Sombras da Vida
1 The Fallen Angel
Notas iniciais
Helena saíra completamente arrasada de sua casa. Ou pelo menos para a garota, não mais poderia considerar aquele lugar como sua casa, e sim como um campo de guerra, onde partes de seu interior estivesse completamente mutilado.
Andou alguns minutos pensativa sobre tudo aquilo, e novas lágrimas reapareceram em seus orbes, agora melancólicos. As últimas lembranças quea garota pudera guardar em seu cérebro,foram apenas ruins e agonizantes.
Chegou a uma pequena praça, e sentou-se em um banco qualquer. Fechou seus olhos e algumas gotas de suas lágrimas, começaram a molhar sua face. Mas não mais se importara sobre aquilo e quem visse tal cena.Ela apenas queria descansar,esfriar a cabeça enquanto ainda pudera.Tirou de sua pequena mochila um caderno de desenhos e um lápis com ponta fina,sem ao menos perceber começara a desenhar.Para Helena,seu consciente estava refletindo,enquanto seu inconsciente fazia tais movimentos que naquele momento pareciam praticamente involuntários.
-Está ficando um belo desenho. -Helena ouviu uma voz perto de seu ser, uma voz doce e feminina.
Assustou-se um pouco, e quando virou sua face, viu uma mulher já de idade encarando-a com um sorriso doce.Todavia esta não estava sentada no banco ao lado da garota,e sim ao lado do banco,repousada em uma cadeira de rodas,que aparentemente estara em um ótimo estado.
-Desculpe-me senhora, estava tão distraída que nem percebi que estava aqui. –Desculpou-se a garota já saindo de seus pensamentos, e soltando um leve sorriso envergonhado com tal situação. -Se quiser, posso sair daqui, e deixá-la em paz...
-E por que gostaria que uma bela garota, com uma boa presença saísse daqui?-Perguntou a mulher, ainda com seu sorriso estampado no rosto. -Muitas vezes, é muito bom conversar com pessoas diferentes, com pensamentos diferentes.
-É verdade... -Concordou Helena, sorrindo tristemente. -Porém até agora, as únicas pessoas que pude ter o desprazer de conhecer, sempre tiveram os mesmos pensamentos sobre meu ser, meus pensamentos...
E logo, as lágrimas retornaram a escorrer do rosto da garota, caindo sobre a folha de papel com algumas formas, manchando-a.O interior da garota estava completamente quebrado,para ela aquilo tudo ainda doera como se houvesse acabado de ouvir,acabado de receber um ataque tão impiedoso sobre a alma desta.
-Por que está chorando?Uma garota como você, ainda jovem e bonita, deveria estar conhecendo as coisas boas que a vida pode oferecer. -Disse a mulher, passando delicadamente uma de suas mãos no rosto da senhorita, secando algumas lágrimas.
-Ah, não consigo enxergar isso agora, minha vida está tão dolorosa, tão diferente de antes... -Disse Helena, suspirando pesadamente, ficando com uma expressão nostálgica.
-E o que está tão diferente para você, comparado aos seus tempos antigos?-Perguntou ela, repousando sua mão sobre seu colo,e secando as poucas lágrimas que há poucos minutos,havera limpado no rosto com o semblante melancólico de daquela triste garota.
-Muitas coisas... -Disse Helena, voltando a desenhar e prestando atenção na mulher ao seu lado. -De alguns anos para cá,tudo que penso parece se tornado tão contra a maioria das pessoas.Por exemplo,eu não quero simplesmente ser igual a todos,uma marionete da sociedade.E por isso,as pessoas em minha faculdade,em meu trabalho agora tem o desejo sedento de puxar o tapete para que eu caia mais o fundo do poço.E não é só quando estou tão exposta a sociedade.Posso perceber que estou doente,me considero já um ser insano.Na minha família,meus irmãos ainda não podem perceber isso,mas meu pai quer me internar em manicômio;minha mãe é mais gentil,e tenta ser carinhosa comigo,mas posso ver em seus olhos,que está cansada de cuidar de uma louca como eu...Já tentei me matar diversas vezes nestes últimos anos,mas só resultados falidos obtive.Não sei mais o que fazer,o que pensar.Amigos não tenho mais ao meu lado,todos me abandonaram há muito tempo.
-Estes seres, que diz que foram seus amigos — Começou a dizer a mulher, após ter escutado atentamente o relato da garota. -, não são e nunca foram seus amigo mesmo, foram apenas parasitas que usufruíram de seus talentos,e quando perceberam que você crescera,criara maturidade e personalidade própria,lhe abandonaram.E quanto ao seu trabalho,faculdade,não desvie seu objetivo principal que é estudar e trabalhar para os corvos que estão a sua volta.
Corvos?!-Exclamou a Helena um pouco assustada com tal expressão.
-Sim, corvos, animais horríveis que se alimentam de coisas mortas, e anunciam enterros. -Respondeu a mulher. -Eles querem fazer isso mesmo com você, lhe derrubar, a envenenar para que morras, e possam anunciar com arrogância: ”Conseguimos assassinar mais um obstáculo em nosso destino!”.Eles querem fazer isso próprio,se beber o veneno no cálice maldito,não haverá volta,e parece que a cada dia que se passa,você ingere mais um pouco do veneno,logo será tarde demais.
-Eu não sei o que fazer!-Disse Helena voltando a chorar copiosamente. -Estou confusa, só quero alguém que possa me dar uma ajuda correta, para uma louca como eu!Só quero que alguém que possa entender meu lado, meus pensamentos.
-Não chore, eu posso entender o seu lado, doce menina. -Respondeu a mulher. -Você apenas está com medo de tudo, está com medo de lutar na guerra e ter o receio de perder. Não deveria dizer tais coisas de seus familiares também. Eles apenas estão tentando lhe ajudar com esse problema que estala em sua mente. Você não está louca, apenas confusa com tudo isso. Digas-me, tem alguma solução em mente, para esse problema/;
-Sim, e por causa deste, é que me torturam mais e dizem que sou louca. -Disse Helena, olhando para árvore a sua frente. -Minha única solução é minha morte, pois com ela poderei me livrar de todos esse problemas, de toda essa dor que vive em mim.
-Olhe bem para o seu desenho. -Disse a mulher, apontado com seus enrugados dedos para a folha que já estava manchada por várias lágrimas de Helena.-Vejas o que desenhou.
Quando a garota vira-se para o desenho, assusta-se completamente, havera desenhado a árvore que servira como modelo que estava a sua frente totalmente diferente de como realmente é. Aos em vês de folhas vivas e verdes, desenhara galhos mortos e sem vida; o cenário também mudara uma triste noite de lua cheia,e ao lado da arvore,desenhara um caixão, que estava escrito “Helena”.Ela havera desenhado inconscientemente sem ao menos perceber.Helena deixou o lápis que segurava em sua mãos,se espatifar no chão coberto por grama verde daquela praça.
-Eu nem havia percebido que havia desenhado isso... -Disse ela, com as mãos trêmulas.-Me responda senhora,pensas agora que fiquei louca,e vai sair de perto de mim,não é?
-Como és ingênua, pequeno anjo. -Respondeu a mulher, rindo um pouco da situação. -Jamais diga isso a um ser que mal conhece, não teve a oportunidade de ver seu passado,suas derrotas,suas vitórias.Você não tem problema algum,o que para você é uma barreira,para mim,é apenas um problema de maturidade.Estou nesta cadeira de rodas há anos,sofri um grave acidente de carro,quando voltava de carro de uma viajem com meu antigo namorado.Fiquei entrevada muito tempo na cama,e quando pude sair de casa novamente foi uma alegria.Isso é um grande problema,que mesmo que pensasse que não tria solução,eu o resolvi,eu enfrentei meus medos.Mas o pior nem foi isso,é ser desprezada por todos,pois tenho uma deficiência,isso é um problema.Estava praticamente perto de me casar,mas meu namorado me largara,não queria carregar um”fardo”-No momento,a mulher fazera aspas com os dedos.-,e mesmo assim,mesmo eu pensando que tudo estava perdido,tentei pouco a pouco me recuperar.Agora,olhe para você,uma mulher bonita,cheia de vida,com braços e pernas muito bem utilizáveis,tenta morrer,só porque seres estúpidos não a compreendem?Não, não deve dar o braço a torcer. Você desenhou apenas como está pensando por dentro sua solução para tal problema, por isso, não é louca. E sabe o que você não enxerga?
-Não sei a mínima idéia, o que senhora?-Perguntou Helena, um pouco espantada com a história da mulher, que estara ao seu lado.
-Quem desdenha, quer comprar, meu anjo. -Respondeu ela sorrindo. -Estão com inveja de ti, só porque tem boas notas no curso que faz na faculdade,só porque trabalha honestamente em seu trabalho,estou errada?
-Bem, não tenho tanto talentos assim, e também dizem que sou inútil... -Dissea garota,lembrando-se das brutas palavras que foram ditas á ela.
-Pronto, vejas a inveja gritando da boca dos seres que vomitaram tais palavras horríveis. -Dissea senhora.-E seu desenho,está de uma forma artística muito belo,mas o que aconteceria se o deixasse com uma atmosfera viva?Não deves prever seu futuro,sem ao menos,organizar e viver seu presente.
-Entendo, mas mesmo assim, tudo o que me dizem, o que me falam dói tanto em mim, é como se um vazio,um buraco nascera em minha alma.-Respondeu Helena de cabeça baixa.-Queria apenas uma forma de me livrar desse buraco de minha alma,pois a cada vez que me derrubam mais para o fundo do poço,a dor grita neste buraco,parece que minha alma está sendo sugada por ele.E a morte,nesses últimos anos a minha morte,foi a única solução para me livrar deste buraco,Pois veja,se eu morrer,todo irão em meu funeral,depois de um tempo,se esquecerão de mim!E assim, minha alma estará descansando em seu mundo, e...
-E você daria a vitória facilmente à eles.-Concluiu a mulher sorrindo.-Meu doce,está vendo aquela gangorra,ali um pouco mais atrás da árvore que desenhaste?
Helena olhou para direção que ela apontara, e avistara uma gangorra normal, sem vida e simples. Não entendera tudo aquilo, mas preferiu permanecer em silêncio.
-Pois bem. -Começou a dizer novamente a mulher. -De um lado, ela está no alto, do outro ela está no baixo. Pois a vida de cada ser é assim, de um lado, você está no alto, mas no dia seguinte, podes muito bem estar no baixo. E não se preocupe querida, a vida é uma via de mão dupla. Enquanto precisa de que esses seres lhe deixem viver em paz, do outro eles estão dominando, mas daqui apouco,eles poderão precisar exclusivamente de sua ajuda,aí sim,eles darão valor a você,e então chegou a hora de devolver tudo o que fizeram em ti.E pensas que esses robôs da sociedade não têm problemas?Observe o lado alto da gangorra, há uma sombra sob ela. Pois são as nossas sombras da vida. Mas jamais esqueça que onda há sombra, há luz. E seus familiares, até eu teria enlouquecido, sabendo que uma filha se perdendo no mundo, dando muito valor no que dizem lá fora. Tente os compreender, que lhe compreenderão. E o mais importante de tudo, você verá que ao longo de sua vida, amigo verdadeiro, serão tão poucos, e na verdade nem passa de meia dúzia.E seus amigos mais importantes,são seu pai e sua mãe,pare de fazer besteiras,pois está os torturando por dentro.
-Torturando...?-Perguntou Helena, um pouco espantada com tal metáfora.
-Sim, está os torturando. -Disse a mulher. -Imagine para uma mãe,para um pai,ver que um pedaço destes está doente,está precisando de ajuda,e estes não conseguem encontrar as palavras certas,o modo certo de lidar com você.É enlouquecedor.Você é uma parte deles,saiu do óvulo de sua mãe,e tem muito de seu pai.E sendo uma parte,se estás doente,eles estarão também muito doentes.E observe,minha flor,em meio desses dias cinzentos,há alguém do seu lado,lhe observando,mas você está cega para tais coisas,graças aos efeitos que o veneno que a sociedade lhe dera,e você bebera.Agora,expulse-o para fora de si
Uma imensa onda de felicidade pela primeira vez em tantos anos de dor e solidão invadira a alma de Helena. Ela abraça fortemente a mulher que conhecera naquela tarde,que parecia como as outras,melancólicas,
-Obrigada, senhora, agora já tenho armas o suficiente para lutar contra minha dor,para compreender minha família,e o maior de tudo,terflechas para atirar nestes malditos corvos,obrigada mesmo,nem sei como realmente agradecer.
-A única forma que pode retribuir esse favor. -Disse a mulher sorrindo e correspondendo o abraço da garota. -É continuar vivendo com seus altos e baixos, com suas sombras e luminosidades, vivendo d a melhor forma possível. Isso já valerá, pois saberei que o conselho esta velha enferrujada, valera a pena em tantos anos.
-Sim, seguirei. E obrigada novamente. -Assim a garota se levantara do banco e limpara as poucas lágrimas que ainda estavam em sua face, que estava agora com um semblante menos depressivo do que antes.
Helena já havia descoberto que ganhara dos céus uma nova chance para viver, que fora trazida daquela simpática senhora cadeirante, que para ela, fora um anjo que a encontrou para ajudá-la...
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