Soluço, o líder de Berk: A guerra pela paz
24 Parte 1: O último treinamento
Notas iniciais
Quando acordei no outro dia, vi que estava deitado dentro das asas do Banguela (e ele havia colocado suas patas em volta de mim, como um abraço). Na verdade estava bem quentinho, ali, dentro das asas do Banguela. Então ele acordou junto comigo e tirou suas asas de volta de mim.
–Bom dia amigo. Como é que eu vim parar aqui? – eu perguntei acariciando-a.
Ele deu um longo bocejo. Então me lembrei de que havia adormecido no dia anterior enquanto observava o Banguela dormir.
–Obrigado por se importar comigo amigo. Com esse frio eu teria congelado – e realmente ficava mais frio a cada hora, tanto que tive que colocar uma roupa mais quente por baixo da armadura. Banguela, ao ver-me dormindo, devia ter decidido que eu iria morrer de frio e então, envolveu-me em suas asas para aquecer-me à noite. – Vamos amigo – eu falei, vestindo a armadura. – Teremos um longo dia hoje. Treinaremos todos juntos.
Por que o treino? Por que a pressa? Porque naquela noite, novamente eu sonhei com meu pai.
Enquanto andava pela névoa, meu pai apareceu novamente para mi em sonhos. Mantive o meu semblante e nenhuma lágrima foi derramada dessa vez. Ele aproximou-se, tão grande e tão magnífico como sempre foi. Stoico, o Imenso, como sempre era. O meu pai.
–Filho, você fez a maioria das coisas da maneira correta. A maioria das coisas que deveria fazer. Mas agora deve estar pronto. Deve preparar-se. O seu teste final está próximo. O seu teste poderá ser hoje. Ou poderá ser amanhã.
–Então eu preciso fazer algo e...
–Você sabe o que deve fazer.
E com isso ele sumiu e a névoa engrossou.
Eu desci para tomar um pouco de café e encontrei minha mãe já sentada na sala.
–Bom dia – eu disse, pegando o meu café.
–Bom dia filho – ela também estava com uma roupa mais grossa. – Esfriou muito esta noite.
–É eu sei. Hoje vamos treinar todos juntos. Por favor, ao final da tarde, reúna todos na praça. Iremos mostrar uma manobra nova, uma manobra defensiva com todos, inclusive os dragões. Agora eu e pilotos faremos o nosso treinamento.
–Por que fazer isso tudo hoje?
–Porque... Eu sinto que temos que fazer isso hoje. – O sonho realmente me incomodou e preocupou-me. Se o primeiro sonho com o meu pai era verdade, por que esse não seria? Alguma coisa iria acontecer... E isso seria logo.
–Muito bem, eu sei que você deve ter razão.
–Obrigado mãe, por entender. Mas agora eu e o Banguela já vamos. Até mais tarde.
–Até mais tarde, boa sorte.
Eu já havia pegado o livro, aquele que Astrid me dera, pois planejava algo. E então fomos para a Academia. Aquela névoa que vimos no dia anterior ficou mais densa. Chegando à Academia, os pilotos já haviam chegado. O que era um milagre... Com exceção da Astrid, os outros sempre chegavam atrasados (sendo a Astrid nem sempre pontual também).
–Vocês caíram da cama? – perguntei ironicamente.
–Não, só chegamos no horário certo, para variar – Perna de Peixe respondeu.
–Ok. Então vamos começar. Primeiro, treinaremos a nossa manobra de ataque e depois voltaremos para fazer o treinamento que faríamos ontem, de combate direto. Mais tarde, iremos treinar com os vikings a manobra defensiva. Mas isso é para depois. Vamos lá.
Nós fomos para o estábulo. Quando chegamos lá, os dragões já estavam prontos para partir. Depois de nos reunirmos, decolamos e fomos para o nosso local de treinamento. Todos se lembraram do que faziam e tudo deu certo (sem tiros desordenados de Lua Crescente, que já estava bem, por sinal).
Eu espero que na hora dê tudo certo assim, por que do contrário... Eu afastei esse pensamento da cabeça e concentrei-me apenas no treinamento. Era com aquele treinamento iríamos estar prontos.
–Muito bem pessoal – eu chamei. – Está ótimo.
–Eu tenho uma sugestão – a Astrid disse.
–Pois diga senhorita.
–Que tal um exercício de confiança com os dragões? Isso pode ser bom. Mas espero que você e o Banguela não tentem suicidar-se.
–Olha, embora a gente faça exercícios de confiança o tempo inteiro, essa é uma ótima ideia. Vou tentar não fazer extravagâncias – a Astrid riu.
–Então eu começo! – o Melequento disse. Não deu chance de ninguém que quisesse reclamar argumentasse, pois ele se jogou do Dente de Anzol em seguida.
Entretanto, o Melequento foi caindo e ficando cada vez menor. Porém o Dente de Anzol nem se mexeu. Nem percebeu que o seu dono havia se jogado.
–EU NÃO ESTOU SENTINDO CONFIANÇA! – o Melequento gritou.
–Dente de Anzol! – eu chamei-o. – Pega! – eu falei apontando para o Melequento. Ele olhou para baixo e viu seu cavaleiro caindo e apressou-se para pegá-lo. Embora tivesse sido demorada (bastante na verdade), foi uma manobra perfeita.
–Depois eu faço manobras suicidas – eu falei para Astrid enquanto o Melequento voltava e ela riu. – Olha, não foi tão ruim – disse para o Melequento. – Pelo menos ele te pegou antes que você caísse na água. E também não mergulhou na água com você montado nele. Muito bem, quem vai ser o próximo? Gêmeos? Perna de Peixe?
–Digamos que nós não queremos morrer antes da guerra e perder a chance de explodir algo – Cabeça Dura disse.
–Exatamente. Bafo e Arroto não iriam nos pegar, são uns preguiçosos e provavelmente não sobreviveríamos à queda – Cabeça Quente concluiu o raciocínio deles. Pelo menos foi bem pensado.
–Sinceramente, não acho que seria legal eu fazer isso – Perna de Peixe falou. – Os gronckles são muito lentos e eu estaria na água antes dela conseguir pegar-me. Desculpe linda – ele disse para a Batatão, que respondeu com uma lambida carinhosa (diferente das do Banguela).
–Bom... Astrid? – perguntei e vi seu sorriso no rosto.
–Com todo o prazer – ela disse jogando-se da Tempestade.
Ela “voava” de costas para a água, com os olhos fechados e sorrindo. Tive a sensação que ela estava se divertindo. E como eu ela estava sentindo-se livre.
–Agora Tempestade! – ela gritou.
Tempestade então tomou certa altura e desceu em velocidade. A Astrid virou-se de frente para a água e a Tempestade ficou em baixo dela. Ela então montou e voltou para o meu lado.
–Perfeitamente louco – eu disse sorrindo.
–Obrigada. Mas agora é a sua vez.
Todos olhavam para mim. Como eu sou um quase sempre pouco louco (ou sempre muito louco), eles sabiam que eu faria algo meio suicida e eles gostavam de ver isso. Vai entender não é mesmo?
–Ok, vocês que pediram. Não reclamem então – eu virei-me para o Banguela. – Manobra antiga amigo – ele entendeu o que eu queria. Eu iria testar a manobra sem a cauda automática. Então soltei o pé do pedal.
–Espera Soluço, o que você vai... – antes de a Astrid concluir sua frase, eu mergulhei no ar. O Banguela mergulhou junto comigo.
Ficamos ali rodando no ar. Sorri para o Banguela que devolveu um sorriso sem os seus dentes. Isso me dava uma sensação de liberdade. Sentir o vento nos cabelos. É assim que é ser um dragão, Soluço, minha mãe disse-me uma vez. E eu me sentia como um.
Quando já estávamos próximos demais da água, eu montei novamente em Banguela e assumi o controle do voo.
–Muito bem amigão – eu disse para ele. Voltamos para junto dos outros.
–Você é realmente louco – a Astrid disse-me sorrindo.
–É um dos meus charmes – ela revirou os olhos e eu ri. – Ok, vamos voltar para a Academia e treinar o nosso combate direto pessoal.
Chegamos à Academia e os dragões se reuniram em um canto da Arena e nós nos reunimos em outro. Todos estavam com seus escudos e armas em mãos.
–Muito bem pessoal, vamos começar – eu falei. – Os Gêmeos podem começar então. Um contra o outro, no centro. Agora.
Eles se aproximaram um do outro e foram para o centro da Arena. Eles começaram a se bater e eu não sabia dizer se aquilo estava progredindo ou não. De repente, Cabeça Quente se separou e pegou sua espada mais firmemente. Ela começou a atacar e o Cabeça Dura tentou esquivar-se dos golpes com sua clava (carinhosamente chamada de clavinha por ele), mas não obteve sucesso. Ele caiu no chão e a Cabeça Quente colocou sua espada em seu pescoço. Ela sorriu com a derrota do irmão e levantou-se olhando para a gente.
Todos ficamos de boca aberta. Primeiro: como? Segundo: como? Terceiro: como?
–Bom... – eu comecei a dizer. – Isso foi... Como você fez isso? – perguntei-a.
–Ah, o Melequento me ajudou a treinar – ela disse.
Nós nos viramos mecanicamente para o Melequento, que sorria de satisfação.
–Muito bom... – eu disse. Isso era estranho. – Parabéns Cabeça Quente – foi o que eu consegui dizer. – Agora Melequento e Perna de Peixe. Para o centro da Arena.
Antigamente, Perna de Peixe tremeria todo só na ideia de enfrentar o Melequento. Mas ele mudou. Ele confrontava quem viesse (bom, na maioria das vezes).
A luta começou equilibrada. Às vezes Perna de Peixe abria a guarda e o Melequento avançava e às vezes o Melequento abria a guarda e Perna de Peixe avançava.
Mas então o Melequento abriu a guarda demais e o Perna de Peixe avançou ferozmente. Em poucos segundos o Melequento estava com uma espada em seu pescoço, derrotado.
–Muito bem Perna de peixe – eu elogiei.
–É benzinho, você passou todas suas habilidades para mim e ficou sem nenhuma – Cabeça Quente falou consolando o Melequento.
Eu olhei para Astrid e ela olhou para mim. E os nossos pensamentos foram os mesmos: Benzinho? Isso era sério? Nós rimos e só nos entendemos por quê. Isso era estranho também.
–Ok – eu falei recompondo-me. – Eu e a Astrid agora.
Nós fomos para o centro da Arena. A Astrid olhou-me desafiadoramente.
–Foi um prazer conhece-lo Strondus.
–Também foi um prazer conhece-la Hofferson.
Avançamos um contra o outro. E lutamos. Eu lutei muito bem. Eu avancei muito bem e então sorri. Ela encarou o desafio. Afinal, minhas habilidades como canhoto estavam melhorando.
A espada contra o machado. Strondus contra Hofferson. Astrid contra Soluço. Mas sempre juntos.
Eu abria um pouco a guarda sem perceber e eu quase caí. Concentrei-me mais. Eu percebi que seu lado esquerdo (o meu lado direito) estava indefeso, como sempre. Ela sempre se concentrava em defender do lado que eu atacava. Então o outro lado ficava com a guarda aberta.
–Tchauzinho milady – eu disse. Dei um giro e um empurrão no seu lado esquerdo. Ela desiquilibrou-se, mas eu a segurei por trás e coloquei a espada no seu pescoço, chutando seu machado para longe.
–Acho que eu ganhei – sussurrei no seu ouvido.
Ela soltou-se e olhou para mim.
–Você está bem? – eu perguntei para ela.
–Estou sim. E estou orgulhosa de você. Está lutando muito bem.
Eu dei um abraço nela.
–Muito bem, menos melação e mais trabalho – o Melequento implicou. Eu revirei os olhos. Separamo-nos.
–Ok. Agora o Eret. Você quer lutar com quem? Pode ser comigo se quiser.
–Ah não, eu não quero perder para você. Você é canhoto e são os melhores em luta – eu curvei a cabeça em agradecimento. – Posso lutar com você perna de Peixe?
–Claro Eret – ele respondeu.
Então eles foram para o centro da Arena e começaram a lutar. Eles lutaram normalmente. O primeiro a cair foi Eret. Porém ele se levantou rapidamente e derrubou o Perna de Peixe.
–Uau Eret, parabéns – eu falei. Eles levantaram-se. Foi uma técnica incrível, Eret. Bom pessoal podem ir para casa descansar e almoçar. Estejam na praça ao entardecer.
A Astrid ficou.
–E você, milady, ficará comigo. Vamos ler o primeiro capítulo do nosso livro juntos antes de almoçar também juntos?
–Adorei o “juntos”. Será um prazer imenso senhor Strondus.
Nós rimos e entramos na minha sala a procura da nossa história.
Fale com o autor