― E como descobriu isso? ― ele perguntou ficando interessado de repente. ― Até onde sei, esse tipo de magia se perdeu junto com nossa terra natal há muitos anos. Seria impossível ter acesso a esse tipo de informação.
A Eterna à sua frente deu um meio sorriso com seus lábios proeminentes e vermelhos como tomates maduros.
― Não creio que isso venha ao caso, meu caro Persuasão ― ela respondeu com sua voz suave e sedutora. ― O que importa é que descobri de fato e tenho a plena certeza de que é uma informação confiável.
Persuasão cruzou os braços e estreitou os olhos. Não estava convencido disso. A Eterna sentada em seu trono de bronze puro era conhecida por ser calculista e dissimulada. Ele não seria enganado tão facilmente.
― E que prova você tem para me dar de que isso não é só um plano seu? ― ele foi direto.
Ela sorriu novamente. Desta vez havia um quê de mistério e maldade em sua feição. Na verdade, mistério era o que caracterizava muito bem a Eterna.
Em seu rosto havia somente seus lábios vermelhos e olhos que eram mais como duas pequenas estrelas que oscilavam seu brilho em várias cores. O cabelo era loiro e armado como o de uma cantora de R&B dos anos 90. A pele tinha um tom plástico e brilhante de areia, somente cortada pelas veias de cores chamativas. Presas a elas, agulhas drenavam seu sangue dourado pouco a pouco, o despejando em sacolas que eram retiradas, quando cheias, por pessoas que ele não conseguia ver os rostos. Usava um casaco de pele de panda vermelho que aparentava ser bem cara por cima de um vestido curto incrustado de diamantes. Ele pôde ver, de relance, que o pulso da Eterna era bem mais magro agora do que era quando se conheceram, o que o preocupou levemente.
― Eu não posso lhe provar ― ela respondeu, o fazendo desviar o olhar novamente para as estrelas que eram seus olhos. ― Terá que confiar em mim.
Persuasão deu um risinho de deboche, sem descruzar os braços.
― E o que é que eu ganho com isso?
― É bem simples, Persuasão ― ela começou a falar depois de se ajeitar em seu trono. ― Vê essas coisas em meus braços? ― e os ergueu como pôde sem arrancar as grossas agulhas. ― Eu doo todo o meu sangue para esses miseráveis. Eles sentem fome e sede de mim, e eu preciso alimentá-los de algum jeito, certo? ― e fez uma pausa até que Persuasão assentisse. ― Pois bem, o problema é que eu não quero mais saciá-los. O Senhor deles deve voltar e tomar o que é dele por direito. Eu não aguento mais viver assim. Desde que nossa terra se perdeu, nada foi como antes. Está na hora de reequilibrar as coisas, torná-las naturais novamente. ― E fez uma pausa. ― Quanto a você, poderá reencontrar àquela maldita da Vida. Não seria a realização de um sonho?
Persuasão, acostumado a convencer os outros, se viu contra a parede. Não era comum que alguém o induzisse daquele modo a fazer algo. Então ele sorriu.
― Eu aceito ajudar você ― ele disse. ― Mas Vida não me interessa.
A Eterna ficou preocupada imediatamente. Havia algo por trás do sorriso de Persuasão, e ela sabia disso. Ele não a ajudaria se não tivesse algum interesse escondido e saber disso a fazia ficar apreensiva.
― Ahn... Tudo bem, então ― ela disfarçou seu temor. ― Me avise quando chegar a hora de invocar o Senhor. Quero vê-lo com meus próprios olhos.
― Pode deixar comigo ― ele respondeu sem tirar o sorriso do rosto. ― Em breve estará na presença dele.
Ela engoliu em seco e forçou um sorriso.
― Vá, meu amigo ― ela disse. ― E que a Criação esteja com você.
― Muito obrigado, Fama. Senhora dos desgraçados e mantenedora dos fracos de espírito e necessitados de atenção.
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