Sombras do Abismo

11 O Eco do Nome


O Abismo já não era apenas um lugar. Eu sentia-o como uma presença insistente, uma vontade que se estendia para além das fronteiras do mundo visível. Não tocava a minha carne, mas pressionava-me por dentro, contra o pensamento, contra a memória, como se tentasse arrancar algo que me pertencia. Sempre que fechava os olhos, a dor atravessava-me o peito de forma súbita, sem aviso, e eu sabia com uma certeza que não precisava de provas que algo definitivo estava a acontecer em Oolacile.

Desde que Artorias partira, o mundo tornara-se mais leve de uma forma errada. Não no sentido de alívio, mas de vazio. Os dias passavam sem peso, sem forma, como sombras mal desenhadas umas sobre as outras. As noites, essas, alongavam-se em vigílias silenciosas, em que o sono nunca chegava por completo. Mantinha-me desperta, não por dever, nem por disciplina, mas por necessidade. Como se, ao fechar os olhos, estivesse a abandonar algo que precisava de mim acordada.

Dizia a mim mesma que era apenas ansiedade. Que a ausência dele criara um espaço demasiado grande para o silêncio. Mas naquela noite, tudo mudou.

O ar estava pesado. Denso. Cada respiração parecia exigir esforço, como se o próprio mundo estivesse saturado de algo invisível. O silêncio não era apenas ausência de som era uma presença activa, opressiva, quase expectante. Foi então que compreendi.

Eu soube.

Não houve mensageiros. Não houve palavras. O conhecimento instalou-se em mim através daquele vínculo que nunca ousáramos nomear, mas que sempre existira. Um fio invisível, esticado ao limite, prestes a romper. Um nome atravessou o vazio dentro de mim, sussurrado sem som.

Artorias.

As minhas pernas cederam antes que pudesse impedir. Caí de joelhos, a mão fechada sobre o peito, como se pudesse conter ali algo que ameaçava escapar. Não via imagens claras, mas sentia fragmentos, sensações que não eram minhas e, ainda assim, doíam como se fossem.

Senti o peso da armadura sobre um corpo cansado. Um peso errado, deslocado. Senti a confusão entre o chão e o céu, como se o mundo tivesse perdido orientação. E senti o braço direito o dele silencioso, morto, quebrado. Soube, nesse instante, que ele se interpusera entre a morte e Sif.

Não precisei de ver para compreender. Houve um golpe que não lhe era destinado. Houve uma escolha feita sem hesitação. Um escudo erguido, um corpo oferecido. Senti a dor surda que se seguiu, mas mais do que isso, senti a aceitação. Artorias nunca questionara o preço das suas decisões.

Sif estivera ali. Sentia-o também. A presença fiel, desesperada, recusando compreender. E depois, o gesto.

Uma ordem directa. Definitiva. Vai.

Não ouvi a palavra, mas ela ecoou dentro de mim com uma clareza devastadora. Senti a resistência do lobo, o lamento profundo, a recusa instintiva perante a ideia de abandonar o seu companheiro. Mas senti também o momento em que ele recuou, quando compreendeu que ficar seria negar o sacrifício.

A última imagem que me alcançou foi a silhueta de Sif a desaparecer na névoa, levando consigo a prova de que aquela decisão tivera sentido. Depois disso, Artorias ficou sozinho.

A solidão que o envolveu não era apenas física. Era absoluta. Senti cada movimento pesado, cada golpe desferido sem técnica, sem elegância, apenas sustentado por vontade pura. O braço esquerdo segurava a espada com dificuldade, e cada gesto tornava-se mais lento, mais doloroso. O corpo começava a falhar, mas a mente recusava-se a ceder.

O Abismo falava-lhe. Não em palavras, mas em promessas. Descanso. Silêncio. Esquecimento. O fim da dor. O fim da luta. Senti essas promessas como um sussurro constante, uma pressão contra aquilo que ainda restava de humano nele.

Mas havia algo que resistia. Algo que o Abismo não conseguia apagar. O meu nome.

Ele não o pronunciava em voz alta, sentia a desconfiança que tinha da própria voz, da própria mente mas repetia-o dentro de si, como um ritual antigo. Cada vez que sentia a consciência a escorregar, trazia o nome para o centro do pensamento, agarrando-se a ele como quem se agarra a uma corda à beira do precipício.

Ciaran.

Senti o eco desse nome dentro de mim, fraco, distante, mas persistente. Foi nesse instante que o meu corpo já não aguentou. Inclinei-me para a frente, a respiração presa, e algo em mim quebrou silenciosamente.

Eu não sabia onde ele estava. Não sabia exactamente o que enfrentava. Mas senti, com uma clareza cruel, o momento em que Artorias deixou de lutar para vencer e passou a lutar apenas para resistir.

E isso partiu-me.

— Não te percas… — murmurei, com uma voz quase inexistente no espaço vazio à minha volta.

Não havia ninguém para ouvir. Mas precisava de dizê-lo. Precisava de acreditar que, de algum modo, as palavras podiam atravessar a distância impossível que nos separava.

O Abismo respondeu. Não com palavras, mas com um rugido distante, profundo, que ressoou dentro de mim como um aviso. Senti-o fechar-se mais sobre ele, apertar o cerco, testar os limites do que ainda restava.

Ainda assim, Artorias avançou.

Mesmo quando o corpo já não acompanhava a vontade. Mesmo quando cada golpe se tornava mais lento, cada defesa incompleta. Senti o sangue misturar-se com a sombra, até já não ser possível distinguir onde terminava um e começava o outro. Senti o momento em que ele próprio começou a perder essa fronteira.

Num último instante de lucidez, ajoelhou-se. Não por rendição. Por exaustão.

Senti esse instante como se o mundo tivesse recuado subitamente. Como se tudo estivesse a ser visto através de uma água escura, distante, distorcida. E, nesse espaço frágil, ele pensou em mim.

Não como guerreira. Não como sombra. Mas como na mulher que nunca lhe pedira nada, excepto que voltasse.

— Perdoa-me…

Não sei se a palavra chegou a existir no mundo físico. Mas dentro de mim, ela ecoou com uma nitidez insuportável.

O Abismo fechou-se sobre ele. Senti a escuridão tentar reclamá-lo por inteiro, apagar o nome, a memória, a vontade. Mas antes que isso acontecesse, Artorias fez a sua última escolha consciente.

Não caiu. Manteve-se de joelhos, a espada cravada no chão, recusando ceder. Mesmo derrotado, recusou-se a tornar-se apenas mais uma coisa rasteira da escuridão.

E nesse gesto final, algo atravessou o vazio entre nós. Um eco. Um nome. O meu nome.

Ciaran.

E eu soube que, mesmo perdido no Abismo, ele nunca deixara de ser quem escolheu ser.