Sombras No Espelho: Parte 2 - A Criança
21 Uma Vitória
Notas iniciais
Espero que gostem ^^
Boa leitura...
Uma força invisível e incrivelmente tremulante tomou conta da adaga rapidamente. E essa mesma força era tão poderosa que Natália a soltou abruptamente, tapando os olhos por conta do potente brilho. Porém, a adaga não caiu no chão, como era de esperar. Em vez disso, a arma permaneceu no mesmo lugar, sendo segurada por Júlia que logo abriu os olhos. Quando se deu conta do que acontecia, a Senhora Eterna largou a arma, fazendo o brilho e a vibração pararem.
― Pai, o que você fez? ― perguntou ela aterrada.
Poder apenas deu um meio-sorriso, afagou os cabelos da filha com imenso carinho e então ficou inerte. O Senhor Eterno mais poderoso da história havia morrido.
Júlia deixou uma lágrima insistente cair, rolando por seu rosto e indo cair na testa do pai, que segurava em seus braços com afeto. Ele podia ter sido um terrível tirano, soberbo e tudo mais, mas ainda seu pai. E, como tal, sempre foi protetor. Isso tudo por que a amava. E Júlia não conseguiu conter as lágrimas que vieram em seguida. Eram lágrimas de dor. Lágrimas que sempre estiveram guardadas. Lágrimas que diziam: eu sempre vou te amar, papai.
― Júlia? ― ouviu Rodrigo dizer atrás de si. ― Júlia, o que houve?
A Senhora Eterna virou-se para trás e se deparou com Rodrigo ainda sentado na calçada, alisando a nuca e com uma careta. Sem pensar duas vezes, ela se jogou em seus braços. O bruxo, surpreso e confuso, a abraçou e afagou seus cabelos docemente.
― Ele se matou pra nos salvar, Rodrigo ― disse Júlia entre soluços e mais lágrimas. ― Ele se matou para me ressuscitar e, consequentemente, te ressuscitar também. ― E começou a soluçar violentamente.
― Vai ficar tudo bem, ok? ― ele sussurrava enquanto seu olhar deslizava em direção à Poder, jazido sobre a calçada, morto.
Naquele exato momento, algo muito poderoso começou a se remexer dentro de Júlia. As Essências que seu pai roubara reunido aos seus próprios poderes começavam a se revirar dentro da Senhora Eterna. E, como ela mesma sabia, essa força não poderia ficar com ela para sempre. Seu corpo não aguentaria. Ela teria de passar isso à alguém mais poderoso.
Porém, logo em seguida, todos os Senhores Eternos se entreolharam, acenando com a cabeça, concordando em silêncio. Então todos eles ergueram as mãos para os céus, invocando seus poderes. Com estalidos secos de ossos, ruídos molhados de sangue e músculos, todos os bruxos, guardiões e dragões, que haviam morrido na batalha, começaram a se erguer do chão, ressuscitados.
― Obrigado, irmãos ― agradeceu Misericórdia com um sorriso amigável. ― Espero que esse ato sele entre nós a paz e uma nova aliança.
Os Senhores Eternos assentiram e então Sombra se pôs à frente de todos eles.
― Como você é a única da Trindade que ainda está de pé ― disse ela com seu sotaque francês. ― Gostaríamos de lhe pedir a sua benção, para permanecer e viver neste planeta novamente.
Misericórdia deu o sorriso mais puro que existe e então assentiu levemente.
― Vocês têm a minha benção ― disse ela ainda sorrindo. ― Sejam livres. Só espero que isso não traga problemas no futuro ao nosso povo.
Sombra acenou com a cabeça e então se virou para os outros Senhores Eternos.
― Vamos! ― gritou ela e os flashes de teletransporte começaram a aparecer.
Para qualquer mortal, aquilo pareceria muito com uma comitiva enorme, com tantos flashes. Misericórdia sorriu. Esperava que tudo desse certo dali para frente. E então desviou o olhar para Destino e Vida, que ainda permaneciam ali.
― Vai ficar tudo bem ― sussurrava Destino docemente ao ouvido de Vida.
A Senhora Eterna, por sua vez, trazia um semblantes triste e os olhos inchados, de tanto chorar. Amava demais o pai. Talvez mais do que qualquer outro ali presente.
Misericórdia, observando a cena, retirou a adaga do marido, depois de hesitar um pouco. Com isso, todo o corpo do Senhor Eterno se esvaiu em um pó dourado, que foi levado pelo vento como um leve tecido brilhante. Então ela limpou a lâmina no tecido de sua armadura e caminhou na direção de Destino e Vida.
― Mãe... ― sussurrou Vida tristemente, deixando mais lágrimas caírem.
― Eu sei, minha filha ― disse Misericórdia com um sorriso triste. ― Seu pai foi um grande tirano... Mas também foi um grande herói. ― E entregou a adaga de volta a Destino, que a guardou rapidamente.
Nesse meio tempo, Misericórdia tomou a filha nos braços. E então Vida notou que nunca havia se sentido tão bem antes. Era como tomar uma bebida gostosa e quente, reconfortante e deliciosa. Logo não sentia mais tristeza.
Júlia, ali perto, quando conseguiu parar de chorar, secou as lágrimas, encarou o bruxo e sussurrou:
― Eu te amo, Rodrigo.
― Eu também te amo, Júlia ― respondeu com um sorriso.
A Senhora Eterna sorriu envergonhada e então estreitou os olhos.
― Você sabia que eu posso ver os últimos pensamentos de uma pessoa assim que ela morre, não sabe? ― perguntou ela, fazendo Rodrigo arregalar os olhos e engolir em seco.
― Claro que sei... ― respondeu ele temeroso.
― Pois é ― disse ela um pouco incrédula. ― E os seus eram um pouco tristes, sabia? Eu vi que você se perguntava se eu te amava pelo que você era ou pelo que você se parecia.
O bruxo desviou o olhar.
― A resposta é que eu te amo do jeito que você é ― ela continuou. ― No começo era por que você se parecia com ele, sim. Mas depois... vi que você era completamente diferente dele. ― E fez uma pausa. ― E é exatamente por isso que eu te amo.
Rodrigo a encarou.
― Tem certeza? ― perguntou ele.
Júlia não disse nada, apenas se aproximou do bruxo e lhe deu um beijo demorado e simplesmente fabuloso. Os dois se entregaram à dança do amor. E ele cobriria todas as feridas. A ferida da perda, da morte e da dúvida.
― O que vamos fazer com todos esses dragões e bruxos? ― perguntou Terra encarando Misericórdia.
E, no fim, tudo estava entrando em harmonia. Tudo voltaria a ser como era antes da maldita profecia. Como era antes da criança.
E pensar agora, no fim da história, que tudo isso havia começado apenas por um portal. Um portal feito de Sombras no Espelho.
Fim do Livro 1
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