Soluço, o líder de Berk: A guerra pela paz
18 Como Relaxar com o seu Dragão
Notas iniciais
Então isso é ser um líder? Encorajar, alegrar, confiar? Sentir-se feliz com a felicidade do meu povo? Fazer o melhor possível por eles? Então eu sou um líder.
Quando terminei o meu discurso e a reunião, fui até a mesa dos pilotos para esclarecer as dúvidas do meu plano maluco o suficiente para chegar ao ponto de ser um pouco... suicida? O plano que se resumia a simplesmente ir até onde os que queriam me matar provavelmente estavam. Viu, não era tão maluco assim...
Fui caminhando sabendo que o Perna de Peixe iria dizer como isso tudo era suicida. Em certa parte eu concordava.
–Ah, olá pessoal – eu falei sentando-me ao lado da Astrid. – Amanhã bem cedo estejam na Academia. Temos que fazer uma visitinha investigativa a certa Ilha.
–Sabe Soluço, eu e minha irmã estávamos pensando – Cabeça Dura começou.
–Lá vem... Eu avisei a eles que não eram para que eles pensassem muito – a Astrid falou para mim.
–Nós sempre pensamos em coisas úteis Astrid – Cabeça Dura continuou e a Astrid revirou os olhos. – Então Soluço, você devia ter acrescentado uma coisa ao seu discurso.
–Exatamente. Por exemplo – Cabeça Quente falou e pigarreou. Então tentou imitar o meu jeito de falar o que ficou, sinceramente, horrível. – Nós temos os nossos dragões. E nós temos o dragão Alpha que vai explodir todos eles em pedacinhos – ela falou com os olhos brilhando.
–E aí não vai sobrar nada! – Cabeça Dura terminou e os dois chocaram seus elmos, como sempre faziam quando falavam algo que julgavam ser inteligente. E como sempre não era algo inteligente de se dizer.
–Obrigado pelo conselho. Foi bem... Bem... Bem encorajador – eu disse e dei um longo suspiro. – O que eu fiz para merecer certas coisas? – perguntei quase num sussurro balançando a cabeça negativamente.
–Ah, Soluço, você quer mesmo encontrar com os Incontroláveis? Eu não acho que isso seja uma das coisas mais sensatas a fazer – como eu disse, Perna de Peixe achava os meus planos suicidas e insensatos. Mas quando é que eu fui sensato na minha vida? Eu treinei um Fúria da Noite e chamei-o de Banguela. Isso não é um nível de sensatez confiável.
–Será mais fácil se pudermos saber onde eles estão e se pudermos de algum modo atrasá-los... Mas não vamos fazer nada apenas observar. Não vamos correr e abraçar a morte amanhã, Perna de Peixe – eu falei o mais calmamente possível.
–Só não gostei da parte que eles podem ser imbatíveis...
–E não serão se estivermos aqui. Agora por favor, pessoal tomem muito cuidado amanhã. É apenas uma missão de reconhecimento. Eu não quero que ninguém se machuque – eu virei-me pra a Astrid. – Ninguém – eu repeti firmemente e lembrei-a das palavras de Eric.
–Não se preocupe, somos os melhores treinadores de dragões do mundo. Já enfrentamos muitas coisas juntos e saímos todos bem. Na medida do possível – ela apontou para minha perna e eu ri sarcasticamente do seu sarcasmo (é uma coisa estranha de se dizer, eu também achei...).
–Muito bem então, até amanhã pessoal! – eu me levantei da mesa e dei um beijo na bochecha da Astrid. Fui procurar o Banguela, queria relaxar com um bom voo, sinceramente aquelas semanas foram extremamente cansativas. Então eu lembrei-me que ele estava com a Astrid. Quando ia voltar senti uma mão em meu ombro. Eu virei-me já sabendo quem era na realidade.
–Oi senhorita. Onde está o Banguela, já iria voltar para te perguntar.
–Ah, ele está com a sua mãe. Ela disse que ele precisava se alimentar e ele foi feliz da vida com ela.
–Minha mãe o mima demais eu já falei com ela – ela riu.
–Eu vim falar sobre o livro – ela colocou-o na minha mão. Era um livro de capa vermelha escarlate muito bonita, diferente da maioria dos livros em Berk que possuem uma capa marrom. — É um presente para você. É apenas uma história baseada em fatos reais – o livro não tinha título ou coisa alguma, como se ela não quisesse que eu descobrisse nada antes de lê-lo.
–Não tem título, que misteriosa...
–Na verdade não consegui formular um título à altura. Mas o livro será nossa história. Tem alguns espaços em brancos no livro. Eu quero que você os complete com o que você sentiu em cada ocasião. Acho que você irá entender o que quero dizer. Você poderia fazer isso para mim?
–É claro que sim. É realmente sobre nós?
–Mais do que você imagina. Vai ser algo feito por nós dois.
–Eu adoraria fazer parte disso, obrigado — ela ficou na ponta dos pés, apenas de brincadeira, e me deu um selinho.
–Espero que goste. Mas agora, vá voar.
–Mas como você...? – a Astrid descobre as coisas de forma rápida, apenas observa. Eu continuo meio lerdo às vezes.
–Eu conheço o seu olhas sonhador Strondus.
–Eu também aprendi a interpretar todos os seus olhares. O que eu mais gosto é mais uma palavra e serão as últimas que irá pronunciar. – ela me deu um “soquinho” (que doeu um pouquinho) e eu ri.
–Vai logo Soluço – ela disse sorrindo. Eu me despedi e fui à procura do Banguela. Encontrei-o próximo aos peixes como eu imaginava. Minha mãe estava ao lado dele. Fui até eles.
–Olá filho – ela me abraçou. – Ótimo discurso.
–Ah, obrigado – eu me separei dela. – Se me permite... – eu falei apontando para Banguela.
Ela apenas sorriu e eu entendi como um assentimento.
–Que tal um treino amigo? – até o Banguela sabia que o termo “treinar” não cabia para o que iríamos fazer. Iriamos apenas ficar “zanzando por aí”. Banguela correu até a porta e virou-se para trás me chamando. – Eu acho que isso é um sim...
**************
O vento nos cabelos, a sensação de liberdade. A luz da noite refletida no meu olhar. Essas eram algumas das sensações que eu sentia ao voar.
Nós decolamos da frente do Grande Salão e logo estávamos planando com uma vista privilegiada da nossa ilha à noite. Aquilo tudo me trouxe lembranças. Muitas lembranças. As lembranças daqueles anos que trouxe tantas coisas para minha vida. Lembranças dos anos que havia vivido com o Banguela. Com ele havia mudado minha vida.
Eu apenas fechei os olhos e deixei as lembranças passarem diante dos meus olhos. Tentarei lembrar de todas...
“Banguela? Eu podia jurar que você tinha... dentes!”
“Vamos lá amigão. Vamos devagar e com calma.”
“Fica comigo amigão, a gente está indo bem, aguenta só mais um pouquinho.”
“Dragão feio, muito feio, nunca mais fique tanto tempo longe de mim assim...”.
“Você podem manda-lo para o fim do mundo, mas não vão impedir que esses raios caiam em Berk.”
“Você me salva e eu te salvo.”
“Faz o que você sabe amigo.”
“Banguela! Você sabe que isso não sai!”
“Não se preocupe amigo, eu não vou deixar nada acontecer com você.”
“Banguela? Sou eu amigo. Eu estou bem aqui amigão. Volta pra mim... Não foi culpa sua amigão. Eles forçaram você a fazer isso. Você nunca machucaria ele... Você nunca me machucaria. Por favor, você é o meu melhor amigo, amigão! Meu melhor amigo...”.
“Eu não paro de me surpreender com você amigão.”
Sinto que falta alguma, mas agora não consigo me lembrar. As minhas lembranças daquele tempo às vezes fogem de minha mente...
Eu abri os meus olhos e sorri abrindo os braços. As luzes da Aurora Boreal, muito comuns em Berk devido ao clima polar e frio do Arquipélago Barbárico, brilhavam ao meu redor.
Ativei a cauda automática do Banguela.
–Para onde você quiser amigo.
Ele soltou um grunhido de animação e aumentou a velocidade. Fechei os olhos e ouvi o ruído balístico de um Fúria da Noite. Do meu Fúria da Noite.
Em pouco tempo ele pousou e eu abri os olhos, reconhecendo o lugar. E novas lembranças vieram. Acho que foi um dia cheio de lembranças aquele. Acho que tudo aquilo que me deu forças. Forças para encarar o que vinha. O que veio.
Era a clareira onde eu havia treinado o Banguela. Onde havíamos nos conhecido. Onde nós ganhamos confiança um do outro. Onde começamos a mudar os nossos destinos.
Dei um giro olhando toda a clareira. Risos, testes, peixes, brincadeiras, tombos, beijos... Aquela era a nossa clareira...
Eu sentei-me em frente ao lago, no meio da clareira. Banguela fez o mesmo. Eu olhei para o nosso reflexo na água e vi que ele acompanhou o meu olhar.
–“Eu não paro de me surpreender com você amigão”.
Eu falei e ajoelhei-me, encostando a minha cabeça na dele. Nós fechamos os olhos.
–Você é incrível Banguela. Meu melhor amigo.
Ele sorriu e me deu uma leve lambida. Não tão leve assim, mas não como as outras. Era uma... uma lambida carinhosa...
Eu ri e levantei-me.
–Temos que ir amigo. Teremos um longo dia amanhã. Nós vamos até os Incontroláveis – eu montei e decolamos de volta à Berk.
Um Fúria da Noite e um Encantador de Dragões cruzaram a Aurora Boreal naquela noite. E nos sonhos deles quando adormeceram, não havia guerras, não havia lutas. Não havia os Incontroláveis ou drago ou qualquer outro inimigo. Havia apenas a alegria de terem um ao outro. E que ninguém subestimasse o poder e a força de uma amizade...
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