Sombras do Abismo
1 A Mulher nas Sombras
Nunca fui feita para ser vista. Aprendi isso cedo, antes mesmo de empunhar as minhas primeiras lâminas. Nas sombras, encontrei segurança, na invisibilidade, sobrevivência. Enquanto os outros cavaleiros procuravam reconhecimento e glória, eu procurava apenas permanecer inteira. Cada passo em falso, cada gesto mal calculado, poderia significar a morte. Mas, ainda assim, havia algo nos espaços entre a luz e a escuridão que me atraía, algo que nunca ousara nomear até conhecê-lo.
Ele apareceu pela primeira vez sem aviso. Um vulto atravessando o pátio da fortaleza de Gwyn, firme, com o peso de algo que nenhum outro cavaleiro parecia carregar. Cada passo seu fazia o chão parecer mais pesado, como se carregasse não apenas o corpo, mas também o destino de todos à sua volta. Não precisava de palavras. A simples presença impunha ordem. Os outros cavaleiros falavam, riam, competiam, mas Artorias avançava com uma determinação silenciosa, como se cada movimento fosse calculado para impactar o mundo inteiro.
Observei-o em silêncio durante dias, escondida nas sombras de colunas e paredes. Não havia pressa nos meus movimentos, nada se move mais devagar do que o coração de alguém que observa aquilo que deseja e teme ao mesmo tempo. Ele percebeu-me apenas uma vez, de relance, quando estava a ajustar o escudo antes de uma patrulha. Os nossos olhos encontraram-se por um instante, suficiente para reconhecer que havia algo além da formalidade e do dever. Não houve surpresa, nem curiosidade maliciosa, apenas um entendimento silencioso. Era como se as nossas naturezas opostas se encaixassem, duas forças distintas que poderiam equilibrar-se, se não fosse o peso do mundo sobre elas.
Nos dias seguintes, comecei a notar pequenos detalhes: o modo como ele carregava a espada, com firmeza mas sem pressa, como o corpo se movia de forma que cada gesto parecia ensaiado para uma coreografia invisível; como os olhos, mesmo fixos à frente, estavam sempre atentos ao mundo à sua volta. Aprendi a ler esses sinais, porque sabia que, se alguma vez precisasse protegê-lo, seria através da compreensão silenciosa das suas acções.
Não falávamos. Palavras eram supérfluas quando o mundo já exigia tanto de nós. Mas havia momentos em que o silêncio entre nós dizia mais do que qualquer conversa poderia. Durante os treinos, ele avançava com a espada como se cada golpe pudesse mudar o mundo, e eu esquivava-me e ajustava as minhas lâminas, aprendendo a prever os seus movimentos. Não era apenas coordenação, era confiança, ou talvez algo mais próximo do que ouso chamar de afeto.
Numa noite, depois de uma missão que nos deixou cobertos de sangue e poeira, fiquei perto do fogo enquanto afiava as minhas lâminas. Artorias sentou-se a poucos metros, apoiando a espada sobre o joelho, respirando com cuidado. Não falou nada, e eu não esperava. O silêncio era uma ponte entre nós, sólida mas inquietante. Às vezes sentia os seus olhos sobre mim, apenas por um instante, mas quando olhava directamente para ele, desviava o olhar para as chamas, evitando admitir algo que nem eu queria nomear.
Aprendi a distinguir cada nuance dele: a tensão no corpo quando esperava o ataque inimigo, o modo como os músculos relaxavam brevemente após cada combate, o toque rápido da mão a ajustar a empunhadura da espada. Tudo isto era familiar, íntimo, e ainda assim inalcançável. Ele era visível, luminoso de uma maneira que o mundo precisava, eu era sombra, invisível e necessária apenas para preencher lacunas que ninguém mais via.
Havia um magnetismo silencioso entre nós, algo que crescia a cada missão e a cada batalha. Eu queria que ele soubesse, que sentisse, mas também sabia que ele não podia ou talvez não quisesse perceber. Ele tinha o seu dever, uma lealdade que não aceitava substitutos, nem por mim. E eu tinha a minha função, a minha sombra, o meu mundo restrito a permanecer ao lado dele sem pertencer-lhe.
Naquela noite, enquanto o vento soprava frio pelas torres da fortaleza, senti pela primeira vez algo mais do que afeição silenciosa. Foi um aperto no peito, uma consciência dolorosa de que desejava que ele ficasse, não apenas para cumprir o dever, mas para mim. Mas esse pensamento era perigoso. Perigoso porque ele não pertencia a ninguém, e perigoso porque, se sentisse algo parecido, poderia ser destruído pelo mundo antes de nós os dois.
Olhei para ele e, pela primeira vez, quase falei. Mas palavras não saíram. O que poderia dizer que não estivesse implícito no silêncio entre nós? O fogo tremeluziu sobre as nossas armaduras, lançando sombras longas. Ele ajustou a espada, respirou profundamente e, sem olhar para mim, deu um passo em direção à escuridão do corredor. Eu permaneci parada, sabendo que ele carregava consigo a certeza de que nada poderia detê-lo, nem mesmo eu.
E naquela noite, pela primeira vez, percebi a verdade que nunca seria dita: ele era o meu ponto fixo no mundo, e eu seria a sombra que o seguiria até onde fosse necessário. Não havia promessa, não havia amor declarado, apenas um fio invisível entre nós, frágil como a luz da lua sobre a pedra fria, mas tão resistente quanto qualquer lâmina que já empunhei.
Enquanto ele desaparecia entre as sombras do corredor, o meu coração apertou, mas a respiração manteve-se firme. Porque sabia que, na próxima missão, no próximo combate, encontrar-nos-íamos novamente. E, silenciosamente, isso era o suficiente para sobreviver à escuridão que sabíamos estar por vir.
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