Sombras No Espelho: Parte 2 - A Criança
19 Uma Tragédia
Notas iniciais
E então os dois exércitos colidiram.
Na primeira fileira de um lado: Poder, Vida, Destino, Sombra, Força e Habilidade. Na primeira fileira do outro: Terra, Céu, Água, Misericórdia, Morte e a criança.
Assim que se chocaram, Terra avançou com duas espadas douradas na direção de Sombra, que conjurou uma enorme Claymore, espada escocesa de dois gumes e com quase dois metros de comprimento. As duas batalharam com voracidade, tilintando as espadas. Porém, Terra tinha uma maior desenvoltura e conseguia manejar muito bem as duas espadas. Céu, por sua vez, avançou com um machado prateado de dois gumes na direção de Destino, que conjurou seu cajado, mas um pouco tarde, recebendo um belo chute no abdômen. Água, tomada por toda a sua fúria e poder, avançou na direção de Poder, que nem esperava por aquilo, recebendo espinhos gelados por todo o corpo. A ação da Senhora Eterna resultou em partes queimadas no corpo do Senhor Eterno e ainda um terno em frangalhos.
― Meu terno! ― gritou Poder furioso, desviando o olhar para Água.
― Esperei tempo demais para ter a minha vingança ― disse Água esticando a mão para o lado e retirando do ar uma enorme clava de gelo. ― Vem pra cima, Originário!
Poder gritou furiosamente e avançou na direção da Senhora Eterna, que o acertou com a clava bem em baixo do queixo. O resultado foi um Poder voando metros para trás, caindo sobre um poste.
― Essa vitória já é minha ― disse Água girando a clava talentosamente.
No meio da confusão, Misericórdia avançou na direção do Senhor Eterno da Força, que a acertou um soco no rosto, a fazendo pairar no ar por alguns metros. Mas isso não abateu a Senhora Eterna. Ela se levantou, secou o sangue da boca e avançou novamente, porém de forma mais prudente. Desta vez, ela conseguiu lhe acertar a espada no ombro, o fazendo sangrar. Com um sorriso debochado, Misericórdia avançou novamente, mas foi impedida pelos enormes braços de Força, que a seguraram e a lançaram pelo ar.
Próximo a eles, Morte avançava na direção da irmã: Vida. As duas conjuraram adagas, porém de cores diferentes. Preta e dourada para a morte e branca e prateada para a Vida.
― Quem diria, irmã ― disse Morte debochadamente. ― Você numa batalha. Achei que nunca veria isso. Principalmente do lado errado.
― Você é quem não vê que já perderam essa batalha, cara irmã ― respondeu Vida. ― A criança será morta e o seu sangue vai servir para mostrar o poder dos Senhores Eternos e das Leis. Já está tudo escrito.
E então Morte avançou na direção da irmã gritando um:
― MENTIROSA!
As duas adagas tilintaram e logo as duas se viram numa dança mortal.
Natália, sendo quem era, avançou no meio do exército inimigo, erguendo os braços para os céus, fazendo explosões brotarem do chão com a maior facilidade. E ainda achava aquilo tudo muito divertido, como um sonho que se tornava realidade.
Rodrigo, montado em Bruno, lançava magias de fogo por todo o exército inimigo, os consumindo com puro fogo ardente.
― Ali Bruno, lance uma rajada de estrelas ― disse o bruxo apontando para um amontoado de Senhores Eternos inimigos.
Como resposta, Bruno abriu bem a boca, de onde saiu uma forte luz branca que acertou os Senhores Eternos e os explodiu.
― Isso aí, rapaz! ― disse Rodrigo empolgado.
Bruno deu uma espécie de sorriso reptiliano e continuou a avançar pelo meio do exército inimigo os golpeando com as patas e a cauda.
Roberto, já quase na metade do exército inimigo, lutava juntamente com as três guardiãs contra o Senhor Eterno da Psicologia.
― Vocês me são muito interessantes ― disse o Senhor Eterno depois de desviar do chicote em chamas de Victória. ― Estão juntos há quanto tempo? ― perguntou se referindo a Roberto e Juliana.
Os dois se entreolharam rapidamente.
― Eu entendo a mente humana e os seus sinais visíveis ― explicou o Senhor Eterno. ― E está óbvio que estão juntos. O guardião está sempre tentando te proteger. ― Disse encarando Juliana e dando um sorriso malicioso. ― Mas ainda não me respondeu.
― Não interessa ― respondeu Juliana e o atacou com sua arma prateada.
Porém o Senhor Eterno foi mais rápido, se desviando e acertando as costas da mão no pulso da guardiã, fazendo o objeto cair sobre o asfalto com um ruído metálico.
― Opa ― ele fingiu ter sido um acidente, dando de ombros e colocando no rosto um sorriso malicioso ainda maior.
Roberto reagiu rapidamente, acertando-lhe um soco bem na cara.
― Isso não foi nada gentil ― retrucou o Senhor Eterno alisando a bochecha.
― Isso é uma guerra ― respondeu Roberto. ― Não é para ser gentil.
Então o Senhor Eterno sorriu, limpou o sangue da boca e encarou Juliana novamente, que estava completamente abismada por perder sua arma assim tão facilmente.
― E ela, tem sido sincera com você? ― perguntou ele apontando para Juliana.
A guardiã arregalou os olhos, com o coração aos pulos.
― Acho que não ― sussurrou Psicologia.
E, num movimento mais rápido do que Roberto conseguiria evitar, o Senhor Eterno esticou a mão na direção da guardiã e lhe puxou a pele toda para fora do corpo, revelando o que havia por baixo. Com isso, Roberto ficou boquiaberto. Nas mãos do Senhor Eterno estava uma pele clara e macia, mas por baixo, onde deveriam estar músculos e ossos, estavam placas metálicas, fluídos e fios. Juliana era uma guardiã andróide.
― Como assim? ― perguntou Roberto boquiaberto.
Juliana o encarou com seus olhos azuis.
― Eu ia te contar, mas tive medo ― explicou Juliana arrependida e assustada. ― Tive medo que deixasse de gostar de mim.
O guardião franziu as sobrancelhas, a encarando incrédulo. A guardiã já sabia o que vinha a seguir. Era sempre assim. A guardiã sempre saía com o coração partido. Eles nunca entendiam. Então ela abaixou a cabeça e esperou pelo óbvio.
― Acha mesmo que o meu amor é pelo que você se parece? ― perguntou o guardião, para surpresa das três guardiãs e do Senhor Eterno. ― Eu te amo pelo que você é, Juliana.
A guardiã ergueu o rosto, sorriu e limpou uma lágrima que insistiu em cair. Então os dois se abraçaram enquanto Laura e Victória terminavam com Psicologia.
No meio da multidão, Luan e Helena lutavam contra a Senhora Eterna da Confusão.
― Então, é só isso o que vocês têm a me oferecer? ― perguntou a Senhora Eterna depois de desviar de uma enorme esfera elétrica que explodiu atrás de si, derrubando vários dragões dos céus.
Os dois bruxos se entreolharam e então assentiram com um aceno de cabeça. Usariam uma antiga tática.
Helena avançou na direção da Senhora Eterna enquanto Luan lhe lançou uma rajada de fios brancos e elétricos. A Senhora Eterna, sem poder se desviar das duas coisas, parou o raio com uma das mãos e recebeu um possante chute no rosto, fazendo-a cair no chão pesadamente.
― Como nos velhos tempos ― disse Luan sorrindo orgulhosamente.
― Como nos velhos tempos ― concordou Helena o encarando e também sorrindo.
Aquela logo se tornou a maior guerra em que os Senhores Eternos, desde que eram deuses, tinham entrado e participado. Havia sangue para todos os lados, sem falar em partes mortais, provenientes de guardiões e bruxos de ambos os lados. Dragões, de diversas espécies, estavam estirados sobre o asfalto como cachorros atropelados, porém muito maiores. Já os Senhores Eternos permaneciam de pé, tilintando suas espadas, esfaqueando bruxos e guardiões, queimando e dilacerando dragões. Aquela era, sem sombra de dúvida, uma grande e sangrenta batalha.
Poder, no meio de todo aquele caos, olhava para todos os lados, à procura de Água, que insistia em lhe castigar com seus espinhos cortantes e que queimavam sua pele com tanta facilidade.
― Onde você está, covarde? ― perguntou Poder rodando no mesmo lugar, olhando para todas aquelas pessoas lutando entre si à sua volta.
― Bem aqui! ― Água surgiu do chão e lhe acertou com a clava na base do pescoço.
Poder caiu com a face no chão. Mas não ficou lá por muito tempo. Levantou-se num salto, encarando Água furiosamente.
― Agora você me paga! ― gritou ele e avançou, mas Água sumira tão rapidamente quanto aparecera.
Com um grito terrivelmente furioso, Poder avançou no meio da multidão abatendo dezenas do exército inimigo. Inclusive um guardião, o qual ele dividiu ao meio com as próprias mãos. Foi quando ele avistou Rodrigo, sobre o lombo de Bruno, sobrevoando a área e atingindo Senhores Eternos com fogo e raios. Com a cena, Poder foi tomado por uma enorme e incontrolável fúria. Fúria por aquele mestiço ter começado tudo aquilo. Fúria por aquele mestiço ser o motivo de todo o seu trabalho. Então ele avançou em sua direção.
― Chega! ― gritou ele novamente e acertou o dragão com um potente soco, fazendo uma forte onda invisível se espalhar por toda a batalha, lançando todos para trás, como um vento fortíssimo.
O bruxo caiu desacordado na calçada. Porém Poder, não satisfeito, caminhou lentamente em sua direção.
― Se não fosse por você, ser maldito, nada disso teria acontecido ― reclamou Poder pronunciando as palavras em destaque com nojo. ― E isso acaba aqui! ― E estendeu a mão para o alto, de onde agarrou um cetro, puxando-o do ar.
E, com um movimento mais rápido que um piscar de olhos, Poder bateu com seu cetro dourado no chão. Da boca escancarada da serpente que havia no cetro, uma fumaça dourada saiu, arrancando do mestiço toda a sua força vital, da qual se alimentou. Foi quando Júlia, notando o que acontecera, correu na direção do bruxo. Com medo da reação, Morte tocou no peito de Rodrigo, notando que seu coração estava completamente parado. O bruxo morrera.
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