Sombras do Abismo
6 O Peso da Decisão
O ar estava pesado naquela manhã. Nem o vento atravessava os corredores da fortaleza, nem o cheiro de ferro e pedra fresca parecia normal. Algo estava prestes a mudar. O mundo parecia respirar de maneira diferente, quase em alerta, e mesmo os cavaleiros mais experientes percebiam a tensão, embora ninguém falasse sobre isso. Apenas eu e Artorias sabíamos que aquela missão seria diferente. Que ele seria diferente.
A queda de Oolacile já não era apenas um rumor. Era uma ferida aberta no mundo.
As mensagens chegavam fragmentadas, trazidas por sobreviventes com os olhos vazios e a voz quebrada. Falavam de sombras que se moviam como criaturas vivas, de homens transformados em monstros, de uma escuridão que não respeitava muralhas nem fé. O Abismo não avançava como um exército infiltrava-se, corrompia, consumia. E todos sabiam o que isso significava, mesmo que ninguém ousasse dizê-lo em voz alta.
Eu sentia-o antes mesmo de ouvir as palavras. Sentia-o no silêncio pesado que se instalara na fortaleza, nos olhares evitados, no modo como Artorias permanecia junto às muralhas, observando o horizonte como se pudesse ver, ao longe, aquilo que nenhum outro ousava encarar. Ele ainda não tinha partido. Mas já não estava verdadeiramente ali.
O crepúsculo tingia o céu de tons cinzentos e dourados quando o encontrei, imóvel, de costas para mim. A capa movia-se levemente com o vento frio, e a silhueta dele parecia talhada na própria pedra da fortaleza. Havia algo de solene na sua postura, algo definitivo.
— Oolacile começou a deixar de responder — disse ele, sem se virar. — Todas as mensagens enviadas para lá deixaram de ter retorno.
A voz era calma. Demasiado calma. Aproximei-me devagar.
— Ainda há tempo — respondi, mesmo sabendo que era uma mentira frágil. — Outros cavaleiros… outros exércitos…
Ele abanou a cabeça.
— Os exércitos alimentam o Abismo. O medo fortalece-o. A corrupção espalha-se mais depressa onde há muitos.
O silêncio caiu entre nós como uma sentença.
— Hum… Estou a ver. Então… já decidiste… — murmurei.
Artorias virou-se finalmente. Os seus olhos encontraram os meus, e neles vi aquilo que mais temia: não dúvida, não hesitação, mas aceitação. A aceitação de alguém que já atravessara o campo de batalha dentro de si.
— Ainda não anunciei — disse. — Mas sim. A decisão está tomada.
Senti o peito apertar-se. Eu sabia o que ele queria dizer. Precisava proteger Oolacile, precisava enfrentar o Abismo, precisava carregar esse fardo sozinho. Ainda assim, o silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante. Porque, no fundo, eu queria acompanhá-lo. Queria atravessar a névoa com ele, sentir a sua lâmina ao meu lado, o calor do seu corpo próximo, o mundo reduzido àquele espaço partilhado. Mas não podia. Não era apenas uma questão de dever; era uma questão de sobrevivência, de estratégia, de impossibilidade.
— Gwyn sabe?
— Saberá esta noite.
— E os outros cavaleiros?
— Alguns tentarão dissuadir-me. Outros compreenderão. Mas nenhum deles me substituirá.
As palavras não eram arrogantes. Eram factuais. Artorias não falava como herói, mas como alguém que compreendia exactamente o que o Abismo exigia.
— E eu? — perguntei, antes que pudesse impedir-me.
Ele aproximou-se, ficando a poucos passos de mim.
— Tu sempre soubeste — disse, com suavidade. — Desde o primeiro momento.
Baixei o olhar, sentindo a verdade pesar como armadura molhada.
— Saber não é o mesmo que aceitar.
— Eu sei.
O vento soprou mais forte, trazendo consigo o cheiro distante de cinza e algo mais algo antigo, errado. O Abismo já tocava o mundo.
— Não partirei hoje — acrescentou ele. — Partirei ao amanhecer.
Ao amanhecer.
Essas palavras cortaram mais fundo do que qualquer lâmina.
Nos dias que antecederam a partida, mantive-me perto dele. Observava cada gesto, cada movimento, como quem tenta gravar memórias antes de um adeus silencioso. O treino continuava, mas havia algo diferente: uma urgência constante, um peso que antes não existia. Ele corrigia-me, ajustava a minha postura, observava o meu ritmo, mas os seus olhos desviavam-se frequentemente para o horizonte, como se procurasse algo que eu não podia oferecer. Ou talvez se preparasse, em silêncio, para o que viria.
Não houve palavras, mas o olhar dizia mais do que qualquer promessa poderia conter. Era um olhar que pedia compreensão e, ao mesmo tempo, se despedia. Um adeus que não precisava de ser pronunciado.
A noite que se aproximava ganhava um novo significado. Já não era apenas mais uma noite era a última antes do Abismo.
— Há coisas que preciso de fazer antes de partir — continuou Artorias. — Juramentos a reafirmar. Preparações. Silêncios a respeitar.
Hesitou por um instante, algo raro nele.
— E palavras… que talvez devam ser ditas.
O meu coração acelerou, mas não disse nada. Limitei-me a assentir.
Mais tarde, na sala do conselho, a decisão foi anunciada. Gwyn não discutiu. Os outros cavaleiros mantiveram-se em silêncio pesado. Ninguém ousou questionar aquilo que todos sabiam ser inevitável. O Abismo exigia um sacrifício à sua altura. E Artorias, o Caminhante do Abismo, avançaria para o encontro.
Quando a reunião terminou, não o procurei de imediato. Precisava de ar. Precisava de espaço para conter aquilo que ameaçava quebrar-me por dentro. Caminhei pelos corredores da fortaleza como um espectro, tocando paredes frias, memorizando cada detalhe como se fosse a última vez. Porque talvez fosse.
Antes da partida, o céu estava coberto por nuvens pesadas. O vento soprava através da fortaleza, uivando pelos corredores e pelas muralhas, como se o mundo chorasse antecipadamente. Permaneci em silêncio, observando-o treinar sozinho no pátio. Cada golpe, cada estocada, cada movimento estava carregado de intenção e de pesar. Eu sentia cada impacto como se fosse o meu próprio corpo a ser testado.
Aproximei-me sem ser notada e fiquei ali, em silêncio, apenas respirando junto dele. Havia uma tensão palpável no ar, uma mistura de expectativa e desespero. Ele não olhou para mim, mas senti a sua atenção de alguma forma. O mundo parecia desaparecer à nossa volta, restando apenas nós dois, o frio, o aço e a sombra do que estava prestes a acontecer.
Durante horas permanecemos assim. Ele treinava; eu observava. A escuridão avançava lentamente, cobrindo o chão do pátio, e percebi que cada segundo era precioso. Não havia necessidade de palavras. Havia apenas a compreensão silenciosa de que a vida, como a conhecíamos, estava prestes a mudar. Que Artorias atravessaria o Abismo e, possivelmente, não regressaria.
Foi nesse momento, que o vi com o lobo a atravessar o pátio.
Até então, Sif fora apenas uma presença distante uma mancha branca a mover-se entre as muralhas, um rumor de passos silenciosos que nunca se aproximavam em demasia. Sabia da sua existência, como todos sabiam, mas nunca o vira verdadeiramente ao lado de Artorias. Até hoje.
Artorias ajoelho-se. Não em posição de combate, nem em treino, mas num gesto raro, quase íntimo, que poucos teriam o privilégio de testemunhar. O grande lobo encontrava-se diante dele, imóvel, sereno, aceitando o toque com uma quietude que não era submissão, mas confiança absoluta. Artorias pousava-lhe a mão sobre a cabeça como quem reconhece algo que não precisa de ser explicado como quem toca numa verdade silenciosa.
Continuei a uma distância respeitosa.
Contudo Sif ergueu os olhos primeiro. O olhar claro fixou-se em mim por um breve instante atento, avaliador, mas desprovido de hostilidade. Havia ali uma inteligência antiga, uma consciência que compreendia mais do que deveria, como se aquele ser não pertencesse inteiramente ao mundo comum.
Artorias seguiu-lhe o olhar e viu-me. Não se levantou de imediato.
— Ele sente — disse apenas, como se déssemos continuidade a uma conversa antiga, que até agora nunca foi verbalizada. — Mesmo antes de eu decidir.
Aproximei-me deles em poucos passos. O lobo não se moveu. Limitou-se a permanecer, sólido, presente.
— Sente o quê? — perguntei, em voz baixa.
Artorias hesitou. Foi um instante breve, quase imperceptível, mas vi-o. Havia coisas que ele enfrentava com espada erguida e passo firme, e outras que exigiam um tipo diferente de coragem.
— Que nem todos os caminhos permitem regresso.
Sif inclinou ligeiramente a cabeça e pressionou o focinho contra o peito dele. O gesto foi simples, mas carregado de significado. Não era um pedido. Não era uma súplica. Era aceitação.
Nesse momento compreendi.
Sif não era apenas um companheiro de batalha. Não era apenas um guardião ou um aliado fiel. Era aquilo que Artorias ainda precisava de proteger quando tudo o resto estivesse perdido. A prova silenciosa de que nem toda a lealdade exige palavras, e nem todo o amor precisa de forma humana.
E talvez por isso, talvez precisamente por isso, percebi também que, quando chegasse o momento de escolher, Artorias nunca permitiria que o lobo o seguisse até ao fim.
Após o lobo recolher-se, onde a noite começou a pintar o céu, Artorias sentou-se para ajustar a armadura. Cada gesto era preciso, metódico, quase ritualístico. Observei em silêncio, percebendo que ele se preparava não apenas para uma missão, mas para uma despedida que ainda não tinha forma.
Sentei-me próximo dele e encostei a cabeça, por breves instantes, ao seu ombro. Ele não se moveu. Não disse nada. Mas senti o calor do seu corpo, o peso da sua presença, e um silêncio que falava mais alto do que qualquer promessa. Era um adeus contido, carregado de tudo o que não podíamos dizer: medo, amor, desejo, devoção.
— Amanhã atravessarás o Abismo — disse eu, finalmente.
— Sim.
— Volta… Por favor… — sussurrei, sem saber se ele me ouvia, mas sabendo que precisava de o dizer.
Ele ergueu o olhar. Houve reconhecimento. Talvez até um breve consolo, onde um breve silêncio ficou entre nós.
— E esta noite? — disse eu, finalmente, quebrando o silêncio.
— Esta noite… ainda sou apenas Artorias.
As palavras ficaram suspensas entre nós, carregadas de tudo o que ainda não fora dito. Senti o peso do tempo a fechar-se, como uma porta que não poderia ser reaberta.
— Então não a desperdices — respondi.
Houve algo no olhar dele surpresa, talvez alívio antes de assentir lentamente.
— Não o farei.
A noite caiu por completo sobre a fortaleza. E com ela, aproximava-se o momento que mudaria tudo.
O Abismo ainda não tinha sido atravessado. Mas já nos tinha marcado.
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