Notas iniciais
Espero que gostem ^^
― Quem era aquela outra sombra, pai? ― perguntou Vida se agarrando ao braço de Poder, evidentemente assustada.
― Eu não faço idéia, não consigo enxergar nada nessa miséria de portal ― disse Poder revirando os olhos para todos os lados, sem sucesso algum.
― Aposto que era um Senhor Eterno ― ouviu-se Destino dizer próximo a eles, sério.
Poder estreitou os olhos, curioso, e logo em seguida os fechou. Concentrou-se no local que estavam para ver se sentia alguma Essência Eterna. Mas logo teve de parar, pois ficou sem ar. O Senhor Eterno abriu a boca e ofegou fortemente.
― Pai, o que houve?! ― perguntou Vida desesperada o segurando antes que pudesse cair, com uma ajuda atrasada de Destino.
― Meu senhor está bem? ― perguntou Destino o apoiando sobre os ombros, ainda sem conseguir ver nada.
― Muito... ― balbuciou Poder ainda ofegante. ― Muito longo...
E então se ouviu o som. O mesmo som altíssimo de vidro sendo estilhaçado que Rodrigo ouviria mais tarde. E depois o mesmo vento quente e abafado, que desta vez castigou os cabelos de Vida. E então, a mesma luz longínqua. Esta os alcançou rapidamente. Logo perceberam do que aquilo se tratava. Vida franziu as sobrancelhas, encarando as imagens, mas logo desviou o olhar para o pai, que agora balbuciava coisas como: “rápido... me levem...” Destino encarava as imagens, reconhecendo algumas delas. Porém, outras lhe eram estranhas. Na verdade, a maioria lhe era estranha. Ele franziu as sobrancelhas ao notar um coliseu semidestruído. Seria aquele o mesmo coliseu onde ele assistia a guerreiros sendo devorados por leões? Ficou intrigado e quase deixou Poder cair.
― Rápido... ― balbuciou Poder novamente quando Destino o segurou com mais força.
E então, as imagens sumiram. Somente uma permaneceu em foco: uma grande cidade. Vida e Destino se entreolharam e assentiram. Começaram a arrastaram Poder para lá, quando uma sombra se enfiou na frente deles e pulou antes. Seria aquela a mesma sombra que pulara com eles no portal? Vida achava que sim, por isso estava tensa. Ela e Destino se entreolharam novamente. Vida lhe lançando um olhar apavorado. Destino franziu as sobrancelhas levemente.
― Vamos? ― perguntou ele a encorajando.
Vida, depois de lançar um longo olhar para aqueles olhos profundamente cinzentos, assentiu, ainda que meio hesitante. Assim, os dois começaram a arrastar Poder novamente para a imagem. No instante em que atravessaram, Poder retomou os sentidos e se pôs de pé, balançando a cabeça rapidamente. Depois encarou Vida e Destino de sobrancelhas franzidas. Os dois pareciam aterrorizados. Vida encarou Destino. Ele, por sua vez, engoliu em seco. Não ousaria perguntar o que havia acontecido lá no portal, por mais que estivesse curioso. Ainda tinha amor à própria vida. Poder, por sua vez, ajeitou a gravata preta e olhou em volta. Havia um edifício em construção bem afrente deles. Em redor, apenas uma rua longa, uma esquina próxima e uma calçada larga, onde algumas pessoas transitavam e conversavam. Porém Poder não ficou muito interessado nessas coisas. Encarava um grupo de peões que deitavam à sombra de um muro. A maioria deles dormia. O Senhor Eterno começou a caminhar na direção dos homens, sendo seguido por Destino e Vida.
― Mortais, exijo saber... ― disse ele para os homens e deu uma pausa para fazer uma pose imponente. ― Onde estou?
Os homens que estavam acordados apenas o encararam indiferentemente. Poder pigarreou, começando a se irritar.
― Não ouviram? ― perguntou ele novamente, num tom mais alto. ― Onde estou?
Alguns dos homens acordaram e começaram a reclamar:
― Pô mano, cala a boca aí!
― É, tem gente tentando dormir aqui!
― Vai gritar no ouvido da mãe!
Poder franziu as sobrancelhas, ultrajado.
― Mas que insolência é esta? ― perguntou Poder ainda mais alto, terminando de acordar os outros. ― Eu sou o Poder e vocês devem, imediatamente, se ajoelhar diante de mim!
Alguns dos homens caíram na gargalhada. Outros apenas trataram de debochar.
― Já chega! ― disse Poder e bateu com seu cetro com força no chão.
Imediatamente, todos os homens se levantaram, de olhos arregalados, e encararam Poder. Caminharam até o Senhor Eterno, tomaram uma postura ereta e depois se prostraram diante dele.
― Oh, nosso senhor, diga o que deseja ― disseram os homens em coro, despertando a atenção de algumas pessoas que passavam.
Destino deu um meio-sorriso e cruzou os braços, se deliciando com a cena. Vida, por sua vez, se sentia extremamente incomodada, mas nada disse.
― Eu já lhes disse o que desejo ― respondeu Poder com um sorriso sádico.
Houve uma pausa.
― Oh, nosso senhor, tu estás no Rio de Janeiro ― voltaram a dizer em coro.
Poder franziu as sobrancelhas e trocou olhares confusos com Destino. À volta deles, pessoas começavam a parar para olhar, pensando que aquilo se tratava de algum tipo de peça. Vida encarava essas pessoas agoniada.
― Precisamos ir embora ― sussurrou para si mesma balançando a cabeça.
Destino, que não a ouviu, deixou o sorriso sumir e encarou os homens ainda prostrados diante do Poder.
― E onde fica esse “Rio de janeiro”? ― perguntou Poder pronunciando o nome com uma voz fina.
― Oh, nosso senhor, Rio de Janeiro fica no Brasil ― responderam e deram uma pausa pequena. ― Que fica na América do Sul. Que fica no planeta Terra. Que fica na Via Láctea.
E então, todas as pessoas que antes estavam assistindo àquela cena, começaram a jogar moedas na direção dos Senhores Eternos. Algumas aplaudiam, outras assobiavam. Poder encarou-as confuso e com raiva por o atrapalharem.
― BASTA! ― ele gritou como um trovão.
Naquele momento, todas as pessoas ficaram paralisadas, completamente aterradas. Vida engoliu em seco e lançou um olhar para trás, onde a construção também se silenciara. Toda a atenção estava voltada para o Poder.
― Eu exijo saber agora mesmo onde é que eu me encontro! ― berrou novamente.
Ninguém respondeu. Estavam aterrados demais para isso. Então, Poder bateu fortemente com o cetro no chão, fazendo uma onda de fogo se espalhar pelo local, queimando todos os humanos ali presentes.
Vida colocou a mão sobre o peito e caiu ajoelhada, um pouco ofegante. Destino se agachou ao seu lado, a encarando.
― Vida, você está bem? ― perguntou ele preocupado.
A Senhora Eterna assentiu, encarando as massas cinzentas que antes eram humanos. Poder, assim que se acalmou, se aproximou da filha, se agachando ao seu lado também.
― Você está bem, querida? ― perguntou ele suavemente, tocando seu rosto.
Ela assentiu e o encarou, recuperando a respiração.
― Foi apenas o susto das mortes ― disse ela e deu um sorriso fraco.
Poder assentiu e ajudou a filha a se levantar. Depois revirou o olhar pelo local onde estavam. Para onde seguiriam agora?
― Sugiro, meu senhor, que sigamos pela esquerda ― sugeriu Destino despois de se levantar e colocar as mãos para trás.
Poder estreitou os olhos, parecendo avaliar se era o certo a fazer. Logo depois assentiu. Vida, por sua vez, lançava olhares para os dois, um tanto intrigada.
― Vamos pela esquerda ― disse ele por fim, gesticulando para que Vida tomasse a dianteira.
Vida o obedeceu e começou a caminhar, atravessando o caminho escuro, chamuscado, e pisando nas cinzas dos homens e mulheres que antes estavam ali. Ao fazer isso, Vida se perguntou o porquê delas estarem no lugar errado, na hora errada.
Destino deu o primeiro passo para segui-la, mas Poder segurou seu braço. Ele encarou seu senhor, que trazia uma expressão séria no rosto. O toque dava a Destino uma sensação terrivelmente incômoda.
― Vamos fazer um acordo ― disse Poder em voz baixa, para que Vida não escutasse. ― Não mataremos mais ninguém se não for extremamente necessário.
Destino, depois de engolir em seco, assentiu.
― Isso faz mal à Vida e eu não gosto de vê-la mal, entendeu?
Destino assentiu novamente. Poder o soltou e deu um meio-sorriso vitorioso.
― Vocês não vêm? ― perguntou Vida já na esquina.
Destino sorriu depois de encará-la. Poder fez o mesmo. Os dois a amavam, mas de jeitos diferentes. Então, eles caminharam até ela, ainda sorrindo. Logo os três estavam andando imponentemente pelo Centro do Rio de Janeiro.
Notas finais
Até a próxima ^^
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