Solstício de Verão
1 A melhor época do ano
Notas iniciais
Na comuna de Dovre, condado de Oppland, um jovem acordava assustado após um sonho estranho. Era um sonho com... o que era mesmo? Ele não conseguia lembrar.
Nascido em Oslo, o jovem Reidar morava agora nessa pequena cidade na área rural da Noruega. Seu pai, Egil Larsen, escritor de uma relativamente famosa série de livros infantis estrelada por um boneco de madeira, havia decidido investir na criação de coelhos de seu pai, após o velho senhor sofrer uma infarto e falecer, três anos antes.
Nora Larsen, mãe de Reidar e excelente médica, não teve dificuldades em achar uma vaga em um hospital próximo à nova moradia. Trine, a filha mais velha, no entanto, continuou morando na capital, já que cursava psicologia na Universidade de Oslo.
Agora, com o sol começando a surgir no horizonte, Reidar se preparava para começar o dia. Prestes a completar vinte e dois anos, ainda tinha muitas dúvidas sobre qual carreira seguir. Nesse ponto era bem diferente de sua irmã. E no atual momento, sua inclinação era seguir a profissão de seu avô.
Sua avó já havia levantado e preparava o café da manhã da família. Nora também já estava de pé e ajudava a sogra.
— Papai foi dormir tarde ontem de novo, não foi? – Reidar perguntou.
— Ele disse que teve uma onda de inspiração e que não podia deixá-la escapar – Nora meneou a cabeça, com uma expressão de quem já estava mais do que acostumada.
— Será que ele finalmente vai conseguir terminar o quinto livro?
— Bom, a editora já está cobrando há alguns meses – Nora deu de ombros.
— No final ele sempre consegue entregar, mesmo que seja no limite da última data – Cecilie, a avó, comentou com tranquilidade.
— É verdade – Nora sorriu.
— Está precisando cortar essa franja, Rei – a avó falou pelo que deveria ser a centésima vez. Ou pelo menos era assim que parecia para ele.
— Deixa de ser implicante, vó – ele fez um muxoxo.
— Não sei como consegue enxergar desse jeito. Para dizer a verdade, não sei porque essa cabeleira toda.
— Vó, a senhora está por fora das novidades. As estrelas do rock usam todas o cabelo assim.
— Ora, mas você não sabe dedilhar uma nota no violão – Nora alfinetou e riu quando o filho revirou os olhos.
Meia hora mais tarde, a médica saía para trabalhar enquanto Reidar se dirigia à “Toca”, a pequena construção onde os coelhos passavam a noite. Ele abasteceu os comedouros e bebedouros dos animais, que se alimentaram avidamente e então os soltou no cercadinho. Seu avô sempre os criara assim e tanto ele, quanto o pai, não tinham coragem de mudar.
Ele olhou com mais atenção para Grifo, seu coelho premiado da raça Tan. Iria inscrevê-lo novamente do concurso esse ano, na categoria de melhor da raça. Com uma prancheta na mão, começou a fazer anotações sobre a criação, a quantidade de ração que precisaria comprar... Seu pai deixara com ele praticamente tudo relacionado aos animais. E Reinar o compreendia, ele era infinitamente melhor escritor do que criador. O que era uma bela ironia, já que, diferente do filho, Egil havia nascido ali e se mudado para Olso quando decidira cursar a faculdade de Letras.
A visão da floresta atrás da propriedade o fez sentir um estranho arrepio. Ele nunca sentira medo dela antes e no entanto, agora parecia haver algo sombrio pairando ali.
— Reidar! Reidar acorda! – uma mão era sacudida vigorosamente em frente a seu rosto. – Você estava olhando para a floresta, parecia estar em transe.
Reidar olhou para o rapaz que o chamava. Lars era filho do dono da propriedade ao lado e desde a infância, quando Reidar ia visitar o avô, ambos os garotos criaram uma bela amizade, que agora tornara-se mais forte com a proximidade.
— Não, eu só estava distraído.
Reidar colocou a prancheta sob os tocos do cercado. Desamarrou os longos cabelos cor-de-trigo e voltou a prendê-los em um gesto distraído.
— Pensei que tinha visto alguma coisa, Rei.
Reidar olhou para o amigo. Ambos eram bem parecidos, os mesmos olhos azuis, os mesmos cabelos muito claros, com a diferença de que o outro os usava bem curtos. E enquanto ele próprio era alto e esguio, Lars, apesar de não ser muito mais baixo, era bem mais forte. Apesar disso, o nariz comprido e os lábios finos eram tão semelhantes que desconhecidos comumente os tomavam por irmãos.
— Já está preparando o Grifo? – Lars apontou para o coelho de pelagem marrom e ferrugem.
— Tenho certeza que ele vai levar o primeiro lugar outra vez, o bicho nasceu perfeito demais, vovô ficaria orgulhoso.
— Tenho certeza que sim. O senhor Larsen era apaixonado por essa raça.
— E como está aquela abóbora de quinhentos quilos que você disse que ia tirar esse ano? – Reidar perguntou.
— Quatrocentos e oitenta. E você precisa ver, estou cuidando dela como se fosse uma filha – Lars riu. – Tenho certeza que vou levar esse prêmio. Minha irmã está empolgada com a festa esse ano. A sua vem, dessa vez?
— Não sei ainda, ela sempre decide as coisas em cima da hora.
Todo ano, na região, era feito uma celebração na época da colheita, com diversos concursos para os produtores da região e uma grande festa à noite. O solstício de verão era um costume muito antigo que, apesar das mudanças, não havia desparecido. Uma grande fogueira seria acesa do centro da comuna ao anoitecer e todos celebrariam o início da época de colher os frutos do trabalho árduo do campo. Era uma das épocas mais felizes do ano. E uma de suas preferidas.
Fale com o autor