Solitude

1 Solidão


A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho

Tillich

Aprenda a amar a solitude, porque é um perigo alguém que não gosta de ficar só

Andrei Tarkovsky

Olhou ao redor mais uma vez, desconfortável.

Seus dedos apertaram o copo levemente, o fazendo abaixar o rosto, sentindo-se renegado. Olhou para os cachos volumosos de Katherine, conversando com suas amigas, e teve a absoluta certeza de que ele arrependera-se de convidá-lo para sua festa. Me sinto a garota que James achou feia após trocar cartas com ela e a abandonou no meio do encontro, pensou Remus, tomando um gole de sua bebida, desejando ficar bêbado. Ouviu a conversa dos amigos de Katherine, quase invisível como de costume.

Ele queria falar... Mas as palavras sempre ficam melhor em sua mente.

Olhou-a novamente, arrependendo-se de ter ficado tão quieto durante o percurso. Talvez ele tenha olhado demais para a amiga dela, que o fez rir diversas vezes. Então se lembrava da forma quase desesperada em que ela jogava referências sobre coisas que os dois gostavam e sentiu-se pior ainda quando a achou terrível. Não sabia se ainda sentia-se atraído por Katherine. Talvez não... Talvez ele idealizou demais, como sempre... Esperançoso...

— Você sabe que eu amo essa banda! — riu uma garota ruiva, fazendo Remus sorrir levemente. Ele devia dizer que também gosta daquela banda, mas sua mente trabalhou tão lentamente naquela ideia que o grupo já tinha mudado de assunto, seria estranho ele citar algo que passara. Vão notar que ele está pensando demais, talvez...

Paranoias, Remus, paranoias... Olhou Katherine novamente, ela o viu a tempo de lhe dar um sorrisinho, indo em sua direção.

— E aí? — sorriu ela.

— E aí... — sorriu Remus, extremamente desconfortável. Eu sou um inútil, não sei o que dizer... Os olhos de Katherine se desviaram lentamente e ele sabia que estava a decepcionando. Preferiu aceitar aquela realidade e simplesmente tomou todo o conteúdo de seu copo, pronto para seu último passo. Ele tinha picos de auto confiança às vezes. — Vamos a um lugar?

Katherine uniu suas sobrancelhas bem-feitas e Remus pegou sua mão, indo em direção do banheiro com a mesma. Ela entrou, parecendo saber o que aconteceria. Ele repreendeu os pensamentos ruins de seu cérebro e tentou ignorar a voz que lhe gritava: Ela está se preparando para um beijo que ela definitivamente não quer dela, ela se arrependeu de você, pare de se envergonhar!!!

Remus tocou seu rosto antes de pousar seus lábios nos dela. O álcool fez seu efeito, ele não tem muita noção do que está fazendo, faz tempo que não beija alguém... Os dois se separam e Katherine continua impassível.

— É melhor sairmos, tem gente querendo usar o banheiro... — comentou baixinho. Remus ouviu batidinhas na porta. O universo está com tanta pena dela que está a ajudando a livrar-se de mim, pensou Remus. Sorriu levemente e abriu a porta, a deixando ir na frente. Era insuportável viver dentro de sua mente. Arrependeu-se de ter tentando sair de sua bolha. Aquilo já não era auto-sabotagem, como explicava Sirius, ele tentou sair com alguém, ele deixou alguém entrar em sua vida.

E ali estava ele... Diante de mais um fracasso.

Passou a noite debaixo daquela iluminação fraca do local, rindo de uma conversa que não participava, mas sentia-se melhor em notar que ninguém ali estava o forçando a falar, como diariamente conhecia. O desinteresse deitou-se sob Remus enquanto ele acompanhava Katherine e seus amigos na volta para a casa, ele a evita, frustrado e desconfortável, indeciso entre o sentimento do mais puro ódio e uma terrível frustração sexual.

Ele estava aprisionado a aquele sentimento de desinteresse, por mais protetor que aquilo fosse, Remus sentia-se em uma gaiola na qual ele apenas via as pessoas passarem, se apaixonarem entre si, o fazendo ter a certeza de que nunca se apaixonaria. Então algumas pessoas andam mais devagar ao redor da gaiola... O rondando. Ele até se interessa, sorri, esperançoso.

Talvez eu sinta algo dessa vez, talvez seja ela.

Mas nunca era aquela pessoa. Ele nunca conseguia sair da gaiola, e esse alguém nunca conseguia entrar. Olhou Katherine com um sorriso mal estruturado quando chegou a hora de se separarem:

— Você quer ir lá em casa? — indagou ela. Achava idiota a forma como ela parecia se esforçar para chamar sua atenção. Teria ele mais uma vez dado a impressão de ser entediado e arrogante? — Vamos para minha casa...

Ela só está falando por pena, pensou.

— Não... Eu tenho que ir. Tchau. — ela selou seus lábios rapidamente, sequer insistiu. Ele só queria livrar-se daquele momento embaraçoso. Sentiu vontade de conversar com alguém sobre aquilo, tirar suas duvidas, mas Remus não sabe se irá suportar os verdadeiros pensamentos desse alguém que o escutaria. Não aguentaria sentir que estava sendo julgado... Mesmo que quisesse desabafar, ele não conseguia se expressar, seria tempo perdido. Remus sente que ninguém realmente o entenderia caso ele tentasse falar.

Eu estava melhor quieto... Agora irei remoer isso até minha mente se cansar, pensou iniciando sua caminhada para casa, cheio de conflitos. James provavelmente diria que ele devia ter se preocupado se ia gostar dela, não tornar-se obsessivo em perguntar-se se agradaria a ela. Sirius o confortaria, dizendo que todos vão morrer um dia de qualquer forma. E Peter, apenas daria seu olhar de sempre, como se Remus fosse uma fórmula matemática difícil demais para sua compreensão.

Gostaria de poder ensiná-lo sobre si mesmo, mas ele já desistiu de tentar se entender.

Tudo que ele poderá fazer é escrever seus poemas anônimos, seus pequenos contos, colocar tudo o que sente em uma combinação de palavras que talvez façam alguém sentir-se melhor, mas nunca o fará sentir-se bem. Ele continuará com a sensação de incompreensão, pois a história dele e essa pessoa imaginária nunca será completamente igual.

Não há nenhuma outra pessoa que tenha uma vida igual a sua para lhe dizer: Está tudo bem... Você vai ficar bem.

Abriu a porta de sua casa, entrando e fechando-a em seguida. Seus pais estavam dormindo. Olhou ao redor, sentindo uma triste mistura de conforto e decepção. Entrou em seu quarto e trancou a porta, sentando-se na cama. Os únicos momentos em que não se sentia só, era quando estava consigo mesmo. Sua mente irá planejar novas mentiras para que ele não sinta tão fortemente o impacto de seu fracasso, e Remus continuará se enganando, adiando e empurrando com os pés um problema que o consome por completo.

Talvez ele tenha se auto sabotado inconscientemente... Mais uma vez. Riu levemente, indo até sua prateleira de discos. Olhou o escolhido, sentindo-se vazio. Colocou sob a vitrola e aguardou, colocando em sua música preferida.

If you're so funny

Then why are you on your own tonight?

And if you're so clever

Then why are you on your own tonight?

If you're so very entertaining

Then why are you on your own tonight?

If you're so very good-looking

Why do you sleep alone tonight?

I know...

Because tonight is

Just like any other night

That's why you're on your own tonight

Deitou-se e fitou o teto, em silêncio, deixando a música deitar-se sob ele. Agradeceu Morrissey pela compreensão. Sentiu-se dramático: Da mesma forma que ele decepcionou-se com a garota (por ter criado uma imagem totalmente utópica da pobre coitada), talvez ela também tenha se decepcionado. Talvez a decepção foi para ambos. Droga Remus, lide com isso direito!

Sentou-se e pegou seu caderno de desenhos, pronto para terminar seu rabisco. Pensou em como seria contar para seus amigos mais um fracasso romântico. Já sabia os conselhos furados que James daria, os resmungos de Sirius e novamente aquela terrível expressão de Peter, algo como “mas que porra tem de errado com você???”.

Será que ela gostou de mim? Que aquele convite era verdadeiro?, desconfiou Remus, questionando sua mente perigosa. Ele se auto sabotou sem perceber? Fitou o nada, perdido.

— Ela me detestou. — concluiu, certo.

Bem, eu também não gostei dela, pensou, voltando ao seu desenho. Mas queria ter ido até sua casa. Sabe-se lá o que fariam. Talvez fosse bom. Talvez ele fosse sentir-se normal, igual aos garotos. Talvez sentisse o mundo explodir igual a James. Ou pelo menos poderia dar aquele leve sorrisinho de Sirius quando Marlene é citada. Ou, no mínimo, conseguir manter o interesse nela por mais um dia, assim como Peter, apaixonado por anos pela mesma garota.

Sorriu, assistindo o dia amanhecer por sua janela.

Provavelmente eles pensariam o de sempre: Romantizariam a solidão de Remus, concluiriam que ele era descolado demais para importar-se com relacionamentos. Ocupado demais para isso. Ergueu a sobrancelha, parando a música, pegando outro disco. Talvez ele seja tudo isso, ou talvez ele só tenha que resolver seus problemas internos. Ou, essa pessoa está por aí, aguardando o momento certo. Enquanto isso, ele se culparia por coisas que sua mente criou ou distorceu, como de costume... Como de costume...

Colocou uma romântica música de Bob Dylan, To Fall In Love With You, por mais que não tivesse em quem pensar ao ouvi-la. Era uma linda música.

Dedicou a si mesmo.

Notas finais
Um bad boa mesmo é a que te deixa criativo. Então porque não deixar um pouco de mim no personagem mais solitário da série? hahahahahahahaha Obrigada por ter lido. *Musicas citadas: I Know It's Over - The Smiths To Fall In Love With You - Bob Dylan
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!