Sombras
1 Capítulo Um
Todos dizem que a vida é feita de escolhas. O sim ou o não, este ou aquele, ele ou ela, a certeza ou a consequência da dúvida. Porém não dizem se será difícil ou se será fácil, e o fato de não saber e ficar no escuro é uma das piores sensações pela qual passo.
Sentada no chão com Oliver, jogávamos xadrez enquanto observamos os garotos do Quarto Nível treinando – sem camisa. Apesar da bela “paisagem”, era a minha vez de mover uma peça e eu enrolava por não saber em qual delas mexeria. Eu estou, real e verdadeiramente, passando pela sensação de escuridão.
— Alean, por Lynen! Você está a quase dez minutos pensando, assim vou achar que finalmente estarei derrotando-a. – direcionei meu olhar para minha amiga e a fulminei antes de jogar todas as peças para fora do tabuleiro.
— Rá rá! Agora nenhuma de nós duas ganhou ou perdeu. Cansei desse jogo.
Incrédula, Oliver guardou as peças na pequena maletinha que estava ao seu lado desde o inicio da partida. Ao levantar-se, seus cachos loiro-avermelhados pularam para trás de seus ombros. De estatura baixa e olhos esverdeados, a mesma recebia o codinome Bonequinha, por se parecer tanto com uma.
Seus passos foram fortes contra o chão enquanto se dirigia em direção contrária a minha, transparecendo a sua fúria por meu ato um tanto infantil, admito. Olhei dela para os rapazes, repetidas vezes antes de correr o mais rápido possível que o vestido permitia.
— Perdão, Oliver! Eu... Eu não pensei na sua reação quando fiz aquilo. – tento me redimir quando ela para finalmente e me lança um olhar furioso, me fazendo encolher por dentro.
— Claro, como não imaginei? Só pensa em você mesma, não é? – voltou a andar e a segui, de soslaio vi suas feições suavizarem com o passar dos minutos e desacelerar os passos. Repentinamente, ela me abraçou e começou a chorar. – Desculpa, amiga. É que ainda estou frágil com o término do meu namoro com o Breenon.
— Eu sei que está sendo difícil e sei também... AI! – reclamei ao sentir o frio se espalhar por meu braço a partir do ombro, nem precisei olhar para saber que Oliver acabara de congelar metade do meu membro superior direito.
— Oh, meu Lynen! Espera, vou desfazer isso. – ele me solta e concentra-se no local petrificado por seu gelo. Fecho os olhos com força esperando pelo pior, mas a ruiva consegue e deixa apenas um pouco de umidade no tecido da manga do vestido, porém não sei se era devido à descongelização ou suas lágrimas.
— Você conseguiu! Agora vamos, está na hora da refeição do Segundo Sol. – puxo seu braço e a carrego para o salão de alimentação quando ouço o som de aviso.
No nosso universo, somos presenteados por quatro sois. O Primeiro Sol marca a primeira alimentação que faremos no dia, em seu auge ilumina intensamente o campo de colheita fazendo que todas as sementes plantadas floresçam, apresentando alimentos para as próximas horas. O Segundo, Terceiro e Quarto Sol é o mesmo processo, porém o ponto do auge entre eles mudam assim como a comida.
O meu preferido é indiscutivelmente a refeição do Terceiro Sol. Massas com queijo, com molho e doces de todos os tipos conquistam-me a cada dia com sua variação.
Como já era de se esperar, todo o refeitório estava cheio com os alunos e as mesas preenchidas com eles e as comidas que pegaram. Solto Oliver, e vamos até a grande bancada pegar nossos pratos e talheres. O local era espaço e as janelas iam do chão ao teto, nos privilegiando com a paisagem das gigantescas montanhas cobertas de neve de Goldstown e a interminável floresta de Whittyn.
Sirvo-me de alguns grãos e folhas, acompanhado de um grande pedaço de carne e um copo cheio de líquido preto que chegou a nosso estoque na semana passada e é simplesmente maravilhoso. Espero pela ruiva e finalmente caminhamos até a nossa mesa. Esperando-nos, estava Tolga com uma montanha em forma de comida em seu prato, que eu já começava a estranhar antes de me sentar na cadeira a sua frente.
— Onde vocês estavam? Demoraram séculos! – disse levando uma colherada à boca.
Tolga é um rapaz de dezesseis anos, como a maioria dos ali presentes, era alto e igualmente aos garotos de sua idade tinha um bom físico, porém é mais dedicado do que os outros pelo motivo de sua alimentação nem um pouco balanceada. Seus cabelos são curtos e cacheados com um tom castanho achocolatado, e olhos amarelos como girassóis. Era bem bonito, tinha que admitir, suas bochechas são altas e os lábios pouco carnudos. Acho que me interessaria por ele se não fosse meu melhor amigo, além de meu subconsciente avisar: “Você não pode gostar dele de uma forma diferente apenas porque ficou bonito”
— Você sabe que é o único que é capaz de se teletransportar por aqui. – Oliver retrucou antes que eu abrisse a boca para proferir algo. Tolga apenas deu de ombros.
— E então, Tolga? Quais as novidades que estão correndo pelos corredores? – pergunto após bebericar o liquido negro, ainda sem denominação.
— Pois é, garotas. Preparem seus corações!... Se tiver algum. – brincou antes de prosseguir, mostrando seus dentes em um sorriso sarcástico e continuando quando reviramos os olhos. – O.K., O.K., esse ano teremos novos irmãos e irmãs.
— Você está de brincadeira! É disso que eu preciso para me esquecer do Breenon e desencalhar a Al. – joguei um legume em seu rosto, que com um reflexo surpreendente o pegou com os dentes e mastigou.
O sorriso de Tolga vacilou por um momento e vi seus olhos perderem um pouco o brilho com o comentário de Oliver. Decidi não dar importância e continuar minha refeição. De relance, avistei uma “perua” cor-de-rosa se aproximar e fingindo uma horrível cena em que tropeça e a comida de seu prato voa diretamente para minha amiga.
Não podia esperar um começo de ano melhor.
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