Solitaire

1 Capítulo único


Notas iniciais
Deixei meu coração nessa One-shot. A ideia surgiu da música, mas tem muito mais de mim aqui do que dela. Espero que se identifique (ou não) e que gostem :D

Solitarie

A Rua

Um dia você acorda e não sabe como, a triste se apodera de você... Uma sensação de cansaço e nenhuma vontade de ser e estar.

Logo de manhã o dia parecia não querer acordar, mas havia tantas pessoas nas ruas insistindo para que ele tomasse uma forma, os carros passavam insistentemente e o dia respondeu a sua maneira, o céu estava cheio de escuridão.

O cheiro de poluição já não era agradável e as pessoas andavam com seus rumos definidos e sem esperanças, com a consciência que o seu dia seria uma repetição do dia anterior.

Segurei a minha bolsa para atravessar a rua e tudo era automático e meus músculos me guiavam sem minha consciência autorizar. Sozinha eu estava, cheia de tudo e de todos e todos estavam perto de mim, mas na verdade não tinha ninguém ali.

Adolescentes mexiam em seus pequenos mundos, guiados pela necessidade de atenção e desprendidos do mundo em sua volta, senhoras andavam vagarosamente irritando os mais apressados, cachorros parados no meio da calçada impediam a passagem, homens em seus ternos fingiam não ver ninguém...

Um grande grupo vinha ao contrário a minha direção e tentando me desviar derrubei a pasta que comigo estava e naquele momento meu olhar se cruzou com a única pessoa que estava na direção dos meus olhos, a única pessoa que estava abaixo de todos os olhares. Jogado na calçada um mendigo implorava por esmola e seu olhar era tão vazio como o meu, ele era tão pobre quanto eu e não era de dinheiro que ele tinha necessidade, mas a tristeza que nele habitava em mim também estava. Logo ajeitei todos os meus pertences e segui para o lugar onde tinha estar.

O lugar

O prédio era grande e logo na frente dele havia uma porta de vidro que deixava a movimentação insana que acontecia no saguão para que qualquer pessoa visse. Automaticamente entrei e alguém me acompanhou até o lugar que chamo de minha sala, um grande aglomerado de coisas ficava por aqui em uma sala pequena com uma mesa ao fundo.

Alguém estava a minha frente, falava algo, mas meus ouvidos não queriam escutar, não queria saber, não me importava.

Fui até aquela mesa e observei o computador que estava desligado, algumas canetas pela mesa e um caderno. Olhei para o caderno e na primeira linha estava escrito:

Tarefas p/ amanhã

E uma lista de coisas estava escrito depois daquela linha. Reconhecia a letra que ali estava, era a minha própria. Teria eu mesmo escrito àquelas coisas? Por que não me lembrava de nenhuma delas...

— Você está bem? — Perguntava alguém

— Não, não estou...

Não pensei muito, tinha decido que ali eu não passaria meu dia. Dei meia volta e segui fazendo o caminho inverso. Um tal alguém correu até minha direção e tentava me parar, mas eu não queria parar, eu realmente não queria estar ali.

O barulho dos carros invadiu novamente, já estava do outro lá da porta de vidro e o céu tinha mudado, agora era de um azul cinza, uma nevoa cobria o horizonte e mais pessoas andavam seguindo seus destinos.

Alguém invade a minha visão... Ela tentava argumentar, de sua boca deviam ter saído algumas frases, eu não sei, não quis escutar. Talvez essa pessoas me conhecesse, talvez eu conhecesse ela ou talvez ela não me conhecesse de jeito nenhum. Mas eu não quero conversar, eu quero o silencio, eu necessito do silencio, estou ansiosa por ele e obcecada também.

Me desviei dela e quando olhei para trás ela estava esbravejando algo que não ouvia. A cada vez ficava mais longe daquele lugar e a rua parecia encher com cada vez mais pessoas e carros que se aglomeravam em um transito parado.

Agora crianças eram levadas para escola, com suas mochilas nas costas e elas pareciam estar alegres, algumas pulavam e conversavam entre elas, eram os coloridos diferentes do cinza de todos os outros seres da cidade.

Andei até o prédio, onde estava meu apartamento, de onde tinha saído logo pela manhã. Algumas pessoas abriam e fechavam o portão de onde eu também havia saído e agora entrava.

O apartamento

Subi vários lances de escada, entrei no meu apartamento e tranquei a porta. Tudo estava do mesmo jeito que eu tinha deixado quando sai, nada havia mudado e isso era reconfortante.

Joguei todas as coisas que trazia na mão no chão, retirei meu casaco e joguei pelo sofá, fui guiada para a minha grande janela de vidro e observei a vida que seguia abaixo nas ruas.

Ainda dava para ouvir as sirenes, o barulho estava abafado, mas ainda se ouvia. Pela janela vejo os prédios e os bares e todas aquelas coisas que me afastei, toda a bagunça, todo barulho, toda sujeira e todas aquelas pessoas, pareciam agora muito distantes. Como se nada daquilo pertencesse a mim, como se antes estivesse vivendo a vida de outra pessoa através dos meu olhos.

Não sei como tinha chegado até aquela vida, não tinha pedido nada daquilo, nunca sonhei com a vida que estava vivendo, não tinha decidido minha vida até aquele momento e aquilo tinha que parar.

Fui tomada por uma raiva repentina, ódio por ter sido tão submissa aos caprichos de outras pessoas, aos desejos de outras pessoas para minha vida. Ódio de todas as pessoas que gritavam deveres para mim por todo esse tempo. Todas elas eram falsificações baratas, cópias uma das outras, destinos traçados pelo acaso, sem querer, sem ser.

Andei até a minha cozinha e abri uma garrafa, encho o copo com a bebida e com apenas um gole ela esquenta o meu corpo. O alivio que comecei a sentir depois de um copo de bebida, foi ótimo. Naquele copo estava tudo que antes não podia ver e que podia agora enxergar.

Estava feliz em estar só, tinha meu coração duro como uma pedra e não me importava a vida que se desenrolasse a minha volta, apenas queria consertar a minha, viver uma nova e completa vida. E agora tinha percebido que conseguiria tais coisas, tinha poder em meu ser e nunca haviam dito isso para mim.

Ouvi batidas na porta, corri até lá, alegre e cheia da felicidade que agora tinha encontrado em mim. Atrás da porta estava ele, seu cabelo preso e sua barba por fazer eram familiares para mim, seus olhos azul gelo trouxeram alivio a minha alma, desprendeu o meu coração de pedra, ele com a mão no bolso me deu seu sorriso e eu devolvi com o meu.

E ali começava minha plena e feliz vida. Tinha certeza disso.

Notas finais
E ai?? O que acharam?? Deixem a opinião de vocês...Mesmo que tenha ponto vista diferente. Se gostaram ou não deixem escrito aqui :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!