Depois de vinte minutos dirigindo Denzel saiu da estrada principal e entrou numa estrada de terra, tendo que diminuir a velocidade por conta dos buracos. Dez minutos depois ele estacionou o carro às margens da estrada e saltou do carro, dando a volta para ajudar Emily a descer.

—Estamos quase chegando.- disse ele segurando a mão dela e dando uma olhada rápida no céu para ver o tempo. –Curiosa para saber onde estamos indo?

—Curiosa pra saber se ainda estamos no mesmo país.- ela respondeu sorrindo, fazendo graça com a demora.

—Estamos.- ele garantiu. –Mas duvido que você já tenha vindo aqui antes.

—Levando em conta que não moro aqui há muito tempo...- ela segurou firmemente na mão dele enquanto ele a guiava pelo caminho.

—Exatamente por isso.

Eles entraram numa trilha e andaram por ela por cerca de cinco minutos. Depois subiram uma escadaria e desceram por outra. Ela já estava quase protestando quando começou a ouvir o som de água corrente.

—Estamos perto.

—Estou ouvindo.- ela sorriu, percebendo o som ficar cada vez mais alto a medida em que se aproximavam do lugar.

Não demorou mais que dois minutos e Emily percebeu ter saído da trilha. Sentindo o ar fresco da natureza tocando sua pele, ouvindo a variedade incontável de insetos fazendo barulho e a imponência das águas da cachoeira, ela abriu o sorriso.

—Que lugar lindo!- exclamou.

Denzel sorriu e a ajudou a se sentar em uma das pedras. Ele tirou o tênis e permitiu que seus pés tocassem a água gelada.

—Como foi que você descobriu isso aqui?- ela perguntou, inclinando-se para frente até tocar a mão na água.

E de repente ele se viu surpreso com a pergunta. Lembrava-se perfeitamente das circunstancias que o levaram até ali.

—Um amigo me trouxe aqui uma vez...- respondeu, não dando tanta importância. –Se estiver com frio, eu empresto meu casaco.

Ela sorri e agradeceu.

Denzel tirou o celular do bolso para se certificar das horas e quando o guardou e olhou para ela novamente, viu que ela estava com os olhos fechados, sorrindo enquanto prestava atenção aos sons. Ele ficou olhando para ela por um tempo, analisando cada detalhe do rosto dela e depois olhou em volta também, fechando os olhos por um momento.

Fez um esforço para identificar cada som do ambiente e prestar atenção em cada um por vez. Era engraçado como os ouvidos conseguiam, além de captar todos os sons, ouvir também cada som mais isolado.

—Tá’ com os olhos fechados?- ela de repente perguntou, diante do silêncio dele.

Ele abriu os olhos e olhou para ela, que continuava de olhos fechados.

—Estava- ele respondeu, erguendo os olhos para cima e notando o céu azul por entre as árvores.

—E o que achou?

Ele sorriu.

—Eu é que te perguntou. O que achou?

Ela abriu os olhos, embora não visse nada, e se virou para ele.

—E lindo! Olha esse som!- ela riu.-Claro que olhar o som é só uma expressão...

Ele riu também e fez um carinho na bochecha dela depois de ajeitar os cabelos dela, quando a brisa os jogou para frente. E foi pego de surpresa assim que ela se aproximou e o abraçou.

Quando se separaram, ele pegou a mochila que tinha levado e deixado logo atrás deles e dali tirou alguns sanduíches.

—Você que fez?- ela perguntou, com tom de incredulidade.

—Claro que não, comprei na loja de produtos naturais. Sei que sou consideravelmente bom na cozinha, mas hoje estava com preguiça.- ele riu e ela deu um tapa de leve no braço dele.

Depois de comerem e conversarem mais um pouco, Denzel anunciou que já era hora de irem embora. Por mais que ela já sentisse a brisa ficar cada vez mais fria, não queria ir embora, mas não teve alternativa.

Denzel a ajudou a se levantar, colocou a mochila nas costas e seguiram o caminho de volta pela trilha.

Estavam já se aproximando da esquina da casa de Emily quando Denzel quebrou o silêncio momentâneo. Já estava escurecendo.

—Gostou do passeio?

—Adorei! Quero ir lá mais vezes, se puder.

Ele olhou para ela e sorriu, dizendo que poderiam ir quando ela quisesse.

Assim que ele estacionou o carro na frente do portão, ele desceu do carro e deu a volta para ajuda-la. E até chegarem à varanda da casa ela foi fazendo perguntas sobre o lugar, pois, se fosse possível, queria tomar banho na lagoa que se formava após a cachoeira.

Ambos se sentaram nas escadas na varanda e continuaram conversando. Ela continuava segurando o braço dele, conversando alegremente enquanto olhava para frente. E enquanto ela falava ele não conseguiu deixar de pensar como era viver no mundo dela, sem luz e sem cor. No fim, devido ao silêncio da parte dele, ela o obrigou a falar o que estava pensando.

Ela sorriu ao ouvir o questionamento dele.

—Meu mundo é feito de sons e muita música.- ela sorriu.

Era a primeira vez que ele fazia uma pergunta daquelas, embora em outros momentos ela já tivesse explicado como tudo aconteceu.

—Não sei se seria feliz se não pudesse ouvir e tocar minhas músicas. Acho que eu não sobreviveria.- ela riu.

Os mais de cinco anos vividos na escuridão fizeram Emily se adaptar à nova realidade de não poder mais enxergar. Claro que, a princípio, ter sido diagnosticada com Retinose Pigmentar quando criança e ter sua visão roubada aos poucos foi assustador. Lembrava-se perfeitamente da última vez que viu, com dificuldade, o rosto dos seus pais antes de dormir, para então acordar no dia seguinte e descobrir que tinha perdido a visão para sempre. Mas ao contrário do que seus pais e ela mesma pensaram, ela teve forças para lidar com aquilo e enfrentar a nova realidade com coragem, não se deixando abater. A música tinha sido seu consolo e porto seguro.

—O som é uma coisa incrível!- ela exclamou, e dava para perceber a paixão na voz dela. -Não tem nada mais lindo do que conseguir ouvir o som de alguma coisa. Tudo nesse mundo faz algum som. Eu acho isso incrível.- ela abriu o sorriso e os braços.

E ele riu da empolgação dela ao falar aquilo.

—E qual som é o mais incrível para você? Cachoeira? Parecia que você nunca tinha ouvido o som de uma cachoeira na vida.

Eles riram, porque em parte aquilo era um fato. Tinha sido a primeira vez que ela tinha ouvido aquele som pessoalmente.

—Na verdade, isso é uma coisa que eu andei pensando muito ultimamente. Não sei porque, na verdade. Mas, comecei a prestar atenção nisso pra escolher um som preferido.

—E achou?- ele perguntou, curioso.

—Achei sim. O som de um coração batendo.

Denzel surpreendeu-se com a resposta, pois tinha imaginado de tudo, menos aquilo.

—É tão lindo e tão significativo... Nunca parasse pra prestar atenção?

—Não...- ele respondeu, pensativo.

Não se lembrava se já tinha abraçado alguém e escutado o som das batidas do coração.

—Você deveria tentar. Acho que não existe nada tão exuberante do que esse som. É incrível. E hoje eu ouvi o som do seu coração! Há!- ela riu. –Sério. Posso soar um tanto romântica demais, mas é realmente bonito. Especialmente o som do seu coração.

—Por que?

—Estava acelerado.- ela riu.

Ele olhou para ela, que parecia estar olhando para um ponto distante à frente, e sorriu sem graça.

—Um dia eu tento...

—Você vai gostar.

Ele acenou, concordando. Mas por enquanto seu som preferido ainda era o som da risada dela.

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