Sombras do Passado

27 Capítulo 27 - Culpados


Notas iniciais
Música do capítulo - Culpable - David Bisbal Muito obrigada pelos comentários, favoritos e recomendações. Leitores ativos são o melhor estímulo para a frequência na atualização dos capítulos ;)

***

Federico afastou-se dela e se virou. Não conseguiria dizer aquela verdade olhando-a nos olhos. E tinha consciência de que era o momento. De cabeça baixa, como quem se arrepende de seus erros desesperadamente, confessou:

_ Ela me convidou para ir até sua casa. Eu estava bêbado, muito confuso...

Cristina ouvia também de cabeça baixa, as lágrimas desciam por sua face sem que ela pudesse controlar.

_ Eu passei a noite na casa de Raquel... – fez uma pequena pausa para confessar o mais grave, o que ele sabia que, por conhecer tão bem a Cristina, seria o imperdoável – com ela.

Cristina se virou com um grande soluço que invadiu sua garganta e inundou seu rosto em lágrimas. Ele! Tão apaixonado e dedicado a ela. Tão incrivelmente encantador que havia lhe ganhado o coração com uma insistência e persistência admiráveis. Ele. Ele lhe havia falhado. Seu mundo veio abaixo ao constatar que era verdade. Havia sido traída por Federico. Ele se aproximou dela que também havia se virado e fez menção de tocar seu ombro, mas sentiu-se indigno, e recolheu sua mão.

_ Eu sei que foi um erro, Cristina! Eu sei que foi a maior imbecilidade do mundo, foi... foi uma fraqueza, mas eu te amo, você não pode duvidar disso.

Cristina ainda não tinha forças para responder. Aquela constatação era demais para ela. Havia construído uma imagem de Federico na qual ele jamais lhe falharia, mas ele o fez. E com Raquel, aquela víbora. Nem em seus piores pesadelos se havia imaginado naquela situação. Não conseguia olhar para Federico, não sabia como reagiria se o olhasse.

_ Eu me arrependi imediatamente, ainda que eu estava bêbado, mas... já estava feito. – ele disse mortificado se aproximando dela.

Cristina finalmente se virou e ele pôde ver uma fúria misturada com uma dor em seus olhos que ainda não conhecia. E ele que pensava que conhecia Cristina tão intensamente.

_ E a sua atitude de homem foi vir pra casa e fazer amor comigo? Sem me contar nada? – reclamou-lhe aparentemente calma.

_ Eu não sou perfeito, Cristina. – Justificou-se Federico. – Mas sempre quis fazer tudo para ser merecedor do seu amor.

_ Eu tenho escutado muito isso de você ultimamente, Federico. Que você não é perfeito. – recordou Cristina amarga.

_ É porque é a verdade. – ele disse quase chorando.

Cristina se virou e caminhou até a janela. A dor era tão aguda, que parecia que estavam dilacerando seu coração sem anestesia. Doía-lhe fisicamente. Parada ali, de pé, sentindo como a dor e as amargura circulavam e percorriam todo seu corpo como que pela corrente sanguínea. Deu um sorriso cínico.

_ Que contradição, não, Federico? O tanto que você me censurou e me criticou por não haver lhe contado da volta de Hernán por causa do que, na sua cabeça podia acontecer, e você foi lá e o fez efetivamente.

_ Não é a mesma coisa, Cristina. – negou Federico.

_ Por quê? – ela se virou gritando. – Por que não é com você? É a mesmíssima coisa, Federico! Você me traiu com uma mulher do seu passado. Uma desgraçada que sempre esteve na sua vida. Que você me garantiu que não seria um problema entre nós. Tinha mesmo que ser com ela?

_ Eu não estou justificando o que aconteceu com Raquel, Cristina, mas sua história com esse homem é diferente! É uma traição o simples fato de ele estar vivo! Estar vivo, ter mexido com você e você não ter me contado. – gritou-lhe também alterado.

_ Sim, Federico, é diferente. – ela disse com convicção se aproximando dele e fitando-o nos olhos. – Aqui há uma grande diferença. Você pode me acusar do que seja. Se sentir o inseguro e traído que queira com a volta de Hernán. Mas dentro dessa maldita história eu nunca... nunca – enfatizou a palavra – fui desleal com você. Essa é a diferença.

_ E em que isso te abona? Em que isso te justifica por não haver me amado? – reclamou-lhe.

_ Não estou me justificando e nem abonando nada. Você estava aí porque você queria! Você me disse que esperaria o tempo que fosse eu nunca te pedi que ficasse, Federico, pelo contrário. Mas eu fui leal! Eu fui leal com você e com o amor que eu acreditava que você sentia por mim e em troca... Em troca recebi uma traição que eu jamais esperava de você.

_ Eu não queria te enganar, meu amor, acredite. – ele tentou tocar sua mão, mas ela não permitiu. – E eu sei, eu sei que você não merecia isso apesar... apesar dos problemas que nós tínhamos, mas...

_ Mas... “seu orgulho masculino estava ferido, seu ego precisava ser alimentado, todas as mulheres que estiveram em sua vida foram para que você sentisse um pouquinho de orgulho masculino, já que o fato de ser desprezado por mim, te fazia sentir como o mais idiota de todos”. Federico, eu já conheço esse seu discurso de trás para a frente. Há muito tempo eu sabia que você era mulherengo, mas acreditei. Acreditei que o amor poderia te transformar. Talvez... talvez não fosse amor. – toda a dor que carregava no peito apareceu na sua voz.

_ Então é isso? Por causa de um erro, por causa de um único erro que eu cometi você vai desmerecer tudo o que eu fiz para conquistar seu amor? Eu te amo, Cristina, te amo!

_ Não é um único ou um simples erro, Federico! Isso só mostra quais são suas prioridades. Entre guardar esse seu tão importante ego masculino e voltar para casa para que conversássemos, você fez uma escolha. E não foi a mim que você escolheu.

_ Estamos aqui agora, não Cristina? – implorou ele sentindo que ela endurecia o tom. – Falemos, vamos resolver isso, por favor. – segurou seu braço ainda que ela se esquivasse.

_ Se você pensa que vai dormir na minha cama depois que eu soube que você passou uma noite na de Raquel, Federico, é você quem não me conhece. – ela disse furiosa. – Solte o meu braço e saia agora mesmo do meu quarto!

_ Cristina, não faça isso! Não faça isso com nosso amor.

_ Se nosso amor fosse tão importante para você, dois dias atrás você teria passado a noite comigo. – ela finalmente soltou-se dele caminhando até a porta e abrindo-a. – Boa noite, Federico! Que o seu ego masculino seja uma companhia agradável para você. Hoje... no quarto de hóspedes!

🎵Preguntas cómo hemos llegado a esta situación

De odiarnos y de avasallarnos con tanto rencor

¿Porqué?, preguntas ¿porqué?

Incrédulos ante el abismo que nos parte en dos

Afanas toda la indulgencia nunca das un “yo”

¿Porqué?, insistes ¿por qué? ¿porqué?🎵

***

Quando ele passou pela porta e ela fechou-a, Cristina sentiu que morreria com a dor no peito. Lentamente resvalando suas costas na porta foi deslizando até sentar-se no chão e entregar-se totalmente às lágrimas. Por quê? – se perguntava. Por que Federico lhe havia feito aquilo? Ela queria, no mais íntimo de seu coração, queria perdoar a Federico, mas com aquele agravo lhe era difícil até voltar a encará-lo, o que dizer, voltar a confiar. Por mais que ela não tivesse sido uma esposa perfeita, sabia que não merecia aquela traição porque estava entregue. Entregue de corpo e alma, entregue por inteiro, tão apaixonada como jamais havia estado em sua vida, como ele havia sido capaz?

Federico nunca sentiu tanto o peso de abrir a porta daquele quarto de hóspedes. Sim, por mais que ele o houvesse ocupado por tantos anos, nunca havia deixado de ser isso: um quarto de hóspedes. E isso se dava, em grande parte, por sua esperança. A esperança de que algum dia deixaria de ocupá-lo sozinho. Que compartilharia a vida com Cristina e conseguiu! Conseguiu para agora voltar para a estaca zero. Não! Era pior, ele sentia. Agora Cristina o desprezava. Ele foi muito inconsequente. Jamais mediu o quanto lhe pesaria aquela decisão de passar a noite com Raquel e agora, aquelas lágrimas que escorriam por sua face lhe deixavam claro que foi a pior besteira que ele fez na vida. O que não daria pelo perdão de Cristina.

🎵Renaces embriagada en ira por el que dirán

Me increpas, consternada y lloras que no puedes más

¿Porqué?, me gritas ¿porqué? ¿porqué?

Y me empiezo a preguntar si la respuesta te valdrá🎵

***

O dia seguinte foi de encerro para Cristina. O mesmo encerro interno que vivenciou Federico mesmo tendo saído de casa às sete da manhã para envolver-se no trabalho das fazendas e tentar, ainda que isso fosse impossível, fugir daquela dor que carregava no peito e lhe amargava o rosto. Carlota se divertiu ao perceber que Amanda tentou falar com Cristina, mas ela se recusou a abrir a porta, sabia que estava sofrendo, quase podia sentir.

Dentro daquele quarto, Cristina chorava e se preparava para tomar uma decisão. Ela sabia, a experiência da vida lhe havia ensinado, que a dor não é a melhor conselheira para se tomar uma decisão, mas não havia como voltar atrás, ela conhecia seu coração e sabia bem o que ele lhe exigia naquele momento. Quando, pela janela, ela viu a camionete de Federico entrando na sede, foi até a porta e a destrancou. Ele parou na sala e recordou.

Flashback on

Poucos meses antes

_ Você sabe que eu não gosto desse peãozinho. – ele espezinhou. – Mas, faço qualquer coisa para te agradar.

_ Então faça isso! Respeite à José Maria e ao seu trabalho! – ela disse beijando-o na bochecha. – Se você se comportar bem, sabe que terá boas recompensas, não sabe? – falou baixinho em seu ouvido maliciosa.

_ Não faça isso que eu não consigo sair, Cristina! – ele disse com os olhos fechados, perdido nos cabelos dela agarrando-a pela cintura.

_ Então seja um bom menino! – ela falou de novo baixinho rodeando até seu outro ouvido.

_ Tudo bem! Vou ficar longe de José Maria!

Cristina agradeceu com um apaixonado beijo com direito a tudo. Mordiscava seus lábios com carinho e paixão. Recebia a língua de Federico e colocava a dela na boca dele num ritmo ditado pelo desejo. Federico sentia-se muito mimado com o modo como os lábios e a boca dos dois estavam acoplados. Nenhum gosto era tão maravilhoso quanto o da boca de Cristina. Teve dificuldade em parar de beijá-la antes de sair da fazenda. Ainda olhou para trás abobado, sem acreditar no quanto ela estava diferente, quando chegou à porta e disse, sorrindo:

_ Eu sou o homem mais feliz desse mundo!

_ E eu a mulher mais feliz do mundo! – Cristina respondeu com a mesma paixão no olhar.

Flashback Off

_ Não posso, Cristina. Não sei ser feliz sem você. – se disse baixinho com uma dor na voz. – Você precisa me perdoar.

🎵Culpable de decir ya basta

Cuanto me desgastas con cada porqué

Culpable de quererte tanto que me equivoqué,

Culpable de pedir perdón, de no saber cuál fue mi error

Culpable de seguir tratando de calmar tu voz🎵

Quando ele entrou no quarto, a encontrou sentada na poltrona, de camisola e uma expressão estranha. O olhar estava fito naquele ponto. Quando ele direcionou o olhar para a mesma direção que ela e viu o que ela olhava, entendeu de imediato.

_ O que é isso, Cristina? – perguntou já sabendo a resposta.

_ São as suas malas. Nelas estão todas as suas coisas, espero que não esteja faltando nada. Você vai embora hoje dessa casa.

Ele correu até ela e caiu quase de joelhos no chão:

_ Por favor, Cristina, não faça isso, eu te amo!

_ Federico, o que aconteceu entre nós é irreversível. Eu não posso te perdoar. – ela fitou-o sem nenhuma pena.

_ O que você quer? – ele indagou levantando-se, não pôde evitar que as lágrimas inundassem seus olhos – Quer ficar livre para correr para os braços do padreco, é isso? Pois saiba que eu não vou permitir, Cristina, não vou permitir! – correu até ela e a levantou-pelos braços assustando-a com a fúria que apareceu em seus olhos.

Ela se soltou dele e caminhou até a janela sem se alterar muito.

_ O que aconteça na minha vida a partir de agora, não te diz respeito, Federico. Assim como não me diz respeito todas as vezes que você queira visitar Raquel e o que venham a fazer em sua cama. Foi uma escolha que você fez naquela noite.

Ele voltou a alcançá-la e a puxou pelo braço, forçando-a a olhar para ele.

_ Cristina, pela última vez. Não faça isso, meu amor. – implorou com os olhos cheios de lágrimas.

Cristina não podia entender o quanto ele ia de um extremo à outro em segundos. Ao mesmo tempo em que a ameaçava para manter-se longe de Hernán, olhava-a como um menino assustado, implorando-lhe que não o deixasse.

_ Eu já fiz! Suas malas estão prontas e você sai dessa casa hoje por bem, ou por mal. – disse ela encarando-o com ódio.

Impotente, ele foi até as malas e as tomou. Puxou-as até a porta, onde parou e olhou-a triste e, mais uma vez, ameaçou:

_ Não pense que você está livre para o padreco, Cristina! É melhor que você tenha isso muito claro.

Ela se virou e permaneceu com os olhos fitos na paisagem. Ele entendeu seu ato como uma desistência deles e tomou o caminho do corredor, derrotado. Dali da janela, ela viu quando ele acomodou as malas na camionete e, entrando no carro, saiu da fazenda. Seu coração lhe implorava para que ela corresse até lá e o detivesse. Imaginou que ele fosse procurar Raquel dali e lhe doeu. Dilacerou-lhe. Mas, apesar de tudo que seu coração lhe gritou, ela não fez nada. Permaneceu ali, imóvel saboreando o amargo gosto das lágrimas em seu rosto ao constatar que era o fim da linda história de amor que ela havia tido com Federico.

🎵Culpable de quererte tanto que me equivoqué

Culpable de pedir perdón por no tener la solución

Culpable de quererte tanto que olvidé mi voz🎵

***

Era início da noite quando Federico chegou à transportadora Meneses. Ele foi em busca de Joaquim, mas a primeira pessoa com quem se topou foi Raquel. Ele estava destruído.

_ Nossa, mas nem parece o grande fazendeiro que administra duas fazendas. – ironizou Raquel. – Ou será que... não são mais duas? – indagou com um sorriso.

Federico a segurou firme pelo braço e a conduziu até a porta de entrada do estabelecimento chamando a atenção de outros funcionários que saíam por sua brutalidade.

_ Escute de uma vez, Raquel: o que aconteceu aquela noite na sua casa foi o maior erro da minha vida, por causa dele eu perdi o que eu mais valorizava. Tenha consciência que jamais vai se repetir e fique longe de mim!

Ela se soltou dele vitoriosa.

_ Perdeu, é? Pois eu fico feliz! Sim! Você nunca pensou em tudo o que significou para mim que você me deixasse daquela maneira, não é?

Federico ficou em silêncio. Ajeitou seus cabelos, percebeu que estava transtornado e, talvez, Raquel sequer tivesse responsabilidade sobre seus erros.

_ Raquel, nós não tínhamos um compromisso nem nada. Eu era um homem casado e foi você quem insistiu para que chegássemos até onde chegamos.

_ Porque eu te amava! – gritou ela. – Porque eu sabia que você não era feliz com Cristina, porque eu sabia que podia fazer você esquecê-la, mas você... Você preferiu seguir idiota e como um cachorrinho ao lado dela. E agora, olha só no que deu! – tripudiou. – Ela te deixou! Te deixou e você está aí, sozinho. E eu... – aproximou-se dele com os olhos brilhando – eu estou aqui para você, como sempre estive.

_ Raquel, se você por um amor que diz que sentir é capaz de se comportar com tão pouca dignidade, porque julga minha relação com Cristina? Eu amo minha mulher, a amo e sei que sou correspondido e é bom que você tenha muito claro isso. Cristina e eu estamos em uma crise, é por sua causa também, mas tenha claro que nós vamos voltar a estar juntos porque eu nunca vou desistir dela. – disse afastando-a dele.

Sem importar-se em deixá-la aos prantos, entrou na transportadora para falar com Joaquim. Raquel olhou-o se afastar e professou um juramento:

_ Você vai ser meu, Federico Rivero! Ao preço que seja você vai ser meu!

***

Cristina passou dois dias recolhida em seu sofrimento. Vicenta e Amanda tratavam de animá-la, a todo custo, mas ela não reagia. A falta de Federico era obtundente e ela sentia que não podia se recuperar disso. Ao mesmo tempo, a confusão tomava conta de sua mente porque não queria mais vê-lo, não poderia perdoá-lo, jamais o faria. Ao mesmo tempo em que sabia que não tinha condições de perdoá-lo, a falta dele a consumia, ao ponto de Vicenta e Amanda sentirem que, se não faziam algo, a depressão poderia provocar um problema mais grave.

Depois de muita insistência, finalmente, conseguiram tirá-la de casa. Amanda a convenceu a ir até a escola pública de Teapa falar sobre uma das crianças da Plantanal, o pequeno Pablito, que apresentava muita dificuldade de aprendizado. Pensavam que poderiam executar algum trabalho conjunto para que o menino pudesse conseguir se desenvolver em seus estudos. Saindo da escola, Amanda foi até uma venda na esquina comprar um doce para o menino que voltaria à fazenda com as duas, deixando Cristina sozinha. Ela estava distraída na porta da escola observando algumas flores quando deu de cara com Hernán que entrava no local:

_ Cristina? O que você faz aqui? – surpreendeu-se ele.

_ Hernán!? – ela também surpreendeu-se ao se dar conta que ele usava roupas comuns, sem o colarinho romano no pescoço. – Eu vim resolver um assunto de uma criança da minha fazenda, mas... já estou voltando para casa. E você?

_ A diretora me convidou para dar uma palestra para as crianças. Apesar de estar trabalhando agora com a educação superior, você sabe, que elas são minha paixão. Não quero me afastar das crianças nunca. Há algo que perdemos se não mantemos o contato com a infância e... eu não quero perder.

_ Você não está usando o colarinho... – Cristina não se importou em perguntar.

_ Minha licença foi concedida! – ele disse com um sorriso. – Tenho 1 ano para resolver todas as minhas dúvidas e pensar e repensar minha vocação.

_ Você está me dizendo que... não é mais padre? – indagou Cristina.

_ De certa maneira... sim! Sou, praticamente, um homem livre!

***