Sombra e Neve
2 Capítulo 2
Era manhã, o som dos passos ecoava pelos corredores do castelo, pesados e calculados. Branca já sentia o frio das pedras sob seus pés descalços quando ouviu seu nome ser chamado com uma calma cruel.
Mallory esperava por ela no salão principal, vestida com um manto escuro que ampliava sua presença autoritária. Ao ver a jovem se aproximar, a Rainha ergueu o queixo e analisou-a com desprezo.
— Vejo que finalmente começou a entender seu lugar — disse Mallory, sua voz revestida de falsa doçura. — Não mais a filha mimada de um rei fraco… apenas mais uma serva.
Branca respirou fundo, seus dedos ainda manchados pela fuligem das lareiras que acendera naquela manhã.
— Meu pai não era fraco. — Retrucou entre dentes, sua voz firme apesar do medo que pulsava em seu peito.
Mallory soltou uma risada baixa, aproximando-se até que suas palavras fossem sussurradas como veneno.
— Seu pai não viu o que eu via. O tempo dele acabou, e agora, você não é nada além de uma garota insignificante que deve aprender a obedecer.
Branca sentiu a fúria queimar dentro de si, mas manteve a cabeça erguida. Ela não permitiria que Mallory quebrasse completamente seu espírito.
A Rainha inclinou-se levemente, analisando a expressão da jovem.
— Se pensa que alguém irá ajudá-la, está enganada. Todos já sabem o que acontece com aqueles que me desafiam.
A ameaça pairou no ar como um golpe invisível, e pela primeira vez, Branca entendeu que sua luta teria que ser travada em silêncio esperando o momento certo para se libertar.
Os criados, temerosos da Rainha, evitavam falar com Branca de neve. Apenas lançavam olhares de pena quando a viam, sabendo que, àquela jovem deveria ter sido sua rainha um dia, não uma escrava sob o domínio de Mallory.
Mas a Rainha não fazia isso apenas para puni-la. Mallory observava cada detalhe da garota, invejando sua beleza a cada dia que passava e ansiava para o dia que tomaria aquela beleza para si.
Branca crescia como uma flor em meio ao inverno, sua pele brilhava mais do que qualquer joia, seus olhos carregavam uma profundidade hipnotizante em um castanho que ficava mais dourado a luz das lareiras, e sua postura, mesmo na servidão, não demonstrava fraqueza.
Mallory tentava quebrá-la.
— Você não passa de uma garota sem valor, ninguém nem mesmo se lembra de seu nome. — Dizia, enquanto ajustava sua coroa diante do espelho ao mesmo que a jovem esfregava o chão. — Se não fosse por mim, não teria nada.
Mas dentro de Branca de neve, uma chama ardia. Mesmo enquanto esfregava o chão do castelo, mesmo enquanto Mallory falava sobre sua futura “utilidade”, mesmo quando olhava para a barreira de gelo que prendia seu destino, ela sabia que encontraria uma saída. Mallory não podia apagar sua alma.
O tempo passava lento da percepção da Rainha Má Faltava mais um ano para seu aniversário de 16 anos, porém Mallory já preparava o feitiço.
O tempo escoava lentamente no castelo congelado, mas Mallory, envolta em suas ambições sombrias, não via os dias passarem tudo o que importava era a aproximação do aniversário de 16 anos de Branca. Cada instante era calculado, cada preparativo meticulosamente ajustado para o ritual que lhe daria a vida eterna.
Na torre mais alta, cercada por velas tremulantes e pergaminhos antigos, Mallory encarava seu espelho mágico. Seus olhos cintilavam com algo mais profundo do que simples vaidade havia desejo, inveja, um plano em andamento.
Ela deslizou os dedos pela moldura do espelho, sentindo a pulsação da magia que há anos mantinha aquele artefato sob seu domínio. Um sorriso curvou seus lábios pálidos enquanto finalmente sussurrava a pergunta que tanto ecoava dentro dela:
— Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?
Por um instante, o reflexo se distorceu, a superfície brilhando como água agitada por uma força invisível. Então, a voz profunda e imponente respondeu:
— És bela, minha Rainha…
Mallory inclinou-se para frente, seu sorriso se ampliando.
— Mas há uma que supera tua beleza. Há uma cuja juventude brilha mais intensamente… Darcelle, conhecida como Branca de neve.
A expressão de Mallory se fechou imediatamente. Seus dedos se crisparam contra a moldura dourada, e a chama das velas piscou como se sentisse sua ira crescente.
— Isso não durará...- Murmurou ela. – Branca é apenas um reflexo passageiro. Quando o ritual for concluído, sua luz será minha, sua beleza será minha… e eu governarei para sempre.
Virou-se bruscamente, sua capa negra esvoaçando pelo aposento. Em sua mente, tudo já estava decidido. Branca era uma peça no jogo. E logo, não passaria de um corpo sem alma—um sacrifício para sua imortalidade.
Quando finalmente o aniversário de dezesseis anos Branca de neve chegou, ansiosa Mallory caminhava pelos corredores do castelo com passos decididos, sua capa negra deslizando pelo chão gelado. Havia chegado a hora Branca estava tornando-se bela demais, cada dia mais resplandecente, sua juventude irradiando uma luz que Mallory jamais poderia recuperar. Ela precisava agir.
Em uma noite sem lua, Mallory convocou um caçador ao castelo. Mas não qualquer caçador — ela escolheu o mais impiedoso, um homem conhecido por sua crueldade, cujas mãos já carregavam o sangue de muitos. Cassius, um guerreiro de olhos frios, cicatrizes marcando seu rosto e um histórico de caçadas implacáveis. Ele entrou na grande sala da Rainha sem hesitação, seu olhar fixo em Mallory.
— Chamou-me, Majestade? — Sua voz soou áspera, cheia de indiferença.
Mallory virou-se lentamente, seu rosto iluminado pela luz bruxuleante das velas. Ela sorriu, mas não havia alegria, apenas intenção sombria.
— Ouvi que você é o melhor em sua área... – Disse ela. — Tenho um trabalho para você, Cassius. — Disse, sua voz sedosa como o gelo que cobria o reino. — Uma caça especial. Quero que leve Branca de neve à floresta e... Dê um jeito na garota, entende?
O caçador permaneceu em silêncio, estudando a Rainha. Ele não perguntava por que, não questionava. Apenas executava.
— Qualquer método? — Murmurou ele.
Mallory inclinou-se sobre seu trono, seus olhos brilhando com perversidade controlada.
— Faça como quiser… apenas certifique-se de trazer seu coração intacto e que ela nunca mais retorne.
Branca, que caminhava sozinha pelo castelo naquela noite, saindo escondida da ala servil do castelo, estava passando pelo corredor que levava a uma das salas que pouco eram usadas e não tinham guardas quando ouviu a voz de Mallory e de um estranho.
Rapidamente ficou escondida entre a porta atras do caçador que tinha ficado entre aberta e ouviu toda a conversa, ficando chocada. Branca suspeitava de sua madrasta fazia um tempo, sentia os olhares penetrantes da Rainha.
Nos últimos dias tinham ficado mais intensos do que nunca, sua presença mais sufocante, suas palavras carregadas com um peso invisível como uma sombra sombria sobre suas intenções. Porém ela não esperava ouvir aquilo, escondida nas sombras do corredor, seu sangue congelou ao perceber que sua vida estava prestes a ser tomada.
Ela não podia esperar. Não podia hesitar.
Mallory iria matá-la.
A jovem precisava fugir… antes que o amanhecer trouxesse sua execução
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