Sombras Do Passado
1 Prólogo
Lembro-me de tudo claramente aquela cena não saía de minha cabeça.Parecia ter sido ontem, mas, hoje fazem exatamente 9 anos desde aquele terrível dia.
Estava eu ali, de costas para aquele velho galpão abandonado, o cheiro de grama e orvalho estava no ar. Tudo havia mudado, e a maior prova disso é que a árvore que havíamos plantado anos atrás, já tinha crescido muito, por pouco não era a maior árvore daquele bosque.
Olhei para aquela estátua, aquela menina, que a muito tempo eu não via. Tão real, tão colorida. Por um segundo me peguei pensando se eu não tinha visto ela se mexer. Examinei a estátua minuciosamente a procura de qualquer rachadura ou imperfeição, e como esperava, não achei nada. Tirei um pano de meu bolso e limpei ela toda, tirando toda poeira e sujeira que pude encontrar. Por fim tudo terminado.
Abri minha bolsa e dela tirei uma toalha, estendi ela no chão e me sentei. Fui tirando tudo de lá de dentro. Sanduíches, bolo, suco, chá. Por último tirei de dentro da mochila um vaso com algumas flores e coloquei no centro da toalha, e outro com algumas rosas pretas e azuis deixei próximo ao pé da estátua.
Peguei um prato e nele coloquei um pedaço de bolo e um sanduíche, e em outro prato fiz o mesmo. Servi em duas xícaras o chá e em dois copos o suco. Coloquei um dos pratos, uma xícara e um copo em minha frente, e o restante coloquei na frente da estátua. Fechei os olhos e mentalizei:
"Parabéns... Estou sentindo tua falta..."
Comi todo o bolo e todo o sanduíche, acompanhados pelo suco, e tomei o chá o fim da refeição como manda a tradição. Limpei minha boca com um guardanapo e me levantei. Recolhi tudo, deixando apenas aquele lanche ainda inteiro e o vaso de rosas.
Saí andando pela trilha, dei uma última olhada para trás. Tive a impressão de ter visto a estátua sorrindo. Uma lágrima escorreu pelas minha face. Aquilo me parecia tão surreal. Lembrei do dia, daquele terrível dia, no qual eu tinha visto ela pela ultima vez. Estava chorando, aquelas lagrimas salgadas escorriam pelos meus olhos, assim como escorreram pela face dela naquele dia... Ouvi uma voz, a mesma voz que a anos não ouvia e nunca mais pretendia ouvir:
"Não chore... Alegre-se..."
Continuei andando por aquela trilha de cascalhos, que agora estava toda coberta de musgo e terra devido ao desuso. Agora era quase invisível, se eu não conhecesse aquela trilha tão bem, me perderia facilmente...
Chegando ao fim da trilha, já em uma rua um pouco movimentada, virei à direita, e fui andando pelas seis quadras que levavam à minha casa, já estava bem escuro, e as únicas fontes de luz eram os postes. Antes de virar na rua da minha casa, ouvi alguém me chamou. Virei imediatamente, e vi um vulto parcialmente iluminado. Conseguia ver apenas uma parte de seu rosto. Pelo que vi , era uma menina, de estatura media, com cabelos brancos como a neve, a pele muito pálida e olhos assustadoramente azuis. Se não fosse pela sua beleza angelical e seu rosto aparentemente infantil, eu já teria corrido há muito tempo. O vulto abriu um largo sorriso e disse?
"Eu sabia que você iria. Você nunca falha."
Eu pensei que fosse apenas minha imaginação, segui meu rumo novamente. Cheguei em casa, abri a porta e fui para cozinha. Enquanto jantava, pensei no que aquela menina me disse. Não fazia o menor sentido tudo aquilo. Fiquei bastante tempo pensando, fiquei quase até quase dez horas da noite sentado sozinho na sala de jantar. Coloquei tudo na pia, deixe a louça suja do piquenique lá também e subi para meu quarto. Deixei a mochila em um canto e me dirigi ao pedestal que ficava de em frente da janela. Nele haviam fotos e objeto de três pessoas que infelizmente já haviam morrido.
Ascendi um incenso e toquei a sineta como pedia a tradição, era o procedimento para oração aos mortos. A minha primeira oração era para a mulher da foto da direita. Aquela era minha mãe Sakura Sayumi que morreu quando eu tinha apenas dois anos. Pouco depois de eu nascer ela descobriu que tinha câncer no pulmão, e nos 2 anos posteriores a situação piorou, até que um dia ela dormiu e não acordou mais.
Repeti o processo de ascender o incenso e tocar a sineta. Dessa vez a oração era para o homem da foto à esquerda. Meu pai, Amano Takoshi. Que morreu há 5 anos. Ele era um chefe de cozinha e morreu envenenado após tentar preparar um sashimi de baiacu. Ele acidentalmente cravou um dos ferrões em sua mão e morreu segundos depois...
Pela ultima vez repeti o ritual, como havia feito nos últimos 9 anos. Pensei na menina da foto do centro, a mais recente delas. Aquela menina... eu vira ela hoje... mas desta vez uma representação imóvel e sem vida. Aquela era a foto utilizada como molde daquela estátua... O mesmo sorriso... O mesmo vestido branco flutuando ao vento... Os mesmos olhos azuis que não via a 9 anos e esperava nunca mais ver. Tudo aquilo por um erro idiota que tirou a vida daquela pobre garota... Mai Saikou...
E mais uma vez chorei, como havia eito nas noites desses últimos 23 anos... Desde a morte de minha mãe. Mas dessa vez as coisas eram diferentes. Era noite de 31 de dezembro, e por mais que fosse um dia de estas eu passei o ano novo sozinho... Como acontecia desde quando meu pai morreu. Sentia algo diferente... A lua cheia estava iluminando a noite... As estrelas estavam espalhadas pelo manto da noite... Os fogos de artifícios começaram a florescer no céu... E por um instante, pelo reflexo no vidro e pelas sombras causadas pela luminosidade vi que não estava sozinho no quarto... Havia alguém atrás de mim...
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