Notas iniciais
Demorou, mas chegou! Espero que gostem... Tem muita revelação nesse capítulo!!! *--------------*

Natália, assim que fechou os olhos, pegou no sono. Logo estava se sentindo envolvida por uma energia poderosamente quente e de efeito calmante; além se sentir todo o seu cansaço se esvair como que pelo vento. Na verdade, por uma brisa suave que lhe roçava todo o corpo. Instintivamente, a menina começou a abrir os olhos lentamente. Assim que o fez, pôde ver, logo de início, um cenário completamente alvo e macio. Eram penas grandes e brancas a lhe roçar o rosto. E estas, ainda, tinham pequenas e maciças manchas pretas nas pontas, como se alguém as tivesse desenhado. De início, a menina não entendeu muito bem o que aquilo significava, mas logo ergueu a cabeça. Lá em cima, elevava-se uma cabeça grande e majestosa. Alva como o resto do corpo e com aquelas manchinhas pretas na testa. Os olhos, incrivelmente amar

elos e com pupilas incrivelmente negras, pareciam delineados por kohl, o que dava um contraste magnífico. Mais abaixo dos olhos, entre plumas brancas, um risco negro se apresentava como uma pequena adaga. A menina, que sempre foi apaixonada por animais, logo reconheceu que aquela se tratava de uma enorme coruja-das-neves.

― Saudações, Natália ― disse o enorme animal com uma voz profunda e agradável.

A menina, que já estava acostumada a sonhos desse tipo, apenas sorriu, sem tirar os olhos dos orbes amarelos hipnotizantes do animal. Logo, um silêncio profundo tomou conta do ambiente. Somente cortado quando a enorme coruja começou a derramar grandes e quentes lágrimas sobre a menina.

― Por que tá chorando, linda coruja? ― perguntou a menina docemente.

O animal fungou e deu uma espécie de sorriso aviário.

― É que você já está tão grande ― respondeu a linda coruja-das-neves.

A menina franziu as sobrancelhas levemente, confusa.

― Você me conhece? ― perguntou ela.

A coruja deixou outra lágrima cair.

― Não, não cheguei a te conhecer ― respondeu ela. ― Mas vi sua mãe grávida, sempre que podia.

A menina sorriu.

― Então é amigo da minha mãe? ― perguntou Natália inocentemente.

A coruja voltou a sorrir.

― Quase isso, querida ― respondeu ela. ― Eu estou mais para um ex-marido.

A menina franziu as sobrancelhas.

― Então, minha mãe já foi casada com uma coruja? ― perguntou ela, confusa. O animal não respondeu, somente desviou o olhar. ― Eu te acho lindo, não teria nenhum problema se dissesse que sim.

A coruja deixou outra lágrima cair.

― É que eu não sou bem uma coruja ― disse ele. ― Só me aproximei de você dessa forma porque sei que gosta de animais.

Natália sorriu.

― Então, me mostra sua verdadeira forma? ― pediu a menina.

A coruja assentiu, deixando mais lágrimas caírem antes de começar a diminuir de tamanho e mudar de forma. Agora era um homem alto e que tinha uma linda pele morena. Tinha o peito e o abdômen trabalhados à mostra. Os cabelos eram negros e ondulados, indo até os ombros. Os olhos eram dois orbes cor de mel profundamente hipnotizantes, iguais ao da coruja. Usava pulseiras de ouro puro com algumas rubis vermelhíssimas. O cinto também era dourado e a fivela, em forma de estrela, também vermelha. Usava uma longa toga alva como a neve e véus que esvoaçavam à sua volta na mesma cor. Mas o que mais chamou a atenção da menina estava nas costas do homem que a segurava no colo. As asas. Duas longíssimas asas de coruja-das-neves.

― Você ainda continua lindo ― disse a menina sorrindo e esticando a mão para tocar-lhe o rosto.

O homem sorriu e se deixou ser tocado por ela. Um toque macio e quente. O ato fez mais lágrimas rolarem de seus olhos, mas estas foram logo secas pela menina em seus braços.

― Por favor, não chora ― pediu a menina sinceramente.

O homem assentiu e lhe depositou um beijo no meio da testa e outro na ponta do nariz, o que fez Natália sorrir.

― Se eu puder saber... ― começou a dizer a menina. ― Eu gostaria de saber por que você tá chorando tanto.

O homem fungou novamente e encarou a menina nos olhos, de forma doce.

― É que eu estou muito feliz em te ver ― disse ele sorrindo. ― E também queria que você soubesse uma coisa.

― O que? ― perguntou Natália curiosa, como sempre.

O homem, ainda a encarando, sorriu novamente.

― Natália... ― disse ele. ― Minha linda menininha... Eu sou seu pai.

Perto dali:

Céu, assim que viu os Senhores Eternos e o mestiço se afastarem do palácio na embarcação, tratou de voltar o olhar novamente para o sol. O sol. Ah, o sol... Seu guardião diurno... Seu olho esquerdo! Com um sorriso e um estalar de dedos, já não estava mais em seu palácio, mas em pé, escorado num peitoril, olhando para um mar calmo e uma ponte grandiosa ao longe. A poluição das águas espalhava pelo ar um odor terrivelmente salgado e malcheiroso. Mas ele não estava ali para analisar essas coisas. Olhou rapidamente em volta, quando notou que a maioria das pessoas do local o encarava. Provavelmente nunca tinham visto alguém tão alto quanto ele. O Senhor Eterno sorriu e aguardou o sinal. Podia sentir e saber onde o Poder estava. E sabia muito bem que ele e os outros dois começavam a se movimentar em sua direção. Então voltou o olhar novamente para o mar. Estreitando os olhos pôde notar que a barca já se aproximava e não demoraria muito para chegar ali.

― Perfeito ― sussurrou ele para si.

Seu plano daria mais do que certo. A barca só precisaria chegar antes do Poder e dos outros dois. E foi exatamente o que aconteceu. Assim que a barca chegou e começou a ancorar, fazendo aqueles altíssimos sons quando se arrastava aos grandes pneus presentes no porto, os passageiros começaram a desembarcar. Logo, as pessoas que antes o rodeavam começaram a se encaminhar para a balsa flutuante, onde seguiriam para dentro da barca. Quando isso aconteceu, Céu se acomodou numa das desconfortáveis cadeiras e ficou a olhar para fora, enquanto a barca lançava no ar uma escura nuvem que tinha cheiro de borracha queimada. E então algo estalou em sua mente. Podia senti-lo. Estava bem mais perto agora. Talvez já até estivesse na barca. O Senhor Eterno olhou em volta para confirmar. Mas não havia nenhum sinal deles por ali. E então a barca começou a se movimentar, virando-se em direção à enorme ponte que se erguia sobre as poluídas águas.

― Tudo conforme o planejado ― sussurrou Céu para si mesmo.

E olhou em volta novamente. Não via Poder ou os outros dois Senhores Eternos, mas podia senti-los ainda com mais intensidade agora. Eles, com toda a certeza, estavam naquela barca. Céu então se levantou e caminhou até a pequena sacada traseira da embarcação. De lá, conseguia ver todo o Rio do Janeiro. Todos os prédios do Centro. Todo o porto. O Pão de Açúcar e seu teleférico. Até mesmo o Cristo Redentor, se erguendo sobre o morro do corcovado com toda a sua imponência. Era uma visão realmente magnífica. A baía de Guanabara era realmente magnífica.

Quase uma hora depois, Céu pôde notar que se aproximava de seu destino: a grande ponte que ligava duas pontas da baía, mais conhecida como Ponte Rio-Niterói. Com um sorriso, ele olhou novamente para a água. Ela estava ali em algum lugar. Em algum lugar no meio daquelas águas. Ele só precisava chamá-la.

Com um sorriso maior ainda, ele olhou pela lateral da barca, notando que só faltavam mais alguns segundos para chegar onde queria. E então ele soube que já era a hora de começar. Pigarreou para limpar a garganta e encarou as águas com seriedade.

― Irmã, irmã ― começou a dizer ele num tom de voz suave e afável. ― Eu vim até aqui porque sei que você sempre amou esse lugar. Você sempre me disse isso. ― E fez uma pausa para sorrir. ― “A baía é linda, irmão. Você deveria conhecê-la”, você sempre dizia. ― E fez outra pausa. ― Então, aqui estou eu. ― E franziu as sobrancelhas. ― Bem, não é tudo o que eu tinha imaginado. Digamos que está um tanto poluída. Mas você sempre foi meio diferente no quesito de gostos, fazer o que. ― E deu um risinho, tomando o rosto sério novamente logo em seguida. ― Mas não é sobre isso que eu vim falar com você. Eu vim até aqui porque uma guerra está para começar e eu preciso que você desperte e luto conosco... ― Outra pausa. ― Eu vim até aqui para lhe mandar despertar! ― E então a sombra da ponte cobriu a barca parcialmente.

Como se tivesse sido açoitada por um forte vento, toda a baía se movimentou, inclusive a barca, que jogou para um dos lados violentamente, quase derrubando Céu. O Senhor Eterno, deslumbrado, logo se recompôs e encarou as águas, de onde começavam a subir espécies de bolhas multicoloridas. Estas subiam até alcançar uns três metros e voltavam a mergulhar na água. Porém, isso não durou muito tempo, pois em uma daquelas bolhas estava ela, encolhida em posição fetal. Exatamente como ele se lembrava. A pele quase translúcida de tão clara e brilhante. Os cabelos, presos de um dos lados por pequenas estrelas do mar, eram longos, negros e ondulados nas pontas. Em suas têmporas, pérolas azuis e verdes estavam espalhadas, como desenhos bioluminescentes. Os lábios eram carnudos e um tanto ressecados, como se o sal do mar os tivesse afetado. O nariz era fino e pequeno, dando uma beleza a mais ao rosto. As sobrancelhas, finas e arqueadas estavam quase franzidas. Usava conchas azul-escuras sobre os seios, os tapando quase completamente. O colo, como sempre, estava nu. Pérolas translúcidas pendiam das conchas azuis como pequenos cordões de algas um tanto perras. Ainda preso às conchas, véus longos e brancos corriam-lhe até as mãos, onde estavam presos. Usava ainda uma longa saia, com aberturas nas laterais. Esta tinha nuances que variavam entre o verde e o azul, coberta por pequenas e brilhantes pérolas. Nos pés, uma espécie de sandália de pérolas. E nas mãos, luvas feitas do mesmo material. Os olhos, fechados, deixavam à mostra os longos e belos cílios.

― Água ― sussurrou Céu com os olhos cheios de emoção.

Então a bolha estourou. Mais que rapidamente, uma coluna de água se ergueu, para tomar o corpo de sua dona. Porém, assim que seus pés tocaram a água seus cabelos se eriçaram e ficaram erguidos como longos e fortes braços de um polvo em movimento. Com um arquejo, ela voltou à vida, abrindo os olhos de repente, revelando dois orbes perolados e ferozes. As perolas em sua têmpora começaram a brilhar ainda mais, com uma biolumenescência que deixaria qualquer biólogo de queixo caído. Então ela começou a andar na direção da barca. Cada passo erguendo uma coluna de água para que ela pudesse passar. E, sem que Céu percebesse, logo toda a baía tinha as águas mais cristalinas e puras que já havia visto.

Como se outro vento forte a tivesse açoitado, toda a baía se movimentou novamente. Porém, desta vez, Céu se manteve estável, conseguindo ver perfeitamente o momento em que se erguiam da baía centenas de navios. Alguns traziam flâmulas de Portugal. Outros da Alemanha. E também, naquele exato momento, peixes dos mais diversos começavam a pular excitados. E quanto mais Água se aproximava da barca, mais ondas se formavam na baía, puxando várias coisas para dentro do mar. E então, ela chegou até a embarcação, indo diretamente até Céu, que a tomou nos braços. Porém, assim que seus pés se soltaram das águas, tudo se acalmou. Seus cabelos voltaram a repousar sobre os ombros, a água voltou a ficar poluída, os navios voltaram a afundar e as ondas se desmancharam.

― Bem-vinda de volta, irmã ― sussurrou Céu a abraçando com afeto.

Água, voltando a si e se dando conta do que acabara de acontecer, começou a derramar lágrimas de tristeza e de dor, pois sua linda baía estava tristemente poluída.

― O que aconteceu aqui, irmão? ― perguntou ela entre soluços.

Céu encarou os olhos azuis da irmã com compaixão.

― Os humanos fizeram isso ― disse ele delicadamente. ― Enquanto você esteve ausente, tudo mudou, minha irmã.

Ela voltou a derramar mais lágrimas.

― E isso é tudo culpa do maldito Originário ― disse ela com ódio.

― Sim, eu sei ― disse Céu enquanto afagava os cabelos da irmã mais nova. ― Ele o jogou no mais fundo abismo de nós três. Eu ainda pude ver o que acontecia, assim como Terra também devia conseguir. Mas você não pôde ver nada, não é?

A irmã assentiu, derramando ainda mais lágrimas.

― É, eu sei ― e lhe depositou um beijo na cabeça. ― Você foi parar no reino abissal. Onde não dá para ver nada da superfície.

Água fungou e o encarou.

― Mas agora está tudo bem ― disse ele. ― Você pode ter sua vingança. O Poder está aqui, nesse exato momento. Deve estar no andar de baixo da barca.

Água, mais que rapidamente, fechou a cara e limpou as lágrimas, entrando no recinto.

― Onde você está, Poder? ― disse ela em voz alta, enquanto todos no local a encaravam. Era a mulher mais alta que já tinham visto.

A Senhora Eterna já ia começar a descer as escadas para o plano inferior, quando Céu a segurou pelo braço.

― Largue-me, irmão ― pediu ela vorazmente. ― Sabe que necessito fazer isso.

― Sim, eu sei ― respondeu ele gentilmente. ― Mas não aqui. E não agora. ― Água franziu as sobrancelhas, confusa. ― Ocorrerá uma guerra muito em breve, irmã. E é lá que terá sua oportunidade de vingança.

A Senhora Eterna pareceu pensar no assunto por alguns segundos, quando finalmente assentiu e o irmão a soltou.

― Como você passou esse tempo todo ausente, acho que precisa saber... ― disse Céu misteriosamente. ― O mestiço vive nessa dimensão.

― E o que estamos esperando para ir até ele? ― perguntou ela.

― Você aceitar ― respondeu ele.

Água deu um meio-sorriso e segurou a mão do irmão, o levando de volta até a sacada. De lá, ela ergueu a outra mão para as águas, de onde se levantou um luxuoso iate.

― Classe em primeiro lugar ― disse ela sorrindo.

― Você aprende rápido, hein ― disse Céu controlando os ventos e os alçando até a embarcação. ― Agora é com você, irmã. Leve-nos até a criança. E que a guerra comece!

Notas finais
E então, gostaram da quarta sombra? E da Água ressurgindo? Aguardo reviews e até a próxima ^^