Sombras.

1 Não é o escuro, é a penumbra.


Notas iniciais
Mal humor + Computador = Conto de (tentativa de) terror psicológico. É uma fórmula clássica da matemática!

Ela está logo ali, bem no canto do quarto.

É sério que ninguém mais a viu?

Ela está na janela, do lado de fora, me espiando.

Sempre me espiando.

A penumbra não ajuda muito...

"Tudo bem, é só uma sombra"

É só uma sombra na minha janela.

É só uma sombra se projetando no chão do meu quarto.

É só uma sombra não identificada.

É só uma maldita sombra com seus malditos dedinhos de sombra acenando para mim.

Então eu me levantei e abri a janela.

Quando essa sombra vai me deixar em paz?

No fim, era só a sombra de uma árvore que fica perto da minha janela.

Seus galhos sem folhas fizeram os dedos que acenaram para mim.

... Ao menos, é isso que a lógica diz.

É a resposta óbvia.

É a resposta observável.

É a resposta que minha mãe daria.

É a resposta que todo mundo daria.

Mas, cá entre nós, eu não acredito.

A sombra claramente acenou para mim, me testando, me provocando.

"Ah, eram só os galhos balançando", você vai dizer. E eu vou sorrir e dizer que você tem razão.

Mas nós dois sabemos que não tinha vento.

*

Mais um belo jantar em família.

Adoro a comida, mas por que a luz da cozinha tem que ser tão forte?

Ela faz tudo ficar com uma sombra alongada projetada no chão e nas paredes.

Não que incomode mais alguém...

Qual a outra opção? Comer no escuro? Até parece...

A comida estava deliciosa e todos conversavam animadamente.

Não tenho certeza do assunto... Minha família fala tanto e gesticula tanto que é fácil se perder.

Acho engraçado quando eles gesticulam porque suas sombras alongadas fazem uma imitação bem esquisita do movimento.

A única coisa que eu não gosto é da cadeira vazia na ponta da mesa.

Não devíamos ter aquela cadeira... Pra que um lugar a mais do que precisamos? Até parece que alguém aqui espera receber visitas...

E, se esperar, a visita que pegue o próprio assento em algum lugar.

A cadeira extra também faz uma sombra alongada no chão e nas paredes.

É uma sombra particularmente desagradável.

Eu podia jurar que vi alguém sentado nela na sombra, um intruso.

Então o intruso-sombra acenou para mim.

Eu tive um leve surto à mesa e preocupei minha família...

"O que foi? O que foi?"

Era a sombra.

Sempre é a sombra.

Então eles me explicaram, com paciência, que era só o casaco pendurado no encosto da cadeira.

Aquele casaco sempre esteve ali?

Eu sorri e pedi desculpas pelo vexame.

O jantar continuou normalmente.

E, sinceramente, eu posso aceitar o casaco. Vai ver não notei esse detalhe...

Mas, se ninguém o estava vestindo, a manga não se moveu. E, se a manga não se moveu, a sombra não pode ter acenado para mim.

*

Não consigo dormir.

Eu odeio quando não consigo dormir porque fico inquieto na cama.

E eu odeio ficar inquieto na cama porque me dá vontade de levantar e dar uma volta pela casa.

Andar pela casa à noite até que não é ruim. É quieto, calmo e, óbvio, escuro. O maior risco é tropeçar por não enxergar direito, bater o dedinho do pé contra alguma coisa, xingar em voz alta e acordar alguém.

Ao menos, o maior risco racional...

Cá entre nós, eu tenho mais medo do risco de encontrar as janelas de vidro.

Ou as frestas das portas.

Ou a luz do microondas na cozinha.

Porque todos eles quebram a escuridão, a massacram, a expulsam, a subjugam.

Não devíamos ter medo do escuro... O escuro é legal, ele esconde todas as coisas.

Devíamos ter medo da penumbra. Da semi escuridão. Da luz artificial. Da luz do sol. Da claridade.

Por quê? Porque são eles que trazem as sombras.

O escuro? Ele nunca fez mal a ninguém.

Uma vez, enquanto eu andava pela sala de madrugada, sem conseguir dormir, um carro passou com os faróis altos e a luz passou rapidamente pela janela. Um mero flash.

Nesse mísero segundo, eu vi a sombra.

Ela estava perto de mim. Perto demais. Seus dedinhos de sombra tocando levemente meus ombros.

E, assim que o carro se foi, ela desapareceu.

Devem ter sido os galhos de outra árvore...

Ou talvez um roupão esquecido. Ou um casaco. Ou uma toalha.

Tantas coisas podem fazer sombra...

*

Apesar de gostar de dar uma volta nas noites de insônia, eu evito entrar num quarto que não seja meu.

Mesmo quando parece que há alguém me chamando. É tudo uma ilusão.

A sombra está sempre lá, sempre em algum canto, sempre acenando, sempre com suas intençõezinhas malignas de sombra.

Uma vez, isso me enganou para entrar no quarto da minha mãe.

A janela estava fechada, a cortina na frente escurecia o quarto, mas não o bastante. A luz do ar condicionado era forte demais.

A sombra estava lá.

Sentada na beira da cama, bem ao lado da minha mãe.

Minha mãe dormia enquanto os dedinhos de sombra passeavam por seus cabelos, brincavam contornando seus lábios e, por fim, paravam em seu pescoço, envolvendo-o com linhas escuras e embaçadas. Não eram mais dedos, pareciam mais vários e vários fios de teia de aranha.

E então os pequenos fios de sombra se uniram em um único. Uma corda.

Eu saí do quarto.

*

Hoje passeamos muito, minha família e eu.

Fomos ao parque de manhã e ao shopping à tarde.

Gosto do parque, é um bom lugar pra correr. De manhã, o sol está fraco e à leste, então as sombras são acinzentadas e alongadas, deformadas. Já ao meio dia, ficam escuras e rentes ao chão, bem abaixo de seus donos.

O shopping também é um ótimo lugar, mas tem muitas luzes artificiais. Tantas luzes em tantas posições... Todo mundo fica com umas três ou quatro sombras, talvez até mais. Elas ficam em posições diferentes, com tons claros onde tocam o chão limpo e liso e escuros onde se fundem umas às outras. É uma miscelânea de sombras, quase um Frankenstein.

Ninguém parece se importar.

Acho que algumas sombras acenam para mim, mas deve ser impressão. Talvez algumas pessoas só agitem demais os braços ao andar...

Não importa, nenhuma delas é aquela sombra.

Aquela sombra estava lá, se quer saber. Ela e todas as outras sombras dela que se fundiam e separavam, se confundiam em alguns pontos, em outros eram tão claros. Era um espetáculo grotesco, uma dança siamesa.

Os vários dedinhos de sombras saíam daquela fusão desagradável para tentar me tocar. Me remexi inquieto várias vezes e tive que pedir desculpas.

Uma hora, eles conseguiram e, dos meus ombros, deslizaram pelo meu braço.

Aqueles dedinhos vagos e abstratos mais pareciam a sombra de pequenos insetos tentando entrar na minha pele.

Mesmo assim, eu não cocei meu braço e terminei meu hambúrguer sem reclamações. A praça de alimentação não é nada ruim.

As sombras deviam estar se divertindo muito.

*

Não sei se gosto de aniversários.

Aniversários significam velas.

Velas significam sombras trêmulas e bruxuleantes.

Sombras tortas e inquitas.

Eu tenho a distinta impressão que aquela sombra me aplaudiu...

Ou será o movimento da chama da vela me enganando?

"Parabéns a você..."

*

Estou parado no meio do meu quarto encarando a parede.

Pela primeira vez em muito tempo, a sombra não está lá.

E não é por falta de oportunidade... Não está tão escuro, há luz o bastante para haver sombra.

Ela também não está lá fora. Não está sentada à mesa. Não está no canto da sala. Não está do lado de fora da janela. Não está projetando teias de aranha nas pessoas. Nem cordas nebulosas em seus pescoços.

Não... Ela está bem atrás de mim.

E, dessa vez, apenas ela. Sem gêmeas siamesas numa miscelânea difusa, apenas ela, a primeira e única.

E ela escorrega seus dedinhos de sombra dos meus ombros para os meus braços, e dos meus braços para as minhas mãos, e das minhas mãos para os meus próprios dedos.

Dessa vez, não é como teias de aranha ou como insetos. É como uma sombra, pura e simplesmente.

E eu fecho minha mão, e os dedos da sombra se fecham sobre os meus.

E eu abro minha mão, e os dedos da sombra também se abrem. Sempre me tocando.

E eu aceno levemente, mas a mão-sombra não desgruda.

E eu penso na árvore e no casaco e na cortina e no roupão e na lâmpada e nas luzes e nas velas... E nada disso importa. A sombra nunca foi de nenhum deles.

Não sei porque eu estava tão preocupado.

No fim, é só a minha sombra.

Notas finais
Moral da história: não tenha medo da sua própria sombra! (a não ser que você deva ter...) E é isso aí, espero que tenha curtido! Só sei que me deixou melhor. Bye!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!