Sombras do Abismo
8 O Caminho para o Abismo
O amanhecer chegou sem me pedir permissão.
Acordei antes do sol, como se o corpo soubesse que aquele dia não me pertencia. A fortaleza estava estranhamente silenciosa, e esse silêncio pesava mais do que qualquer alarme. Não houve trombetas, nem ordens ecoadas pelos corredores de pedra. Apenas a respiração lenta do mundo a fingir que tudo continuava igual.
Mas eu sabia que não.
Senti-o antes de o ver. Aquela ausência iminente, aquele vazio que se instala antes da perda. Quando saí para o pátio, o céu começava a clarear em tons pálidos, quase tímidos, como se a própria luz hesitasse em testemunhar o que estava prestes a acontecer.
Artorias preparava-se.
Observei-o à distância, encostada a uma das colunas, sem me anunciar. Não por medo, mas porque precisava daquele instante. Ele vestia a armadura com a mesma precisão de sempre, cada gesto controlado, quase solene. Não era apenas equipamento era um ritual. Um escudo contra tudo o que não podia ser travado com aço.
Conhecia cada movimento. Cada pausa. Cada ajuste.
E ainda assim, naquele dia, tudo parecia definitivo.
A espada foi presa às costas com firmeza, o escudo ajustado com cuidado redobrado. Vi-o fechar os olhos por um breve segundo, como se estivesse a gravar aquele momento dentro de si. Perguntei-me se também pensava em mim. Não por vaidade, mas porque aquela ligação silenciosa sempre existira, mesmo quando não era dita.
Quando ele saiu para o portão, Sif já aguardava.
O grande lobo estava sentado, imóvel, atento. A sua presença era tão sólida quanto a de Artorias, e talvez por isso a visão dos dois juntos me tenha apertado o peito. Havia algo de profundamente errado naquela imagem como se estivesse a observar o prelúdio de uma lenda que eu não queria que existisse.
Artorias ajoelhou-se diante de Sif. Não ouvi as palavras, mas conhecia-as. Conhecia o tom, o peso da decisão. Vi a mão dele pousar sobre a cabeça do lobo, vi Sif inclinar-se ligeiramente, aceitando o toque, aceitando o destino.
Não houve despedida para mim. E talvez tenha sido melhor assim.
Observei-os partir sem me mover. Não os segui, não os chamei. Sabia que, se desse um passo em frente, tudo em mim quebraria. E eu não podia permitir isso não naquele momento. Havia coisas que precisavam de permanecer intactas, nem que fosse apenas por aparência.
Mesmo depois de desaparecerem no caminho antigo que levava a Oolacile, permaneci ali. O ar parecia mais pesado, como se algo invisível tivesse atravessado o mundo com eles. Fechei os olhos e respirei fundo.
O Abismo ainda estava longe. Mas já o sentia.
Ao longo do dia, a sensação intensificou-se. Não era uma dor física, mas uma pressão constante na mente, um eco distante que sussurrava coisas que eu me recusava a ouvir. Tentava ocupar-me, manter a rotina, mas cada tarefa parecia vazia, inútil.
Numa dessas noites, subi até o ponto mais alto da fortaleza, onde a névoa parecia tocar o céu. Fechei os olhos, sentindo o vento frio contra o rosto, e imaginei que ele podia ouvir o meu coração bater à distância. Que podia sentir, mesmo sem ver, que eu estava ali, a esperar, a rezar, a sofrer e a amar. E naquela pequena esperança encontrei forças para continuar.
O vazio deixado pela sua ausência não era apenas físico. Era emocional, espiritual, como se cada parede, cada pedra e cada sombra refletissem a falta que ele fazia. Mas, no meio dessa dor, crescia algo mais forte: a certeza de que, se ele sobrevivesse, o nosso vínculo permaneceria inquebrável. Porque a força do nosso amor silencioso não dependia de palavras, proximidade ou tempo. Dependia apenas de nós, da consciência de que éramos parte do mesmo fio invisível que o destino havia tecido.
Sabia exactamente por onde caminhavam.
Imaginava o trilho estreito, as árvores retorcidas, as ruínas esquecidas pelo tempo. Sabia como o ar se tornaria mais denso a cada passo, como o mundo começaria a perder cor e definição. Artorias sentiria isso no corpo sempre sentira mais do que deixava transparecer.
Volta, sussurraria o Abismo. E ele avançaria.
E assim, entre noites longas e dias vazios, eu esperava. Esperava por Artorias, pelo homem que atravessava o Abismo, pelo guerreiro que carregava não apenas o mundo, mas também o meu coração consigo. Cada segundo de ausência era um teste, cada suspiro uma lembrança do que estava em jogo. E, no silêncio da minha vigília, compreendi que o meu papel não era apenas amar, mas também suportar a espera, e permanecer a sombra que ele jamais poderia perder.
Ele estava a lutar.
Contudo naquele dia o tempo deixou de importar quando senti a primeira ruptura. Um choque súbito, violento, que me fez levar a mão ao peito como se tivesse sido atingida. A dor não era minha e ainda assim, atravessou-me.
Consegui vê-lo na mente: a espada em movimento, o escudo a absorver impactos impossíveis, Sif ao seu lado, fiel, atento. Mas algo estava errado. Havia desordem. Brutalidade. Uma força que não obedecia às regras normais da batalha.
E então senti o momento exacto. O impacto. O estalar seco. A quebra.
Soltei um suspiro entrecortado, incapaz de o conter. O braço dominante. Soube-o sem precisar de confirmação. A dor dele misturou-se com a minha, e por um instante tive de me apoiar na parede para não cair.
Ele não gritou. Nunca gritaria.
Vi-o proteger Sif mesmo ferido, vi-o erguer o escudo como última barreira, ouvi a ordem não com os ouvidos, mas no fundo do peito.
Vai.
Senti a hesitação de Sif. A recusa. O conflito. E depois… a separação. Uma ausência súbita, cortante. O lobo afastava-se, e com ele partia a última testemunha viva do que Artorias estava prestes a enfrentar sozinho.
As lágrimas vieram então, silenciosas, teimosas. Artorias ficara só.
O Abismo aproximava-se como uma maré inevitável, e eu sentia-o rodeá-lo, pressioná-lo, infiltrar-se nos pensamentos. Mas também sentia a resistência. A determinação absoluta. Ele não lutava para vencer. Lutava para ganhar tempo. Para proteger o que ainda podia ser salvo.
E, talvez, para me poupar. Caí de joelhos.
Não sabia se voltaria. No fundo, sabia que não. Mas enquanto aquela ligação existisse, enquanto eu conseguisse sentir-lhe a presença, recusei-me a aceitar o fim. Havia uma certeza que se mantinha firme, apesar de tudo:
Ainda não era o fim. Mas o caminho até ele estava traçado.
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