Era a mais pura verdade. Severiano decidiu o destino de Cristina, e para sua sorte ele foi o escolhido, e ele jamais contestou ou procurou respeitar os desejos e o espaço de Cristina tudo pelo afã de que ela fosse dele, de que ela fosse sua esposa como ele tanto almejava.
_ Eu posso não ter tido forças para evitar esse compromisso e outras coisas... – baixou os olhos lembrando-se da filha – Mas não vou permitir que outras pessoas decidam e vivam minha vida por mim, Federico. Você queria se casar comigo, ser meu marido, parabéns, você conseguiu! Serei tua esposa enquanto eu não puder mudar esse fato. Mas não vai passar disso, Federico, jamais vai passar disso!
_ Como assim? – ele fez um esforço para fingir não estar entendendo as palavras de Cristina.
_ Eu estive muito tempo fora dessa casa, você sabe disso. As pessoas estavam decidindo meu destino como eu acabei de te dizer. Mas eu sei que aqui ao lado há um quarto de hóspedes. Você vai ocupar esse quarto, se quiser viver na mesma casa que eu. Eu nunca vou ser sua mulher, Federico, nunca!
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