Sombras Da Noite
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Já tendo amanhecido, Victor e Victoria saíram para caminhar a luz do dia pelos terrenos da mansão. Victor não lembrava muito das coisas do lado de fora da mansão. Da última vez que viu, estava tudo escuro. Logo depois da grande escada, havia um pátio, com uma grande estátua no meio. Era a de um vampiro, parecia um imperador, um rei.
— Quem é ele? — Perguntou Victor.
— Baltazar. — Respondeu Victoria. — Ele fundou esta mansão.
— O que aconteceu com ele? Vampiros não são imortais?
— São sim, até certo ponto. São imortais até o dia em que são mortos.
— Como? Não entendi absolutamente nada.
— Existem maneiras de matar um vampiro, mas se ninguém o matar, eles vivem a eternidade.
— E ele está morto? — Victor apontou para a estátua.
— Não. Está adormecido. Eles podem ficar para sempre adormecidos, protegidos, para serem despertados no momento certo.
Eles foram andando para o bosque que ficava logo atrás da mansão. Eles passaram por um corredor a céu aberto, cercado por gárgulas, que pareciam segui-los com os olhos. Tinha um portão de ferro que marcava os limites do bosque.
— Victoria! —Chamou Victor. — Quando Alice tentou me atacar, e você a mandou parar, ela disse que ia fazer isso por respeito ao seu pai. Quem é seu pai?
— Antes de tudo, me chame de Vicky. — Respondeu ela. — E o meu pai é Vinícius, o irmão mais velho de Lúcio.
— Você é prima da Alice? — Espantou
— Isso mesmo. O meu pai que deveria estar dirigindo a mansão agora, mas como a minha mãe morreu e ele não tinha filhos vampiros, Lúcio reivindicou o direito de governar e meu pai acabou se tornando o seu conselheiro mais fiel. Lúcio manda em todos da mansão desde a morte do meu avô. Um humano o matou.
— E sua mãe, você me disse que ela morreu quando você nasceu. Qual era o nome dela?
— O nome dela era Sophie. — Respondeu. — Agora chega de perguntas. Já falei sobre mim, e agora é a sua vez. De onde você vem?
— Eu morava numa vila no sul do continente. Nem sei como vim parar aqui.
Victor se lembrou de suas coisas que caíram, quando ele apareceu no bosque. Ele e Victoria foram caminhando e conversando até o local em que ele encontrou Alice.
— E seus pais? Qual era o nome deles? — Perguntou Vicky.
— O nome do meu pai era Hugo, e o da minha mãe era Sarah.
— Eles estão vivos?
Depois da pergunta de Vicky, Victor ficou em silêncio. Lembranças vinham em sua mente.
Victor estava dormindo, quando sua mãe o acordou. “Filho!” Ela estava em prantos. Victor acordou. “Aconteça o que acontecer, saiba que eu te amo!” Victor não tinha entendido o que estava acontecendo. “Tudo o que nós estamos fazendo é para te proteger, saiba disso.” Hugo entrou no quarto. “Vamos, não temos muito tempo.” As expressões do rosto do pai não eram agradáveis. “Não estou entendendo! O que está acontecendo?” Ela respondeu: “Não precisa entender, apenas fuja!” Quando Victor se deu conta estava deitado em folhas secas, tinha uma menina gritando. “Olá...? Tem alguém aí...?”
— Eu não sei. — Ele respondeu a pergunta de Vicky.
— O que é aquilo ali? — Vicky perguntou.
— Eu acho que é a minha mochila.
Ela correu e apanhou a bolsa. Um objeto tinha caído dela. Vicky o pegou e examinou atentamente.
— Por que você não me disse que era um mago? — Ela perguntou.
— O quê?! — Exclamou ele. — Eu não sou um mago!
— É claro que é! Veja. — Vicky mostrou a Victor o objeto que caíra no chão. Era uma espécie de amuleto.
— Não, não. Isso aí foi a minha mãe que me deu. Eu definitivamente não sou um mago.
— Como não? — Vicky perguntou. — Eu tive tempo suficiente para ler uma boa parte dos livros da biblioteca. Eu reconheceria um objeto desses a distância. É um objeto passado de pai para filho, que só um mago pode receber. Victor, você é um mago!
Victor não compreendia o que estava acontecendo, e nem o porquê. Nem seu pai nem a sua mãe eram magos, não havia antecedentes magos na família.
— Não pode ser! Não tem como! — Victor vociferou.
— Tem sim. — Respondeu Vicky. — E eu vou te provar. Acho que está na hora de voltar para a mansão.
Eles pegaram as coisas de Victor e voltaram para a mansão. Ao invés de entrarem pela frente, eles entraram pelos fundos. Havia uma sala de teto muito alto e uma escada. Eles subiram a escada e entraram numa das portas. Eles estavam na biblioteca. Victor se espantou com a quantidade de livros da torre. A porta que entraram dava no oitavo andar da biblioteca. Eles continuaram a subir até o décimo terceiro andar. Victória passou as mãos nas estantes, como quem procurava algo específico. O amuleto tinha forma circular, com armações de ouro e ligamentos de prata. No centro, uma pedra verde brilhava.
—Achei. — Exclamou Vicky puxando um livro grosso e empoeirado da estante e abrindo numa certa página. — Aqui está. Aqui diz: Como símbolo de poder, cada família de magos possui uma marca própria. Quando nasce um mago, seus pais fazem um objeto específico e dão aos seus filhos, como um selo de autenticidade da família.
—Me deixa ver! — Victor puxou o livro das mãos de Victoria. — Esses objetos carregam grandes segredos, só revelados ao seu verdadeiro dono, utilizando de sua magia.
Victor já ia fechando o livro quando Victoria o puxou de suas mãos.
— O mago dono do amuleto pode revelar os mistérios do objeto com o feitiço “Ostende mihi Secretum”. — Vicky deu o livro a Victor. — Toma. Tente.
Victor pegou o livro das mãos de Vicky, segurou o amuleto e tentou o feitiço.
— Ostende mihi Secretum!
Por um instante, nada aconteceu. Por um instante. Tempos depois apareceram inscrições na borda superior do amuleto.
“Superiorem membri. Vectra deorsum. Primum genus. Ordinis sibi a Salazar.”
— O que isso quer dizer? — Perguntou Victor.
— Veja! — Mostrou Victoria. — Tem outra inscrição aqui.
Victor observou que havia aparecido outra inscrição na parte de traz do objeto.
— “Occursum Dominum Vestrum; Pandunt Mysteria”. — Victor pronunciou em alta voz.
O amuleto esquentou. O ouro e a prata começaram a se debaterem e se esticarem juntos, e no topo, a pequena pedra verde se tornou em uma grande esfera enroscada na haste de ouro e de prata. O amuleto se transformara num grande cetro.
— Não é possível. — Victor disse desacreditado. — Por que ninguém me falou nada até agora?
— Então você realmente não sabia? — Ela perguntou. — Eu pensei que fosse brincadeira sua.
— Não era. Mas onde tem mais livros que eu possa ver?
— Este é o único livro desta parte da biblioteca. Tem mais no andar secreto, debaixo do piso.
— Então, estamos esperando o que? — Ele perguntou e começou a descer as rampas.
— Espera um pouco! — Vicky gritou. — O andar secreto faz parte da sala do Lorde Lúcio. Ele pode aparecer lá a qualquer momento.
— E qual o problema? Eu já o conheço.
—É, mas você é um mago, e ele não suporta os magos. Ele vai perceber que você está procurando livros de magia e pode mandar te matar. É melhor manter isso em segredo por um tempo.
— Então está feito. Depois eu volto para olhar os livros.
Vicky levou Victor até seu quarto para esconder seu cetro. Depois foram tomar o café da manhã na cozinha da mansão. Quando voltaram ao salão principal, eles encontraram com Alice.
— Já voltaram? — Alice perguntou. — Pensei que queriam ficar sozinhos à luz do dia.
— Não enche garota! — Respondeu Victoria.
— Por que você implica tanto com a sua prima, Alice? — Victor perguntou.
— Você contou a ele? — Alice perguntou para Vicky. — Me desculpe. Mas todos aqui me tratam como se eu fosse fraca e frágil. Mas eu não sou. Eu tenho vontade de ir lá fora, a luz do dia, mas não posso. Ela pode ir quando quiser. Os vampiros deveriam ser mais fortes que os humanos, mas não é o meu caso.
— Eu sempre pensei que você me achava inferior! — Disse Victoria.
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Era um salão enorme, com muitas colunas. No centro, havia círculos no chão. Tochas de fogo verde iluminavam o salão. Ao fundo, um trono, e logo atrás dele, um grande espelho circular refletia toda a sala. Mas na reflexão do espelho, não havia colunas e não havia trono. Somente fogo verde, e, onde estavam os círculos, havia pequenos pedestais de pedra embaixo de esferas, que flutuavam levemente sobre elas.
— Senhor, Imperador Elder, Luz do império dos magos. — Disse um homem que entrava na sala do trono.
—Pois não! — Disse o imperador. — Pode dizer.
— Uma vila foi totalmente destruída. Uma vila de humanos. Cerca de novecentos. Todos mortos.
— E qual o meu interesse neste caso?
— Lobos. Eles foram vistos por perto logo após o ataque.
— Não é possível. — O Imperador mudou totalmente de expressão. — Eles foram extintos.
— Eu não sei como, mas de alguma forma, eles retornaram a ativa.
— Que seja! — Gritou. — Mas agora eu vou me prevenir. Protejam as esferas. Eu quero três dragões na guarda. Diga aos generais que os lobos retornaram. Mande-os recrutarem novos magos para a guerra!
— Sim senhor! Imperador!
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Victor não aguentou esperar e arrastou Vicky até a biblioteca.
— Vamos. Abra a passagem.
Victoria procurou e apertou um tijolo da parede. Uma escada em espiral se revelou no centro do primeiro piso da biblioteca.
— Tome muito cuidado. Lúcio pode nos ver. — Alertou Victoria enquanto desciam.
Eles folhearam muitos livros. Um ruído saiu da porta que dava para os aposentos de Lúcio.
— Rápido! Se esconda! — Victoria gritou.
— Mas não tem onde se esconder!
— Tem sim! Olhe aqui. — Ela mostrou a ele uma página de um dos livros. — Feitiço de invisibilidade.
Victor tomou o livro e segurou nas mãos de Victoria.
— Per Latebras. Invisibis Fit. Nos Faciat Invisibilium.
Os dois se tornaram invisíveis e encostaram-se a um canto da sala. Lúcio entrou acompanhado do seu irmão Vinícius.
— É o meu pai! — Disse Victoria.
Victor ficou só escutando a conversa.
— Eu não acredito! — Disse Lúcio. — Estava tudo tão planejado. Eles mataram todos da vila, mas o herdeiro não estava lá.
— Eu ainda acho que isso não foi sábio da sua parte, irmão. — Vinícius falou.
— Você é sempre certinho. E você sabe que mais cedo ou mais tarde esta guerra vai estourar, e eu não quero estar do lado do perdedor.
— Mas como? Você não entende! Você viu o que aconteceu da última vez. Como seu conselheiro...
— Não preciso dos seus conselhos. — Interrompeu.
— Como seu irmão, eu te digo que isso tem que acabar.
— Você não entende. — Resmungou Lúcio. — Ela morreu. Agora nada mais faz sentido.
— Você a matou!
— Todos merecem morrer!
— Eu também a amava. — Disse Vinícius. — E você tinha um caso com ela. Mas quando você descobriu que ela estava grávida...
— Seu miserável!
— Quando soube que Sophie estava grávida de mim, você só esperou ela dar a luz e a matou.
— Como ousa trazer isso a tona logo agora?! —Se irritou Lúcio.
Victoria se espantou quando ouviu o nome da sua mãe. Ela não sabia que Lúcio havia tido um caso com a mãe dela.
—Quando as irmãs nasceram você escolheu a vampira, e ia sacrificar a humana, assim como fez com a mãe.
— Insolente! Tolo! Ridículo!
— Admita Lúcio! Admita que você pretendia matar a Victoria só porque era humana e ia ficar com a Alice, porque era vampira. Admita.
— Sim! Eu mataria a humanazinha sim! Mas você não deixou.
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