Sombras No Espelho: Parte 2 - A Criança
14 Uma Viagem Reveladora
Notas iniciais
Desculpem, mesmo, por minha enorme ausência aqui, pessoal. Mas, é o seguinte: minha vida deu um enorme reviravolta e eu tô somente curtindo o momento, entendem?
Mas enfim, aqui está o capítulo que, como sugere o título, tem uma revelação muito legal! *OOOOOOOOOOO*
Rodrigo fitou os olhos bicoloridos de Céu e assentiu orgulhosamente. O Senhor Eterno, também o fitando, sorriu com sua atitude e voltou o olhar para as portas duplas da sala. De repente, seu sorriso foi substituído por um rosto duro e intrigado. Logo em seguida, encarou Nuvem, que deu um sorrisinho infantil.
― Festa, aqui? ― perguntou Céu cruzando os braços desapontado. ― O que eu lhe disse sobre isso, filha? ― o tom agora era um tanto mais suave.
Nuvem colocou a mão na nuca, fingindo estar arrumando o cabelo, e sorriu envergonhadamente.
― Desculpe, pai ― ela respondeu de sobrancelhas franzidas de forma triste. ― Eu só queria me divertir um pouco.
Céu franziu os lábios e então estalou os dedos, fazendo-se ouvir um trovão ao longe.
― Mas vamos retomar, Rodrigo ― continuou o alto e imponente Senhor Eterno do céu, voltando a encarar o bruxo. ― Eu preciso que faça uma coisa para mim.
Rodrigo assentiu, mesmo que um tanto confuso e intrigado.
― E o que seria? ― perguntou ele quando notou o silêncio do Senhor Eterno.
― Preciso que vá atrás do mestiço sem mim ― disse Céu simplesmente, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. ― Preciso que localize e proteja a criança.
― Mas, e você? ― perguntou Rodrigo quase desesperado. ― Para onde vai?
Céu sorriu e olhou para o sol que brilhava acima deles.
― Irei resolver umas coisas pendentes ― disse ele ainda olhando para o sol e sorrindo de maneira sombria. Mas não tardou para que voltasse a encarar o mestiço. ― Então, pode fazer isso por mim?
― Mas por quê? ― perguntou o bruxo ainda confuso. ― Por que não podemos ir todos juntos? Há algo de errado nisso?
Céu endureceu o rosto, tomando uma expressão séria.
― Poder irá me seguir ― disse ele sombriamente. ― Ele acha que eu posso levá-lo até a criança. Por isso, seria muito melhor que vocês não estivessem comigo quando ele me alcançar. Se forem para o lado oposto ao meu, estarão seguros.
― Mas como podemos saber se estamos indo para o lado oposto ao seu? ― perguntou Morte se intrometendo, confusa. ― Nem sabemos onde a criança está! Ela parece ter um campo de invisibilidade que a esconde de nossos radares.
Céu a encarou e deu um meio-sorriso.
― É bem verdade que a criança está invisível aos radares dos Senhores Eternos ― disse Céu tranquilamente. Então voltou o olhar novamente para Rodrigo, apontando para suas mãos. ― Mas vocês têm algo que é muito melhor que esses radares.
Rodrigo franziu as sobrancelhas e então arregalou os olhos quando se lembrou de que ainda segurava a bússola. Céu, sorrindo, estendeu as mãos para o alto, quando um filete brilhante de luz solar se concentrou na bússola. Mas que rapidamente, Rodrigo estendeu o objeto para frente, deixando o raio de luz incidir direta e totalmente no ouro. Imediatamente, o objeto começou a sibilar e a brilhar com a intensidade de mil sóis, fazendo os outros Senhores Eternos taparem os olhos. Mas Rodrigo não conseguiu fechar os olhos. Ele viu perfeitamente as inscrições, que lhe mandaram sacudir a bússola, sumirem totalmente. Logo, a bússola se tornou um objeto dourado e totalmente liso. Foi quando Céu abaixou os braços e a luz solar se dissipou novamente.
― Agora estão prontos ― disse ele sorrindo.
Os outros Senhores Eternos abriram os olhos e encararam Rodrigo, com grande expectativa. O bruxo, por sua vez, segurou a borda do objeto e o abriu. Imediatamente, uma luz fortíssima emanou de lá. Uma luz branquíssima. Uma luz pura e relaxante. Uma luz que saía diretamente da coruja que lá estava entalhada. E agora o ponteiro, que antes rodopiava loucamente, apontava para oeste.
― Então, a coruja é mesmo o símbolo do mestiço? ― perguntou Rodrigo e então encarou Céu, só então notando que ele era o único Senhor Eterno que não havia tapado os olhos.
― Digamos que sim ― respondeu Céu com um sorriso orgulhoso.
Rodrigo então fechou o objeto e sorriu. Céu, voltando-se para o lado, encarou Nuvem e Trovão com ar imponente.
― Filhos ― disse ele. ―, quero que levem Rodrigo e os outros dois Senhores Eternos até a criança. E façam com que cheguem até ela em segurança. Podem fazer isso por mim?
― Claro, meu pai ― disse Trovão fazendo uma leve reverência.
Céu assentiu, com um meio-sorriso, e voltou a encarar Rodrigo novamente.
― Boa sorte em sua jornada, Rodrigo ― disse ele completando um sorriso sincero.
O bruxo assentiu, também sorrindo, e caminhou na direção dos outros Senhores Eternos. Num ato incomum e surpreendente, Trovão envolveu os ombros de Rodrigo com o braço, o puxando para si como se fossem velhos amigos. O bruxo, por sua vez, estreitos os olhos e o encarou, balançando a cabeça negativamente. Céu apenas sorriu e acenou com a cabeça. Era hora de partir. Então, num movimento rápido, Trovão puxou o bruxo para fora da sala de portas duplas, sendo seguido de perto pelos outros Senhores Eternos. Passaram então pela sala seguinte, que agora estava completamente vazia e limpa.
― Para onde foram todas aquelas pessoas? ― perguntou o bruxo intrigado, olhando em volta, lembrando-se da balada que acontecia minutos antes.
― Provavelmente voltaram para terra firme ― respondeu Trovão meio distraído. ― Papai sempre faz isso quando Nuvem faz uma festa: estala os dedos e todos acordam em suas camas, sem nem se lembrarem de que estiveram aqui.
Nuvem franziu os lábios tristemente e encarou Morte, que sorriu. Guerra observava a toda àquela cena e achava graça. Como uma Senhora Eterna, filha de um dos Elementais, podia ser tão frufru?
Não demoraram muito para finalmente chegarem à entrada da pirâmide. Agora, o cenário mudara totalmente. O sol acima brilhava num dourado quase ofuscante, refletindo nas fofas e alvas nuvens. Os pontinhos pretos, que antes eram escassos e longínquos, agora estavam em grandioso número, e um mais próximo que o outro. Rodrigo não resistiu e começou a descer a grande escadaria apressadamente. Logo, estava no último degrau, observando uma enorme e pomposa orca das nuvens, que exibia suas nadadeiras azul-metálicas.
― Vamos, Rodrigo? ― chamaram-no atrás de si.
Quando o bruxo voltou o olhar para trás, notou um grande e brilhante saveiro, que subia e descia, tocando o casco nas nuvens tão branquinhas. Na sua lateral, inscrições em azul-metálico e letra cursiva diziam: Regis Caelum. Mais que depressa, o bruxo subiu a bordo e se sentou próximo à Morte e Guerra. Trovão e Nuvem não estavam sentados na proa, mas em pé atrás do timão, que ficava ao centro. A lona que cobria a maior parte da embarcação era de um tom claro de azul. Quase tão claro quanto o céu límpido acima. Mas o bruxo não ligou muito para o barco em si. Estava mais interessado nas orcas que nadavam à volta deles. Os gigantescos animais eram tão brancos quanto as nuvens nas quais navegavam. Seu papo e a mancha enorme na lateral da cabeça eram igualmente azul-metálicas às nadadeiras. Mas aquelas não eram orcas normais. De sua cabeça, pendiam longos e brilhantes filamentos dourados.
― Está vendo aquelas antenas? ― perguntou Morte para o bruxo, que assentiu. ― São como faróis para elas à noite. Elas simplesmente as acendem e caçam.
― Caçam? ― perguntou o bruxo confuso. ― Caçam o que?
― Vários seres das nuvens ― respondeu Morte. ― Mas as focas são suas prediletas.
Rodrigo franziu as sobrancelhas.
― Como sabe de tudo isso? ― perguntou ele.
A Senhora Eterna apenas deu de ombros e sorriu.
― Rodrigo, pode nos guiar aqui? ― chamou Nuvem atrás do timão.
O bruxo assentiu e lançou um último olhar confuso para Morte, antes de se levantar e ir até o timão. Trovão, assim que Rodrigo se aproximou, fez um gesto de desdém.
― Pode tomar o comando? ― perguntou ele para Nuvem, que deu de ombros.
E então o Senhor Eterno se afastou, deixando Nuvem no timão e Rodrigo a encarar a cena descrente.
― Por que ele me odeia, hein? ― perguntou Rodrigo ofendido.
Nuvem franziu os lábios tristemente.
― Longa história ― disse ela o encarando quase com pena.
O bruxo franziu as sobrancelhas.
― Então há um motivo... ― disse o bruxo quase num sussurro. ― Eu gostaria de saber qual é ele. Você pode me dizer?
Nuvem deu de ombros novamente.
― Até posso ― disse ela. ― Mas antes, preciso saber para onde tenho que levar o barco. Pode conferir para mim na sua bússola?
O bruxo assentiu e abriu o objeto, o analisando rapidamente. Em seguida, o fechou novamente e apontou o devido local para onde deviam seguir. Nuvem girou o timão para o local indicado e deu um risinho.
― Então... ― Rodrigo puxou assunto, se aproximando de Nuvem. ― Vai me dizer agora por que seu irmão me odeia?
A Senhora Eterna, sem tirar os olhos do timão, respirou fundo.
― A história é bem longa, portanto eu sugiro que esteja pronto para ouvir qualquer coisa ― avisou Nuvem num tom sombrio. Rodrigo assentiu, sem despregar os olhos da Senhora Eterna. ― Pois bem. Tudo começou quando a sua namorada conheceu meu pai. Como filha do Poder, era meio que inevitável que isso acontecesse, mas enfim... Algo na linhagem de meu pai chamou atenção dela. Mais precisamente, meu irmão. ― Rodrigo encarou Trovão, que estava sentado entre Guerra e Morte conversando e rindo alto. ― Não, não era o Trovão. Era um irmão que já não está mais entre nós. ― E fez uma pausa. ― O nome dele era Vento. Sua namorada ficou logo perdidamente apaixonada por ele e por isso se aproximou de mim. Dá para ver como éramos amigas na época, não é? ― E sorriu. ― Mas algo terrível aconteceu e Vento foi morto. Você deve conhecer a história... ― Mas Rodrigo negou. ― Poder o matou, no dia que tomou o trono dos Elementais. ― O bruxo arregalou os olhos e engoliu em seco. ― Como eu e Trovão não estávamos na reunião, só ficamos sabendo por que os ventos se tornaram rebeldes aqui na Terra. Eles destruíram muitas coisas e mataram muitas pessoas. E continuam a fazer isso até hoje. Os humanos chamam de tornados, mas eu os chamo de luto.
― Eu entendi ― disse o bruxo. ― Mas, o que isso tudo tem a ver comigo?
Nuvem o encarou rapidamente.
― Sua namorada e meu irmão estavam noivos, mas não chegaram a se casar ― continuou ela. ― E era exatamente isso o que comemoravam naquele dia de reunião: o noivado entre a Morte e o Vento. ― E fez uma pausa para encarar o bruxo novamente. Rodrigo ainda estava confuso. O que tudo aquilo tinha a ver com ele? ― Rodrigo, você ainda não entendeu? ― O bruxo a encarou de sobrancelhas franzidas. ― Rodrigo, meu irmão era o seu sósia.
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