Soluço, o líder de Berk: A guerra pela paz
28 Troca de Ofensas
Notas iniciais
Esperei pouco. Em questão de minutos (poucos minutos, mas precisamente), a enorme armada dos Incontroláveis chegou ao nosso porto. Eu montei em Banguela e fiquei na frente de todos, com a coluna ereta e o ar que todo líder deve aparentar: tranquilidade, força, bravura, raiva. Acho que principalmente raiva...
Eu avistei Drago e Labor no barco mais a frente dos outros. Eles não demoraram a descer do seu barco e posicionar-se a poucos metros de mim.
Drago ficou mais ainda perto de mim. Usava a sua maligna capa negra a prova de fogo. Havia recuperado (ou feito outro) braço de metal (ok, ele provavelmente refez, pois foi destruído em sua derrota para mim e para o Banguela...). E vinha com seu sorriso extremamente cínico e irritante nos lábios. Dava nojo só de olhar.
E atrás dele vinha Labor, completamente diferente do seu “líder”. Parecia mais um capacho ambulante para o Drago pisar (está certo, exagerei e acabei com o Labor, mas era o que parecia). Claro que estava armado como um verdadeiro guerreiro. Mas ele estava com a cabeça baixa, os ombros caídos, como se não quisesse estar ali de verdade. Como se não quisesse guerras. Como se estivesse obrigado a estar ali.
E atrás da nossa dupla de recepção estava um batalhão de guerreiros Incontroláveis armados até os dentes. Realmente não era uma visão encorajadora que você quer ver logo pela manhã...
Drago aproximou-se ainda mais e eu fiquei no meu lugar, mantendo a mesma postura e a feição séria. Pelo menos era o que queria passar para ele, um olhar de força e superioridade mental (porque cá entre nós, o Drago não era aquela pessoa que costumava pensar com frequência, então era provável que eu devia ter certa superioridade mental, não acha?). E também foi assim que minha mãe disse que eu estava e eu não vou discordar dela, não é verdade?
Ele veio até mim e fez uma reverência em minha direção.
–Saudações, ó Grande Treinador de Dragões – ele levantou-se. – Como tem passado? –parte de sua tropa riu com desdém com a referência de Drago a mim (Grande Treinador de Dragões. Irônico Drago, irônico).
–Muito bem e feliz se quer saber. O que você tentou fazer contra nós e contra os nossos dragões não surtiu efeito algum em nós, apenas nos fortaleceu ainda mais — fiz sinal para que os pilotos levantassem voo e reunissem os outros dragões e assumissem as posições frente aos seus grupos. Sim, foi um sinal muito bem elaborado, passei muito tempo pensando nele...
–Ora, ora. Com uma resposta na ponta da língua... – ele voltou a falar. – Quantas horas você ficou ensaiando isso na frente do espelho para não cair aos choros, soluçando em meus pés? – o seu exército riu.
Eu senti Banguela se remexer e grunhir com raiva. Eu dei umas batidinhas de leve para ele se acalmar. Ele apenas olhou para mim com os olhos dilatados. Ele não suporta que falem algo desse tipo para mim. Muito menos o Drago. Ele sempre sente que aquilo também é com ele. Eu sorri para ele e quis dizer que algo desse tipo vindo de alguém desprezível como o Drago não iria abalar-me. Não mais.
–E o que você espera Drago? Que eu faça isso agora? Muita coisa mudou. Você realmente não me conhece... – o exército calou-se por completo. – E não sabe do que sou capaz. Mas espera! Na verdade sabe sim. Já que eu e o Banguela fizemos um ótimo trabalho te derrotando em nosso último encontro.
–Como está corajoso esse rapaz... Mas então, gostou da surpresinha que eu deixei para você na sua Academiazinha? E do sequestro da sua noivinha? – rapaz, ô cara para gostar de diminutivos... Ele então olhou para Astrid montada em Tempestade quase acima de mim. Vi que a Astrid lhe lançou um olhar desafiador que interpretei como Eu ainda te mato espere para ver e apertou o seu machado. Eu controlei o riso e virei-me para Drago novamente.
–Eu particularmente adorei derrotar o Labor na luta de espadas. Acho que você está indo pelo lugar errado para me provocar – e se havia anda algum barulho sendo produzido naquela hora desapareceu completamente naquele momento.
–Mas então Soluço – um lampejo de raiva passou pelos olhos dele. – Como está lidando com a morte do seu pai? – pronto eu só estava esperando que ele citasse isso. Na verdade estava demorando. – Eu imagino como você não queria estar aí agora. Preferiria estar com os seus amiguinhos pilotos atirando em nosso exército e com seu pai aí no seu lugar agora. Quantas vezes você não se arrependeu por ter treinado esse dragãozinho? – Banguela grunhia com mais raiva e eu tentava fortemente controlar a raiva que estava sentindo e também acalmar o Banguela. Isso era meio complicado. – Quantas vezes não se arrependeu de ter treinado e cuidado desse Fúria da Noite e ele ter te agradecido matando o seu pai?
Ok, ele havia ido longe demais. Comigo e de mim ele podia falar tudo, mas do Banguela não. Mas mesmo assim, eu respirei fundo e mandei para fora o que eu sentia verdadeiramente por ele.
–Eu só sinto pena de você – eu falei. Aí sim se podia ouvir uma agulha caindo no chão do outro lado do Oceano interno, lá na Ilha do Sul (lar dos Cabeças Ocas. Ô tribozinho louca aquela...). – Eu só sinto pena por você ter tanto rancor no seu coração. Por não ter tido a oportunidade de conviver com seu pai. Por seu pai não te ter transmitido amor, nem ter te ensinado o que é certo e justo. Sinto muito por isso Drago. Mas eu tive essa oportunidade incrível. Eu não me sinto desamparado. Eu tenho toda Berk comigo. Diferente de você que só tem intimidados contigo. Pessoas com medo, que só te seguem por medo de morrer. Eu realmente sinto pena de você Drago Sangue Bravo.
–Oh, não sinta pena de mim Soluço... Eu pelo menos não tenho um traidor do meu lado. E você tem um traidor ao seu lado. Aquele que te tirou a oportunidade de conviver mais com...
–Não! O meu traidor está falando comigo agora! – respondi o interrompendo.
–CHEGA! – Labor gritou alto e forte, calando a todos. Ele se ajoelhou e colocou as mãos nos ouvidos, parecendo um pouco perturbado. Eu olhei para ele com os olhos arregalados de surpresa. Será que finalmente Labor havia caído em si e descoberto a verdade?
–O que você está fazendo Labor? – Drago perguntou com raiva. – Do que você está falando? Não atrapalhe o meu momento de...
–NÃO! Não ouse usar contra ela a morte de seu pai! Você não sabe o que é isso? Não sabe o que é sofrer com isso? Você também não sofre com essa dor? – me deu ainda mais pena do Labor. Ele era apenas um menino (ok, ele tinha 20 anos). Mas ainda era um menino que passou tão pouco tempo com o pai. A perda foi algo irreparável para ele. Tão forte que ele não percebeu o que era ser manipulado. Até então...
–Qual é o seu problema? – Drago gritou para Labor. Ele por sua vez, levantou-se do chão com os olhos cheios de fúria (embora estivesse chorando).
–Você! Você é o meu problema! Você disse-me que os meus inimigos eram eles. Que eles é que mataram meu pai! Mataram meu pai de desgosto! Mas não foi assim... Você usou a morte do meu pai, a minha dor sobre mim, como está usando sobre ele agora – ele apontou para mim, mas continuava olhando com fúria para o Drago. – A diferença é que você conseguiu manipular-me com isso. Eu sei que o meu pai não era flor eu se cheirasse. Agora eu sei que nós não éramos vítimas. Há uma semana, passei a observar, escutar e saber de tudo. Então descobri que o Soluço era a vítima. Ele e toda a Berk foram vítimas. Ele foi sempre, ou pelo menos tentou ser justo com os seus inimigos. Ele poderia ter destruído a todos nós com o Banguela. Ter acabado com a nossa armada mesmo não sabendo da guerra. Mas ele não fez isso. Ele apenas buscou a Astrid e foi embora naquele dia. Como um viking, lutou comigo com as espadas e ainda por cima poupou a minha vida. Você não faria o mesmo com ele e com ninguém. E eu sei que eu não sou seu aliado. Você me descartará quando tiver a oportunidade. Você é a maldade.
–Cale a boca e volte para o seu lugar! – Drago disse tentando empurrar Labor. Mas ele se mostrou firme.
–Você não vai me manipular mais! Nunca mais. Eu não irei te obedecer.
Drago sacou sua espada e foi em direção de Labor, avançando. Labor na mesma hora sacou a sua espada também.
–Você não sabe do que sou capaz Labor... – Drago falou e Labor foi andando para trás.
–Pelo contrário Drago. Agora eu sei. E por isso que eu e os Beserkers não fazemos mais parte dessa Tribo – ele tirou o símbolo dos Incontroláveis de si, mostrando o símbolo do Skrill.
E na mesma hora um bolo de guerreiros (que para mim não fez nem cosquinha no número de guerreiros do Drago) também com o símbolo do Skrill no uniforme saiu da nossa frente de batalha e ficaram ao lado de Labor. Drago mostrava tanta raiva em seu olhar que talvez só se olhasse para alguém, poderia destruí-lo em mil pedaços. Mesmo assim ele recuou e decidiu não tentar um combate direto contra os Beserkers.
Eu fiquei sinceramente orgulhoso do Labor. Ele havia escutado a voz da razão. E quando eu o ouvi pedindo-me desculpas, senti-me ainda mais orgulhoso como um irmão mais velho, sendo que tínhamos a mesma idade...
–Eu peço perdão pelo que fiz contra você – ele continuava dizendo. Eu voltei a mim e apenas respondi o que achei que deveria. Tudo havia acontecendo tão rápido...
–Não tenho o que perdoar Labor. Sei que você caiu em si agora.
Você percebeu que estávamos no meio de uma guerra? Que estávamos na frente de batalha perdoando um ao outro? Isso pode ser realmente emocionante. Porém Drago nos olhava com raiva e impaciência. Ele não demorou a explodir de vez. O mundo não é perfeito... E muito menos a guerra era perfeita. Nunca é.
–CHEGA! – a voz de Drago ecoou em toda Berk. E aí você também percebe que a palavra “Chega” já foi muito utilizada só naquela primeira hora de guerra. – VOCÊ ACHA MESMO QUE EU VOU IMPLORAR PARA QUE VOCÊ FIQUE? – ele falou virando-se para Labor. – POIS VÁ! EU JÁ ESTAVA CANSADO DE SUA PRESENÇA INSIGNIFICANTE EM MEU EXÉRCITO. VOCÊ É FRACO COMO O SEU PAI, QUE NÃO CONSEGUIU NEM DERROTAR UM GAROTO DE 15 ANOS!
–Eu me juntarei aos Berkianos nessa batalha – Labor falou apenas isso. Eu confesso que fiquei surpreso, mas agradecido. Afinal, uma ajudinha não faz mal não é verdade? Especialmente se você está no meio de uma guerra e essa ajuda vem dos Beserkers, um grupo que luta muito bem (embora às vezes sejam meio lentos para pensar).
–Muito obrigado Labor – eu voltei a encarar Drago enquanto Labor e os outros Beserkers iam em direção aos nossos guerreiros. – E então Drago? Vamos ficar nessa troca de ofensas ou vamos fazer algo? Eu aceito sua rendição. E se eu fosse você me renderia – falei seriamente. Ele deu uma daquelas risadas extremamente esganiçadas e maquiavélicas. Por que é que todo vilão tem que ter essa risada ridícula? Eu revirei os olhos.
–NUNCA! INCONTROLÁVEIS EM POSIÇÃO!
Os Beserkers se posicionaram em nosso exército basicamente seguindo o indicado pelos Berkianos que explicaram brevemente o nosso plano.
Eu fiz sinal para que os pilotos descessem e formassem a linha de defesa. Eu já tinha um plano esquematizado na minha mente (é, mais ou menos). Vi os nossos guerreiros se organizarem. Eu faria Drago pensar que iriamos nos defender. Mas não faria isso exatamente...
–INCONTROLÁVEIS ATAQUEM! – Drago berrou para que todo mundo ouvisse.
–SE PREPAREM! – eu gritei.
Houve um grito de ataque dos guerreiros inimigos. Eu coloquei meu capacete, completando a minha armadura e levantei a minha mão. Esperei o momento certo para o sinal. E esse momento veio.
Eu e o Banguela decolamos e disparamos contra o exército. Era o sinal de ataque e não de defesa. Os Berkianos entenderam o que eu quis fazer e vi o sorriso em seus lábios. Começaram a agir imediatamente.
E com esse sinal a guerra começou de fato.
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