Sombras da Eternidade
5 Sombras do Coração
O mundo já não era o mesmo desde aquela noite.
Lysandre sentia-o no corpo, na respiração, no modo como o silêncio parecia mais atento aos seus passos. Desde o momento em que Malthael a envolvera com as asas, algo se tinha quebrado ou talvez revelado. Não era apenas medo. Não era apenas desejo. Era a consciência clara de que o coração dela estava agora ligado a algo que não devia existir.
E, ainda assim, nunca se sentira tão viva.
Caminhava pela cidade ao amanhecer quando o sentiu novamente. Não sentiu frio. Não sentiu sombra. Mas sim presença.
— Estás a seguir-me? — murmurou, sem se virar.
— Estou a guardar-te — respondeu a voz, mais próxima do que devia.
Ela parou. O coração acelerou.
— Isso é diferente — disse.
— Eu sei — respondeu Malthael.
Ele surgiu ao seu lado, discreto, quase confundindo-se com a sombra de um edifício antigo. O mundo à volta parecia ignorá-lo, como se os olhos humanos recusassem reconhecer a sua existência.
— Não devias vir — disse Lysandre. — Se a Ordem te procura…
— A Ordem observa-me desde sempre — respondeu. — A diferença é que agora tenho algo a esconder.
Ela olhou para ele.
— Eu?
— O que sinto — corrigiu.
O silêncio entre ambos tornou-se denso.
— Malthael… — começou ela, mas hesitou. — O que foi aquilo ontem à noite?
Ele demorou a responder.
— Um erro — disse finalmente.
O peito dela apertou-se.
— Então porque voltaste?
Ele virou o rosto para ela. O vazio do elmo parecia mais profundo.
— Porque os erros também criam raízes — respondeu. — E estas… estão a crescer dentro de mim.
Ela engoliu em seco.
— Isso assusta-me — confessou.
— A mim também — disse ele. — Nunca tive um coração. Mas agora sinto algo que pulsa onde antes só havia dever.
Ela aproximou-se um pouco mais.
— Talvez sempre tivesses — disse suavemente. — Só nunca tiveste permissão para o ouvir.
Ele fechou os olhos.
— Se soubesses o que a Ordem faz aos que sentem… — murmurou.
— Então foge — disse ela. — Vem comigo.
Ele soltou uma gargalhada breve, amarga.
— Não há fuga para aquilo que sou.
— Há escolhas — insistiu ela.
Ele abriu os olhos.
— É isso que me destrói — disse. — Porque quero escolher-te.
O vento passou entre eles, carregado de murmúrios distantes. Malthael ficou tenso.
— Estão perto — disse. — Não fisicamente. Mas sentem a mudança.
— E o que acontece se descobrirem? — perguntou Lysandre.
— Serei chamado a julgamento — respondeu. — E tu… serás vista como corrupção.
Ela sentiu um arrepio.
— Então afasta-te — disse, com dificuldade. — Antes que seja tarde.
Ele aproximou-se, tão perto que ela sentiu a pressão da presença dele na alma.
— Não consigo — respondeu. — Cada vez que tento afastar-me, é como se algo me puxasse de volta a ti.
Ela respirou fundo.
— Então fica — disse. — Mas não me mintas.
Ele hesitou.
— Não posso prometer isso — respondeu. — Já comecei a mentir.
— Sobre mim?
— Sobre o que sinto — disse.
Ela levantou a mão e pousou-a no peito dele, onde deveria estar um coração.
— E isto? — perguntou. — Também é mentira?
O toque fez o mundo tremer. As sombras reagiram, ondulando, inquietas.
— Não — respondeu ele, quase num sussurro. — Isto é a verdade que me condena.
Lysandre retirou a mão lentamente.
— Não quero ser a tua perdição — disse.
— És a minha lembrança de que ainda posso escolher — respondeu.
O dia passou sem que se apercebessem. Caminharam juntos, em silêncio, partilhando uma proximidade que não precisava de palavras. Mas por trás de cada passo havia o peso do inevitável.
Quando a noite caiu, Malthael parou subitamente.
— Não posso ir mais longe — disse.
— Porquê? — perguntou ela.
— Porque se ficar esta noite… — a voz falhou — deixarei de fingir que isto é apenas tentação.
Ela sentiu lágrimas a arder nos olhos.
— E isso seria assim tão errado?
Ele ergueu a mão, hesitou, depois tocou-lhe no rosto não fisicamente, mas de uma forma que fez a alma dela estremecer.
— Para mim, não — respondeu. — Para o universo… talvez.
Ela encostou-se a ele, fechando os olhos.
— Então deixa o universo esperar. — sussurrou.
Por um instante, ele cedeu. As asas envolveram-na novamente, mais apertadas desta vez, como se quisessem protegê-la de tudo até dele próprio.
— Se a Ordem vier — disse ele — não poderei negar-te.
— Eu sei — respondeu ela.
— E se me obrigarem a escolher entre ti e o dever… — a voz tremeu.
Ela afastou-se um pouco, olhando-o com firmeza.
— Então escolhe o que te resta de humano — disse.
Ele ficou imóvel.
— Não sei se ainda tenho — murmurou.
— Tens, — respondeu ela. — está aqui. — pousou a mão no peito dele outra vez.
Nesse exacto momento, uma dor atravessou Malthael. Uma presença distante, autoritária, rasgou o véu do mundo.
— Malthael. Regressa. — ecoou a voz da Ordem.
Ele estremeceu.
— Chamam-me — disse.
— Vais? — perguntou Lysandre, a voz trémula.
Ele olhou para ela longamente.
— Tenho de ir. — respondeu. — Mas voltarei.
— Prometes? — perguntou.
— Não posso prometer o que talvez me tirem — disse. — Mas se ainda for eu… voltarei.
Ele afastou-se lentamente, dissolvendo-se nas sombras. Lysandre ficou sozinha.
Mas, pela primeira vez, não sentiu apenas perda. Sentiu amor.
E algures, entre mundos, Malthael caminhava para um julgamento que já sabia não poder vencer porque o seu coração, agora, tinha um nome.
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